Transcrição – #06 LGBTTs: A Dupla Implacável

TRANSCRIÇÃO – HQ DA VIDA #06 LGBTTs: A Dupla Implacável

Vinheta de abertura: entre efeitos sonoros de impacto, uma voz com reverberação anuncia “HQ DA VIDA, o seu podcast sem quadrinhos.”

(Trilha sonora de Background alusiva a histórias em quadrinhos)

Dan: Olá, Pessoal. Aqui é Dan Carreiro. Estamos com o nosso sexto HQ DA VIDA. Esse é um podcast que, como alguns já sabem, tem como objetivo contar histórias. Nessa primeira temporada, iremos mostrar pra vocês histórias de super LGBTs. Espero que vocês curtam, compartilhe e nos deem críticas sobre o programa. Vocês já sabem que o seu feedback é muito importante para nós. Vocês poderão entrar em conosco (sic) pelos seguintes canais de comunicação, Facebook, que é “HQ da Vida”, né, a página, Facebook.com/hqdavida; tem o Twitter, que é @hqdavida; enviar e-mail, que é hqdavida@gmail.com; vocês poderão se inscrever lá no nosso canal do Youtube, que é “HQ da Vida Podcast”; no Sound Cloud, seguir a gente no Sound Cloud, que é soundcloud.com/hqdavida; e também assinar o nosso feed no seu aplicativo de podcast. Se vocês ouviram o primeiro HTRETA, da semana passada, vocês perceberam que o Sidney Andrade irá ser host agora conosco, além de que ele já contribui, né, na transcrição dos episódios. Nesse episódio, ele não participou comigo, pois este foi gravado no dia das eleições, 2 de outubro, e esse programa está indo ao ar, provavelmente, no dia 28 de outubro. Então, ele não pôde participar porque ele ainda não fazia parte da nossa equipe. Inclusive, esse programa foi gravado no dia das eleições, e a gente acabou citando algumas candidaturas durante a gravação, porque a gente tava acompanhando a apuração dos votos pelo aplicativo. Agora, eu gostaria de falar pra vocês que eu estou muito, muito, muito feliz, gente. Estamos chegando ao nosso primeiro K de views. Isso mesmo, acredito que o dia que esse episódio for ao ar, já até chegamos lá. É muito gostoso ver esse trabalho rendendo bons frutos. Tivemos ótimos feedbacks sobre o HTRETA da PEC.foi um programa muito importante. Foi muito bacana ter feito e ter tido a oportunidade de conhecer Tanto a Heloísa Câmara quanto a Itally. Tivemos muitos ouvintes e feedbacks positivos. Espero que esse seja um padrão daqui pra frente, do programa. E eu gostaria de mandar um beijo bem gostoso para os nossos ouvintes de Belo Horizonte, Feira de Santana, Recife, Louisville, cidade chamada Russas, e não é Rússia, é daqui do Brasil ainda, Maceió, Austin no Texas, esse ouvinte sempre tá caindo nas minhas estatísticas, gostaria de saber quem será o meu ouvinte no Texas. A mesma coisa de Mountainville. Um beijo para Cuiabá, e um beijo para Sete Lagoas. Enfim, hoje iremos entrevistar uma dupla de youtubers, isso mesmo, a Lara é feminista negra, e o Luca, um menino trans. E esses dois fofos têm um canal no Youtube. Iremos conversar sobre eles, e sobre essas experiências que eles têm com o canal.

(FADE IN DA TRILHA SONORA TEMA DA “EQUIPE ROCKET” DO ANIME “POKÉMON”)

Lara: Prepare-se para encrenca.

Luca: Encrenca em dobro.

Lara: Para proteger o mundo da devastação.

Luca: Para unir todas as pessoas de nossa nação.

Lara: Para denunciar os males da verdade e do amor.

Luca: Para estender o nosso poder às estrelas.

Lara: Jessie!

Luca: James!

Lara: Equipe Rocket decolando na velocidade da luz.

Luca: Renda-se agora, ou prepare-se pra lutar.

(INSERÇÃO DE ÁUDIO, A VOZ DO PERSONAGEM “MEOWTH” DIZ: MIAU! É ISSO AÍ! LOGO APÓS, OUVE-SE O SOM DE UMA POKÉBOLA ABRIR-SE, DEPOIS DO QUÊ, O POKÉMON WOBBUFFET DIZ O PRÓPRIO NOME)

(EFEITO SONORO DE VINIL ARRANHANDO AO PARAR BRUSCAMENTE)

Lara: Oi, mãe. A gente tá gravando podcast (os outros riem). Dá licença? (ela ri)

Dan: Gente, a Equipe Rocket tá sendo… Como é que fala?

Lara: Consultada…

Dan: Consultada pela mãe da Lara. Então, pessoal, estamos aqui, na verdade, não é com a Equipe Rocket. Estamos aqui com a Equipe Ocupei! Então, vamos nos apresentar, quem são vocês?

Luca: A gente mesmo, “Ocupei Melo”. (Lara ri).

Dan: Começando pela Lara.

Lara: Então, eu sou a Lara, tenho 19 anos. Eu sou ariana, né, bom falar sobre isso (ela ri). Eu faço Ciências Contábeis, aqui na Universidade Estadual de goiás. Eu tenho estudado muito sobre feminismo negro, mas sobretudo a respeito do Sagrado Feminino. E também sou integrante do Canal Ocupei! (Luca comemora). Bonito, né, “sobretudo” (ela ri).

Luca: Eu sou o Luca. Eu tenho 20 anos. Eu não estudo ainda. Já estudei, mas não estudo mais. O que mais? Ah, eu sou arte-finalista. Trabalho como arte-finalista e comunicação visual. Também sou integrante do Canal Ocupei! Eu sou capricorniano, com ascendente em Câncer (ele ri).

Lara: Que nojo.

Luca: Ai, olha o preconceito! (Dan ri). E eu sou coordenador do Coletivo de Homens Transexuais do Estado de Goiás, um dos coordenadores, na realidade, né, porque não é só um.

Dan: Ah, bacana. Eu não sabia disso.

Luca: Sim, Coletivo Resistência de Homens Transexuais de goiás. Eu acho que é só isso que eu sou (Dan ri), por enquanto…

Dan: Já é muito. Então, pessoal, estamos aqui com a galera do Ocupei! Estamos fazendo um bonde de ariano, capricorniano e eu sou aquariano, ou seja, eu acho que não vai sair nada…

Lara: Ai, meu deus! (Lara diz algo, mas é incompreensível por causa da gargalhada de Dan). Não é possível…

Luca: Aquarianos, melhores pessoas.

Dan: É. Às vezes (ES cômico sugerindo indireta) (ele ri).

Lara: É, às vezes, ixe…

Dan: Quando a gente quer, né (ele ri).

Lara: Só quando quer, né.

Dan: É, mais ou menos desse modelo. Então, estamos aqui com o pessoal do Ocupei! Eu conheci o canal deles pelo Facebook, eu nem sei como que eu fui parar… Em algum lugar, mas enfim.

Lara: Foi a deusa…

Dan: foi a deusa. Topei com eles em algum lugar, achei bacana os vídeos. E os convidei pra conversarmos um pouco, aqui, sobre transexualidade, movimento feminista, ter um recorte também de raça nessa nossa conversa, e explicarmos como que funciona o canal deles, e as experiências de cada um…

Luca: Só lembrando que Lara não falou, mas ela é uma mulher negra empoderadíssima (Lara ri).

Dan: Sim, sim, sim, sim. De um Black maravilhosérrimo.

Luca: Sim (Lara e Dan riem).

Lara: Ai, gente, vergonha. Parem (Dan ri).

Dan: então, gente, eu vou começar a fazer algumas perguntas. A gente vai conversando, primeiramente, sobre vocês, individualmente, até chegarmos no canal e falarmos um pouco sobre o canal. Então, primeiramente, eu vou conversar um pouco com o Luca, que eu acho que foi isso que a gente combinou, e a gente vai falar um pouquinho sobre essas experiências. Como vocês já ouviram, o Luca é um dos coordenadores, né, do Coletivo Resistência do Estado de Goiás, então, todo mundo já imagina que o Luca, então, é um menino trans.

Luca: Sim! (Dan ri)

Dan: Até mesmo porque uma pessoa cis  não tá muito importando, né, as pautas trans. E deveria, pelo menos pra ter esse recorte interseccional que a gente vai falar lá na frente, né. Mas enfim, oh, Luca, eu gostaria que você, só pra gente entender um pouco a sua trajetória até aqui, qual foi o primeiro momento, assim, que você entendeu essa sua identidade de gênero? Como que foi esse primeiro insight, assim, que você teve? Qual foi a idade?

Luca: Assim, o primeiro insight que eu tive… Eu não entendia, né, na realidade eu não entendia. Eu só queria ser menino e pronto. Foi uma… Eu sempre joguei futebol (ES de apito de juiz, seguido de barulho de torcida em estádio) … Eu sempre jogava futebol, e na minha escola não tinha futebol pra meninas. Era só futebol pra meninos, no infantil, né. E aí, eu gostava de jogar futebol, era bom em futebol. Não que isso seja um esporte de homem, mas só tinha meninos jogando. Então, pra mim, aquilo lá era um esporte de homem. E eu gostava muito de jogar e minha mãe falava que era esporte de homem, e tudo, e não me deixava jogar, e não me deixava jogar. E eu ficava, “meu deus, eu quero ser homem, então!” Eu quero ser homem. E eu via meus amigos tirarem a camisa pra jogar, eu queria tirar a camisa também, só que eu não podia. Quando eu ia tirar a camisa, minha mãe me repreendia e me batia. E eu queria fazer xixi em pé, igual os meus amiguinhos também, não dá, porque eu não tinha o mecanismo, ali, que me ajudava nisso, né (ES de crash do Windows). E eu falava pra minha mãe, “mãe, não quero ser homem…” “não quero ser mulher!” né. Minha mãe batia na minha boca e falava, “você nasceu moça, você vai ser moça.” Eu acho que esse foi… Assim, eu não entendia, na época, mas hoje, quando eu fui parar pra repensar a minha infância, é escancarado que isso foi o primeiro insight que eu tive, né, de que eu não era uma garotinha. Respondi? (ele ri)

Dan: Respondido. E você tava falando do futebol, eu tava tentando lembrar do nome do filme… Do filme…

Lara: “Tomboy”?

Dan: Tomboy! E na hora me veio á mente aquela cena do jogo de futebol, e eu tava tentando lembrar e nem googlar eu tava conseguindo, que eu não tava conseguindo nem lembrar nem uma parte do nome do filme… Então, isso remete àquela cena, né?

Luca: Aham. É muito louco porque, tipo, no Tomboy, ele não tinha nada de corpo, né. Então, já era mais tranquilo. Eu, meu desenvolvimento, minha puberdade foi muito cedo. Então, eu já tinha meus 7, 8 pra 9 anos, eu já tava começando a desenvolver peitinhos, essas coisas assim. Então, nossa, era muito mais complicado, eu me sentia muito mais incompleto nessa questão.

Dan: Entendi. Você, no caso, essa puberdade sua, esse desenvolvimento do corpo já começou com uns 12, 13 anos, no caso, né?

Luca: Sim.

Dan: E, oh, Luca, na escola, o fato de você andar mais com os meninos, no caso, é o que eu imagino, já que você jogava futebol com eles, eles te tratavam, assim, como… De forma diferente, por exemplo, não te tratava igual tratava as meninas, mas também não te tratava igual menino, por exemplo. Ou era bem tranquilo? Porque criança tende a ser muito ruim ou muito tranquilo, né?

Luca: Sim, mas, tipo, o meu único problema era com as meninas, porque os meninos me tratavam como os Brothers deles. Sabe, tipo, ainda com vantagens, porque eu tinha um certo contato com as meninas,  podia falar pra as menininhas que eles tavam gostando delas, né (ele e Dan riem). Mas o meu problema mesmo era com as meninas, que me viam jogando bola, que eu não brincava com elas, e tudo. E ficavam me chamando de Maria Macho, essas coisas assim, sabe. E, nossa, eu lembro até uma vez que eu peguei uma briga com uma menina, na escola, que ela me chamou de Maria Macho. Ela vivia me chamando de Maria Macho. A última vez que ela me chamou de Maria Macho, eu não deixei, não. Eu parti pra briga com ela, comecei a xingar ela… Xingar, assim, entre aspas, né. Ela era muito alta. “Sua girafa!” E não sei o quê, e comecei a falar um monte de coisa dela. Nunca mais me chamou (ele ri).

Dan: Você falando dessa situação, eu ouvi um programa de podcast, inclusive um dos hosts desse podcast já veio conversar comigo, no programa 03, que foi a Aline Koroglouyan, ela é lésbica, e eles têm um podcast chamado Trans-missão. Até conversei com vocês antes…

Luca: A Aline…

Dan: KO-RO-GLOU-YAN.

Luca: Não é a bi?

Dan: Não, ela é lésbica.

Luca: Ah, ela é lésbica? Ah, tá. Perdão.

Dan: E aí, eles têm um podcast que tem um gay, uma lésbica, um bi e tava faltando uma pessoa transexual, sendo homem ou mulher. E aí, apareceu um homem…

Luca: O Alex.

Dan: O Alex. Um menino trans. E teve uma situação, que ele relatou, que ele teve mais problemas com as meninas do que com os meninos. E aí, teve um dia que ele ia bater ou ele apanhou de uma menina maior que ele (Dan solta um riso).

Luca: Nossa…

Dan: Eu não lembro mais… Mas eu lembro que ele teve esse tipo de problema também, com meninas. E as meninas não o aceitarem a partir de um momento que ele não tinha a performance igual a elas, de querer dar um beijinho nos outros meninos, essas questões. Então, foi mais difícil pra ele nessa hora, e aí começou a rolar transfobia no colégio.

Luca: Chega uma hora… Porque tem muito guri que é trans, mas é gay, né. Gostar de meninos, e tal. Não foi o meu caso. Tipo, chega uma hora que, se você quiser tá ali no grupinho, junto com as meninas, porque é o que sua mãe fala que você tem que tá, você tem que inventar que você gosta de fulaninho. Quando, na verdade, você gosta de fulaninha, sua amiguinha. E isso é muito chato. Eu lembro que eu gostava de uma menina, nossa, eu era apaixonado pela menina, quando eu tinha, sei lá, 10 anos de idade. Eu tava ali pela quarta série. Nossa, eu era apaixonado nessa menina, e tinha que falar que eu gostava do Mateus (ele e Dan riem). Era muito ruim ele ri mais).

Dan: E, no caso, assim, você já teve experiência de ficar com meninos, beijar meninos? Como que foi… Se teve essas experiências nessa época.

Luca: É porque, assim, eu fui criado num lar evangélico, né. Num lar totalmente tradicional, adventista. Então, eu estudava no colégio adventista. Então, sempre há essa pressão, né, você tem que… Porque, até o momento, eu me identificava como lésbica. E aí, tem aquela história de que você tem que se curar, tem que tentar ser heterossexual. Você tem que ficar com os meninos porque, se não, você nunca vai deixar de viver nesse pecado, e tal. Então, eu tentava, né, até meus 15 anos de idade, 16 anos, eu tentei piamente. Eu ficava com as meninas, mas tentava lá ficar com os caras, ficar com os boys, pra ver se eu conseguia. Mas isso é muito engraçado porque, tipo, hoje eu consigo ficar com homem. Mas naquela época eu não conseguia porquê… Aquela questão de reafirmar a sua identidade, sabe. O que eu acreditava que eu era.

Lara: E homem que é homem não pega outro homem, né (Dan ri).

Luca: É, homem não pega outro homem, e por eu ser a lésbica machona, e tal, eu não podia pegar homem. Então, rolava muito esse conflito, assim, na época. Mas eu, pra agradar os meus pais, e tal, o pessoal da igreja, eu tive uns namorados, aí, na vida (Dan ri). Não gostava. Mas tive.

Dan: Engraçado, você falando aí que… A Lara falou que homem que é homem não pega homem, né, não deveria, segundo a heteronormatividade. Que hoje até você está bem tranquilo com a sua identidade de gênero, já te deixa tranquilo em relação a desenvolver sua sexualidade da melhor maneira que lhe aprouver, e não afeta mais a sua identidade de gênero. Então, isso é interessante entender, desse empoderamento, né.

Luca: Sim, exatamente. Essa questão, no início da transição, era bem louca porque, tipo assim, eu nunca…

Lara: A gente confunde muito identidade com sexualidade.

Luca: Sim, exatamente. Eu não imaginava que eu poderia gostar de homem e tudo, tão retraído isso em mim. A partir do momento que eu me entendi completamente como homem, comecei a me afirmar como homem, que eu tomei a minha primeira dose de testosterona e falei, caralho, eu sou muito homem, e não importa o que eu fizer, não vai me fazer menos homem. Foi o que me libertou, sabe. Entender que eu sou homem independente de qualquer coisa, independente de eu tomar testosterona, independente de eu ficar com homem ou com mulher. Independe de situações externas. É eu me entender como homem e pronto.

Dan: Lara, dona Lara (Lara ri).

Lara: Parece a minha mãe falando (Dan ri). Quer brigar comigo, mãe? Desculpa (ela ri).

Dan: Antes da gente começar a gravar, a gente foi combinando alguns pontos, né. E a gente quer falar um pouco sobre feminismo, e colocar um recorte de raça, no caso, pra gente falar sobre isso. Só que eu fui te perguntar sobre a sua sexualidade, você falou assim, “é… não sei” (ele ri).

Lara: É (ela ri).

Dan: Então, eu vou primeiro perguntar sobre a questão, assim, como que foi seu contato com o feminismo, o movimento feminista, em termos teóricos ou práticos, como que isso foi desenvolvendo em você e foi criando esse empoderamento?

Lara: Nossa, essa pergunta é difícil (Dan ri). Porque foi tão natural, que eu não percebi, tanto é que eu tinha até medo de me declarar como feminista, né. Porque como assim você é feminista? Então você não gosta de homem? E aí ficou todo esse lance de medo da palavra, de me rotular como uma mulher negra e feminista, tipo, pesado, né? (Ela solta um riso) E aí, eu posso dizer assim, que o meu contato com o feminismo começou dentro da minha escola. Só que eu me considero uma pessoa muito privilegiada porque eu acredito que pessoas da minha idade, com a minha classe, digamos assim, social, né, renda mesmo, não teria essa possibilidade de ter tido esse contato na escola. Porque é um assunto que agora que tá sendo mais divulgado, e tal. Que ganha destaque, né, com o feminismo. Mas antes, não. Então, eu posso falar assim, que quando a minha professora mesmo comentou, e tal, tipo, “vocês sabem o que é o feminismo?” E aí, eu falei, cara eu vou estudar sobre isso (ela ri). Acho que isso me representa. E aí, foi quando eu tive o primeiro contato com o feminismo. E além de que eu sempre me envolvi muito nesses movimentos sociais da própria internet. Começou. E eu ficava assim, sempre observando. Eu nunca gostei muito de tomar a fala, assim. Eu só ouvia e tentava absorver o máximo possível. E aí, eu tava percebendo que, beleza, mas algumas causas não me contemplam. Que aí foi quando eu me toquei que esse feminismo que eu tava ouvindo o tempo inteiro era um feminismo de mulheres brancas. Que é um feminismo, óbvio, né, totalmente legítimo, mas que a minha causa não é tomada como o princípio, não é fundamental pra mulheres brancas tomarem a minha causa de mulher negra. E aí, foi quando eu tomei a minha iniciativa de pesquisar, agora, o feminismo negro. E aí, foi difícil (ela solta um riso), porque quando a gente pensa sobre o feminismo, a gente lembra lá das sufragistas, e tal, né. Mulheres brancas, beleza. Era o contexto de mulheres brancas tentando ocupar seu espaço, enquanto a sinhá… Aliás, as sinhás eram as mulheres brancas, né, e a escrava cuidando dos filhos dela, pra ela poder lutar. E aí, eu percebi, tipo, é isso (ela solta outro riso). É Aqui que eu me encaixo. Enquanto o feminismo de mulheres brancas tá lá na frente, há mil anos-luz na minha frente, buscando por coisas que, por exemplo, o mercado, né. Enquanto tem mulher tentando ocupar o seu espaço como a chefe de uma empresa, eu tô tentando deixar de ser a mina que limpa o banheiro. Entendeu? E aí, é muito complexo pensar sobre isso, cara (entre risos). Porque a gente pensa gente vê isso mais pela vivência, né. Na universidade, esse assunto é muito mais debatido, e foi quando eu tive maior contato. Acho que eu respondi… (ela solta um riso)

Dan: enfim, o que acontece nessa nova onda é a proposta de um feminismo mais interseccional, que contemple tanto, por exemplo, , a mulher trans, a mulher periférica. E ele dá mais um suporte, né, no caso, para todos os tipos que não são contemplados mais no mundo acadêmico, talvez, não sei se…

Lara: Isso, recorte de raça, de gênero…

Dan: Uhum. O Luca tá lá no Google? (ele ri)

Luca: Tô googlando aqui…

Lara: Tá googlando…

Luca: Essa onda do neoliberalismo foi em 1970, que foi esse que eu te falei, que as mulheres brancas, né, que tinham todos seus privilégios começaram a… Parte do movimento, né, começou a idealizar essa ideia que a mulher podia tudo, dependendo do seu esforço. Se ela se esforçasse muito, ela conseguiria um cargo top. “Top”, oh… (Lara solta um risinho) top lá na empresa, que conseguiria se igualar aos homens, mas isso esquecendo das mulheres negras que não tinham a mesma oportunidade. E a terceira onda, foi no início da década de 90, começou a discutir os paradigmas estabelecidos nas outras ondas, colocando em discussão a micropolítica, apesar de que as mulheres negras estadunidenses, como Beverly Fisher, já na década de 70 denunciaram a invisibilidade das mulheres negras de dentro da pauta, e reivindicar do movimento (ele parece estar lendo). Foi na década de 90, mais ou menos…

Dan: Eu tenho vontade de ler mais sobre o feminismo, eu sei o básico, assim, o escopo geral. Eu também nunca aprofundei…

Luca: Olha, sobre esse assunto, eu tenho uma indicação de um livro, que eu tô lendo agora, que é ótimo, que é do…

Lara: É aquele da (incompreensível)…

Luca: é. É tudo explicadinho, assim, sabe. É do Coletivo Não Me Calo, que o nome é “Meu Amigo Secreto”, “#MEUAMIGOSECRETO”, que é aquela campanha que teve no ano passado, né, e eles transformaram essa campanha em livro, trazendo todos os recortes do feminismo e as ondas, e explicando certinho, sabe, trazendo textos de outras mulheres, e tudo. E cada recorte é escrito por uma mulher desse recorte. É ótimo o livro. Tô aprendendo horrores com ele (ele solta um riso).

Dan: eu, todo episódio, eu indico um livro. Eu acho que eu vou até deixar essa indicação sua, que com certeza esse livro deve ser ótimo. Eu vou deixar um link na postagem, para as pessoas. Mas enfim, eu vou… eu tento ler quinzenalmente um livro, pra poder indicar no podcast, justamente pra até quem ficar ouvindo o podcast buscar outra fonte. Com certeza, fontes melhores do que eu, por exemplo, né (Luca ri), pra poder (Dan ri)…

Lara: formação nunca é demais, gente.

Dan: É… eu… Pode falar…

Luca: você nunca vai achar informação nas mídias de massa, né. Então, que bom que tem as mídias secundárias, as minas independentes… As mídias independentes, pra gente poder procurar, né, informação. Porque, se não, meu amiguinho, tava ferrado.

Dan: Eu basicamente aprendo muita coisa com podcast e com Youtube. Eu acho, assim, que é uma fonte de informação rápida, e depois eu vou condensar e estruturar aquele tipo de conhecimento…

Lara: Aprofundar o que te chama atenção…

Dan: É, com as leituras, e dando mais uma aprofundada. Todo livro que eu vejo, assim, quando eu tenho dinheiro, eu vou lá e compro.

Luca: Minha vida mudou completamente, depois do Youtube. Depois que eu comecei a ver vídeos do Youtube e ler os livros de indicação dos canais, nossa, virou outra, sabe.

Dan: No caso seu, você tem 20 anos e a Lara tem quantos anos?

Lara: 19.

Dan: Então, vocês são, em relação a mim, vocês são mais novinhos, né. Quase… (eles riem) oito, dez anos mais velho…

Luca: Que é isso, menino?

Dan: Eu tenho quase 30. Não, eu tenho quase 29 (ele e Lara riem).

Lara: Caramba!

Dan: ´,É, eu sou mais velho do que aparento. Mas então, quando vocês tinham 16, 15 anos, que não tem muito tempo (eles riem)…

Lara: Foi ontem…

Dan: Ontem… No caso, vocês já tinham acesso a Youtube, pra poder… Não que não existiam o acesso, vocês já tinham canais que vocês acessavam que viam alguma coisa relacionada?

Luca: Bem, assim, na época tinha a Kefera, né… (Lara ri alto)A gente não pode muito levar por esse lado aí (ele ri).

Dan: Não. Não mesmo (todos riem).Apesar de que, nossa, não sei como ela faz tanto sucesso. Enfim, não vou…

Lara: É entretenimento, gente, entretenimento dá dinheiro…

Dan: É, entretenimento, não vou… Como é que fala? Acionar os little monsters da Kefera (Lara ri) pra me atacar.

Lara: Os Kelovers.

Dan (rindo): Kelovers… Mas enfim, eu acho assim…

Lara: Eu sou, demais. Shipo ela e aquele gusta, toda hora.

Dan: O gusta eu não conheço…

Lara: Perdeu nada, amigo.

Dan: Ah, eu conheço um youtuber gay. Esses dias, eu assisti um vídeo no canal dele, é o Luba. É Luba TV.

Luca: Então, se nos meus 17 anos, era isso que eu via. Era Luba TV, Kefera… Eu não vou dizer que só nos meus 17, 16 anos, até nos meus 18 eu assistia só isso, sabe. Porque eu não conhecia mais esse meu lado ativista, eu não era militante…

Lara: Eu fui ver, assim, youtubers que falam sobre essa temática com a Jout Jout. Choque. Tipo assim…

Luca: Eu também… Sim…

Dan: E a gente se questiona muito sobre ativismo, assim. Será que ativismo de internet funciona? Ou seja, como que isso… Pra mim, eu me empoderei muito, aprendi muita coisa com outras pessoas que se consideram ativistas de internet.

Luca: Sim. Eu costumo dizer o seguinte, se não tivesse explodido esses canais, essas páginas de internet, não era nem se falado no feminismo, hoje. Como é, hoje, sabe. Não tinha esquerdomacho jogando as feministas no fogo, porque não ia ser falado sobre feminismo. Então…

Lara: Não só sobre o feminismo…

Luca: Sim, sobre todas as outras pautas, né, porque até no movimento LGBT, antes da internet, era fechado apenas na letra G, né. Na letrinha G, o movimento LGBT era só de gays, não tinha as outras letras. Ter, tinha as letras, mas era só no papel, só na teoria. Então, eu acho que com o boom da internet, com as redes sociais, com esse ativismo de internet, é que hoje a gente fala mais nessas pautas, né. Mas não fala ainda o suficiente. A gente pensa que fala muito, porque a gente tá no meio, né. E a gente ouve muito isso. Mas o pessoal lá fora, o pessoal de direita…

Lara: (incompreensível a ouvir, a gente ainda tá lutando pra fazer eles assistirem.

Luca: Infelizmente, o cerco ainda tá fechado só ativista no pessoal de esquerda. Não sai muito disso, ainda.

Dan: Entendi, E vocês acham, assim, qual é o… Não sei… Algumas pessoas ganham mais visibilidade. E algumas pessoas que têm esse tipo de visibilidade às vezes dão bola fora, em alguns momentos. Mas vocês acham que, por exemplo, existe uma fórmula específica pra ganhar algum tipo de boa visibilidade e propagar uma boa mensagem? Como que vocês veem isso com o trabalho seus com o canal, no caso?

Luca: Amigo, a gente tá tentando descobrir ainda, viu (Lara ri), qual que é o segredo da visibilidade. Porque, nossa, tá complicado (ES salto do personagem de videogames Mário) (eles riem).

Lara: Eu acho assim, quanto mais gente a gente desagrada, quanto mais gente tenta criticar ou ensinar, as pessoas, fecham mais a mente, porque tá apontando pra ela um erro, né. Por exemplo, no nosso caso, né, do Canal Ocupei!,  a gente tenta desconstruir pessoas. Esse processo de desconstrução é muito doloroso, você assumir que você é preconceituoso é muito difícil. Então, é muito mais fácil eu ver, fechar a janela e ir embora, sabe, tipo, “ai, só fala merda”. É muito mais fácil, é muito mais confortável.

Luca: Eu tenho muito isso na minha família, porque eu sou a única pessoa que tenta se desconstruir dentro da minha família, dentro da minha casa. E quando eu tento trazer essa desconstrução pra dentro de casa, eles me mandam calar a boca, sabe. Porque é muito mais fácil mandar calar a boca do que pensar no erro, entendeu. Quando eu começo a falar, “ah, já vai começar a problematizar tudo”. Ah, amigos, se eu tô problematizando, é porque tem problemas, né (Dan ri). Então, é muito mais fácil falar pra gente calar a boca do que ouvir e se mudar.

Lara: Mas a visibilidade, eu acho que acredito que a fórmula é você ser didático, saber conversar, né, e medir as palavras. Só que isso é perigoso porque, às vezes, você mede demais as palavras, você esquece algumas coisas. E aí, vira aquilo, né. Você alcança um público muito específico, talvez você conseguiria alcançar mais se falasse de outro jeito.

Luca: Teve uma época do nosso… Assim, nosso canal é recente, né, tem três meses, no máximo. Mas teve uma época que a gente tava recebendo uns deslikes. Nossa, a gente comemorou demais esses deslikes! (ES de “what?” (Dan ri) A gente…

Lara: Incomodar foi bom.

Luca: sim, a gente ligava… Ligava, não. A gente falou um com o outro, assim, no Whats App, “meu deus! Deslikes! Vamos abrir uma champanhe!” Porque, nossa senhora, a gente chegou em alguém que queria chegar, porque a gente tem 200 e poucos inscritos, mas esses 200 e poucos é quem quer ouvir. A gente tem que alcançar quem não quer ouvir aquilo que a gente tá falando. Então, quando dá o deslike, a gente fica muito feliz (ele ri).

Dan: E vocês tem recebido feedback do programa?

Luca: Ah, tem umas fofurinhas que vêm chamar a gente no privado.

Lara: (incompreensível) lá, fico emocionada…

Luca: oh, tô até escorrendo lágrimas aqui (Dan e Lara riem).

Dan: É porque eu, por exemplo, ontem lancei o programa lá, da bissexualidade, com a Aninha de Paula, e hoje mesmo já recebi feedback que ela recebeu um feedback que ela me deu. Nossa, pra mim, de pessoas que estão no armário e, ao ouvir ela, se sentiram mais confortáveis e começaram a pensar em como sair desse armário, então, isso é bacana.

Luca: É interessante… Ah, desculpa…

Dan: Não, eu já tava finalizando… Isso, de fato, é bacana, esse trabalho que a gente faz. Acho que se a gente alcançar uma pessoa, é uma pessoa valiosa, eu acho.

Luca: É interessante porque o feedback vem quando a gente… É pessoal, sabe. Quando a gente fala das nossas experiências. Porque sempre tem alguém que vai ter empatia por aquilo, ou vai… É a tal da representatividade, né. Vai se sentir naquela nossa história. Então, o feedback vem mais quando a gente fala disso, a gente fala das nossas histórias, das nossas experiências.

Dan: entendo. Luca, antes de eu perguntar a você sobre os vídeos, eu gostaria só de abrir um tópico, que é sobre hormonização. Porque a minha última convidada que era uma menina trans não se hormonizava, se eu não me engano.

Lara: É a Alex?

Dan: É a Alex. Acho que ela já se hormonizou no passado, Só pra vocês explicarem para os ouvintes. Pra você explicar, na verdade, pros ouvintes, como que funciona a hormonização para homem trans, acompanhamento médico, essas coisas que são importante até pra saúde do homem trans.

Luca: Sim, então, quando eu iniciei, que foi no ano passado, ainda tava um pouco complicado. Hoje, deu uma avançada, assim, pelo assunto, achei que foi até rápido, sabe. A gente que tá dentro da situação, e tudo, acha devagar, porque sempre é devagar, né, a ansiedade bate, e tudo. Mas em vista, assim, foi até rápido, pelo SUS. Porque até, tipo, o ano passado, eu comecei a minha hormonização em agosto do ano passado, e não tinha… Quando eu me descobri trans, que foi no início ali de 2015, que eu comecei a pesquisar, não tinha muita informação sobre homens trans, não tinha muita informação sobre hormonização de homens trans, alguns grupos no Facebook, né, que falavam sobre. Mas tudo não com base muito médica, porque os atendimentos até particulares eram muito poucos, muito poucos mesmo, no Brasil. Então, não tinha muito esse respaldo médico, o início das hormonizações, e tudo. Isso, no ano passado. Hoje, os projetos no SUS pra as pessoas transexuais, no geral, estão avançando muito, Igual aqui em Goiânia, já tinha um dos primeiros projetos pra pessoas transexuais que abriu, que foi, se não me engano, em 2012, 2013. Só que esse projeto já tava fechado há, mais ou menos, dois ou três anos, quando eu fui procurar pra me tratar nele, né, pra fazer meu tratamento hormonal nele. Não tava funcionando, tava desativado. E em outras cidades também tava assim, acredito que em Cuiabá também tava fechado, acho que até hoje tá fechado. Em São Paulo tava funcionando mais ou menos, super sobrecarregada a fila, com muita demanda pra pouco médico. E agora tá começando, eu acho que a demanda tá aumentando e eles tão conseguindo, aos poucos, em passos pequenos, contratar médicos, abrir ambulatórios pra isso. Hoje, aqui em Goiânia, a gente tem dois ambulatórios, que é o ambulatório da UFG, Universidade Federal, que atende as pessoas trans lá, e o ambulatório do Hospital das Clínicas, que é onde tem o maior fluxo de pacientes, que é de Goiás inteiro, né, e onde faz cirurgias também. Foi reaberto o Projeto TX, que chama aqui, no início desse ano, ali pelo mês de março, por ali, que reabriu. Ou seja, do momento que eu comecei a fazer meu tratamento hormonal até abrir, eu fiquei fazendo por conta, sabe. O que não é, de jeito nenhum, recomendado, porque é muito arriscado à saúde. Não só à saúde física, como à saúde mental também.  Porque, às vezes, te dá umas neuras, assim, muito loucas. “Ai, meu deus, será que tá tudo bem? Será que eu vou morrer? Será que meu fígado tá sendo sobrecarregado?” Porque são remédios fortes que sobrecarregam o fígado, né, o funcionamento do fígado. Então, eu consegui o meu tratamento pelo SUS, iniciar a minha primeira consulta só no mês de julho, no início de julho, desse ano. Agora, que foi minha primeira consulta. Então, as filas por conta da demanda ainda são… a espera ainda tá um pouco grande. Cerca de um mês e meio, dois meses. Mas, finalmente, ainda bem que tá acontecendo, né. Finalmente tá acontecendo, porque antes não tava nem acontecendo. É um trabalho muito árduo, porque a partir do momento que reabriu o projeto aqui em Goiânia, já houve três ameaças de fechar de novo. Então, a militância tem sempre que tá ali, sabe. Cutucando o Secretário da Saúde, cutucando a reitoria da UFG, que gere o Hospital das Clínicas, né. A gente não fica sossegado nunca, tem que tá sempre ali cutucando eles, pra melhorar o projeto. Agora a gente tá querendo trazer outro cirurgião pro projeto, porque as cirurgias, aqui, são feitas de mês em mês, pra a gente conseguir abastecer a demanda, que são mais de 100 pessoas, que tá na fila aqui pra as cirurgias. Tanto homens trans quanto mulheres trans. Pra ver se dá pra fazer tudo.

Dan: E nessa avaliação, aí, com o médico, você não teve nenhum efeito colateral que te prejudicou em alguma coisa? Enfim, eu não entendo dos efeitos colaterais…

Luca: Olha, os que podem ter, prejudiciais à saúde, o mais grave é a sobrecarga do fígado, mesmo, e dos rins também. A questão renal porque, com a ingestão dos hormônios, o corpo retém muito liquido, tem uma retenção hídrica muito grande. Então, é perigoso pro rim, né, e perigoso pro fígado também, por conta da sobrecarga que traz, da quebra de enzimas, essas coisas assim, que eu não entendo muito bem, mas eu acho que é isso. E os efeitos colaterais ruins acho que são mais esses mesmo. E também a questão de… É muito importante ressaltar que a ingestão de hormônios não é só isso, mas também a questão das cirurgias, também, que a gente tem que fazer, principalmente nos homens trans, porque a gente tem útero, e a gente tem glândula mamária. A gente, ingerindo testosterona de mês em mês, pode… Pode não, vai atrofiando os ovários, vai atrofiando o útero, e também vai atrofiando e aumentando o risco de câncer, tanto no útero quanto nas mamas, né. O que é muito perigoso. Então, esses são os maiores riscos. Mas antes do acompanhamento, eu ficava muito na neura, até uma vez que eu fui no… Porque os médicos de postinho, essas coisas assim, não estão preparados pra lidar com a gente. Nenhum tá preparado, nem pra usar o nosso nome, pra nos tratar com nosso nome social, imagina pra saber os riscos que a gente pode ter. Eles não tão preparados pra isso. O primeiro médico que eu fui, depois que eu já tava ingerindo os hormônios, ele me encheu de medo, falando que eu poderia tá com hepatite. Falou pra mim que eu tava com hepatite. Olhou os meus exames, falou, “olha, você tá com hepatite B.” E eu fiquei louco, né (ele e Dan soltam um riso). A Lara sabe o tanto que eu fiquei doido com isso.

Dan: Eu fico imaginando o mal-estar causado por uma informação desse tipo, né.

Luca: Sim, e tem mais, depois eu levei esses mesmos exames pra esse médico lá do projeto pra transexuais, ele falou “nossa, não, você nunca teve hepatite, isso aqui não é hepatite, seu fígado tá em perfeito estado, vou te passar outros exames pra ver se tá tudo bem mesmo, porque esse médico aí que você foi tá completamente errado. Você não tá com hepatite, nunca teve hepatite na sua vida.” Aí, eu tranquilizei, né. Por isso, é muito importante o acompanhamento médico, e não só médico, acompanhamento psicológico e psiquiátrico também, né, pra a gente não pirar. Porque a ansiedade é muita.

Dan: E, no caso, Luca, você sabe informar, por exemplo, se tiver alguma pessoa, nesse momento, que tá ouvindo o programa e quiser fazer algum tipo de tratamento hormonal, ou acompanhamento e, às vezes, mora, por exemplo, em cidade do interior que não tem esse serviço ofertado. Será que existe uma possibilidade de entrar em contato com algum tipo de coletivo, por exemplo, os meninos lá do IBRAT (ele pronuncia “ibrá”), pra poder fazer uma frente dentro da cidade, procurar lideranças, ou uma Universidade ou algo que possa criar uma rede de apoio, pra poder começar a montar um ambulatório?

Luca: Sim, tipo, aqui em Goiás, eu vou falar tirando por base em Goiás. O nosso coletivo, a gente conseguiu abrir esse ambulatório na UFG, a gente começou a funcionar primeiro do que do Hospital das Clínicas, pra já ir tratando os meninos que estudam lá, né, que tem bastante pessoas… Bastante, assim, entre aspas, né, pessoas trans lá na universidade. Então, já foi um adianto. E depois, abriu o HC. Hoje, a gente tá lutando pra abrir um ambulatório em Anápolis, que é a cidade vizinha aqui, e outro ambulatório em Goiânia. Então, os coletivos são muito importantes nessas conquistas, né. Os meninos, meninas, que são do interior, podem buscar… se tem algum núcleo. Os meninos do IBRAT, né…

Dan: Á pronúncia é “ibrat”, né?

Luca: É IBRAT.

Dan: Eu sempre falo o T mudo, “ibrá” (ele ri).

Luca: É porque “ibrá”… O T é logo de transexuais, né. Não dá pra apagar o T (entre risos).

Dan: Nossa, que bola fora!

Luca: Que é isso… Os meninos estão sempre disponíveis, no Facebook, pra responder perguntas, pra abrir novos núcleos, também, né, porque muitas vezes você quer militar, você quer fazer coisas pela sua cidade, e não sabe por onde começar. Os meninos estão sempre aconselhando. Inclusive, quando a gente abriu o nosso coletivo aqui, a gente consultou muito os meninos do IBRAT, pra gente criar uma estrutura pra conseguir. E aos meninos que forem de Goiás, sei lá, se tiver ouvindo a programação, é só procurar o Coletivo Resistência, que a gente faz esse intermédio da pessoa ir no postinho da sua cidade, pra ser encaminhado pro projeto aqui no Hospital das Clínicas.

Dan: O coletivo resistência  tem alguma página, algum grupo no Facebook, que eu posso colocar um link na postagem?

Luca: Tem sim, é “Coletivo Resistência Homens Trans de Goiás”, só procurar lá, e se você vai colocar, fica ótimo.

Dan: É, eu vou colocar na postagem, que aí norteia melhor. E no IBRAT, existe também a página do IBRAT, não existe? Que aí eu coloco também.

Luca: Existe.

Dan: Eu vou até colocar aqui, no final, o link da postagem, então, tanto do IBRAT, como do Coletivo resistência, porque eu acredito que interior é muito complicado. Aqui na minha cidade, mesmo, eu conheço meninos trans que conseguem fazer o tratamento, mas porque têm um plano. Mas e se for um menino trans de periferia, que vai ter que acessar isso via SUS, não tem nada organizado, então. Talvez…

Luca: É, infelizmente, hoje, a maioria faz por conta, né, o que é bastante perigoso. Más, com fé, vai.

Dan: Aqui na minha cidade tem uma médica endócrino, que eu sei, que atende pelo plano, né, pessoas que pagam. Não é SUS ainda. Mas que ela atende pessoas trans e é super, assim, receptiva. Não é transfóbica, que eu acho que isso é o principal, né.

Lara: Essencial, né.

Dan: Eu conheço, também, homem trans que se hormoniza sem acompanhamento médico. E também eu sei que isso é muito perigoso. Alguns nem é por questões de condição financeira, é por causa de transfobia mesmo, o que eu conheço. Ele tem dinheiro pra pagar, mas tem… Acho que deve ser gatilhos, medo de ir ao médico e o médico tratá-lo no feminino.

Luca: Exatamente. É por isso que é muito importante a gente ter essas comunidades no Facebook, porque a gente tem bastante comunidades pra poder aconselhar isso, pra poder sempre falar, oh, tal médico é bom em tal região; outro médico é bom em outra região, que não é transfóbico, tudo. Então, eu acho que a internet deu uma ajudada muito nisso, muito mesmo…

Dan: Eu acho que a internet empodera as pessoas, de procurar melhores soluções pra as situações da vida, independente se é LGBT ou não. Mas eu acho que norteia situações específicas, sobretudo adolescentes, que eu acho que é tudo muito sofrido quando a gente tá na adolescência, né. Tudo muito mais intenso,, muito mais forte, muito mais doloroso. E falando sobre transfobia, eu queria até ver com a Lara, o seguinte. Oh, Lara, nesse processo seu, e durante parte da vida… Eu queria que você pontuasse, também, pra gente, casos de racismo que você já tenha sofrido, e tudo o mais. Você, por exemplo, adotou o Black, empoderou-se com o Black. Provavelmente você já deve ter ouvido aquelas falas padrões , sobre o seu cabelo, quando era mais nova, talvez. Não sei…

Lara: Então (ela e Dan riem), sobre racismo, eu me considero uma negra de pele clara. E isso me traz muitíssimos privilégios.

Dan: É, temos que falar sobre privilégios.

Lara: Porque tem aquele lance da negra, a mulata exportação, né. E a negra que tá ali pra limpar o meu banheiro. E aí, sempre eu via o lance da tentativa de tentar me embranquecer. Tanto é que, desde quando eu era pequena, a minha mãe zoava,assim, brincava, tipo, “ah, sua negrinha!” Eu falava, não, não sou negra. Eu sou marrom-bombom. Como se isso me deixasse mais clara, entende (entre risos). A tentativa… De tentar ser menos preta. E aí, desde pequena, eu tinha sensação de não era certo eu ser negra, porque na escola, tipo, no primário, eu lembro que, uma vez, eu cheguei na escolinha, e tal, eu queria brincar com uma colega, uma menina que tava lá. E aí, quando eu me aproximei, ela se afastou, e eu perguntei, tipo, o que tá acontecendo aqui? Ela disse, “não, eu não vou brincar com você porque você é preta.” E aí, eu fiquei, tipo, na bad, né, no chão. Chorei em posição fetal (entre risos).

Dan (também entre risos): Não, e eu fiquei imaginando o choque da pessoa… Que você falou assim, no caso, que você não se lia como negra, né, imagina como o choque…

Lara: Então. “O que você tá me falando? Você acha que eu sou preta?” E eu tinha o quê? Uns 7 anos. E pensa a sobrecarga que uma criança recebe quando é lida assim pelo mundo. E aí, eu fui perceber, tipo, caramba, tem alguma coisa errada em mim. E aí, foi quando eu comecei a tentar me embranquecer, né, porque antes desse Black empoderadíssimo, nós tínhamos um cabelo lisérrimo (ela ri). Pois é, um cabelo muito liso, e eu alisava meu cabelo, assim… Eu acho muito cedo pra uma criança alisar o cabelo, tipo, 8 anos de idade. Pra começar a fazer relaxamento, aqueles produtinhos que os salões resolvem passar no nosso cabelo, tal.

Dan: Que são muito fortes, por sinal, né, é até uma agressão à criança, eu acho.

Lara: Demais. E, assim, eu sentia um pouco de falta de valorizar o meu cabelo, né, porque tudo bem, a minha mãe falava, “é bonito’, e tal, mas onde que é bonito? Eu não via ninguém com o cabelo igual ao meu. Por que ele é bonito? Porque a gente sabe, né, nossa mãe acha a gente lindo até cagado, mas e o mundo? (Dan ri).

(DAN E LARA SOBREPÕEM AS FALAS UM DO OUTRO, POR ALGUNS SEGUNDOS, INCOMPREENSÍVEIS)

Lara: Pode falar…

Dan: Não, pode falar…

Lara; Acho que…

Dan: Não, deixa eu só… Vou cortar um minutinho (Lara ri). É o seguinte, eu tenho um tom de pele até um pouco mais escuro que o seu. Eu demorei a me expressar como negro, pra sociedade, você acredita? Eu tenho sérias dificuldades com isso. Porque eu sempre me declarei, nos vestibulares, como cor de pele preta, porque eu nunca achei que eu era um “papel pardo”…

Lara: Aham, papel… Muito bem colocado! Pardo, nunca vi isso.

Dan: Em todos os vestibulares que eu prestei, desde 2003 que eu prestei a primeira vez o vestibular, acho que foi em 2003, eu prestei como preto. Mas eu ficava calado, eu não falava com as pessoas. Então, as pessoas me liam moreno, moreninho, pardo, sei lá, e eu ficava calado. Eu não tinha coragem nem de falar pra as pessoas, “não, eu sou preto.” Porque eu ficava, assim, com ver… Eu sou negro, na verdade. Eu ficava com vergonha de explicar isso. E isso foi mais um empoderamento que eu tive, pra poder me declarar assim, e explicar por que eu sou assim.

Lara: Nossa, e você conseguir essa autonomia pra poder falar, e aguentar exteriores, é muito foda. Muito foda mesmo.

Dan: é bem complicado. Eu é porque tive um distanciamento da família do meu pai, Meu pai separou da minha mãe quando eu tinha 4 anos. E aí, minha vó é negra, era dona de terreiro, e minha bisa… E aí, como meu pai separou… É, tem toda uma herança… Que foi sempre negada. Muita vergonha de ser neto de macumbeira, como diziam, né. Que minha vó era, até esses dias atrás, minha vó era considerada a bruxa da rua, entendeu? Tem toda uma herança muito guardada, e escondida. E eu tinha vergonha, literalmente, de quem eu era, de onde eu vinha.

Lara: É muito pesado…

Luca: cara, eu acho isso muito triste, porque a cultura do nosso Brasil foi estruturada nisso, sabe. Agora as igrejas evangélicas repugnam isso de forma tão… Ai, não sei…

Lara: Isso é um paradigma muito difícil de ser quebrado. Porque, assim, eu não me considero uma pessoa religiosa. Mas eu respeito as outras religiões e, inclusive, quero me aproximar mais das religiões de matriz africana. E eu vejo o tanto que essas religiões sofrem preconceito, porque a gente ainda é muito cristão. Muito cristão. O mundo é muito cristão, sabe. E quebrar isso vai dar um trampo… Meu deus.

Dan: É pesado. Eu acho que, assim, a palavra que é difícil deles entenderem isso. Eu não sei, mas é bem complicado esses tipos de racismo. E durante a sua adolescência, você teve outros episódios, assim, que você foi vivenciando e estranhando, e sofrendo com isso?

Lara: Então, eu acho que eu sofria menos preconceito na minha infância. Mas era, sabe aquele preconceito velado? Por exemplo, minhas amigas, numa festinha, e tal, e aí a preferência pela mina branca do cabelo liso. E pra mim isso é natural, tipo, ok. A gente tem uma coisa de beleza que é algo muito individual. Só que não, né. A gente aprende a gostar de um certo padrão. E isso, na minha cabeça, era natural. Então, acho assim, que o preconceito, foi esclarecido, o racismo foi esclarecido depois que eu assumi meu cabelo. Depois que eu me declarei uma mulher negra, aí sim. Aí eu senti o peso que isso trazia. Porque, quando você tenta se embranquecer, você é lida dum tipo, ok, você é negra, mas tá tentando, né, tá tentando ser branca. Olha aí seu cabelo. Olha aí sua maquiagem, que tá afinando seus traços. Olha a sua tentativa de ser mais branca. Você vai sofrer racismo, vai ser bem menos. “A gente vai te dar esse emprego porque você tá com esse cabelo mais preso”, né… E aí, quando você se assume negra e fala, não, meu nariz é desse jeito mesmo. O meu cabelo não tá bagunçado. É o meu cabelo. Respeita. Aí, sim, você sente um peso da sociedade, de como você é lido, né.

Dan: Entendi. Outra coisa, Lara, talvez até… Não que vocês também, as meninas, também querem cagar regra no sentido de obrigar todas a assumirem os cabelos cacheados. Não é essa a regra, também, né.

Lara: Não, não mesmo. Engraçado, porque depois que eu criei o canal, logo em seguida, tava na universidade, e tal, e eu sempre fui a problematizadora do rolê, né (ela ri). E aí, eu tenho, acho, na minha sala… Eu não posso falar que tem muito negro lá, né, porque não temos. Mas as meninas negras que estão lá, todas elas têm o cabelo liso. E aí, elas chegaram e mim (ela ri) pra perguntar, tipo, “meu cabelo, eu tinha que deixar ele enrolado? Eu falei, pera aí, a gente tá saindo de uma ditadura pra entrar em outra? Não faz sentido nenhum. Acho que, a partir do momento que você se sente bem com seu cabelo, ok. Você já desconstruiu isso, né, de que tudo bem você ser uma negra do cabelo cacheado, crespo. E tudo bem você ser uma negra do cabelo liso (ela ri).

Dan: Ninguém tá obrigando ninguém a ser nada. Na verdade, esse é o intuito do movimento, né. É não cagar regra, na verdade (ele e Lara riem).

Lara: Essa frase é a melhor de todas.

Dan: Ah, eu adoro ela. Porque, na verdade, eu acho que, em algum momento da militância, a gente fica muito animadinho. Eu já tive isso. E aí, a gente começa a cagar algumas regrinhas, com algumas pessoas. Eu já fiz isso, e eu reconheço isso. Que eu já fui um pouco chato, um pouco pedante com algumas questões.

Luca: Ai, é UÓ, viu. O cara de dentro do movimento vem falar pra mim que eu não posso ser afeminado. Ah, para, né, véi.

Dan: Você pode ser bicha, bichona, bichérrima! (ele ri)

Luca: Tipo, eu não posso, “ah, você é homem, agora você não pode ser afeminado.” Ah, vai pra merda, então! Não posso ser?

Dan: E falar sobre afeminado, eu vejo cada menino trans gay, assim, gatíssimo, e… e…

Lara: Quero.

Dan: Quero (ele ri). E que eles reclama que eles são muito preteridos entre o meio LGBT, porque parece que homem gay só gosta de pau, né.

Luca: Exatamente. Tipo, eu digo que eu gosto de homem também. Só que, na realidade, eu nunca tive uma experiência mais profunda com homem, porque não tem um homem que quer ter uma experiência mais profunda com um homem trans. Por que? Porque a gente não tem pau. Exatamente isso.

Dan: Parece que o mundo deles gira em torno de um pau, né. Basicamente.

Luca: Sim, é o falocentrismo, né.

Dan: Eu não veria problema…

Lara: Ai, eu me lembrei daquele poema da Rosa Luz, que ela fala… Como é? Você lembra, Luca?

Luca: Não lembro (ele ri).

Lara: Um poema da Rosa Luz, lindo demais, gente. Tem um poema que ela fala, é… Aff! Queria lembrar., meu deus.

Dan: A rosa Luz tem no Youtube, né?

(LARA E LUCA FALAM ALGO, SOBREPONDO-SE, MAS É INCOMPREENSÍVEL)

Lara: Ela é maravilhosa.

Dan: Ah, eu já…

Lara: Acho que a Alex sugeriu ela.

Dan: É, eu acho que eu indiquei no episódio da Alex. Isso mesmo.

Luca: Foi.

Dan: Depois, eu vou até procurar esse poema, e coloco aqui no meio do programa. E eu peço autorização pra ela, poder colocar.

Lara: É lindo.

Dan: Eu coloquei “As 10 coisas que toda mulher trans tá cansada de ouvir”, da Leda, vocês ouviram, em algum programa? Acho que foi no próprio da Alex, eu acho.

Luca: Foi, aham.

        Dan: Eu pedi autorização da Leda. A Leda deixou. É uma fofa. Na hora, ela adorou a ideia de mesclar uma coisa com a outra no programa.

Lara: Acho que ela fala assim… Acho que eu lembrei (ela ri). “Pinto de macho não é centro do mundo”, acho que alguma coisa nesse sentido. É um tapa na nossa cara.

Luca: A gente leva pra vida, né.

Luca: A Lara até fez um tweet, esses dias, “cadê os machos que não acham que seu pinto é o centro do mundo?” (Dan ri).

Dan: Eu acompanho a Leda no Facebook e no Twitter. Eu não sabia que ela usava…

Luca: Não, a Lara.

Lara: Fui eu! (ela ri)

Dan: Ah, a Lara! (ele ri)Ah, tá, Eu vou acompanhar a Lara no Twitter.

Luca: Quase que eu falava, “aqui, oh, eu! Opa! Opa! Não tenho pinto.” (ele ri)

Dan: Mas enfim, gente, agora vamos falar um pouco sobre os vídeos que vocês já postaram. Até o presente momento, eu olhando aqui, vocês têm 17 vídeos.

Luca: vixe! Já tem isso tudo, já?

Dan: tem 17 vídeos. O primeiro vídeo de vocês foi o “Feminismo, racismo, homofobia, transfobia é?” Então, o primeiro vídeo, pelo jeito, de 1min43seg, foi o vídeo pra descabaçar, né. De perder a vergonha. Foi o primeiro vídeo de teste…

Lara: descabaçar… (ela ri)

Luca: Sim, foi nossa ideia inicial. Tipo assim, cara, vamos fazer um canal? Vamos. O que a gente vai fazer? Não sei. E aí? (ele ri) O que a gente fala no nosso segundo vídeo. A gente fala assim… Ah, já tô falando do segundo vídeo…

Dan (rindo): Ah, vamos pro segundo…

Luca: A gente queria… Não, falando do primeiro vídeo ainda. A gente queria trazer as nossas pautas, né. A gente tava cansado de ficar só em coletivos presenciais, e tudo o mais. A gente falou, cara, se a gente fizer algo na internet, vai alcançar muito mais gente do que só nosso círculo. E aí, a gente fez esse vídeo aqui pra as pessoas ouvirem o que elas mesmas falam, sabe. Porque quando a gente ouve o que a gente fala, a gente pensa naquilo e vê o quanto que é pesado algumas coisas que a gente fala.

Lara: Pelo menos, o intuito era esse, né (ela ri).

Dan: Ah, o segundo vídeo de vocês já é “Quem somos nós? Ativismo no Youtube”, né.  #OCUPEI. Que, no caso, vocês já vão explicando um pouquinho mais sobre vocês. Confesso, eu não cheguei a ver seus 17 vídeos, mas cheguei a ver alguns vídeos aleatórios. Aí, nesse vídeo “Ativismo no Youtube”… Ah, pode falar, Lara.

Lara: É mais de apresentação, né. A gente vai falar nossos nomes, quanto que a gente é lindo, maravilhoso, a gente quer ocupar esse lugar (ela ri).

Luca: E a gente fala muito, também, dessa questão de o povo, “ah, é ativista de internet, ativista de sofá da sua casa, não faz nada…”

Lara: Porque é massa pensar nisso, porque, assim, o Luca sempre esteve envolvido em coletivo. E a minha militância é individual. E aí, a gente queria juntar isso, né. Porque, tudo bem, tem o ativismo do sofá, que ele alcança. E inclusive, ele pode até alcançar mais. Porque a internet é um mundo muito grande.

Dan: sim!

Luca: O nosso… funciona, mais ou menos, assim, uma linha de produção, sabe. Como uma linha de produção. Eu pego as coisas lá de fora, a militância lá de fora e trago pra Lara, pra a gente transformar isso num assunto de internet, entendeu. É mais ou menos assim que funciona.

Dan: Entendi. No terceiro vídeo, inclusive a gente até já conversou sobre isso agora, né, que é “O que é transexualidade e dá pra ser trans gay?” Que eu acho que é bacana explicar isso pra as pessoas. Eu não sei vocês, mas onde eu convivo, eu sou professor, e as pessoas não conseguem separar o que é identidade de gênero do que é sexualidade. É como se fossem coisas…

Luca: Cara, ninguém consegue. Até dentro do movimento. Tem muito isso dentro do movimento. Que não consegue, sabe. Começa a partir do momento que a letra T, que é de identidade de gênero, tá junto com as outras letras que são de…

Lara: Sexualidade.

Luca: Sexualidade, né. Orientação sexual. então, fica difícil. Hoje a gente entende essa questão, do quão difícil é entender, porque dentro do movimento não tem esse entendimento ainda. A gente tá partindo de uma coisa que é de dentro pra fora, entendeu. Enquanto a gente, dentro do movimento, não entender a diferença entre orientação sexual e identidade de gênero, não vai dar pra expandir isso pra fora.

Dan: O próximo vídeo, que é “Viver além de rótulos”, né, “Orgulho de Ser – Proud To Be”. Eu adoro esse esquema que vocês colocam no vídeo, faz a chamada de um, troca pro outro. Eu queria que você explicasse um pouco, Luca, você fez o vídeo com o binder, né.

Luca: Sim.

Dan: Explica só o que é o binder e por que você optou… Eu imagino que tem tudo a ver com o título, mas tudo bem. Só pra explicar por que você optou fazer esse vídeo com o binder.

Luca: Sim, é porque, tipo, pra mostrar nossa realidade, né. Eu tenho orgulho de ser homem do jeito que eu sou. Tá, que eu quero fazer algumas alterações no meu corpo, mas não é porque eu não tenho orgulho de ser do jeito que eu sou. Eu tenho muito orgulho de ser do jeito que eu sou. Eu tenho orgulho de ter as tetas que eu tenho, eu tenho orgulho de lutar pelo que eu luto. Mas isso aqui é uma coisa que me incomoda no dia a dia, e eu quero tirar futuramente, assim como o seu nariz pode te incomodar, e você quer consertar ele, sabe. Não quer dizer que eu não tenha orgulho de ser quem eu sou, do jeito que eu sou. Então, foi muito pra trazer isso, sabe, o meu orgulho de ser do jeito que eu sou. Sem camisa, com binder. Porque a gente não vê homem trans, por aí, andando sem camisa e sem binder. Não tem, cara, é muito raro.

Dan: Imagino que Goiás é um estado quente como o norte de Minas, aqui, nós somos parecidos.

Luca: É um inferno.

Dan: Eu imagino. O binder deve até machucar, né, o…

Lara: Isso deve assar, mano.

Luca: Cara, eu sou muito privilegiado, porque eu consegui… Eu ganhei esse meu colete. Porque esse é um colete pós cirúrgico, né, e ele é muito confortável. Mas antes, eu usava faixa, que é um inferno usar aquilo lá, ele prende totalmente, restringe a respiração da gente, causa dor, causa sofrimento… causa morte (ele ri). Não!

Dan: Morte, é sério, Luca?

Luca: Não, não (Lara ri alto).

Dan: Exagero, coisa de canceriano, né (entre risos).

Luca: Só zoando mesmo (entre risos). E também tem aqueles binders de faixas elásticas, e também é um inferno aquilo. Além de restrição respiratória, pode trazer alguns problemas nas costelas, causa a elasticidade da mama, o que dificulta na cirurgia posteriormente. Então, eu digo que eu sou muito privilegiado, porque eu tive oportunidade de ganhar, de um amigo meu que fez a cirurgia, esse colete pós operatório. Porque ele é caro, não é todo mundo que consegue comprar. Até o binder…

Dan: Eu sei… Eu ia até tentar fazer uma correlação. É lógico que a opressão que eu sofro é diferente da opressão que você sofre, mas eu acho que isso é muito também do machismo, sabe. Que o próprio homem é tipo uma segunda vítima do machismo, né. Um homem com tetas, sendo cis ou trans, eu acho que isso incomoda muito a sociedade, e acaba que o homem…

Lara: Remete a um corpo, né, e não é masculino.

Dan: Isso. Não é masculino.

Luca: As pessoas olham pra gente na rua. Quando eu, às vezes… É porque eu tenho que tirar pra lavar isso, né. Às vezes, não secou e eu tenho que sair. Nossa, e aí eu me sinto tão oprimido na rua. Uma coisa assim, absurda, sabe. Às vezes eu vou só na esquina de casa, vou sem binder. Imagina, um ser totalmente masculinizado, com as pernas cabeludas, mas de tetas.

Dan: Deve ser foda pra caramba, enfrentar esse povo transfóbico.

Luca: É o que eu digo, sabe, isso é muito raiz do machismo. O machismo e a ditadura da beleza, também. Se fosse ok homem ter tetas, eu não ia querer nunca fazer uma cirurgia, cara. Eu não ia me incomodar tanto, sabe. Então, é muito uma ditadura da passabilidade, né, da passabilidade cis. Porque eu posso fazer a cirurgia que for, posso fazer a hormonização que for, cara, eu nunca vou ser cis. Não tem cara trans nenhum que vai ser cis-gênero. A única coisa que ele vai ser é passável. Vai ter a passabilidade cis.

Dan: É igual questão de barba, também, eu vejo que os meninos trans querem muito ter barba também. Parece que é uma predisposição genética com a hormonização, alguns vão ter e alguns não vão ter. e assim como pessoas cis, vão ter e não vão ter. É mais ou menos isso mesmo, né?

Luca: É, exatamente. Eu conheço um cara que tem dois anos de hormonização, ele não tem pelo algum no corpo. E não é porque ele fez depilação a laser. Não é isso. Porque ele não tem mesmo.

Dan: Eu tenho barba, mas minha barba foi implantada.

Luca: Sério?

Dan (entre risos): Sério.

Luca: Migo, depois a gente conversa isso. Eu quero tanto uma barba (ele ri).

Dan: tem um menino trans que vai colocar uma barba também, eu esqueci o nome dele. Ele faz até os peckers.

Luca: Ah, o David.

Dan: É o David. Acho que ele postou que ia fazer essa cirurgia, tanto que ele me perguntou como funciona, no inbox. Mas enfim, eu tinha o rosto muito feminino e me incomodava também. Então, eu optei em colocar essa barbicha, aqui. Ficou legal (ele ri). Apesar dos efeitos colaterais.

Lara: Desconstruir isso é muito difícil. Porque  o homem trans… Esse lance da disforia, né, louca, que chama…

Luca: Apesar de ser uma expressão muito patologizada, é essa que usa. Disforia de gênero.

Dan: NO caso, é disforia de gênero ou corporal? Eu não entendo muito…

Luca: Usa os dois. A disforia de gênero é essa ansiedade que a gente sente com o nosso gênero, e tudo. A disforia corporal é a ansiedade que a gente sente com o nosso corpo.

Lara: E é tudo raiz de uma grande palavra chamada machismo.

Luca: Chamada patriarcado.

Lara: Porque, nossa, o ódio ao corpo feminino… Caralho, é muito pesado isso.

Dan: É mesmo, Lara. Agora que eu tava reparando. Essas disforias, geralmente, a maioria das coisas estão relacionadas ao feminino, né.

Lara: Sim. Ouvi na sua fala. Tipo, você se sentia muito feminino com o seu rosto sem barba.

Dan (entre risos): Sim!

Lara: E a sociedade te oprime, fodido, por isso. Como assim, você é um homem que tem rosto de mulher? Como assim? Você é menos homem por isso.

Dan: Em alguns momentos, mais na adolescência, era bem andrógino, sabe… Aí, isso me incomodava. E eu já tinha que aprender, ali, engatinhar com a minha homossexualidade. Tem que engatinhar com questões de gênero que eu nem entendia na época, era muito frustrante, sabe, assim, e os apelidinhos eram muito feios.

Luca: Outra coisa pra desgraçar mais um pouquinho a cabeça da gente, o que é um rosto feminino, cara? Sei lá, o que é o feminino, sabe?  Porque você tá com a sobrancelha muito feminina. O que é uma sobrancelha feminina? Ah, você está com uma roupa feminina…

Lara: E esse é o problema, porque se for feminino, qual é o problema de ser feminino?

Luca: Exatamente.

Dan: Eu acho que, à medida que a gente vai se empoderando, a gente não se preocupa mais tanto com essas coisas, mas muda mais numa hora certa. Eu acho que evita mesmo o sofrimento, se eu tivesse mais empoderamento.

Lara: Só o fato da gente entender, né, que acontece, já diminui demais o sofrimento. Porque, igual o Luca, ele sabe que o lance das tetas dele é algo resultado do patriarcado. Tipo, ele só vai ser homem de verdade se ele passar pela horm… (ela não consegue pronunciar) Como é que é, gente? (Dan ri) Hormonização. Isso. Oh, God!

Luca: Cara, e isso é muito louco de se pensar, porque a gente, que é homem trans, a gente sofre. Só que a gente consegue a passabilidade muito mais rápido do que as meninas trans, cara. Tipo, a mulher trans vai ser chamada do homem de saia até o seu segundo ano de hormonização, porque os hormônios são mais fracos, e tudo. Então, a opressão é muito maior pra as meninas trans. Tanto do machismo, aí em dobro, né, quanto transfobia.

Dan: Eu nunca tinha pensado sobre esse tipo de situação. É que são coisas que a gente não tem vivência, e acaba que a gente realmente, de fato, não sabe. É até bom deixar isso claro para os ouvintes.

Luca: Porque, tipo, como assim, você era um homem e agora você quer se rebaixar a uma mulher, entende? É muito isso.

Dan: Uhum. É, eu não tinha pensado por esse ângulo. Nunca tinha feito essa linha de pensamento. Enfim, falemos sobre, agora, o vídeo… Esse parece que é o vídeo da Lara, né, “Oito fatos da cultura afro-brasileira”. Só pra dar uma explanada pra gente, Lara?

Lara: Então, esse vídeo eu fiz só porque eu tava cansada de escutar que macumba é magia negra, gente… Ai, ai…

Dan: Sim, eu cansei, durante toda minha vida, também.

Lara: Eu imagino.

Luca: Coisa do capeta!

Lara: Esse vídeo aí foi só pra esclarecer alguns dogmas que a gente carrega na nossa língua, e ver que a nossa cultura afro-brasileira é enorme. Meu deus, esse vídeo aí tá até curto pro tanto de coisa que daria pra ter falado.

Dan: eu acredito que, na  verdade, vocês fazem vídeos curtos por causa de como funciona no Youtube. No Youtube tem que ser rápido e objetivo. Ao contrário do podcast, que a gente pode ficar aqui, horas e horas, conversando, e não tem importância,…

Luca: Nossa, a gente perde muito nisso. Igual agora que a gente fez a série com os secundaristas, a gente teve que dividir uma conversa de uma hora, em três partes, porque se não o pessoal não assiste.

Dan: Não assiste, isso é fato. É porque, talvez, o podcast seja mais fácil de ouvir na academia, de ouvir lavando vasilha, ouvir no metrô…

Luca: É mais leve…

Dan: É. Dá pra poder levar. E o próximo vídeo é “Resistência”, que quem tá aqui na capa do vídeo é o Luca.

Luca: eu mesmo, Luca Melo.

Lara: Um poeminha lindo que essa princesa fez pra gente.

Luca: Ah, a gente tava aqui na cama, falando, e aí, o que a gente vai gravar hoje? Não sei, ninguém sabe. Aí, a gente começou a escrever um poema, e falou, quais são as opressões que a gente sofre? Colocou tudo nesse poeminha e falou, vamos gravar. E a gente gravou esse poeminha aí, chamado Resistência.

(INSERÇÃO DE ÁUDIO, LUCA RECITA O POEMA)

Existir

Resistir

Escolher

Sobreviver

Escolher? Verbo que sugere opções.

Escolher? A razão que sobrepõe emoções.

Escolher? Escolhi ou me escolheram?

As opções de mim recolheram.

Ao mal do mundo fui exposto, fui sujeito.

Me criticam, me julgam, me machucam,

Será que é meu jeito?

Escolher? Entre certo ou errado?

Igreja ou Estado?

Escolher? Mas não dá na mesma?

Existir, pra que? Pra quem?

Te colocam no mundo e roubam sua consciência

Como se tudo fosse fruto de uma grande experiência.

Viver, perde o sentido.

Sobreviver, condição sem ao menos ter vivido.

Sugam suas escolhas e a única Opção é:

acreditar que está escolhendo.

Condição imposta, sem estudo, sem contra-proposta.

Ser humano, não importa, te transformam em um produto.

Te colocam em uma caixa, um rótulo.

Uma única opção, uma única proposta.

O fora do padrão não existe, #RESISTE!

Hétero ou Homo?

Cis ou Trans?

A única opção, aqui, eu valido:

#RESISTÊNCIA !

(EFEITO SONORO DE APLAUSOS)

(FIM DA INSERÇÃO DE ÁUDIO)

Dan: No próximo vídeo tem “Preta e trans na mídia”, e acho que tem aa ver com representatividade, né, que vocês falam.

Luca: Sim, exatamente.

Lara: Ah, eu tenho que falar uma coisa.

Dan: Diga.

Lara: A mis Brasil é negra, gente (ES de troca de socos). Chupa. Chupa essa, gente. Chupa essa! Meu deus…

Dan: Ah, eu tô vendo no Twitter e no Facebook. Estou amando isso.

Lara: Nossa, você faz ideia de tanto que isso é maravilhoso? Não, gente (ela fala entre risos). Eu fico imaginando, eu tenho uma prima de oito anos…

Dan: Pra você, com 20 aninhos (Lara ri), é a primeira vez que você vê isso, né?

Lara: Não, então, demais!

Dan: Já ocorreu três vezes.

Lara: A minha prima, de oito anos, fica surtada. Porque é tão importante, eu fico vendo a falta que fez isso pra mim. Se eu tivesse… que eu era linda (ela ri).

Dan: Isso é muito importante, né?

Luca: Eu ainda tô esperando um Mister Brasil trans, hein… (ele ri)

Dan: Só pra falar rápido, existem dois homens trans… Eu acho que são dois homens trans, conhecidíssimos em nível de Brasil, mas que eu vejo os homens e mulheres e qualquer pessoa reclamando que eles fazem, às vezes, um desserviço para a população trans.

Lara: Eu imagino.

Dan: Que é tanto o Tammy, e…

Luca: E Tereza…

Dan: E Tereza Brant, que eu não sei se se apresenta como homem trans, na verdade. Que até isso eu sou confuso.

Luca: Não, ela não se apresenta como homem trans.

Dan: Ah, então posso falar A Tereza, né?

Luca: É. Pode falar A Tereza mesmo. Ela diz que pra ela tanto faz, sabe. Eu encaro isso como gender fluid, que é não binário, né, um gênero não binário. Mas ela não se defende quanto a nada, né. Ela só fala assim, “ah, não, fiz umas alterações aqui no meu corpo porque eu queria. Não levanto nenhuma bandeira.” E fala umas coisas absurdas também (ele solta um riso), que são desserviço. Mas eu entendo muito a questão dela, por não querer se envolver politicamente com o assunto, né. Porque, a partir do momento que você se envolve politicamente com o assunto, você começa a carregar uma carga muito pesada, e muita gente não quer isso. Muita gente não quer esse peso nas costas. E por não pesquisar, não buscar informação, ela acaba falando umas merdas, né. Infelizmente.

Dan: O Tammy parece que tá alinhando, um pouco, o discurso dele e se organizando um pouco, aí…

Luca: Assim, ainda tem muito, né (entre risos). É porque a questão é a seguinte, O Tammy tá tentando se politizar, mas aquele ali é machista pra caralho, sabe. Ele é muito machista, mas muito mesmo, do tipo de falar “minha mulher não vai usar isso.” E, cara, isso não cabe, sabe, dentro do movimento. Isso é uma questão que a gente tá tentando desconstruir com os meninos de coletivo, e tal. Como é que a gente vai apresentar um cara que tá na mídia pra ser exemplo desses meninos, com um cara machista pra caramba? Porque a gente, quando se descobre homem trans, o nosso primeiro contato com a masculinidade é totalmente machista e opressora, né. E a gente acaba, na primeira instancia, no primeiro momento, se tornando machista e opressor. Mas, com o passar do tempo, a gente tem que ir desconstruindo isso. Porque não cabe você ser machista e opressor sendo uma pessoa trans. É muito contraditório isso, sabe. É incongruente. Então…

Dan: É até um bug, né, que dá na cabeça da pessoa, em ver uma pessoa machista e, ao mesmo tempo, sendo um homem trans.

Luca: Sim. O maior… O desserviço recente que Tammy fez foi ter se aliado ao partido que ele se candidatou agora, né.

Dan: Que medo daquilo, né?

Luca: Sim, é um partido totalmente opressor. E como que uma pessoa trans, assim, entre aspas, militante, se alia a um partido desse, sabe? Que é totalmente opressor, que não corre em nada atrás das políticas pra gente.

Dan:  E deixa eu só falar uma coisa pra vocês. Enquanto a gente tava conversando, eu lembrei que ele é candidato a vereador, né. E agora são 8h24 do dia 02 de outubro, só pra deixar registrado aqui. Ele tem 11416 votos.

Luca: Sério?

Dan: Sério, eu acabei de olhar aqui.

Luca: Já saiu os resultados? Já se ele se elegeu ou não?

Dan: Tem um aplicativo do TSE, você já ouviu falar?

Luca: Não.

Dan: Tem um aplicativo que chama “Resultados” do TSE, e eles vão dando o resultado já… como é que fala? Parcial. E aí, eu acabei de olhar aqui, e assustei com o tanto de voto. Ele tem, até o presente momento, mais de 11 mil votos. Só pra você saber (Dan ri).

Luca: É…

Lara: A gente vê que ele é uma pessoa visual, né. Ele é totalmente da mídia, e ele não aproveita em nada dessa influência dele.

Luca: Sim. E, assim, querendo ou não, os meninos vão votar nele porque é um representante ali, né. Na esperança de ser feito algo.

Dan: Isso é interessante. E falando nisso, só pra complementar de vereadores. A Indianara Siqueira, que é do Rio de Janeiro, pelo PSOL, não sei se você conhece… Ela é puta e candidata a vereadora. Ela tá com 6166 votos. Existe o coeficiente eleitoral… Existe até uns podcasts que explicam didaticamente como funciona…

Luca: Sim, saiu na última postagem do Mamilos…

Dan: No Mamilos… Talvez a Indianara Siqueira tenha grandes chances de ser eleita. Vamos torcer aí para Indianara. Enfim, né, voltando aqui na questão dos vídeos, pra gente dar prosseguimento, Vocês também falaram que vai ter preta lisa, sim. Eu acho que a gente já até discutiu isso, né?

Lara: Já (ela ri). Vamos cagar nada aqui, hein.

Dan: É, não vamos cagar nada. “Manual do homem Trans” eu achei tão legal a capa do episódio.

Lara: Esse é o melhor vídeo (Dan ri). Inclusive é o que tem mais visualizações.

Luca: Ah, gente, tipo, não é que é o melhor, não sei (ele ri)…Ah, cara, nesse vídeo aí eu quis dizer que não tem nada externo que vai te fazer homem, só você se sentir homem, sabe. Mesmo pra quebrar os estereótipos do que é ser um homem, sabe, porque muita gente caga mesmo o que você tem que fazer, né, pra você ser homem. E aí nesse vídeo eu falo que não precisa de nada disso. Você pode ser viado e pode ser homem. Você pode ser o que você quiser e ser homem. Você pode ser uma flor, e se sentir homem, vai ser homem.

Dan: Bacana esse episódio. E depois, “O papel do homem no feminismo”. Agora eu queria entender qual é o papel nosso, aí?

Luca: Polêmico, cara, polêmico (ele ri).

Lara: É louco pensar isso porque eu acho muito importante os homens estudarem sobre o nosso movimento.

Luca: Partindo desse viés, eu ainda quero fazer um vídeo falando sobre por que o homem trans precisa do feminismo, sabe. Porque o movimento feminista… Igual, tipo assim, eu como homem trans, não posso tomar a frente do movimento. Óbvio que não. Mas eu posso tá inserido dentro do movimento, como homem trans. Porque, igual eu, Luca, foram 18 anos da minha vida  sofrendo (incompreensível) que as mulheres sofrem, sabe.  Até hoje ainda sofro opressões que as mulheres sofrem. Claro que em menor escala hoje, por ter passabilidade. Mas por 18 anos a minha vida foi a vida de uma mulher, eu sofri as mesmas coisas que a mulher sofre. E hoje eu ainda sofro dentro de casa, pelo machismo, porque minha família não me aceita, ainda me lê como mulher. Então, eu não posso falar na frente do feminismo, mas estar dentro do feminismo e conversar com as meninas sobre o feminismo, por que eu não posso? Entendeu. E tem muito isso dentro do feminismo, de barrar todos os homens, sabe, não fazer recorte.  Na questão do masculino, na questão do homem, não fazer esse recorte de homens trans, e tudo. Porque é feio dividir homens cis de homens trans, mas nesse ponto, é necessário, entendeu.

Dan: Entendi. E isso acho que é importante, saber o local de fala da gente, que nos remete até o vídeo… Tem um vídeo que fala de local de fala, cadê? Ah! “Você consegue opinar. O famoso local de fala”. E parece que vocês até falam daquela treta, lá, do photoshop da Cléo Pires e o…

Lara: Sim, e como é o nome daquele cara?

Luca: O Paulinho… Paulinho Vilhena.

Dan: é, Paulinho Vilhena. Eu achei aquilo meio escroto…

Luca: Quem não achou, né, meu querido?

Lara: Ah, mas o melhor desse vídeo é a gente colocar ali que existe uma grande diferença entre se sensibilizar e usar o lugar de fala, né. Porque você pode, muito bem, se sensibilizar com determinado movimento, igual eu me sensibilizo com o movimento do Luca, como homem trans. E ele, como eu, no lance da mulher negra, e tal. Mas a gente não pode tomar o lugar de fala de nenhum dos dois, cara. Cada um tem ali o seu espaço, a hora certa de dar pitaco.

Luca: Cara, é muito engraçado, porque eu não sei como é que…

(A FALA DE LUCA É INTERROMPIDA POR UM CORTE SECO NO ÁUDIO)

Dan: O trabalho dele parece bacana, mas parece que é bem criticado por gays e por trans também, né, assim…

Luca: Ah, não sei, não conheço o trabalho dele.

Dan: O Neto…

Luca: Ah, o Neto Lucon…

Dan: é, ele só escreve sobre trans. E ele já falou que sofre, às vezes, ataques dos dois lados.

(OS TRÊS FALAM AO MESMO TEMPO, INCOMPREENSÍVEL)

Dan: Gente, nós temos também os próximos vídeos, que tem um que tá escrito assim, “Ele ou ela”. Que parece que é com o Luca, no caso, né, Luca.

Luca: É porque muita gente ainda erra meu pronome, né. E muito homem trans, aí, muita mulher trans têm seus pronomes desrespeitados, né. Pronomes, prefixos, sufixos, coisas assim. Foi só um vídeo desabafando mesmo, dizendo, gente, para. Para de usar pronome errado. Viu uma pessoa mais andrógina, ou não interessa, viu uma pessoa e quer conversar pra ela, chega e pergunta, “meu querido, o que você prefere, que te chame de ele ou de ela?” é tão simples isso. Se uma pessoa chegasse em mim e perguntasse “é ele ou ela”… Cara, quando uma pessoa chega com essa pergunta em mim, eu não fico ofendido, eu fico feliz, sabe. Porque a pessoa teve essa preocupação de não me tratar de um jeito que eu não ia gostar. É só um recadinho mesmo, pra as pessoas cis, aí, sabe (ele solta um riso). Não só as cis… Ah, sim, as cis, né.

Dan: É, sobretudo as cis, que são as mais transfóbicas, no caso. Enfim, e por fim temos aí a série dos vídeos do Ocupei, né… (ele faz um muxoxo) Dos secundaristas, que parece que é um movimento que vocês acompanharam aí, no estado de Goiás, é isso?

Migo, não queria falar nada não, mas você pulou dois vídeos que são maravilhosos, viu? (ele ri)

Dan: Sério? (ele ri também)

Luca: Sério.

Dan: Pera aí…

Luca: Que é esse “queria”… É que a gente pulou…

Dan: Ah, é! “Queria tanto namorar um homem trans”.

Luca: Sim.

Lara: Esse é polêmico.

Dan: Pode falar, Luca.

Luca: Cara do céu, o que as pessoas acham que a gente é? Sabe, uma pessoa trans é bichinho de estimação? Só pode. Tipo, “ah, vou namorar um homem trans aqui, porque ele vai solucionar todos os meus problemas do meu sentimental, do meu emocional. Eu vou chegar em casa, ele vai tá lá, com um chazinho, um biscoitinho, pra sentar, eu deitar no colo dele, e me ouvir, de boas” Tipo, não é isso não, cara. Pô, a gente não é tão sensível… Sim, a gente é sensível, mas em outras áreas, sabe. Tem homem trans escroto pra caralho, machista pra caralho, e tudo. Então, a gente é normal, sabe, a gente não… É porque as pessoas olham muito assim, “ah, (ele faz um muxoxo) era uma menina, né. Menina é mais sentimental, então, vamos lá.”

Lara: Nossa, isso é pesado.

Luca: Sim, isso é pesadíssimo.

Dan: Eu não tinha pensado nisso, não. Mas parece que tem muita gente que, às vezes, quer pagar de desconstruidão, e quer ficar com uma pessoa que é trans só pra provar um ponto, sei lá, que é uma pessoa…

Luca: “Ah, eu não sou transfóbico.”

Dan: é. “Até já namorei um trans.”

Lara: “Eu não sou racista, tenho até amigos negros.”

Luca: “Até já beijei pessoas trans.” (Dan ri)

Dan: Eu imagino que isso deve ocorrer mesmo, assim. Engraçado, né, essas pessoas são meio assim, toscas, né. São pessoas bem podres em relação a esse tipo de situação. Outras, eu não sei… Quando eu era gay e adolescente, tinha muitas meninas (ele fala com voz aguda) “ai, você é meu amigo, porque eu sempre quis ter um amigo gay. Que amigo gay é bom, que me entende!”

Lara: Ave maria.

Dan: Ai, eu me sentia um chaveirinho.

Luca: Um gay de estimação.

Dan: Era, um gay de estimação. Talvez essa nova relação, até essa nova visibilidade que estamos dando está abrindo espaço pra esse tipo de gente tosca, que não quer mais um chaveirinho gay, porque um chaveirinho gay já não é novidade. Eu agora quero um chaveirinho trans. E de preferência, um chaveiro trans gay, que aí vai ser melhor ainda (ele ri).

Luca: A gente costuma falar que são as Marias Testosteronas, né. Os T-lovers. (Dan ri)

Dan: É, T-lovers eu já ouvi, mas Maria Testosterona, não (ele ri mais).

Luca: É. Nossa, tem muito isso de Maria Testosterona. Outro dia, uma menina me adicionou no Facebook, eu fui olhar os amigos dela, só homem trans, cara. Tipo, meu… (ele ri) Tá ok. O que você quer comigo? Quer, sei lá… Sabe? (Lara responde, mas é incompreensível). Sim, você fica sem saber. Sabe, tipo,, e aí? Por que você só tem homem trans?

Dan: E se posicionar perante essas pessoas deve ser complicado, hein, Luca…

Luca: Sim.

Dan: Não quer ser mal educado, mas a melhor resposta é ser mal educado mesmo, com tipo de pessoa assim…

Luca: Ah, cara, eu fico calado. Eu não respondo. Quando eu vejo que é assim, eu, tipo, se insistir demais eu falo, “só para, por favor”.

Dan: É complicado. Enfim, e temos o vídeo do secundarista… Ah, não, temos tem os três desafios das estrelas do Youtube… Não, terceiros… (ele se interrompe).

Luca: “Terceiro desafio das não estrelas do Youtube”.

Dan: isso.

Lara: Essa foi nossa tentativa de ficar famoso. Mas acho que não deu muito certo, não.

Dan: É (ele ri, os outros dois acompanham).

Luca: Ainda não acabou o desafio. É porque esse youtuber, chico Rezende, ele já é conhecidinho, e tal. E aí, ele faz um desafio todo ano, que é pra poder divulgar youtubers…

Lara: Pequenos canais.

Luca: é, pequenos canais, que estão começando. Têm pouca visibilidade. E aí, a gente fez esse vídeo aí pra mandar pro desafio, né. E aí, ainda tá acontecendo a separação, porque é dividido em grupos. O grupo A, grupo B, grupo C. E tá no grupo D, se não me engano. E a gente ainda não entrou. Mas vão ter outros grupos. E eu acredito que a gente vai entrar. E aí, depois começa as votações, sabe. Aí a gente pede pra dar aquela moral pra gente, pra votar, pra gente conseguir uns seguidores, aí…

Dan: Ah, bacana, bom saber.

Luca: Sim, a gente achou muito importante entrar nesse desafio porquê as pessoas que veem ele é exatamente as pessoas que a gente quer atingir, que são as pessoas que tão fora do movimento, né. São as pessoas que têm que ouvir o que a gente tem pra falar.

Dan: Entendi. Eu acho que é difícil a gente conseguir visibilidade, e eu acho que quem já tem visibilidade tem um papel importante em nos ajudar, né, pra gente aparecer com nosso trabalho. Até mesmo porque isso demanda tempo, né, as pessoas acham que é só pra querer like,mas isso gasta tempo pra cacete.

Lara: Nossa, dá um trampo.

Dan: Ou gasta tempo, ou gasta dinheiro. Depende do… (ele ri)

Luca: É, igual… que a gente investe. A gente tá começando a investir dinheiro no canal. Mas não é porque a gente quer ganhar dinheiro. Dinheiro é consequência, sabe. E a gente não visa dinheiro, a gente não visa lucro com o nosso canal. Até porque, pra a gente ter um canal desse tipo de assunto, é quase que impossível a gente ter lucro…

Dan: o meu sonho era, se eu ganhasse dinheiros, eu comprar equipamentos melhores, entendeu. Fazer um áudio melhor, um áudio mais limpo.

Lara: Engraçado que a gente quer melhorar, quer ganhar grana pra melhorar o canal, pra as pessoas terem algo de qualidade. Isso é mais incrível.

Dan: Isso! (Lara ri) Eu queria ter, assim, dinheiro pra poder pagar um publicitário para me ajudar na identidade, sabe. Essas questões. Acho muito mais importante do que o dinheiro mesmo…

Lara: Comprar meu iPhone 18 (todos riem).

Dan: No caso do iPhone, como eu já sou formado, já sou um tio, né, aí eu…

Lara: Tá se sentindo o senhor do rolê, né (Dan dá um riso muito agudo), como assim, Danilo? (Lara ri)

Dan: Brincadeira. Eu gosto da idade que eu tenho. Mas, assim, realmente, existe uma diferença muito grande de 5 anos. É quase uma geração pra outra. Acho bacana dialogar e ver essas coisas assim. Acho diferente e interessante. Mas enfim, meninos, só rapidão, pra gente fechar aqui, vocês têm dois vídeos aí, que é Parte 1 e Parte 2, que vocês falam só a Parte 3, que vocês acompanharam os secundaristas, né. Dá só uma explanada, como que é, o que esses secundaristas estão defendendo, assim, rapidão, só pra… Bem sucinto, deles…

Lara: você fala ou eu falo? (ela ri)

Luca: Se tiver alguma coisa pra falar, pode falar, porque depois que eu começar aqui, minha filha, não tem quem me pare, não (todos riem).

Lara: Então, vamos deixar claro que essa parte do nosso canal não tem muito a ver… Aliás, não tem nada a ver com a nossa militância LGBT e movimento negro.

Luca: Na realidade, tem a ver, sim.

Lara: Na verdade, não tem a ver (ela ri).

Luca: você sabe por quê?  Porque os secundaristas lutam por uma educação melhor, tendo uma educação melhor, uma base de educação, os nossos assuntos vão começar a ser tratados dentro das escolas.

Lara: Tá, mas além desse nosso movimento, em geral. É importante lembrar, também, que os secundaristas são apartidários, né.

Dan: Ah, sim. Mas acaba não sendo um movimento que tende ir à esquerda, no caso?

Luca: Não, porque, assim, Danilo, as pautas que eles procuram são de esquerda. Mas isso não é partido, entendeu. Ser de esquerda não é tomar partido… Não é ser partidário. Partido, que a gente pega aqui, é questão de levantar a bandeira de PT…

Dan; PT, PSOL, né, o deus que me livre do PMDB e do PSDB, por exemplo…

Luca: Sim, né… Eles não levantam essas bandeiras. Eles são apartidários. Só que as pautas que eles buscam são de esquerda.

Lara: Porque, assim, aqui no nosso estado, e está acontecendo em outros estados também, estão querendo privatizar a escola. Ou seja, privatização é uma teoria neoliberal do partido de direita. Então, quando a gente vai contrário a isso, o movimento acaba sendo de esquerda, né, por conta dessa reivindicação do movimento. Mas não necessariamente levanta uma bandeira, e tal.

Luca: Eu não sei como tá a situação das escolas em Minas Gerais, né. Mas aqui a gente tem o nosso querido Governador coronel, que decidiu que vai privatizar tudo. Ele já privatizou a saúde daqui, já entregou o SUS na mão de empresários, o que transformou o SUS numa porcaria maior ainda. Tá? Acabou com a saúde pública aqui do estado de Goiás, e ele tá querendo entregar as escolas estaduais também, na mão de empresários. E os secundaristas, o movimento estudantil, correm atrás…

Lara: É totalmente ao contrário disso.

Luca: Sim. Correm atrás da não terceirização… Da não privatização das escolas. Nesse vídeo, o Guilherme, que é um secundarista que a gente procurou pra falar sobre isso com a gente, que a gente não tem conhecimento nesse assunto, ele explica pra gente por que as OSs vão ser ruins pra as escolas, por que não é bom, tanto pro professor quanto pro aluno, privatizar.

Lara: E pra comunidade, né.

Luca: E pra comunidade também. Privatizar o ensino.

Dan: Entendi.

Luca: E essa luta é uma luta que recebe muita repressão, né, muita opressão. Adolescentes sendo presos, menor de idade sendo preso. Menor de idade apanhando da polícia. Menor de idade levando arma na cabeça, de policial à paisana, sabe, só porque tava no cadeirasso, manifestando pela sua educação. Então, a gente achou importante trazer essa pauta pro canal principalmente porque a forma de atuar dos secundaristas, a principal forma, é com ocupações. E eles ocupam as escolas. Eles fazem… Quer terceirizar tal escola, eles vão lá e ocupam a escola. Dormem na escola. Organizam projetos dentro da escola. E não deixam ninguém entrar, como forma de protesto, entendeu. Então, o nome do nosso canal é Ocupei…

Lara: É aí que a gente entra…

Luca: É aí que a gente entra. A gente tem que trazer essas pautas, que são marginalizadas, pra dentro do Youtube, de um jeito que, de outras formas, elas não conseguiriam chegar nessa mídia, pra chegar a outras pessoas. Então, a gente tá tentando quebrar esse formato de só nossa pauta LGBT e feminismo negro, pra poder caber outras pautas também, que não têm visibilidade no nosso canal. Que, afinal, o nosso nome é Ocupei, né. A gente ocupar.

(VINHETA: ENTRE EFEITOS SONOROS DE IMPACTO E DE DISTORÇÃO DE ÁUDIO, A VOZ ANUNCIA “MOMENTO SUPER PODERES!”)

(FADE IN E FADE OUT DE TRILHA SONORA)

Dan: Gente, enfim, pra finalizar, temos que, agora, perguntar qual é o super poder de vocês dois?

Lara: Ai, tô me tremendo toda (ela e Luca riem nervosamente). Qual é o seu poder…

Luca: Qual é o seu super poder, Lara?

Lara: Não, eu tô pensando ainda (ela ri).

Luca: Você teve uma semana pra pensar, menina… (ele ri)

Lara: Filho, você acha que é fácil? Pensei em tanta coisa.

Luca: Então, eu já vou falar o meu super poder. Eu acredito que eu sou muito privilegiado de ter o poder de fala, né. E eu consigo ir na frente de plateia e tudo, e conseguir falar. Conseguir trazer o que eu penso, e conseguir falar sobre demandas. Então, conseguir ter desenvolvido isso, com o tempo, porque eu era tímido pra caramba. Conseguir ter desenvolvido isso, com o tempo, eu acho que é um super poder, porque hoje eu sou chamado pra fazer algumas rodas de conversa e eu sei que, a partir disso, ocorrem mudanças. É esse o meu super poder. Poder de fala 9ele ri).

Lara: Engraçado, porque o meu super poder é praticamente quase o mesmo. A diferença é que, aproveitar desse privilégio de poder falar, ter o super poder de que todos que me escutem consigam entender. Porque tudo bem eu falar, poder falar, mas eu quero que essas pessoas que me escutem consigam absorver tudo que eu tenho pra passar. E acho que isso seria o mais importante, conseguiria alcançar muito mais gente. E fazer uma mudança muito maior.

Dan: Bacana. Eu imaginava que o super poder de vocês seria esse (ele ri).

Lara: Sério? Ai, que previsível! (todos riem) E eu passei uma semana!

Luca: “Ai, acho que eu queria ser a Vampira.!

Dan: Desde o primeiro dia, eu falei assim, eles vão falar esse super poder. Eu já sabia. Enfim, gente…

Luca: Migo, por que você não ajudou? (Dan ri)

Dan: Eu deixo pra fluir naturalmente. Meninos, muito obrigado, foi super divertido. Inclusive, esse é o maior programa que eu gravei. Mas a conversa tava tão gostosa, que eu preferi não cortar. E outra, quem ouve podcast sabe que, às vezes, um programa pode render duas horas. Então, fiquem aí com nosso duas horas de programa. Muito obrigado pela disponibilidade, foi super gostoso, pela montagenzinha que vocês fizeram com a arte do programa, com o grupo do Whats App…

Lara: Ai, eu sou muito designer! (eles riem)

Luca:  Arte-finalista, sim…

Dan: Enfim, obrigado. E vocês podem dar o tchau e fazer só um posicionamento, rapidão, para os nossos ouvintes.

Luca: ´Gente, dá uma passada lá no nosso canal. É só digitar no Youtube, Ocupei, que tu já acha ele. (Lara fala algo, mas é incompreensível, depois do quê, ela ri). É esse iconezinho que tá aí no podcast, vocês vão ver… (todos riem)

Dan: Enfim, é… Lara? Vai dar o seu tchau?

Lara: Ai, meu tchau é “tô nervoso” (eles riem).Não, mas, então, eu quero que as pessoas escutem até o final, né, porque é pra elas entrarem no nosso canal. E… o que mais? Não sei dar tchau. Fico triste…

Dan: Fala “tchau” (ele ri). Então vamos fazer igual aos meninos do podcast, vamos dar um tchau coletivo, todo mundo… Tchau!

Luca e Lara: Tchau!

(FADE IN E FADE OUT DE TRILHA SONORA)

FIM

(Transcrito por Sidney Andrade)

 

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