Transcrição – #07 LGBTTs: João W. Nery

TRANSCRIÇÃO – HQ DA VIDA #07 LGBTTs: João W. Nery

Vinheta de abertura: entre efeitos sonoros de impacto, uma voz com reverberação anuncia “HQ DA VIDA, o seu podcast sem quadrinhos.”

(Trilha sonora de Background alusiva a histórias em quadrinhos)

Dan: Olá, pessoal, aqui é Dan Carreiro.

Sidney: E eu sou o novato, Sidney Andrade.

Dan: Estamos com o nosso sétimo HQ da Vida. Esse é um podcast que, como alguns já sabem, tem como objetivo contar histórias. Nessa primeira temporada, iremos mostrar pra vocês histórias de super LGBTs. Espero que vocês curtam, compartilhem e nos deem críticas sobre o programa. O seu feedback é muito importante para nós. Então, Sid, diga aí como os ouvintes poderão entrar em contato conosco.

Sidney: Os ouvintes podem entrar em contato conosco a partir da página do Facebook do HQ da Vida, que é Facebook.com/hqdavida; podem assinar o canal do HQ da Vida no Youtube, só procurar por “HQ da Vida Podcast”; também podem nos seguir no Twitter, @hqdavida; ou mandar um email para hqdavida@gmail.com; E também, a gente pede que você ouvinte, que tem uma conta do iTunes, vá lá no campozinho do Podcast do iTunes e dê 5 estrelinhas pra gente, pra que o nosso podcast possa ficar em destaque e mais pessoas consigam achar o HQ da Vida.

Dan: É isso aí. Então, gente, como vocês já ouviram no primeiro HTreta, que é um quadro novo que abrimos, nós temos agora um novo host, que vai ser o Sidney Andrade. E o nosso convidado do dia é o João Nery.

Sidney: O João Nery é considerado o primeiro homem trans a ser operado no Brasil.

Dan: E também é ele quem dá o nome do projeto de lei de identidade de gênero do deputado Jean Wyllys. Ah, eu adorei essa introdução, eu me senti uma Cris Bartes e uma Ju Walauer apresentando o Mamilos (eles riem).

Sidney: Ah, eu quero ser a Cris.

Dan: Eu tenho que ser a Cris, porque eu sou mineiro (ele ri).

Sidney: Nada disso, chega de bairrismo. Não. Vamos misturar essas fronteiras (Dan ri).

Dan: Enfim, gente, vamos lá, e vocês vão ouvir nosso programa.

(FADE IN E FADE OUT DE TRILHA SONORA)

João: Posso me apresentar agora?

Dan: Pode começar a se apresentar.

João: Diz quando.

Dan: Valendo.

João: Meu nome é João W. Nery. Eu sou psicólogo, sou escritor, sou ativista dos direitos humanos, e sou considerado pela mídia o primeiro homem trans operado no Brasil, em 1977, durante a Ditadura Militar.

Dan: Oh, João, eu te conheço pela internet, te sigo no Facebook há um ano, dois anos talvez, e eu acho muito bacana conhecer sua história, no geral. Mas eu nunca tinha parado pra ler o seu livro, até o mês passado, ou retrasado, quando eu li seu livro e fiz essa viagem na sua própria história. É uma história… Como que fala? Muito interessante. E eu acabei, assim, me emocionando, mesmo não sendo um homem trans. Eu sou um homem cis, gay, porém, acaba que a gente entra dentro daquela história, daquele universo que você foi nos mostrando. A gente vai elencar alguns pedaços do seu livro. E eu gostaria de trabalhar, no início, dessas histórias, né, começar a falar um pouquinho da sua infância, só para os ouvintes saberem como é essa sua infância. E aí, depois, a gente vai chegar até o final, que eu gostaria muito que você explicasse pras pessoas quem é o João hoje, por que temos uma lei chamada Lei de Identidade João Nery, que o deputado Jean Wyllys deu esse nome a essa lei. Só para que os ouvintes possam entender um pouquinho do que é o livro “Viagem Solitária”.

João: Bom, eu nasci em 1950, numa época em que a palavra “transexual” ainda não existia. Então, eu, na minha infância e na minha adolescência, até os 26 anos, eu desconhecia a palavra “trans”. Então, eu não tinha um rótulo. Que todo mundo foge dos rótulos, mas eu procurava um pra poder me entender melhor, né, dentro dessa cultura tão transfóbica, então… Enfim, e eu nasci numa família de classe média, pude estudar, mas durante a minha infância, eu não era compreendido por ninguém. Eu me sentia um menino desde os 4 anos, mas eu aparentava, né… Enfim, eu era educado como uma menina, pra ser uma menina. E isso daí era um conflito muito grande, eu sofria transfobia na pracinha onde eu brincava, me chamavam de “Maria Homem”, depois no colégio me chamavam de “Paraíba”, eu era visto como uma lésbica, mas eu nunca me senti lésbica, porque apesar de eu gostar de mulher, eu nunca me senti uma mulher. E aos 9 anos, minha mãe me leva numa psicóloga, que também não diagnosticou como transexualidade, porque não existia essa palavra, não havia internet, não havia celular. Eu só fui conhecer um trans aos 30 anos de idade. Eu pude trocar, então, experiências e vivências relativamente parecidas. É isso, quer dizer, foi uma fase muito difícil, mas eu nunca fui rejeitado pela minha família, isso é um dado muito importante pra qualquer pessoa, acho que tanto trans quanto gay. Embora, né, a família não entendesse, mas eu nunca fui expulso de casa. E na minha adolescência,  surge o golpe de 64, eu tinha 14 anos, e eu vivencio, então, todo o ato político. O meu pai foi caçado, foi exilado no Uruguai. E eu passo a militar dentro da política também, no movimento estudantil. Então, a sexualidade não era a única questão da minha vida. Haviam outros fatores importantes também. E minha irmã foi presa, foi torturada, enfim. Tive muitos amigos mortos e desaparecidos durante a Ditadura. Então, esse é um ponto essencial. Não existia academia, eu fui fazer ginástica por minha conta. E eu, apesar de fazer parte de uma equipe feminina, né, eu gostava, né, porque eu adoro água, sou muito calorento até hoje. Então, consegui, inclusive, ser campeão brasileiro dentro dessa modalidade. Me formei em Psicologia, como… Numa identidade feminina. Lecionei em três universidades. Comecei a fazer um mestrado. Mas sempre discriminado pelos professores, os alunos também não entendiam muito a minha figura. Eu era sempre fonte de curiosidade, enfim.

Sidney: E, João, no comecinho da tua adolescência, e tal… Eu comecei a ler o livro, né. E no livro você fala das suas experiências românticas, amorosas, eu queria que tu contasse como é que acontecia isso, né. Como é que você lidava…

João: Ah, eram paixões… eu me apaixonei pela primeira vez aos 6 anos de idade, por uma coleguinha da minha turma. Só que só eu sabia (ele solta um riso) desse amor. Eu nunca pude transmitir à outra pessoa o que eu sentia. Isso só foi ocorrer no final da minha adolescência, né. Então, tanto que a minha primeira relação sexual foi aos 19 anos. E eu amava sozinho, porque eu descobri que eu não podia revelar à pessoa que eu gostava o meu amor. Então, era uma coisa solitária, muito. Mas nem por isso eu deixava de me apaixonar. Embora não tivesse correspondência.

Sidney: Eu também acabei de ler um trechinho do seu livro, que você fala da sua brincadeira, que era… Zé e Zezinho… se eu não me engano…

João: Ah, o Zé e Zeca.

Sidney: Zé e Zeca!

João: É. Essa brincadeira foi feita com a minha irmã caçula, um ano… dois anos mais nova do que eu. Eu que queria a brincadeira. Eu era o Zeca, ela era o Zé, nós éramos dois homens adultos, na nossa imaginação, que moravam na casa dos nossos patrões, que eram meus pais. Éramos viúvos, pra justificar a falta de mulher. E as bonecas que nós tínhamos eram nossos filhos. Aí, a gente armava um barraco, com uma rede, botava uma escada em baixo, fazia uma cabana, e a gente brincava de boneca, como homens, como pais. E eu vivia essa brincadeira o dia todo, a escola era meu escritório, qualquer tarefa que eu fosse fazer em casa era justificada porque eu morava de graça naquela casa. Então, quando mamãe me pedia pra varrer o quintal, não me faltava vontade de fazer isso, porque em agradecimento a ela me receber naquela casa. E assim passava o dia dentro de uma identidade masculina. Claro, só pra mim. Pra minha irmã, não. Pra ela era uma mera brincadeira, e ela só exercitava em casa, quando a gente brincava mesmo. Eu não, eu passava o dia inteiro dentro dessa fantasia, mas eu sabia que era uma fantasia, não era uma alucinação. Eu não tava delirando. Foi uma forma que eu descobri de poder escapar dessa realidade tão massacrante pra mim. E eu considero essa a minha solução fantástica, porque me preservou de muitas coisas, de muitos sofrimentos.

Sidney: Sem querer, querendo, você acabou criando uma fantasia que encaixava você no mundo, né.

João: É. Eu era um personagem masculino. Porque a vida inteira me chamavam de “ela”, eu corrigia mentalmente pra “ele”. Era uma obsessão isso, pra mim. Eu me lembro, desde muito novinho, eu já consertava. Toda vez que chamavam “ela”, eu consertava pra “ele”. Um dia, eu peguei o diário dessa minha irmã menor, e eu rabisquei, eu consertei todos os As pra Os, quando ela se referia a mim.

Sidney: Tem uma experiência, assim, que você lembra, de quando você se deu conta disso? Ou sempre foi assim, natural? Não tem algo marcante…

João: Eu acho o seguinte, a identidade da pessoa é formada paulatinamente, em função dos valores, né, que você vive, da sua cultura, e que você se encaixa, que você se identifica. E eu me lembro que todos os valores femininos, né, ou pelo menos a maioria deles, eram valores proibitivos pra mim, no sentido de prazer. Eu não podia brincar na rua, eu não podia andar de carreta, eu não podia jogar bola, eu não podia subir em árvore. Nada. Eu era uma criança extremamente ativa, e que eu não podia botar nada disso em prática, porque uma menina não fazia essas coisas. Eu não queria ser menina. Eu acho que a coisa começa por aí, né. A minha não identificação com os valores que a cultura me impunha, como feminino. Se não tivesse, talvez, essas imposições, eu não sei se eu me identificaria como um menino. Isso aí é muito uma hipótese, eu não posso avaliar porque, na verdade, eu não vivi uma cultura tão avançada assim, né, como eu acho que deveria ser. Você ter opção de poder definir, escolher e se identificar com o gênero que você quiser. Mas a nossa cultura não dá essa opção. Então, eu rompi todas as normas, né. Mas eu sempre fui fiel a mim. Eu nunca me traí, apesar de todas as fases que eu passei. Teve uma época que foi a mais difícil pra mim, que foi a adolescência. Como é pra qualquer trans. Que é quando surge os hormônios, aí começa a nascer, no meu caso, mama…

Dan: Os intrusos, né…

João: Os intrusos, os invasores, como os homens trans chamam, né. Os trans homens. Eu prefiro até a expressão “trans homens”, porque bota o trans na frente. Eu, hoje, tenho o maior orgulho de ser trans. Eu acho, eu não quero ser esse homem dessa cultura, com essa masculinidade intoxicada, como reza hoje, né, na maioria dos homens, um bloqueio emocional, uma imposição de serem vencedores, campeões em tudo. E eu não sou assim, eu fui criado no feminino, e isso eu acho que me deu um alicerce muito legal, no sentido de eu manter a minha feminilidade em muitas coisas. Eu sou um homem que não gosta de futebol, eu sou um trans que não gosta de… Enfim, que sabe discutir relação, que vai a shopping, que vê vitrine, e se permite uma série de coisas. Ser fraco, chorar. Coisas que, normalmente, um homem na nossa cultura teria vergonha de dizer, né. Porque o pânico dos homens é serem bichas, né, na nossa cultura. Já nas mulheres, não, é ser puta. Não é ser lésbica. Então, são valores diferentes. E eu, querendo ou não, vivi num mundo do feminino. Conheço muito bem o que é o mudo feminino, o que é uma mulher. Embora não me identifique com ela.

Sidney: No livro, você conta que, durante a adolescência, até começando a idade adulta, se eu bem entendi, você sustentava uma aparência de mulher, né, até você dizia que você era visto como exótica, porque você podia, né, fazia parte de uma classe social que lhe lia não como estranha, mas como exótica. Enquanto esse disfarce, né, que você falava, que você se disfarçava de mulher, até pra poder passar…

João: É, aos 16 anos, eu tava com a autoestima tão baixa, e eu resolvi… Eu tenho três irmãs, felizmente não tenho irmãos pra me rivalizar. E eu sofri uma pressão das minhas irmãs, e eu acabei… E eu era a filha mais bonita, eu era considerado, fisicamente, uma mulher bonita, a mais bonita lá de casa. E eu resolvi experimentar o gostinho dos aplausos. Então, eu passei um ano e meio, que eu chamo o meu período de travesti…

Dan: É o capítulo “Tentando ser mulher”, né.

João: é, a tentativa de ser mulher. Eu sabia que tudo aquilo era uma brincadeira, era uma fase, só pra me divertir, e pra me fortalecer um pouco. Porque eu era… Eu agradava, eu não tinha a timidez das mulheres. Eu sabia lidar com os caras. Mas eu… Arranjaram um namorado pra mim, no primeiro beijo acabou o namoro. Mas enfim, eu tentei, né. Superficialmente, mas tentei.

Sidney: E como que você rompeu com isso? O que causou esse rompimento drástico, assim?

João: Pra me tornar travesti?

Sidney: Não, não. Quando você disse “desisto dessa farsa”.

João: Ah, a fase de travesti, que eu chamo.

Dan: Isso.

João: Não me gratificava, e eu sabia que eu tava o tempo todo encenando, né. Aquelas roupas, nada daquilo me dava prazer. Mas eu me divertia também, né, porque eu sabia que eu tava num teatro. Num grande teatro. Agora, não era eu. Não era a forma que me satisfazia. Não era a forma que eu queria ser desejado. Nada disso. Então, é difícil, né. Entrar no armário. A minha fase de armário. Mas eu acho que tem um limite. Eu sabia que aquilo era uma brincadeira e que ia passar. Não poderia continuar. Não acho, eu não me lembro se teve um motivo determinante, assim, um fato. Talvez os namoros e quererem empurrar homem pra cima de mim. Mas não deu, cara, não deu mesmo. Foi terrível (ele e Dan riem). Foi bom experimentar o gostinho, tentar ser cis uma vez na vida…

Dan: É, talvez até mesmo pela sua mãe, eu vejo que, assim, você fez muitas coisas, pelo livro… Andando pelo livro, eu vejo que tem essas tentativas, até em função pelo amor, assim, não que você queiram o amor de sua mãe, mas talvez, ali, criar situações que sejam confortáveis pra ela, durante a história sua, assim…

João: Ah, sim, com certeza. Eu acho que a gente tem uma fase na vida que a gente necessita da aprovação dos pais, né. Eu sempre decepcionava eles. Depois isso passa, essa necessidade passa. Mas, quando você é muito jovem, você precisa de aplauso, né. E eu não tinha reconhecimento de ninguém. Nem na escola, eu não tinha amigos, eu não tinha… Ninguém me aplaudia. Eu não era motivo de orgulho pra ninguém. Então, eu acho que isso interferiu muito também. Mas…

Dan: Oh, João…

João: Fala.

Dan: É que você fala de “eu não era motivo de orgulho pra ninguém”. Eu também sou professor. E aí, eu acho que uma das coisas que mais me fez, assim, entrando na história, sei lá, participando da sua vida, durante a leitura do livro, é quando você conta sua época de docência e, sobretudo também, na adolescência, quando você conviveu com Darcy Ribeiro. Então, assim, as suas práticas docentes, a forma que você conta, o amor que você deixa transparecer ali naquelas páginas é maravilhoso. Olha, hoje, a pessoa que você é e ainda continua, não sendo, talvez, um docente lá formal dentro da sala de aula, mas docente para o Brasil inteiro, de forma de palestra, atua em outra esfera.

João: Ah, sem dúvida. Eu adoro, adoro dar aula, sempre adorei ser professor, é instigante. Os alunos me faziam estudar, como hoje a platéia me faz estudar. Há cinco anos, eu retomei o meu estudo de sexualidade, gênero, não leio outra coisa (Dan ri)… Mas, essa semana eu dei um basta, falei não, agora eu vou ler Machado de Assis! Peguei uns contos dele pra ler, porque eu não aguentava mais ler sempre o mesmo assunto. Mas, é, eu sou um professor. Eu era uma ótima professora, porque eu tinha que transcender o meu estigma, né. Então, eu estudava muito, eu dava aula em pé, não sentava, pra a motivação ta sempre elevada. As minhas aulas eram sempre muito cheias, não só com alunos meus, mas de outras turmas, acredito que vinham também pela curiosidade de me conhecer. E eu mantinha uma relação de igual pra igual com os alunos. Eu, em momento algum, tinha uma postura de superioridade. Assistia a aula quem queria, eu não fazia chamada. Eu só não queria que conversasse em sala. Eu não dava falta, se quisesse sair pra conversar lá fora. Eu tratava eles como adultos. Então, e eu dei aula desde o maternal até o nível universitário. Então, todos eles, né, primário, fundamental, eu tive aluno de dois anos, no maternal, eu contava histórias. Então, eu tenho realmente… Eu fiz Normal, né, eu fiz o curso de didática. Ganhei 10, inclusive, na cadeira de didática. Então, acho que o professor tem que ser um pouco ator também. Porque,afinal de contas, tem uma platéia assistindo ele sempre.

Dan: Sim!

João: E eu fiz teatro também, né. Mas, aí, eu abandonei. Eu adorava teatro. Eu fiz o curso completo da Clara Machado, no tablado. Mas eu não… Só me davam papéis femininos, ou de bruxa, ou de qualquer coisa. Então, eu… (incompreensível)

Sidney: Eu queria saber como era que você, fazendo Psicologia, trans homem, na época da ditadura? Como foi essa época na sua vida, e como é que aconteceu?

João: Eu não era trans homem ainda, em termos de rótulo. Não existia esse termo, como eu falei,né, quando eu fazia Psicologia. Tanto que eu ia todas as férias pro Uruguai, porque meu pai tava exilado lá. E foi lá que eu conheci o Darcy Ribeiro. Já que você é de Montes Claros, vocês aí. Eu não conheço a cidade, ainda não tive o prazer de ser convidado pra palestrar em Montes Claros. Gostaria muito. No inverno, pelo amor de deus (Dan ri).

Dan: Aqui é muito quente. Muito quente.

João: É, eu cheguei a ir no norte de Minas. O Darcy falava muito de Montes Claros, a mãe dele morava ainda aí. Mas quando eu conheci o Darcy, eu tinha 15 anos ainda, né. E eu ia fumar escondido, que ele fumava, e meu pai não fuma, minha mãe não fuma, nunca fumou. E o cigarro uruguaio era muito ruim, ele tinha Minister na casa dele. E ele era uma pessoa realmente encantadora. Fascinante mesmo. E eu era um débil mental com 15 anos. Não falava nem palavrão, porque na minha casa, se falasse frescura, meu pai ficava chocado. E ele foi quem me ensinou a falar palavrão, mandava eu falar “merda”, e eu falava baixinho, e ele dizia “enche a boca de merda pra falar” (os outros riem). E ele foi me ensinando a perder o medo das palavras. Eu acho que isso foi muito importante na minha relação com o Darcy. Por isso, talvez, eu tenha tido a coragem de escrever um livro como esse que eu escrevi, onde eu não poupo nada. E além disso, ele foi me dando valores que, até então, eu tava meio perdido. Eu nunca fui batizado, então eu sempre fui perseguido porque eu tinha o pecado original, essas coisas da religião. Eu não sabia rezar. E aí, um dia, eu perguntei pra ele se ele acreditava em deus, ele disse que não, com a maior naturalidade. Então, eu quis saber que argumentos ele usava pra isso. Então, ele foi me fazendo perder o medo de muitas coisas, e me dando uma noção de que tudo é relativo…

Sidney: É esse tipo de experiência que você fala quando você diz que ele te ensinou a não ter medo das palavras?

João: é, exatamente. Depois que eu comecei a falar palavrão, então (ele diz entre risos, os outros riem), eu me libertei de uma série de situações hipócritas, né, que você vai vendo. Porque ele falava muito palavrão. E meus pais iam na casa dele, ele contava cada piada cabeluda. E meus pais tinham que rir porque ele era um intelectual, ele podia falar. Eu não era nada. Mas era ótimo ver meu pai e a minha mãe obrigados a rir, ouvir aquele palavrão na frente, dito pelo Darcy Ribeiro. Então, ele foi desconstruindo uma porção de coisas. Ele me ensinou a ler poesia, eu ia pra casa dele todas as tardes, e ele me botava pra ler “O Padre e a Moça”, do Drummond, que é uma poesia enorme, né. E ele dizia “você tem que contar pra mim a história, não declamar”. Agradeço a ele porque hoje eu leio poesia muito legal, muito bem, de tanto que eu treinei, né. Mas  a casa dele tava sempre cheia de jovens, e pessoas do mundo todo vinham vê-lo. E eu conheci o Tiago de Melo lá, conheci uma série de poetas, de intelectuais. E ele dizia pra mim… Ele me adotou como filha dele, né. Ele me apresentava como filha dele. Ele não tinha filhos, e ele dizia pra mim, “se você fizer Ciências Sociais, você herda a minha biblioteca.”

Dan: Eu sou apaixonado com o Darcy Ribeiro. Aqui, a cidade, a gente tem orgulho de saber que ele é dessa terra. Conheço até alguns parentes próximos, sobrinhos e parentes que foram ficando distantes na…

João: Os filhos do Mário,né?

Dan: Isso.

João: ele tinha um irmão, o Mário.

Dan: Isso, Mário Ribeiro.

João: É. O Fred era um dos sobrinhos dele. Eu acho que fez Medicina, inclusive.

Dan: Tem o Ucho, também. Se eu não me engano, o Ucho também é sobrinho dele. Ucho Ribeiro. Já ouviu falar do Ucho?

João: Nâo. Ucho é o nome ou apelido?

Dan: É o nome.

João: Ah, não. Mário eu acho que teve uns quatro filhos. Eu não sei…

Dan: Eu não lembro qual…

João: Eu nem sei. Eu acho que o Mário nem ta mais vivo.

Dan: Não, não. Acredito que não.

João: (ele diz um nome próprio, mas é incompreensível) morreu, também. Eu era muito amigo dela, que é a mulher do Darcy, né. Então, eu não tive mais notícias dos sobrinhos dele. Mas enfim.

Dan: Mas enfim. Eu queria era só esse relato seu, a parte do Darcy. Pra mim, como Montes-clarense, é muito gostoso de ouvir esse Darcy, que também é mais informal. Não é um Darcy que ta na televisão. Oh, João, você fala aqui no livro… Inclusive, até essa parte quando você fala do Darcy, te proporcionou se soltar, se libertar, você não poupou palavras no livro. E eu vejo, assim, que durante a leitura, eu vejo que você não se poupou, no sentido, assim, de ter uma autocrítica, uma auto-reflexão sobre seu casamento, sobre sua paternidade, sobre essa paixão maravilhosa que foi viver essa paternidade sua. Eu queria que você contasse um pouco como que essa construção dessa paternidade sua, até hoje, nos dias de hoje. Seu filho é até formado em administração, não é?

João: Meu filho?

Dan: Isso.

João: Não, ele é engenheiro.

Dan: Ah, eu acho que eu confundi.

João: engenheiro mecânico. Já ta casado…

Dan: Então, conte um pouquinho sobre essa paixão.

João: … já ta casado, vai fazer 30 anos. Ah, bom, eu sempre quis ser pai, né, embora todo mundo esperasse que eu fosse mãe. E eu tentei, inclusive, adotar uma criança, num dos meus casamentos, que não ta no livro. Porque esse livro não foi um diário, nem foi uma catarse, propriamente. Esse livro foi escrito… Aliás, é o meu segundo livro. O primeiro é “O Erro de Pessoa”, que também é uma autobiografia, que eu escrevo enquanto eu me recuperava das cirurgias, com 27 anos. Eu começo as minhas cirurgias aos 26, que é quando eu descubro uma equipe pioneira, no Rio de Janeiro. Começo a fazer todos os testes, exames. Naquela época, a cirurgia era crime de mutilação do humano. Não podia se operar. Esse foi o meu primeiro crime que eu cometi na vida. Enfim, e depois, enquanto me recuperava, eu escrevi “O Erro de Pessoa”, que ta esgotado, pela Record, em 84 eu publiquei. Embora eu tenha começado a escrever em 77. Mas eu paro aos 27 anos, né. Então, eu resolvi escrever o “viagem Solitária”, 30 anos depois de tudo isso, porque eu tive tanta vivencia, tantas coisas depois dos 27 anos, né.  Casei quatro vezes, e to no quarto casamento há 20 anos já. E o meu filho foi do terceiro casamento, a minha mulher teve uma relação com um cara que ela conheceu num workshop e, enfim, engravidou. E eu não sabia de nada, né, fui traído, literalmente, né. Em termos… Enfim, mas em 24 horas do baque que eu soube (incompreensível), mas 24 horas eu me recompus e resolvi assumir a paternidade (incompreensível), sabendo que ela tava grávida. Sozinho. Ela topou e, felizmente, eu acompanhei toda a gravidez dela, enfim. NO livro eu coloco isso muito bem. E depois que nasce, foi, assim, uma mudança radical na minha vida. Não só que um filho traz realmente mudanças na relação com o mundo e conjugal, enfim. Mas também por ele ser um menino. De como educar um menino num mundo machista, patriarcal, escroto como é o nosso. E sem fazer, necessariamente, ele, né, enfim… é como eu digo no livro, ele é um homem feminino, mas não é afeminado. Mas se fosse, também, não teria nenhum problema. Aliás, eu admiro muito os homens afeminados, e também os femininos. São os únicos com quem eu consigo conversar direito, porque têm uma linguagem parecida com a minha. Normalmente, eu to sempre junto das mulheres, eu acho as mulheres muito mais fascinantes, de maneira geral, do que os homens. Talvez por serem mais oprimidas, elas questionam mais as coisas e não ficam só falando de boceta e futebol, que me cansa. É claro que há exceções, né. Mas (ele fala entre risos) como os gays (Sidney ri), por exemplo. E muitos homens cis, também, amigos meus, que são extremamente femininos, e não são gays.

Sidney: Ah, e é maravilhoso essa ressignificação, que a gente precisava internalizar mais, de não considerar a feminilidade enquanto valor negativo, né. Que quando você fala que seu filho é um homem feminino, exaltando nele isso, né, de qualidades, né. Eu acho interessante.

João: É, eu criei ele… ele chora, ele adora ir a shopping, enfim, ele tem vários valores femininos, ele discute relação, coisas que normalmente os homens não se permitem. Desde pequeno meu filho convive não só com homossexuais, mas também com transexuais. Então, ele tem um respeito absoluto pela diversidade. Enfim, ele também não gosta de futebol. E ele sofreu homofobia, embora não fosse gay. Porque não é só os gays que sofrem homofobia. Os héteros também sofrem, se são femininos, se têm valores que são tidos como femininos. O fato de um homem não gostar de futebol, isso já faz dele um viado. Automaticamente, pra a sociedade. Não é possível um homem não gostar de futebol. Eu sofro isso. Mas eu só assisto se for Copa do Mundo, e olhe lá. Essa Copa eu nem tive saco. Se tiver um documentário, eu não troco um jogo de futebol por um bom documentário de jeito nenhum (os outros soltam risos). Quem gosta de 11 homens correndo atrás de bola devia ser gay (Dan ri alto).

Sidney: Tem essa, né…

João: Não é?

Dan: Oh, João, você falando do seu filho… À medida que eu ia lendo seu livro, confesso que eu fiquei, assim, com uma inveja muito boa do seu filho, porque eu queria ter tido um pai mais delicado, mais feminino, mais empático com esse lado. Porque acaba que a gente sofre, e eu falo, por exemplo, como um homem gay, essa postura que os pais impõem na gente,, no meu caso, me fez afastar do meu pai.

Sidney: Uma postura repressora, né.

Dan: é, repressora. É triste. Dói pra caramba. Imagino agora que seu filho, o dia que ele for pai, se ele for pai, é um exemplo que vai… Uma corrente do bem, que foi criada, nessa criação…

João: Ah, sim. Ele casou com uma mulher e já tem um filho.

Sidney: Há, que ótimo…

Dan: Ah, já tem um neto, então.

João: Pequeno, é…

Sidney: Já é vovô.

João: Pra você ter uma idéia, o garoto não mora com ela. Mora com o pai biológico, mas prefere o meu filho do que o pai biológico (os outros riem). Eu fico vendo ele brincar com o menino com as mesmas brincadeiras que eu brincava com ele.

Dan: NO livro você conta dessas brincadeiras…

João: Algumas, né… Ele é muito amoroso. Muito.

Dan: Oh, João, pra gente ir já convergindo pra um final, hoje eu conheço alguns homens trans que falam de você com muita admiração. Se na sua época você não tinha um exemplo, né, alguém pra entender o que é um trans homem, pra poder is se identificando, hoje você se considera um exemplo pra esses meninos trans que, no caso, podem ter dicas, conselhos… Que eu sei que você dá uma de paizão com alguns, né.

Sidney: Até se inspirar, né.

João: Hoje, eu tenho mais ou menos 2500 filhotes, como eu chamo. Eu tenho um perfil no Facebook só para os homens trans, que é o “João W. Nery 2”, e eu criei 26 grupos secretos, um de cada estado, e dentro desses grupos eu tenho uma lista de profissionais, de advogados, de médicos, de psicólogos, enfim. Tudo que é necessário pra eles poderem consultar e se ajudarem, e se conhecerem também. E claro que não ta completa a lista, tem estados que eu não consigo um psicólogo capaz de atender trans, como o Acre, por exemplo, o Amapá. E eu tenho homens trans em todos os estados. Então, é doloroso também, eles me procuram não só pra eu adicioná-los, mas também pra fazer uma série de perguntas sobre hormônios, sobre cirurgias. Se desabafarem da transfobia que tão sofrendo. A grande maioria vive em depressão. São jovens, a maioria… Varia, eu tenho homens trans de, sei lá, de 14, 13 anos, até 45, 46, sei lá. Talvez até um pouco mais. Mas o grosso é de 18 a 23 anos, mais ou menos. Então, são muito jovens, a maioria tem dificuldade de contar pros pais. Porque uma coisa é você dizer que é lésbica, outra coisa é você dizer que é trans. Então, a maioria se identifica como lésbica para os pais, que é o primeiro patamar, eles já vão preparando os pais, né. E muitos também desconhecem a palavra “trans”, são vistos como sapatonas e depois é que se identificam como trans. Enfim, cada um é cada um. Cada um tem uma história. Me procuram também pra saber como tirar a carteira com nome social, me procuram pra saber se eles devem colocar no curriculum vitae deles pra conseguir um emprego, o nome social ou o nome de registro. Enfim, eu passo 14 horas no Facebook trabalhando. Há muitos com tentativa de suicídio…

Sidney: eu imagino como deve ser barra pesada…

João: Há muitos que fazem automutilação. Então, eu virei quase que um psicólogo virtual, vamos dizer assim, entre aspas. E enfim, eu sempre mando ler meu livro, que é um instrumento que eles têm, não só pra se identificar, se fortalecerem, entenderem muitas coisas, como também darem pros pais lerem. Porque os pais também não tão preparados pra ouvir que seu filho é trans ou é gay. Isso é uma dimensão que eu tento passar pra eles, também, os pais precisam de ajuda também. É fácil você, com 20 anos, culpar o pai machista, que não aceita, como talvez seja o seu. Mas, na verdade, ele também precisa de ajuda, só que ele não sabe disso. E não pede também. Então, a gente tem que ter uma compreensão da dificuldade deles. Fora o medo de ter um filho marginalizado pela sociedade. Então, a violência é uma das preocupações também, quando o pai mais amoroso, né… Mas tem outros que não querem nem saber, né. Então, enfim, é um trabalho gratificante, meio massacrante, porque você tem que ter um equilíbrio emocional, uma ponderação. A maioria se auto-hormoniza, porque os médicos não tão preparados pra receberem os trans, assim como os psicólogos também não. Porque não existe a cadeira de gênero e sexualidade nas universidades, obrigatória. Só cinco universidades no Brasil têm essa cadeira obrigatória. Então, enfim, eles chegam na psicóloga, quando ele diz que é trans a psicóloga diz “ah, você volta daqui há dois meses, que eu vou pesquisar o assunto” e ainda cobra meia consulta. Você chega no endocrinologista e diz que é trans, o endocrinologista diz que não vai dar testosterona pra lésbica. Então, é complicado. É muito complicado. E por isso eu faço essa lista de profissionais. Pra eles poderem procurar uma pessoa que é capaz de entendê-los.

Dan: E esse trabalho, eu tava pensando aqui, o tanto que esse trabalho deve ser cansativo, mas ter um retorno emocional. Mas eu acho que, assim, a sua abertura para com os outros é muito linda… Você é uma pessoa de fácil acesso. Quantas conversas eu fui trocando com você, até desencadear neste programa. Então, assim, é uma situação que eu acho que é um grande serviço. Espero que, no futuro, tenhamos grandes redes de apoio para pessoas trans aqui neste país. Lembrando que nós ainda somos o país que mais mata, né, pessoas transexuais, no mundo…

João: É, o segundo é o México, quatro vezes menos.

Dan: Então, e é muito. E eu gostaria, João, pra a gente finalizar nossa conversa, que você só contasse, por alto aqui, né, pros nossos ouvintes, como que o deputado Jean Wyllys chegou pra você, falando sobre o projeto de lei de identidade de gênero, e como que chegou esse projeto a levar o seu nome, no caso?

João: bom, eu conheci o Jean na campanha do casamento igualitário, no Rio, quando ele esteve. E eu fui. E aí, no discurso dele, ele ressaltou a importância de respeitar as minorias. Aí, citou os gays, citou os índios, citou os negros, mas não citou os trans. Quando terminou o discurso dele, eu fui procurá-lo. Eu disse, olha, Jean, eu queria fazer essa ressalva, que você nunca esqueça dos trans no seu discurso. E me apresentei, disse quem eu era, e tal. E depois disso, ele me convidou pra fazer parte do conselho. Ele é o único deputado que tem um conselho, aqui no Rio de Janeiro. Ele ouve as pessoas, as idéias, pra sugerir pautas na câmara. É uma coisa muito interessante. O Jean é um cara bem democrático. E enfim, nós ficamos amigos e ele leu o meu livro, ficou encantado com meu livro também. E pra mim foi uma surpresa também, ele dar o meu nome à lei de identidade de gênero. Ele já andou explicando na mídia por que fez isso. Mas de qualquer forma, essa lei será, caso… Ainda é um projeto de lei…

Dan: Ele foi arquivado?

João: Não. Ele está, no momento, na câmara, nas comissões especiais. Um projeto, normalmente, tem que passar em algumas comissões, antes de ser votado. Eu sei que passou na comissão dos Direitos Humanos, e tal. Eu não sei exatamente em que comissão está agora. Ele ta tramitando ainda, lá na Câmara. E a gente não quer apresentar esse projeto agora. Porque, na atual conjuntura política…

Dan: Dá até medo, né.

João. É. Impossível qualquer lei de Direitos Humanos passar. Então, com essa bancada ortodoxa, evangélica, né. Não só a bancada evangélica, mas os BBBs, como chama, né. Da bala, do boi… enfim, não é possível conseguir uma aprovação. E também não queremos que ele seja pensado (incompreensível) nenhuma outra lei, porque a lei de identidade de gênero é baseada na lei Argentina de identidade de gênero, que foi aprovada em 2012, por unanimidade no Senado lá…

Dan: Inclusive até da oposição, no caso.

João: Oi?

Dan: Até a oposição ao governo lá, da Cristina, apoiou essa…

João: Apoiou. É, o Senado apoiou por unanimidade. E essa PL, que é a 5002/2013, ela diz o seguinte. Que qualquer, no caso, pessoa trans pode ir ao cartório e mudar o seu pré nome e seu gênero, sem precisar de hormonização, de cirurgia ou de laudo psiquiátrico, e sem perder o acesso ao SUS. Então ela é perfeita, ela é a liberdade para todos os trans, porque acaba a burocratização de entrar na Justiça através de um advogado, pode-se ir a um Cartório, meramente. Acaba, despatologiza a transexualidade. O transexualismo como é visto até hoje, né, pelo CID 10, nós somos doentes mentais, somos disfóricos de gênero, e também pelo DSM 05. DSM é o manual de diagnóstico estatístico de doenças mentais. Então, estamos no numero 05, e o CID ta no número 10. E vamos ver, há um movimento internacional pra despatologizar o transexualismo, como aconteceu já com o homossexualismo. Homossexualismo foi despatologizado na década de 70, nos Estados Unidos. Em 80 no Brasil. E eu espero que isso se concretize. O problema é que essa equipe americana, basicamente americana. E há um movimento trans americano que não quer despatologizar. Por quê? No sistema de saúde americano, é preciso que você seja doente pra você ter acesso gratuito e à cirurgia. É Algo diferente no Brasil, você não precisa ser doente pra ser atendido pelo SUS. TANTO QUE AS MULHERES GRÁVIDAS NÃO SÃO DOENTES, E SÃO ATENDIDAS PELO SUS. Então, a despatologização é um interesse no mundo inteiro, menos nos Estados Unidos, por causa da questão dos planos de saúde de lá, e toda uma medicina privada,né. É diferente daqui. Agora, o que é que implica a patologização? O que implica um trans ser considerado doente mental? Há várias implicações. A primeira é que você perde autonomia sobre sua própria identidade. Não adianta eu chegar num hospital, no SUS, que atenda trans. E só existem cinco no Brasil, que atendem trans. Um em Porto Alegre, outro aqui no Rio de Janeiro, que ta fechado as inscrições, que é o Antônio Pedro. Outro em Recife, que reabriu recentemente. Outro em Goiânia, outro em São Paulo. São Paulo também ta fechando as inscrições, a fila é enorme. A cirurgia dura de 10 a 20 anos na fila de espera. E em cada SUS desse só se faz uma cirurgia por mês.

Dan: Nossa.

João: Então, você ter uma idéia que são 60 trans operados por ano, no Brasil. Mas, de qualquer forma, a maioria exige um laudo psiquiátrico, ou psicológico, dizendo que você é trans. Não basta você dizer que é trans. Quem tem que dizer quem você é o outro. É uma equipe multidisciplinar, dentro do SUS, formada de psiquiatra, psicólogo, assistente social, urologista, etc. Eles é quem vão dizer quem você é. Então, a patologização implica na perda da autonomia quanto à identidade, e também na perda da autonomia em relação ao próprio corpo. Eu, como trans, só posso me operar com o laudo psiquiátrico…

Dan: Pessoas cis falando se você está bem ou não está bem…

João: É, cis, normalmente heterossexual, que não fez curso de sexualidade. E esse protocolo do SUS não tem base científica nenhuma. Então, o que acontece é um verdadeiro circo. Você imagina uma travesti ou uma mulher trans que vai procurar o SUS, como uma amiga minha foi, e foi de calça comprida, foi sem maquiagem, foi sem brinco. Simplesmente ela não foi aceita no processo de transexualidade, porque disseram que ela não era mulher o suficiente. O que é ser mulher? Essa entourage do que é feminino é uma bobajada, é uma hipocrisia. Então, todo mundo representa pro psicólogo, pra conseguir esse laudo. Porque, na verdade, ele quer atender á expectativa do psicólogo.

Dan: então, é uma forma, assim, pra reforçar estereótipos, também, né?

João: Exatamente. Então, é uma performance que você tem que criar pra atender às expectativas do psicólogo. Começa que uma psicoterapia não pode ser obrigatória, já perde a validade. E no SUS ela é obrigatória pros trans, pra ter esse laudo. Então, o pessoal faz qualquer coisa pra ter esse laudo. Mente pra caramba. Um homem trans falou pra mim que usava a vagina pra trepar, se ele podia contar isso pra a psicóloga. Eu falei, de jeito nenhum! Aí mesmo é que vão achar que você não é trans homem. Quer dizer, porque, pra a mentalidade vigente, um homem não pode usar a vagina. Ora, porra, você tem que usar o que você tem! Da formam que te dá mais prazer, independente da sua identidade. Então, esse é uma das grandes hipocrisias do processo transexualizador. Então, enfim, fora isso, o fato do trans ser considerado doente repercute também nas crianças trans. Então, elas crescem já sob o estigma de que são doentes. E aí, elas internalizam também a transfobia, muitas vezes. Como acontece com os gays também, internalizam negativamente, e se punem, e se culpa por serem do jeito que são. Isso é uma questão também, eu acho que não só psicológica, mas psicossocial. Eu acho que a cultura teria que acabar com essa invenção do que é o gênero. Acho que precisaríamos de um trabalho de desconstruir o gênero. Me parece uma utopia. E é, no momento. Mas já existem escolas e cursos, sobretudo fora do Brasil. Na Austrália, por exemplo, na Suécia tem escolas que se cria esse… Como diz… Pré-escolas, né, onde as crianças são tratadas com nenhum gênero. Inclusive com pronomes neutros. A Suécia, esse ano… Acho que foi esse ano, em abril desse ano, criou um pronome, na gramática, neutro. Que não é nem feminino, nem masculino.

Sidney: Maravilhoso.

João: Aqui a gente usa a letra E pra neutralizar isso. Porque tem os não-binários também, né. Que são as pessoas que não tão dentro desse binarismo que a cultura impõe, de masculino e feminino, de homem e mulher, que na realidade você tem um espectro enorme de identidades, de sexualidades. Nova York agora reconheceu oficialmente 34 gêneros. Eu achei pouco (os outros riem). Tem de tudo. Tem gente que não quer ser homem nem mulher. Tem gente que quer as duas coisas. Ou uma outra. Então, querer impor um gênero a você é uma violência. Então é você que tem que descobrir o que você gosta, como você se sente, quem você é. Com rótulo ou sem rótulo. Então, eu acho, né… Que são os Queers, hoje, desde a década de 90, graças ao feminismo, que vem desde as sufragistas no final do século 19, nós conseguimos grandes avanços dentro dos estudos de gênero, enfim. Um tema polêmico, mas que os homens também lucram com isso. Então, é isso, desde 90 que vêm todos os estudos Queer, é uma palavra inglesa que quer dizer “estranho”, “híbrido”, e que foi ressignificada no sentido de orgulho, de…

Sidney: De exaltação.

João: é, de você… Queer, que era um xingamento, passou a ser um motivo de orgulho. Isso hoje, a gente encontra nos grupos ditos minoritários, também tão fazendo isso. Eu conheço muita bicha que, quando é xingada de bicha, como xingamento, ela diz “sou, com o maior orgulho, bicha.” (Dan ri). E aí, esvazia a agressão do agressor. Ele fica meio sem saber, ele quis ofender e não consegue.

Sidney: Perde a força da agressão, né.

João: Perde a força. Então, isso também os trans tão fazendo. Mas é complicado, porque tudo tem um contexto, né. Não é à toa que tão matando, aí, todo dia um LGBT.

Dan: Espero que essa situação se reverta. No programa 02, nós gravamos com uma trans, mora em Portugal. Ela é brasileira, mas mora em Portugal. E ela tava falando como que eles… Lógico que ela não deixa de sofrer transfobia, mas ela fala assim, como que são os índices de morte. Em geral, já é baixo. Mas aconteceu até um caso, depois você pode até ver direitinho. É a história da Gisberta. Eles transformaram isso em…

João: Ah, a Gisberta. Eu conheço, é famosa.

Dan: A história da Gisberta em Portugal. Como que eles encararam uma morte de uma trans, que inclusive era brasileira. E aqui no Brasil, a gente Vê notícia todo dia, assim, no Facebook…

Sidney: A gente vê filmagens delas sendo espancadas até a morte, sem ninguém fazer nada.

João: É. O Chile conseguiu a lei de identidade de gênero porque um gay apanhou e ficou 25 dias entre a vida e a morte, internado no hospital. Isso deu uma repercussão mundial. E foi a partir da morte desse rapaz que o Senado… o país se mobilizou e conseguiu criar leis contra homofobia e a lei de identidade de gênero. Quer dizer, aqui não. Aqui filma-se, né. Saiu agora, essa semana mesmo, a mulher levou sete facadas, uma travesti. Foi pro hospital, ninguém queria atender…

Dan: Ah, eu vi, eu vi.

João: A polícia dizendo “não, não sai, não, porque lá fora o pessoal pode te linchar.” Ainda defendendo os agressores. É um absurdo. Mas a mídia não mostra, né. Na mídia não chega. Talvez no Canal Brasil alguma coisa.

Sidney: Chega no grupo do Whats App…

João: Mas, de uma maneira geral… Chega no Face, porque eu posto.

Dan (entre risos): Sim, eu te acompanho.

João: É. Mas, enfim. Não mobiliza. Pelo contrário, quando se mata uma travesti no Brasil, é um alívio muito grande, porque você ta fazendo uma assepsia social.

Dan: A higienização, né…

João: É, higienização, exatamente.

Dan: É o que acontece com os negros periféricos também.

João: com os negros, com as bichas loucas, entendeu. Você não pode… Tem que ser aquele padrão top né. Jovem, sarado, branco, rico, etc.

Sidney: Hétero…

João: Culto, de preferência. Então, quem não ta no padrão… Porque as masculinidades também são hierarquizadas. Assim como as feminilidades também são hierarquizadas. Então, se você não ta no top, você já sofre alguma descriminação, mesmo não sendo gay. Mas só pelo fato de ser negro, ou de ser pobre, ou enfim. Alguma etnia que não corresponda ao que a sociedade considera legal. Enfim, ou ser velho, né, é outro fator discriminatório.

Dan: Nós gravamos um programa com um negro de classe média, e ele fala que ser de classe média não o isenta de nada. Ele acaba sofrendo racismo do mesmo jeito.

João: é, se ele fosse (incompreensível) e rica, interferiria. Darcy Ribeiro, uma vez, disse pra mim assim, “pra você enfrentar a marginalização, você tem que ser ou intelectual, ou rico. Porque com o dinheiro você cala a boca de qualquer um, ou com argumentação, suficientemente.” Mas, como eu vi que ser rico era difícil, eu acabei me tornando intelectual. Mas devo a ele isso também. O meu empenho em estudar. Sobretudo essa questão, que eu estudo desde a época da faculdade, embora não tivesse essa cadeira. Mas eu já lia, na Antropologia, Margaret Mead, eu já estudava as tribos primitivas de Samoa, pra saber como  eram as condutas sexuais daquela tribo.

Dan: Esses dias, eu vi até um artigo falando de umas tribos americanas que já reconheciam acho que cinco tipos de gênero, antigamente.

João: é, os (incompreensível) era…

Sidney: E aí, a gente ouve esses relatos e pensa, né, o que é evolução, né? A gente acostumado a tratar povos nativos como menos evoluídos, e a gente aqui nesse atraso de vida.

João: É, não, aqui na nossa cultura é europeia, é ocidental, mas existe uma gama de culturas que não são valorizadas, e que existem até hoje. Se você for à Tailândia, por exemplo, na Índia, né, você tem as Kathoey , e Hijras, enfim, são pessoas também com gêneros discutíveis, ou são castradas muito cedo, por um ritual cultural, enfim. E se a gente for levar pra um lado da Biologia, como a cultura valoriza, né, a questão genética, essas coisas, você tem os intersexuais também. Quer dizer, só da intersexualidade, você tem uma série de pseudo-hermafroditas, de síndrome XX0, XXY, enfim. São muitas. Aí, você… como é que fica, né? A pessoa não nasce com um sexo só, e essa taxa é muito alta, de intersexualidade. Segundo, aí, informações que eu tive, é 1 pra cada 2000 nascimentos. E isso também não define o gênero. Mas quando nasce intersexual, o que se faz, na medicina, é operar imediatamente, o mais cedo possível, porque tem que definir se aquele corpo é de homem ou de mulher. E normalmente eles definem como feminino porque, segundo eles, é mais fácil fazer um buraco do que levantar um poste. Terminologia deles. Então, a criança cresce, quando chega com 8, 10 anos… Que não é uma cirurgia só, são várias. A criança fica toda cicatrizada, e aí ela quer saber que cicatrizes são aquelas, e muitas vezes o gênero que escolheram pra ela não é o gênero que ela escolheu pra ela, que ela se identifica. Então, os casos de suicídio são muito grandes. Existe uma campanha internacional, também, contra essas cirurgias, feitas em bebês, em recém-nascidos, pra parar com essas cirurgias. Poxa, ele já teve, entre aspas, a vantagem de nascer intersexual, deixa ele escolher o gênero dele. Mas não, tem que batizar, tem que definir, tem que, né, tudo na nossa cultura é generificado, até a comida. Você tem Kinder Ovo rosa e Kinder Ovo azul. Quer dizer… Os brinquedos são generificados, funcionam com (incompreensível) de gênero. É terrível isso. Ah, os homens são de Marte, as mulheres são de Vênus. E os trans? Não têm planeta? Então, a gente é de Plutão, porque, assim, acabou, né, Plutão deixou de ser planeta. Ou da Terra, porque…

Dan: Deixa a Terra, então, pra nós, LGBTs… (ele ri)

João: Que é o que vende, né. Quanto mais você antagoniza o homem com a mulher, diferencia o feminino do masculino, mais as indústrias ganham dinheiro, mais a moda ganha dinheiro. É um círculo industrial, social, econômico, político. Há interesses em manter a mulher criada no privado. Nasceu pra parir. Então, essa cobrança da mulher ser mãe, ter filho, é a função principal da mulher, até hoje. E de preferência com dores no parto, como diz o castigo de Eva, na Bíblia. Já o castigo de Adão não é sobre o corpo dele, é sobre a Terra. Então, isso não é gratuito. Isso tem toda uma influência de 2 mil anos. Enfim… Querido, vamos encerrar… (Dan e Sidney quebram o silêncio rindo)

Dan: Vamos sim!

Sidney: Tava tão bom…

Dan: A gente ficou caladinho, que a gente tava adorando te ouvir (ele ri).

(VINHETA: ENTRE EFEITOS SONOROS DE IMPACTO E DE DISTORÇÃO DE ÁUDIO, A VOZ ANUNCIA “MOMENTO SUPER PODERES!”)

(FADE IN E FADE OUT DE TRILHA SONORA)

Dan: João, oh, muito obrigado. Eu tenho uma pergunta, que ela é capciosa, que eu faço no final do programa. Ela é respondida só com uma resposta simples mesmo. Mas é o seguinte, se você fosse um super herói, e fosse combater todo esse preconceito que existe nessa sociedade, qual seria seu melhor super poder?

João: Apagar o preconceito da cabeça das pessoas. Essa noção de preconceito, desfazê-la completamente, no ar. Ninguém teria preconceito de nada. Seria inexistente.  Já que é mágico. Eu não sou um super herói?

Sidney (entre risos): Sim, sim, pode tudo.

João: Eu posso tudo (ele solta um riso).

Dan: João, muito obrigado. Para mim, eu acho que não foi uma entrevista. Foi um bate-papo em formato de aula. Muito didático. Queria ter nascido a uns 40, 30 anos atrás, e ter pisado na sua sala de aula. Teria sido uma experiência fantástica. Enfim, meu muito obrigado…

João: Mas você pode pisar numa palestra minha ainda, aí em Montes Claros, quem sabe.

Dan: Sim, sim. Quem sabe a gente consegue articular isso junto aos cursos. Meu campus não é aqui. Mas pode ter certeza, eu tenho alguns amigos aqui, e assim que eu achar uma proposta, um espaço, a gente vai articular esse engate em Montes Claros. Ok.

João: Ok. Eu gostaria de falar pro Sidney que eu tenho, assim, uma grande intimidade com pessoas com deficiência visual. Sempre tive muitos amigos…

Sidney (rindo): Que ótimo…

João: E morei, inclusive, com um deles. Tem um capítulo no meu livro…

Dan: Tem um capítulo, acho que o Sidney não chegou no capítulo, não.

Sidney: Ah, ainda não cheguei!

João: “O cego que me fez ver”

Sidney: Não acredito! Pois eu estou ansioso agora.

João: Eu morei um ano e meio com o meu amigo cego. E aprendi muita coisa com ele. Inclusive, tentei ser cego também (Sydney ri alto), durante um dia.

Sidney (ainda rindo): Ah, mas um dia é pouco.

João: Eu conto isso no livro. Ele me conduziu na rua, e só na hora do sinal que eu não tive coragem.

Sidney: Mas gente! (ele ri)

João (entre risos): Mas eu passei um dia inteiro de olho fechado, dentro de casa…

Sidney: Quer dizer que você não confiou cegamente nele?

João: … fazia tudo como ele fazia.

Dan: Vocês saíram na rua, né?

João: é, saímos na rua. Numa rua movimentada, aqui no Rio.

Sidney: Devia ter confiado cegamente no seu amigo, aí…

João: Cheio de cocô de cachorro na calçada (Dan ri).

Sidney: é uma barra, menino, andar na rua…

João: Ele tinha uma bengala, né, dobrável.

Sidney: Sim, sim.

João: E ele era cego de nascença e ninguém tinha dito pra ele que ele era cego.

Sidney: É, também tem essa história…

João: Ele chegou a andar de bicicleta. Se estrepava todo, né. Ele só vai descobrir que é cego quando entra pra escola. Olha que doideira. Mas enfim. Então, Sidney,…

Sidney: Nossa, foi um prazer pra mim também, João. Eu to aqui emocionado, estou estarrecido com tanto (ele ri)… tanta sabedoria, tanto conhecimento. Eu to honrado mesmo de ter tido essa conversa. E pra mim foi um prazer imenso. Eu queria terminar perguntando, você tem algum canal… Alguma rede que você queira divulgar? Pro pessoal entrar em contato com você.

João: eu descobri… O garoto que vem aqui em casa… às vezes, um trans homem me ajuda aqui. Vem um, vem outro. Ele descobriu que eu tenho dois canais no Youtube. Eu nem sei o nome… Eu to com 66 anos, né, eu não tenho nem celular, pra vocês verem. Porque celular dá trabalho, tem que carregar, tem que apagar mensagem. Eu não tenho tempo pra isso. E também tem que aprender a lidar com ele. Então, eu sou meio topeira nessa coisa de internet. Então, eu nem sei… Bate João w. Nery lá no Youtube e vê o que acontece. Quem me adiciona como amigo, eu posto o canal, um dos canais. O outro eu tenho que pesquisar qual é o link ainda. Mas é tanta senha, tanta coisa, cara, que… Você acredita, fizeram um site pra mim, fizeram dois blogs pra mim, super bem feitos, e eu não sei postar nem no blog, nem no site. Não posto nada, porque não sei mexer com isso. Nem tem quem me ensine. Porque meu filho já casou e já saiu daqui (Sidney ri).

Sidney: Mas aí, você tem 2500 filhos espalhados pelo Brasil, eles podem te ajudar…

João: Precisa tempo… Eu não tenho tempo. Quando eu não to viajando, eu to aqui atendendo os garotos. Eu já escrevi uns três ou quatro artigos acadêmicos. Tem já alguns publicados. Porque também eu tenho um acesso ao mundo das trans-masculinidades como ninguém, né. Então eu quero também pegar essas informações e passar pra frente, né. Mas pra isso, eu preciso de tempo. Escrever é uma coisa que demora, não é assim. Então, imagina se eu vou ficar perdendo tempo com postar no site. Não tem. Não tenho tempo.

Dan: Posta no Face, né.

João: Olha só, eu tenho dois perfis no Face, eu tenho duas Fan Pages, a do João W. Nery e a do Viagem Solitária. Só eu e minha mulher que postamos lá. Ninguém mais posta. Eu tenho que abrir… Eu tenho que postar em tudo, Tenho que ler tudo, eu tenho que atender os garotos. Não dá, cara, eu to velho. Eu tenho cinco próteses no corpo. Porque eu tenho uma artrose, então eu tenho dois quadris… Eu sou agora, também, o primeiro trans homem biônico do Brasil (os outros riem alto).

Sidney: Não é para muitos, não é mesmo, João?

João:É, cara. Então, é fogo. Eu to velho, to cansado. Vou ver se eu tiro umas férias em março. Quero ver o que vai acontecer. Eu ficar um dia fora do Facebook, o pessoal me mata. Quer dizer, a quantidade de pessoas pra eu adicionar depois, eu vou trabalhar em quíntuplo. Não é nem em dobro. Então é isso, eu to conversando com você aqui, eu só to imaginando como deve ta o Face (Dan ri).

Sidney: Não vamos mais deixar os meninos esperando o João deles…

João: é, eu vou ter que trabalhar em dobro (ele solta um riso)

Sidney: A gente vai colocar os links na postagem, né.

Dan: A gente vai procurar os links todos, colocar todos os links da página, os links seus. Mas, João, muito obrigado. Acho que, assim, foi uma conversa fantástica e também foi a estréia do meu amigo, Sidney, pra gravar comigo, aqui no programa. Eu tava precisando de…

Sidney: Desculpa qualquer coisa…

João: Ok. Você toca algum instrumento, Sidney?

Sidney: Num toco nada, menino!

João: Só punheta? (os outros riem alto)

Sidney (entre risos): Quando dá…

João: Ok, então. Um beijo pra vocês.

Dan: Um beijo, João. Tchau, tchau.

João: Tchau, beijão.

Dan: Tchau, tchau.

(FADE IN E FADE OUT DE TRILHA SONORA)

Dan: Enfim, temos uma HQ sem Quadrinhos, Sid?

Sidney (rindo): Eu acho que se a gente não tem hoje, não tem nunca mais, viu, Dan…

Dan: Pessoal, a indicação de hoje, então, é o livro que foi organizado pelo Renan Quinalha e pelo James Green, que é “Ditadura e Homossexualidade: Repressão, Resistência e a Busca da Verdade”. É um livro muito informativo. Como todo livro que eu indico aqui no programa, nem todos os livros eu terminei de ler, esse livro eu ainda to no terceiro capítulo. Uma questão bacana que eu li no livro, e foi quando eu parei, foi quando eles começam a falar do Jornal Lampião na Esquina. Que também já vou deixar uma indicação cruzada, que é o podcast Lado Bi, e eles têm um programa que eles conversam com o editor da época, sobre o Jornal Lampião da Esquina. Então, é muito, muito, muito interessante pra vocês escutarem esse podcast e ler o livro organizado pelo   James Green e Renan Quinalha. Ok? Enfim, Sid, como que as pessoas fazem pra entrar em contato conosco nas redes sociais?

Sidney: Muito bem, vamos lá. Vocês podem entrar em contato conosco a partir da página no Facebook, que é facebook.com/hqdavida; ou vocês podem procurar e assinar o canal da gente no Youtube, que é “HQ da Vida Podcast”.

Dan: E por falar em Youtube, temos uma notícia boa. Os nossos episódios foram quase que 100% transcritos, até o presente momento, pelo nosso novo host, Sidney Andrade. Gente, é muito trabalhoso. Mas é gratificante. E em breve, elas estarão disponíveis no nosso site. E lembrando que essa idéia visa criar acessibilidade para pessoas com deficiência auditiva, né, Sidney?

Sidney: é isso aí. E lembrando também que, assim, além da importância da acessibilidade, né, que a transcrição fornece, ela também fornece um material de consulta muito fácil. Às vezes, você lembra de uma parte que ouviu lá no podcast, mas não sabe achar porque no áudio é difícil de encontrar, quando tiver lá no site, você vai lá, vai no “CTRL+F” e acha a parte que você quer achar. Facinho. Pelo texto é mais fácil.

Dan: Continuando, Sidney, as pessoas podem entrar em contato conosco por quais outros canais?

Sidney: Além do Facebook e do Youtube, a gente  também ta no Twitter, que é @hqdavida; a gente também ta no email, que é hqdavida@gmail.com; e vamos lembrar de pedir pra vocês, de novo, pra que vocês nos avaliem no iTunes. Vai lá no iTunes e dá 5 estrelinhas pra gente, porque ajuda a gente na divulgação, né. Pra mais pessoas conhecerem o HQ da Vida. É importante lembrar, Danilo, que a pessoa não precisa ter um dispositivo da Apple pra ter uma conta no iTunes.

Dan: Sim, tem isso também.

Sidney: Basta ela ter uma conta, ir lá, avalia a gente, deixa as suas 5 estrelinhas, ou quantas você quiser, né. Mas…

Dan: Mas deixe 5, por favor! (ele ri)

Sidney: Serão bem recebidas… (ele também ri) E se quiser deixar uma avaliação também, lá pode escrever. A gente vai adorar ler, né, e receber esse feedback. Muito importante, né, Danilo.

Dan: Sempre. Se vocês quiserem nos mandar reclamações, cartinhas, dicas e críticas ao programa, usem esses canais, porque é muito interessante. Às vezes, por exemplo, o Sid fica me perguntando assim, “e aí, o que aconteceu?” Algumas pessoas me mandam no Inbox do Facebook, eu leio, mas aí o meu dia é corrido e acaba que eu abstraio. E acaba que eu não reúno esses feedbacks. Mas eles são muito importantes, o programa da PEC foi muito elogiado, sobretudo por alguns colegas de Instituto Federal. Foi bem instrutivo, né, para as pessoas. Enfim, é isso. Feedback é muito importante, né, Sid?

Sidney: Sim. Escreva, gente! A gente quer saber o que vocês tão achando do conteúdo que a gente ta produzindo. É importante, é o nosso… como dizem por aí, o seu feedback é o nosso salário! (Dan ri)

Dan: Pessoal, então é isso. Um beijo, e até a próxima.

Sidney: Até a próxima, pessoal. Valeu.

Dan: Falou…

(FADE IN E FADE OUT DE TRILHA SONORA)

FIM

 

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