Transcrição – #08 LGBTTs: Sidney Andrade

TRANSCRIÇÃO – HQ da vida #08 LGBTTs: Sidney Andrade

Vinheta de abertura: entre efeitos sonoros de impacto, uma voz com reverberação anuncia “HQ DA VIDA, o seu podcast sem quadrinhos.”

(Trilha sonora de Background alusiva a histórias em quadrinhos)

Dan: Olá, pessoal. Aqui é Dan Carreiro.

Sidney: E eu sou Sidney.

Dan: Estamos com nosso oitavo HQ  da Vida. Esse é um podcast que, como alguns já sabem, tem como objetivo contar histórias. Nessa primeira temporada, iremos mostrar pra vocês histórias de super LGBTs. Espero que vocês curtam, compartilhem e nos deem críticas sobre o programa. O seu feedback é muito importante para nós. Então, Sid, diga aí como os ouvintes poderão entrar em contato conosco.

Sidney: Os ouvintes podem nos encontrar no Facebook, na nossa página que é “HQ da Vida”, lá no Facebook; também podem nos encontrar no Youtube, procurando por “HQ da Vida Podcast”, pra assinar o canal lá; a gente tá no Twitter, no @hqdavida; a gente também tá no Sound Cloud, que é soundcloud.com/hqdavida; e também, se você quiser enviar emails, a gente tá no hqdavida@gmail.com; não se esqueçam de ir lá no iTunes e avaliar a gente, dar cinco estrelinhas, escrever uma avaliação, se vocês quiserem, pra que o nosso podcast possa aparecer lá nos destaques…

(AO FUNDO, ALGUÉM TOSSE E RI ALTO, DESCULPANDO-SE LOGO EM SEGUIDA)

Dan: O nosso convidado do dia, vocês tão ouvindo essas risadas, aí, né. Então… Sidney, quem é o nosso convidado do dia?

Sidney: O nosso convidado do dia… Oxente, pera aí, sou eu mesmo… Pera aí, menino, como assim?(Dan ri) Tá aqui, escrito.

Dan: É, tá escrito “eu mesmo”, pessoal, no script (Sidney ri). Pessoal, pra me ajudar nessa empreitada, temos um host temporário. Temos o Thiago, que é… (ele tenta pronunciar o sobrenome várias vezes)… O nome dele, na verdade, é Calais. Se escreve CALAIS. Ele é da Cracóvia, um grupo secreto de ouvintes do Anticast. Aproveito e OUVÃO o o podcast do Ivan. É, OUVÃO eu sei que é OUÇAM, viu, gente. Então, Thiago, conte aos ouvintes quem é você e como que você apareceu, em 30 segundos, para gravar conosco.

Thiago: Olá. Então, eu sou Thiago, eu sou mineiro, moro em São Paulo, tenho dois gatinhos. Fiz Rádio e TV, mas trabalho como TI em um banco. E tava de bobeira no Facebook, quando alguém perguntou no grupo da Cracóvia. “Tem algum LGBT…

Sidney: Tava passando…

Thiago: É, tava passando, surfando nas ondas da internet (Dan ri, ele ri em seguida). Quando o Danilo perguntou se tinha alguém à toa. Eu falei, é, tô aqui.

Dan: Mas não confundam, o Tiago não é tão fácil assim, não, viu.

Thiago: Não, não sou.

Dan: Não confundam as coisas (os outros riem). Não se avexem, tá.

Thiago: Eles tiveram que me pagar uma boa propina pra me convencer (Dan ri alto).

(FADE IN E FADE OUT DE TRILHA SONORA)

Dan: Hoje, a proposta do programa de hoje é contar a história do Sidney. O Sidney já é o nosso host, aí, há dois programas. Iniciou com o programa da treta, porque ele é dessas.

Sidney: Sou dessas, né.

Dan: E aí, a gente vai conversar com o Sidney, hoje, sobre a história dele, o percurso e, enfim. A história, hoje, o dia é do Sidney. Então, vamos lá. Sidney, como você já sabe o protocolo, o padrão do HQ da Vida…

Sidney: Ai, tô nervoso (os outros riem).

Dan: Eu vou fazendo algumas perguntas pra você, e a gente vai desenrolando a história. E o Thiago, aí, vai também entrando na conversa. Mas enfim, eu gosto daquela sempre pergunta padrão, que é aquele insight, aquele dia que você, a senhora, como é que fala? Imaginou o que seria gay, pra você, e se você seria isso. Como que isso construiu, assim, o primeiro insight da sua infância, que você teve, sobre a sua homossexualidade?

Sidney: Eita, eu não consigo lembrar de um momento. Eu lembro de episódios, assim, esparsos, né. Eu lembro, por exemplo, eu assistia… Lembra do Programa Livre, com o Serginho Groisman? Eita, a gente tá velha, hein, amiga.

Dan (entre risos): Lembro.

Thiago (entre risos): Lembro.

Sidney: Vocês lembram… Programa Livre, no SBT, passava de tarde, e tal. Eu ainda era meio pirralho, naquela época. Mas teve um dia que passou, não sei, por algum motivo passou um pessoal, uns rapazes sem camisa (os outros riem). É, eles tavam sem camisa, né, se apresentando, e tal. E eu tava olhando pro umbigo deles (Dan ri, Sidney fala entre risos). Eu tenho essa memória muito nítida, assim. Eu olhava pro umbigo deles, assim, fixamente. E tinha alguma coisa que me chamava, assim.

Thiago: Eles tavam dançando?

Sidney: Eles Tavam dançando (Tiago ri). Mas, assim, é engraçado que eu não olhava pra outras… Porque eles tavam com a metade de cima do corpo toda descoberta, né. E eu olhava só pro umbigo. Enfim, talvez tivesse alguma parte ali que eu estivesse olhando subliminarmente, né (Dan ri). E achava que tava olhando pro umbigo. Porque eu era muito criança ainda (os outros riem, ele ri também). Eu acho que eu tinha menos de dez anos, nessa época. Não sei, eu não lembro quando é a época do Programa Livre, o ano, com certeza. E aí, eu lembro que… Eu também passei, aí… Não sei, eu desde criança tive essa postura minha muito analítica de mim mesmo. Isso, retomando hoje como adulto, eu paro pra pensar e me pego… Eu fico surpreendido comigo mesmo, de como eu era analítico, né. Aí, quando eu percebi isso no programa, eu notei, comecei a me reparar que eu ia brincar na rua, com os meninos da rua, que eles, normalmente, a gente tirava a camisa. Eu não, porque era tímido e gordinho, e tal.

Dan: Eu também.

Sidney: Sempre fui retraído. Mas os meninos da rua, era comum que eles tirassem a camisa pra brincar, né. E eu brincava com o pessoal aqui da rua, era comum. E eu reparei que eu olhava pra os umbigos deles também (ele fala entre risos, Thiago ri). E eu fiquei com essa coisa na cabeça. Mas então, por que é que eu olho pros umbigos deles, mas não olho pros das meninas, né? Ou das outras pessoas. Essa é a primeira memória, assim, que hoje, reconstituindo, que eu posso dizer que tem a ver com essa autodescoberta, né.

Dan: Gente, umbigo. Eu tô, assim… (ele ri)

Sidney: Ah, e depois veio, na adolescência, veio a…

Thiago: É, até faz um pouco de sentido, né. A barriguinha. É uma área explorada, né, assim…

Sidney: É, erótica, né.

Thiago: Pela mídia, e tal. Erótica, e tal. Faz sentido.

Sidney: Eu não sei se, nessa época, eu já via com esse olhar de erotismo. Embora, né, Freud vá dizer que tudo é erotismo, desde a infância, enfim. Pra quem gosta de Freud. Mas eu não pensava nesse sentido, assim, sexual, tal. Era mais um negócio que eu não conseguia explicar. Aí, depois eu fui me dando conta dessas coisas, quando eu fui crescendo mais. Isso aí eu era muito novo ainda.

Dan: Mas uma coisa que eu fico imaginando, Sidney, sobre você é aquela… você tinha uma passabilidade meio hétero. Por exemplo, você já foi chamado de bichinha, de viadinho, quando era mais novo, assim, ou não? Porque eu era, tipo, criança viada, entendeu? Eu era mais fácil (os outros riem).

Sidney: Eu era, sim, um pouco, mas é porque… bom, desde criança, eu sempre usei óculos muito grossos, né. Aí, já pega um pouquinho do meu futuro, né, no caso, o futuro da minha história. Eu sempre usei óculos muito grossos, eu comecei com cinco anos de idade a usar cinco graus de miopia, né. E os meus óculos, naquela época, a gente não tinha muitas condições financeiras, meus óculos eram muito caros, e eu morria de medo deles quebrarem. E eles quebravam muito, porque eles eram muito pesados. Não tinha armação que segurasse eles, né. Que fosse resistente o bastante pra segurar eles. Aí, eu morria de medo disso. Aí, isso me retraía. Porque, pra mim, tirar os óculos era me deixar desarmado totalmente.

Thiago: Vulnerável, né.

Sidney: Exatamente. Com cinco graus, já aos cinco anos, e a minha miopia só aumentou ao longo da vida, né. Eu acabei desenvolvendo essa relação muito física, corporal, com os meus óculos de grau. Tanto é que eu, quando eu enxergava, eu tinha medo de altura, mas não porque eu tinha medo de cair, porque eu tinha medo de olhar pra baixo e o óculos despencar e cair lá no chão, entendeu. E eu ficar sem os óculos. Porque os meus óculos eram pesados a esse ponto, de eu olhar pra baixo e eles caírem. Assim, até certo ponto, né. Depois que eu fiquei mais velho, as lentes foram se modernizando, e tal. Aí foi ficando mais levinho. Só que, como eu era criança, desenvolveu isso em mim, né. Aí, eu era criança viada. Era. Só que eu não me manifestava (eles riem). Porque eu era tímido a esse ponto, de não fazer muito movimento por causa dos meus óculos. E como eu era nerd… A gente tava até conversando sobre isso. E eu tinha todo o estereótipo do nerd padrão, né. Eu era, até o óculos fundo de garrafa eu tinha, inclusive. Era gordinho, baixinho, retraído. Era CDF, né.

Thiago: É, na época, a gente chamava de CDF!

Sidney: Exatamente. Mais um indício, aí, né. E por causa da minha miopia muito alta, eu tinha que sentar nas primeiras fileiras, né. E aí, isso não contribuía muito pra eu ser uma pessoa muito expansiva. Mas nos momentos que eu me soltava, e eram poucos, porque eu tinha vergonha do meu jeito afeminado, era perceptível. Então, o que eu fazia era de tudo pra que as pessoas não percebessem, ao máximo. E isso me prejudicou muito até em desenvolver relações de amizade. Porque eu sempre achava que as pessoas iam me julgar por causa da… A partir do momento que elas me conhecessem. Porque eu sabia, se eu me aproximasse muito e desenvolvesse uma relação, uma amizade, eu ia me soltar naturalmente, como é comum, né. E eu sabia que, a partir desse momento, eu ia me revelar, né, essa faceta que eu tinha vergonha. E por causa disso, por causa dessa noção de mim mesmo que eu tinha, eu evitava criar laços muito fortes. E isso repercute até hoje em mim, inclusive, parando pra pensar, né. Eu tenho poucas relações muito próximas, muito apegadas. Eu tenho uma dificuldade com isso. E é engraçado falar disso, porque aí eu lembrei de outra memória que tinha a ver com isso, com a minha criança-viadice (os outros riem), que é… Eu fazia curso de Inglês, e era semestral, né, como curso de idiomas geralmente é. E eu tentava mudar, todo semestre, mudar de turma. Porque eu não queria ficar muito à vontade numa turma.

Thiago: Com medo do pessoal…

Sidney: Exatamente. Porque eu tinha, justamente, essa vergonha de, a partir do momento que eu ficasse muito à vontade, as pessoas iam ver, né, que eu era afeminado, um pouco… Enfim, eu não sei se é um pouco, também, né…  O que é um pouco afeminado, né? (os outros soltam risos) Eu fiz cinco anos desse curso de Inglês, na mesma escola, mas eu só não troquei de turma quando não tinha outra turma. Porque sempre que eu mudava de semestre, eu procurava mudar de turma, justamente por causa disso. E isso repercute em mim até hoje.

Dan: No caso, você não queria ser notado, é? Mais ou menos isso?

Sidney: Não. Também, né. Se bem que, eu sempre fui, sim, eu sempre gostei de ser notado pela minha inteligência. Eu acho que eu compensava dessa forma. Eu demonstrava minha inteligência pra esconder esse lado que eu tinha vergonha. E eu trocava de turma e não me envolvia porque eu sabia que, uma vez que eu estivesse enturmado, eu ia ficar à vontade…

Thiago: Se sentir mais à vontade, e mais à vontade se expõe mais, e ficava mais… criança viada.

Sidney: Criança viada. E todo mundo ia notar e eu ia morrer de vergonha.

Dan: Eu tinha esse medo de ser notado, mas parece que, por exemplo, aqueles meninos que cometem bullying com a gente na escola, eles farejavam, sentiam o medo…

Sidney: Num é, menino!

Thiago: Ah, sim. Sim, sim. A insegurança da gente, na época, né. É clara.

Sidney: É, fica nítido, né.

Thiago: Fica, fica. E aí, é isso que eles farejam, né.

Dan: É o medo.

Thiago: Quando chegam perto, descobrem por quê.

Sidney: Tanto é que na escola, era o lugar onde eu era mais retraído e, mesmo assim, teve um episódio que eu tava indo… Eu sentava de um lado da classe, tava indo falar com a minha amiga do outro lado da classe. E aí, no meio do caminho…

Dan: tinha uma pedra.

Sidney: (ele ri) Exatamente… A turma do fundão, né, os meninos, lá, do futebol, da zoeira, começaram a dizer “Sidney, viado!” Eu lembro que, isso foi a primeira vez que aconteceu, na mesma hora eu dei meia volta e voltei pra minha carteira, que era no cantinho da parede, e fiquei lá sentado, fingindo que tava lendo qualquer coisa, né. Porque era muito vexatório. Enfim, é engraçado como essas coisas, quando a gente é pequeno, e quando a gente tá aprendendo a ter noção de si mesmo, como elas nos afetam. E como a gente, parando pra pensar, parecem ser pequenas coisas, mas pra uma criança que aprendeu que aquilo é errado e que não pode evitar em si mesma, é um negócio muito grande, né.

Thiago: Mas é grande, né. Não é tão pequeno assim (Sidney e Tiago se sobrepõem por alguns instantes).

Sidney: E também, eu falo isso por causa que, depois (ele diz entre risos), na minha vida adulta, aconteceram coisas tão mais traumáticas, que parece que isso perdeu um pouco a perspectiva, né, pra mim.

Thiago: Ah, ta.

Dan: Entendi. Mas uma coisa, Sidney, a gente não sabe lidar com essas situações e, geralmente, alguns ficam retraídos, outros, agressivos. Já chegou algum episódio de você precisar ser agressivo pra se defender, alguma coisa assim do tipo? Ou preferia fingir que não tava acontecendo aquilo?

Sidney: Ah, teve uma vez que eu não consegui segurar. Agora, eu era muito, muito pequeno. Isso era antes da quinta série. Era última semana de prova, tinha esse colega meu, de sala, que ele era o capeta da turma. E ele me pegava pra Cristo, né. Ele encarnava comigo, encarnou comigo o ano inteiro. O ano inteiro, ele encarnou comigo, e tal. Era o último dia de prova, eu lembro como se fosse hoje, era uma prova de geometria. E eu levei três réguas, né, pra fazer a prova. Porque eu sou desses (eles riem). Eu levo três porque pode acontecer alguma coisa com as outras duas…

Thiago: Pode quebrar uma, entortar outra…

Sidney: Exatamente. Eu sei que eu tava com três réguas na mão. Três réguas, aquelas de acrílico, régua escolar mesmo. E esse menino, nesse dia, ele parece que tava querendo compensar porque ia passar as férias, né, sem me atormentar. Ele, parece que queria compensar isso, e me atormentou mais ainda. E foi o único dia que eu perdi as estribeiras, e foi o único dia que eu cometi uma violência, até hoje. Eu acho que eu tinha oito anos de idade. Eu peguei as três réguas, apertei na minha mão, elas juntas, e taquei na cabeça dele (ele é interrompido por um som muito alto de louça caindo no chão, ele ri)… Teve até sonoplastia (todos riem)…

Thiago: Os gatos, aqui, gente, desculpa.

Sidney: Eu taquei as réguas na cabeça dele e parti as três réguas juntas, unidas como uma só, no meio, né. E ficou um galo na cabeça dele. Eu fui pra diretoria. E é claro que… O triste é, ele passou o ano inteiro me atormentando, mas o culpado, naquele dia, era eu, porque fui eu que agredi. Enfim, o carão quem levou fui eu.

Dan: Oh, Sid, olhando essas coisas que aconteceram no passado, você consegue imaginar que existe um meio saudável, pacífico, de dar um stop nesses meninos que cometem bullying com a gente? De uma forma que seja saudável, que não seja, por exemplo, sentando a régua neles? (Sidney ri)

Sidney: Eu acho que o meio menos eficaz é esse que eu cometi, né. Menos eficaz é partir pra a agressão igual, né. Inclusive, uma agressão maior, né, que ele só me ofendia, e eu parti pra agressão física porque eu simplesmente não suportei mais, e eu não sabia me defender verbalmente. Mas eu acho que o jeito é pacífico. O único jeito, assim, eficaz. Embora seja o jeito mais difícil. E eu, desde os oito anos, venho tentando, inclusive, aprender esse jeito, e não é fácil. Agora, eu acho que com violência a gente afasta mais do que aproxima. Isso é óbvio. Só que é muito difícil você ser pacífico diante da agressão óbvia a você, e diante do inevitável que é que se você não gritar tão alto quanto tão gritando com você, você não vai ser ouvido. Mas se você gritar tão alto quanto eles, você está se colocando ao nível deles, né, dos agressores. O que é muito complicado de dosar, na minha opinião. E eu falho miseravelmente, muitas vezes. Não é fácil.

Dan: Eu, olhando em retrocesso, assim, e vendo os discursos das pessoas que já passaram pelo HQ da Vida, eu vejo que a falha maior está sabe em quem, assim, nesses ambientes escolares? Do professor e da diretoria.

Sidney: É, exatamente.

Thiago: É quem devia cuidar, né. Zelar pelo aluno…

Sidney: Isso, e identificar, né… Porque, olha só, pra eu ter essa reação agressiva… Eu que era um menino, assim… Nunca…

Dan: Um bom menino, né.  (Thiago ri)

Sidney (rindo): Um bom menino… Um bom garoto… Não, mas eu era, a minha fama era justamente essa. O aluno que não fazia mal a ninguém. E, assim, por que não passa pela cabeça de um diretor de uma escola o que levou esse menino que nunca agrediu ninguém a fazer isso? Não passa pela cabeça.

Thiago: Comigo aconteceu bem semelhante que com você, sabia. Foi a mesma coisa, o bully, o valentão me encheu o saco o ano inteiro, no dia que eu revidei, eu bati nele e ele foi expulso da escola. Tô resumindo.

Dan: Nossa! Que bacana.

Thiago: A diretora percebeu que, se o Thiago, que é um menino calmo, tranquilo, estudioso, só tira nota boa, e tal, saiu do sério a ponto de agredir fisicamente o rapaz, vamos ver qual que é o problema, né. Aí, perguntaram, e não sei o quê… questionaram todo mundo, né, assim. Rolou uma semaninha tensa de “o que acontece, o que tá acontecendo?” Até que expulsaram o garoto. Bem que Ele já tinha outros problemas com outras pessoas, outros professores, e tal, né. Mas é como se fosse o estopim mesmo.

Dan: É, isso é uma das poucas histórias que eu ouço, assim, que acaba tendo um final mais ou menos feliz, né (Thiago ri).

Thiago: Menos triste…

Sidney: Um final coerente, no caso.

Dan: Com o roteiro da história.

Sidney: É muito difícil a gente encontrar pessoas que analisam o contexto todo, e não só a situação em si, né. Porque é mais simples, é mais fácil, né. É mais simples você dizer “não, o culpado é quem bateu”. Isso é óbvio. E a minha culpa era a culpa de quem bateu. Essa culpa eu tinha, entendeu… Agora…

Thiago: É, mas assim, eles entenderam que eu me defendi, né. Eu me defendi fisicamente de agressão verbal.

Sidney: É, mas isso não fica tão claro na cabeça das pessoas, que isso é em legítima defesa, né, infelizmente.

Dan: É, assim, eu tinha medo da agressão física, mas eu era encrenqueiro, assim, sabe (Sidney ri).

Sidney: Barraqueira (Thiago ri).

Dan: Barraqueira. Meu barraco era limitado, assim, a certas situações. Só abrindo um adendo aqui, a história é do Sydney…

Thiago: É, pois é, mas é que é tão parecido…

Dan: É, se encontram, né, essas histórias de gays. NO meu caso, eu morava em periferia, e assim, parte de colegas de escola meus já até morreram, sabe. Então, assim, como uns que eu já sabia, por exemplo, tinha um primo meu traficante, alguma coisa assim, sabe. Que dependendo do nível de entrosamento dele com a violência real, aí eu não mexia, ficava calado, fingia que não era comigo, fazia a egípcia. Eu queria saber como foi a sua primeira experiência, a sua primeira paixão… vamos primeiro pra primeira paixão, que ela pode não ter sido correspondida. Geralmente, isso acontece…

Sidney: Ah, gente. A sina, né, de toda criança viada (eles riem).

Dan: gostar daquele coleguinha que, às vezes, era hétero,né.

Sidney: Ai, às vezes não, sempre, né.

Thiago: (incompreensível) sem camisa, na TV (Sidney e Tiago riem).

Dan: Aquele umbigo seduzente (ele ri).

Sidney: Menino! Morria de vontade de ver, mas nunca consegui ver esse umbigo, até hoje. Quero, inclusive (Dan ri).

Dan: Como é que foi essa história?

Sidney: Assim, foi essa paixão meio platônica… digo que é meio platônica, vocês vão entender já, já. Foi quando, também, eu me compreendi gay, né. Foi com esse sentimento que eu desenvolvi por esse rapaz. Já tava na universidade, eu fazia Letras. Eu acho que era 2006, e tal. A gente tava na faculdade, ele era meu colega de faculdade. Ele não era da mesma entrada  que eu, porque, nessa época, eu já tinha começado a ter os problemas de visão que eu vim a desenvolver, e acabei atrasando alguns semestres na faculdade. E, por conta desse atraso, eu acabei cursando algumas matérias com a turma que chegou depois de mim, né. Depois da minha entrada. E aí, foi quando eu conheci esse rapaz, que a gente… O pessoal dizia que a gente se parecia, inclusive, e tal. Foi um negócio bem forte, assim. E foi pouco, porque eu convivi pouco com esse pessoal, porque logo depois eu tive outro problema na visão, que acabou me obrigando a largar essa faculdade. Mas foi, assim, uns oito meses de convivência intensa com ele. E às vezes eu ficava o dia inteiro na faculdade, não tinha nem necessidade, mas só porque eu sabia que ele ia ficar, né (Thiago ri). Porque ele cursava as disciplinas…

Thiago (ainda entre risos): Já tô shipando muito aqui (Sidney ri).

Sidney: Ah, só porque ele cursava… ele tava, né, normal nas disciplinas, e ele tinha disciplinas de manhã e de tarde. E como eu não tava, eu tava refazendo algumas, o meu horário não era tão cheio quanto o dele, mas eu, mesmo assim, ficava, às vezes até sem dinheiro pra almoçar, porque era legal conversar. Como o curso era de Letras, e eu tava, nessa época, desenvolvendo o meu gosto pela Literatura, e até minha vontade de escrever, e tal. Ele me apresentou muita coisa, também. E ele me mostrava os versos que ele escrevia. E eu achava isso o máximo. Meu deus, ele escreve, então eu posso escrever também. E eu notava que era um negócio íntimo mesmo, né, que ele compartilhava comigo. Que ele não mostrava pra todo mundo. Assim, não que ele mostrasse só pra mim, pra pessoas muito próximas. Isso, pra mim, era o máximo porque eu nunca tive essa sensação de reciprocidade, até então. Eu tinha o quê? 19 anos, e até então, todas as minhas paixões de antes foram platônicas, meramente. Foram figuras masculinas aquelas idealizáveis. Foi um parente distante que eu convivia, e tal, e ele era adulto, e eu passava as férias na casa dele, e eu tinha esse deslumbramento. Foi o meu professor de Inglês, né, que eu tinha esse deslumbramento, e tal. Só que não passava disso. Só de olhar de baixo pra cima, como todo amor platônico, né, que a gente se põe nessa posição. E com ele foi a primeira vez que eu senti um toque de reciprocidade, ainda que só de amizade. Porque ele era, infelizmente,né (ele ri), ele era hétero (os outros riem).

Thiago:Sai, hétero!

Sidney: bom, quando eu conheci ele, ele já namorava há mais de dois anos, era um negócio bem fixo, e tal. E ele era todo comportadinho, embora ele fosse da turma gótica. Foi minha fase gótica, também, por causa dele. Gótico suave, assim, bem de leve… Eu comecei a ler Edgar Alan Poe, e essas coisas assim (ele ri).

Dan: Nossa.

Sidney: Tudo por causa dele. Engraçado como nessa época a gente é influenciável, né, por isso.

Dan: É, parece que está mais aberto, né.

Sidney:bom, ao mesmo tempo, eu conheci a minha melhor amiga da vida. Amiga irmã, que a gente convive até hoje, liga, se desespera, chora, se descabela, um pelo outro, e tal, porque é com ela que eu faço minhas confidências. Enfim, ela é minha irmã mesmo, da vida, foi uma Irmã que eu encontrei no mundo, né. Ela era da mesma turma dele. As disciplinas que eu cursei com ele, eu cursei com ela, né. E ela não era boba nem nada, e reparava, né, porque, enfim, não dava pra não reparar, porque era escancarada, assim, a minha até devoção, às vezes, eu parando pra pensar. E um dia, eu tava na casa dela, e tal, falando de coisas, e tava falando dele. Eu era tão assim com ele, que eu sempre puxava o assunto pra falar dele, entendeu. E ela reparava nisso, e um dia…

Thiago: Bem coisinha de quem tá apaixonadinho mesmo, só quer falar da pessoa…

Sidney: Não é? Ah, meu deus! Eu era muito besta (Tiago ri). Todo pretexto eu botava ele na conversa. Todo assunto, eu botava ele…

Thiago: “Tem um amigo meu que me sugeriu tal livro…” “Tem um amigo meu…”

Sidney: “O que você acha que fulano acha disso?” (Thiago ri) Aí, quando foi um dia, no quarto dela, ela simplesmente se cansou e disse, “Sidney, tu gosta de fulano, né?” Assim, a gente nunca tinha conversado sobre isso. Sobre nada, ou sobre namoro. Nada, né. E eu ainda tava no armário. E pra minha surpresa, a minha resposta saiu naturalmente. Assim, “sim” (Dan ri).

Thiago (entre risos): Me deu um frio na barriga, agora.

Sidney: Não, eu fiz “sim, é, eu gosto.” Ela disse, “ah, é” Aí ela me falou, “mas eu acho que ele é tão hétero, né…”  (ele ri) “Não vai ter muito… Mas é bonito sentir isso, eu acho…” Isso, ela falando,né. “Eu acho que é bonito isso que você sente por ele, mas eu acho que não vai dar em nada.” Aí, ela me abriu os olhos… (ele solta um riso) Me abriu os olhos… E foi por causa dessa…

Dan: Você tinha quantos anos, Sid?

Sidney: Isso, eu tinha  19, 20 anos.

Dan: Ai, gente, eu era muito na frente. Eu saí do armário muito cedo.

Sidney: Ah, eu… Enfim, se você me perguntar do armário, a gente já chega nisso. Aí, por causa dessa pergunta, foi a primeira vez que alguém me confrontou quanto a isso, né, na minha vida, e tal. Porque tudo era só insinuação, na família era só aquele constrangimento de todo mundo sabe, mas ninguém diz, né, e tal. Ela foi a primeira pessoa que me perguntou, assim, tão naturalmente que eu respondi tão naturalmente, que eu disse “ah, então é isso mesmo. “ E como eu já tinha passado por perdas de visão, nessa época, eu tinha baixa visão, pra mim, quando eu realizei isso, né, de “ah, é isso? Então é isso mesmo? É definitivo? Então, tá bom. Vou exercer, agora!” (os outros riem).

Dan: Vou praticar!

Sidney: Exatamente, vou praticar agora. E, assim, não foi difícil pra mim, nessa época, porque eu já tinha passado por coisa pior. De me entender enquanto gay, e de colocar isso em prática sem pudores, né, isso aí foi fácil. É claro que com o rapaz, lá, do curso de Letras, não teve muito desenvolvimento. Inclusive, olha como é que são as coisas… Eu acho que a gente cria muito na nossa cabeça uma narrativa pra nossa própria história. Porque a imagem que eu tenho desse episódio que eu vou contar agora é a seguinte. Eu, simplesmente, um dia, depois que ela me perguntou isso, eu disse “então, eu vou dizer a ele”. E eu ia cometer o famigerado sincericídio,né.

Thiago: Aham, vou me declarar!

Sidney: Exato. Porque quantas vezes… Quantas histórias de a pessoa foi se declarar, assim, abruptamente, deram certo na vida, né?

Thiago: Zero.

Sidney: Um total de Zero. Só que aí eu disse, quando eu me decidi, e eu lembro nitidamente que eu me decidi, “amanhã eu falo pra ele.” A gente ia ter tempo, né, pra falar isso, e oportunidade. Até porque eu criaria a oportunidade também, né. Que eu não era bobo. E decidi, amanhã eu vou contar. Só que, aí, amanhã eu não fui pra faculdade, porque eu tive o segundo descolamento da retina, quando eu comecei a perder a visão completamente. Aí, depois desse dia, eu não frequentei mais a faculdade, não convivi mais com ele. A gente se viu algumas vezes esparsas, né, ele veio me visitar quando eu tava de repouso por causa das cirurgias, e tal. Mas foi quando eu tive que largar a faculdade, foi justamente nesse dia que eu decidi contar pra ele no dia seguinte. NO dia seguinte, eu descolei a retina de novo, né. E não pude mais voltar a cursar, a conviver com ele. E nunca contei.

Dan: Você fazia qual curso?

Sidney: Eu fazia Letras, nessa época. E nesse finalzinho, eu fazia Letras e Comunicação Social ao mesmo tempo. Tava cursando duas faculdades.

Thiago: Poxa, eu tava shipando tanto aqui…

Sidney: Inclusive, eu shipo até hoje! (os outros riem) Mas hoje ele já é casado, já tem filho.

Dan (rindo alto): Adorei!

Sidney: É uma barra, menino. De vez em quando eu me pego nos shipando.

Dan: É tipo o famoso “e se”, né.

Sidney: É, exatamente. Eu já conversei com essa minha amiga, inclusive, sobre isso porque, na minha cabeça, a imagem dele ficou um… Porque eu não consegui, né, cometer o meu sincericídio, ficou um negócio cristalizado, assim, tão transparente, que parece que foi…

Thiago: Ficou congelado, né…

Sidney: É, e ficou intocado. E porque tá intocado, ele tá limpinho. Aí parece que era a relação perfeita. Embora a gente soubesse que se tivesse dado errado ou certo, a gente sabe que não teria sido tão perfeito quanto eu me lembro hoje, né. A imagem que eu tenho desse rapaz, até hoje, que é uma imagem muito bonita, muito terna e quando eu lembro, quando eu quero, assim… Quando eu tô meio tristinho, e tal. Enfim, ele nunca soube disso, nunca vai saber, talvez. Mas sempre que eu tô tristinho, assim, me sentindo mal amado, ou me sentindo mal por causa dessa minha dificuldade de me relacionar com as pessoas, eu lembro dessa coisa bonita que eu senti por ele e me faz sentir melhor, sabe. É como se fosse uma lampadazinha, lá dentro de mim, que de vez em quando eu acendo e me lembro de uma coisa bonita que eu fui capaz de viver, uma história bonita que eu fui capaz de construir pra mim, ainda que só do meu lado, né, só pra mim mesmo, né. Nunca chegou aos ouvidos dele, isso ele nunca soube, talvez nunca saberá. Mas isso me revigora um pouco, né, inclusive pra eu lidar com as minhas relações hoje, né, inclusive com os meus namorados que eu já tive desde então, e com meu namorado atual.

Dan: ai, eu já tive crushes com amigos héteros, mas nunca apaixonei, sabe. Os crushes, inclusive, são amigos meus até hoje. O crush passou, e a amizade continuou. Então, não tive esse sincericídio com eles. A gente até, no fundo, deseja, né, que eles não fossem héteros, tivesse o raio gayzificador

Sidney: É que não dá pra escolher, né.

Dan: Não dá. Eu acho, assim, que o que você talvez vê nessas pessoas são algumas qualidades, assim muito legais. Inclusive, não são muitas qualidades de homem hétero, assim, padrão não, sabe. Eles não são homens héteros padrão, assim, geralmente.

Sidney: E graças a deus que tem esses héteros assim, né.

Dan: É, pras mulheres é ótimo. Porque o hétero padrão…

Sidney: Ah, pra gente também, migo. Porque a gente pode ter amigos héteros bons também.

Thiago: Pode ser amigo que não fica de mi-mi-mi…

Dan: É… Eu tenho amigos héteros.Fora do padrão.

Sidney: E talvez, se eu não tivesse saído dessa faculdade, talvez a gente fosse amigo até hoje. Porque a gente era muito igual nas coisas, entendeu. Gostava muito das mesmas coisas. E pensava… A nossa perspectiva de mundo era muito parecida. E, enfim, talvez o meu sincericídio tivesse acabado com a relação, ou não. Ou tivesse só…

Dan: Reformulado essa relação.

Sidney: É, reformular e eu reformular minhas expectativas, né, quanto a ele, e essas coisas.

Dan: E talvez bastaria.Talvez não seria tão especial quanto é hoje. Entende? A memória é especial. E aí, ela tá guardada. Talvez ela não fosse tão especial assim. Ela entraria pra um rol de neutralidades. Oh, Sidney, pelo que eu percebi, então, na verdade, você virou praticante mais velho, né? Não foi assim 15, 16…

Thiago: Praticante! (ele ri)

Sidney: foi. Eu só comecei (todos riem)… Eu só comecei a exercer, menino, eu tinha 21 anos. Foi bem depois, inclusive dele…

Dan: Nossa, eu com 21, era rodadíssima…

Thiago: Eu acho que eu sou o mais velho de vocês, né?

Sidney: Não sei, é?

Dan: Quantos anos você tem?

Thiago: 36.

Sidney: Ih, menino, é mesmo!

Thiago: O Sidney tem 30…

Dan: Eu tenho 28, vou fazer 29. Nossa, Tiago, você tem uma cara de bebê… (Thiago ri alto)

Sidney: E tem voz de menino também.

Thiago: voz de mais novo, né. Sei lá… Não sei, obrigado…

(DAN E SIDNEY FALAM  SE SOBREPONDO, INCOMPREENSÍVEL)

Thiago: Que você tá achando tarde, né, pro Sidney. Tem um pulo de gerações aí, também, né. Coisa de…

Sidney: Inclusive, a minha perda da virgindade foi tudo junto, né. Eu, inclusive, nunca tinha, até os 21 anos, nem beijo na boca eu tinha dado. E foi tudo junto, foi tudo de uma vez, porque num carnaval eu decidi, cansei de ser virgem, vou resolver esse assunto (os outros riem). E resolvi.

Thiago (rindo): gosto assim.

Sidney: só que, aí, depois… Porque foi um negócio muito, assim… Que não era do meu feitio fazer isso, devido ao meu perfil até então. E eu simplesmente entrei num chat, conheci um cara, e marquei e fui. Ele tava com a casa vazia porque era carnaval. E foi de noite. Eu tinha baixa visão nessa época, pra vocês terem noção, eu não lembro do rosto dele, porque era noite, era escuro e obviamente eu não enxerguei o rosto dele. E até hoje, eu não sei o nome Dele nem ele sabe o meu, porque ele preferiu não dizer. Eram nomes comuns, né, o Nick… É, o Nick era um Nick de gente comum, o meu também, né.

Dan: É tipo aquele discreto com local…

Thiago: Solteiro, 19…

Sidney: Era. Não, e provavelmente aproveitou o carnaval pra pular uma cerquinha aí, de hétero também, inclusive, né, pra aproveitar a casa vazia. Isso é depois, eu analisando. Na hora, eu não pensei nada disso. Mas aí, no final, eu fui dizer que o meu nome não era aquele, e tal… E o meu nome era Ícaro, inclusive, né, o meu Nick. Que eu acho esse nome lindo. E eu fui dizer a ele, e ele disse “não, não, não precisa dizer,, não.” E eu, tudo bem. E aí, saí, voltei embora pra casa, e fiquei com aquilo na cabeça. Depois disso, ficou tudo muito mais… Que a primeira vez que entra, depois facilita, né… (todos riem) Depois da primeira, engata.

Dan: Engata.

Sidney: É, mas foi tranquilo. Eu não tive mais… Com relacionamentos, eu não tive mais dificuldades, não. Depois da minha primeira vez, não tive mais bloqueios nem dificuldades.

Dan: Agora, eu tava brincando com você, que você já tava mais velho, mas eu acho que essas coisas tem que acontecer na hora que a pessoa está mais disposta, também, que elas aconteçam. E aí, a gente se predispõe e deixa que essas coisas aconteçam na hora certa mesmo, de fato.

Sidney: É, e você vê mesmo na minha própria fala. “Cansei de ser virgem.” Como se fosse uma obrigação você perder a virgindade, e tal. E isso tudo é uma bobagem, hoje em dia… Porque a gente demora a aprender, né. Mas é bom que um dia a gente aprenda, cada um tem seu tempo, o meu tempo foi esse, e eu acho que, pra mim, foi saudável esse tempo, e tal. Foi saudável no sentido de eu tava pronto pra isso, porque eu tava disposto. Mas foi saudável também no sentido de que eu pude aproveitar melhor, né. Porque, não sei, eu parando pra pensar, o meu eu de 14, 13 anos, que é quando geralmente… Enfim, a expectativa geral é essa, né, que a gente comece aos 13, 14 anos, nós homens, pelo menos, né. Quando eu tinha essa idade, eu não ia saber lidar com nada disso, ia ser péssimo, ia ser horrível. Eu totalmente deslocado da vida, deslocado de mim mesmo. E eu tava melhor comigo mesmo naquela época, eu tava aprendendo a lidar com a minha deficiência, embora eu não me identificasse enquanto pessoa com deficiência nessa época ainda, porque eu tinha baixa visão, pelo fato de eu enxergar pouco, eu não considerava, né. Não me colocava nessa caixa, né, de pessoa com deficiência então. Mas eu tava muito melhor comigo mesmo por causa das minhas experiências, traumas, justamente que foram muito fortes pra mim, e foram, até hoje, mais fortes do que qualquer outra experiência que eu tive, entendeu. Aí, pra mim, na minha perspectiva, que é muito particular e muito pessoal, por causa da minha trajetória, pra mim pareceu simples, entendeu. Uma vez que eu entendi que era isso, e uma vez que eu já tinha coisas muito piores no meu… Piores, assim, desagradáveis, né, no meu currículo. Pra mim foi simples me resolver com a minha sexualidade, porque pra mim pareceu um detalhe bobo diante de tudo que eu tinha que aprender a lidar, né, a partir dessa perspectiva da minha perda da visão.

Dan: Eu, com 21 anos, eu já tava cansado da vida (os outros riem), porque eu já tava muito rodado. E aí, eu conheci… Tava na época que eu queria sossegar e tudo mais, e foi que eu conheci meu marido. E sosseguei.

Sidney: Olha aí, até hoje.

Dan: É, vai fazer oito anos.

Thiago: Ah, até hoje! Oito anos só. (os outros riem)

Sidney: Ah, mas oito anos é muito… (Dan ri)

Thiago: É, mais ou menos.

Dan: Eu nem vi passar. Passou rápido. Sid, pelo que você vai falando, esse percurso aí, você demorou a conhecer uma pessoa do mesmo gênero, no caso. E aí, você chegou a ter experiência com mulheres também?

Sidney: (ele começa a falar, mas se interrompe, rindo) Ai, meu deus…

Dan: “Ai, meu deus, uma mulher na minha vida!”

Sidney: Não, pior que tiraram meu… como é que diz? O meu cartão Premium(Dan ri), foi tirado de mim. A minha carteira Premium. Assim, eu nunca fui… Porque quando eu achava que eu me interessava, eu não tinha coragem, né. Eu era retraído, e tal. Aí, quando eu me entendi, eu parti logo pra o que eu sabia que eu gostava. Então, nunca tive, assim, relacionamento com meninas nunca tive. Já gostei de meninas, né, na minha pré adolescência, e na adolescência, eu lembro que eu tive meninas que eu gostava, e tal, e que eu tentava desenvolver alguma coisa, mas fracassava miseravelmente, obviamente, porque, além de ser desajustado, eu não tinha a minha aparência a meu favor, né. Que eu era fundo de garrafa, e tal, todos esses apelidos que as pessoas colocam em quem usa óculos, usava óculos muito grossos, naquela época. E eu era gordinho, né, enfim. Nada atrativo.

Dan: É que a imagem do nerd, né.

Sidney: É, naquela época, inclusive, ela não era tão legal quanto é hoje. Embora seja legal até certo ponto, né.

Thiago: É, era o CDF,né.

Sidney: É, eu era aquele que não era pra… Ninguém via, me enxergava enquanto possibilidade afetiva. Era só, no máximo, o amigo legal e inteligente que ia lhe dar cola na prova.

Thiago: O passa cola.

Sidney: Exatamente. Então, nunca cheguei a ter nada com outra menina. Só não digo que nunca beijei, porque eu fui beijado, né (eles riem).

Dan: Roubaram um beijo?

Sidney: foi, menino! Olhe, eu vou contar. Senta aí. Eu já tava… Olha como foi louco, a história. Eu já tava namorando, era o meu primeiro namorado, e esse namorado tinha um amigo, a gente foi pro apartamento desse amigo dele. Foi conversar, passar a noite lá, bater papo, e tal. Enfim, passar tempo. E a gente tava bebendo, e tal, e esse amigo do meu então namorado, né, na época, ele tinha uma amiga muito próxima também, né. Ela foi pra lá também, e ficou conversando, e foi muito agradável. A gente tava conversando, comendo, petiscando. E ouvindo música, né. Aí, chegou um ponto que o meu namorado e o amigo dele saíram pra varanda, e foram conversar lá, o meu namorado fumava, e ele foi fumar lá fora, né. E o amigo dele foi com ele pra não deixá-lo só. Aí, eu fiquei conversando com a amiga dele, né. Dentro. E de repente começou a tocar uma música, eu não sei… É porque eu tava bêbado já, nessa hora (eles riem), aí eu não lembro direito. Mas se eu não me engano, era Roberto Carlos.

Thiago: Nossa…

Sidney: Aí, eu disse “vamos dançar?” E ela disse “vamos”. Aí, a gente começou a dançar na sala, e tal. E era Roberto Carlos, obviamente, uma música romântica, só que eu tava lá, de boa… Assim, só de boa, dançando e tal…

Thiago: Dançando, uma brincadeira…

Sidney: É, até porque nem gosto de Roberto Carlos, menino, o que deu na minha cabeça de dançar Roberto Carlos, não sei. Loucura. E de repente… Quando eu bebo, eu fico meio dormente, né (ele ri). Meio tonto, tonto no sentido… Eu fico leso. Alesado. Então, de repente, eu comecei a sentir um negócio diferente, e quando eu dei por mim, ela estava me beijando (Dan ri).

Thiago: Eita.

Sidney: E eu parei. Eu fiquei estático, porque… Não por ela estar me beijando, mas porque, primeiro, era uma mulher me beijando, e isso era inédito pra mim, e era inesperado. Porque ela era amiga do amigo do meu namorado, e ela sabia que eu tava namorando. Não era um negócio…

Thiago: Você tava com o namorado ali,né, inclusive.

Sidney: Exatamente. Assim, não era nada escondido. Ninguém tava no armário, ali. Era tudo aberto, e ela sabia, “eu vou lá na casa de fulano, conversar com Sidney e o namorado dele.” E isso me pegou de surpresa. Quando eu vi… Aí, primeiro eu me dei conta que ela tava me beijando, parei, congelei. Aí, quando eu congelei, eu senti que ela não tava só me beijando, ela estava me apalpando também (ele ri).

Thiago: Oh, louco! (ele também ri)

Sidney: Aí, quando eu entendi o que a mão dela tava fazendo (os outros riem alto)…

Thiago: Desculpa, gente. Que maravilhoso!

Sidney: Eu simplesmente tomei a atitude mais sensata que eu consegui reunir, né, na minha cabeça de pessoa tonta e bêbada. Que eu era jovem, também, imaturo. Ah, meu deus… Um rapaz bobo…

Thiago: Um moçoilo.

Sidney: Porque não é… É, porque que coisa tão grave é essa? Não tem gravidade nenhuma nisso, e tal.

Dan: Tem não, eu ia curtir o momento.

Sidney: É, e eu podia, inclusive, ter curtido, né. Mas na hora, não. E o que me chocou mais, porque nessa época eu tinha uma noção muito católica de fidelidade e de relacionamento, e pra mim aquilo era inaceitável, né. Mesmo eu sendo gay.

Dan: Já basta ir pro inferno sendo gay, e ainda sendo…

Sidney: Sendo adúltero, né… (Thiago ri) Eu sei que deu um curto-circuito em mim, eu simplesmente larguei ela, né, me desvencilhei, não fui grosso, mas… Aí, corri pro quarto e me tranquei no quarto (ele ri, os outros riem em seguida).

Dan: A louca.

Thiago: Pra dentro do guarda-roupa…

Sidney: Eu bati a porta, todo mundo ouviu a porta se batendo. As lágrimas debulhando, assim.

Thiago: Ai, que fofo (ele ri).

Sidney: eu comecei a chorar de um jeito…

Thiago: Ai, que dózinha.

Sidney: Nunca tinha me sentido assim tão mal. Ele vai ver, e vai ser um barraco, e eu não tive culpa…

Thiago: “Ele vai terminar comigo!”

Sidney: … e eu não iniciei nada. Ia ser um reboliço e eu não tinha culpa. Na minha cabeça eu tava, assim, sem saber o que agir, porque eu não tinha iniciado nada, né. E o meu namorado foi o mais fofo do mundo. A atitude dele… ele entrou no quarto, sentou do meu lado e me abraçou, viu que eu tava chorando, né. Me abraçou e perguntou o que tinha acontecido, porque ninguém sabia, que ninguém viu, né. Eles dois tavam lá fora, e de repente eles ouvem a porta do quarto batendo.

Thiago: Só tavam vocês quatro?

Sidney: Só tava nós quatro. Aí, ele perguntou o que aconteceu, eu contei (ele ri), e sabe o que ele fez? E eu achando que ele ia dar um esporro, e tal, ia ficar revoltado, mas na hora que eu terminei de contar ele começou a rir da minha cara (os outros riem). Ele disse, “tu é besta de tá chorando por causa disso? Tudo bem, ela é assim mesmo, eu já conheço ela, não pega nada.” (os outros riem mais)

Dan: Ah, eu teria a mesma reação.

Sidney: Enfim, essa foi a minha… Eu não esperava nunca essa reação dele, naquela época, não. Hoje, eu teria a mesma reação que ele teve, né, se eu fosse o namorado, né, hoje em dia. Até porque ele era bem mais velho que eu também, né.

Dan: Era mais rodado.

Sidney: É, exato. Enfim, foi a única vez que eu beijei uma moça, mas…

Dan: Que te beijaram, né…

Sidney: Não foi de propósito, e também… Não vou dizer, assim… Não foi ruim, mas não foi bom porque eu também não percebi, né. Eu não aproveitei a situação (todos riem). Eu não entendi…

Thiago: Não tava preparado, né.

Sidney: Poderia ter sido bom, mas eu não tava preparado.

Dan: E depois desse primeiro namorado, você teve quantos namorados, Sidney?

Sidney:Namorado sério, eita… É difícil essa pergunta, porque tem uns relacionamentos que eu chamei de namoro, que hoje eu não chamo mais, né (Dan ri). Hoje em dia, olhando pra trás, eu não chamo mais. Mas, assim, se contar com esses, foram quatro, né. O atual é o quarto.

Dan: Hum, e vocês tão juntos há quanto tempo?

Sidney: Há três anos. Um pouquinho mais de três anos.

Dan: Entendi. Então, Sid… Eu nem tinha reparado, o desenrolar das histórias estão tão legais, que eu perdi… Falei assim, “ah, foda-se o tempo!” Não vou mexer com o tempo (os outros riem). Mas eu queria deixar… Eu nunca deixo o programa no tempo que eu quero. Mas, enfim. Vocês tão juntos aí, você falou com esse namorado, vocês tão juntos há três anos. Aí, você fala do seu problema de baixa visão e o descolamento… É descolamento o termo, né?

Sidney: É, descolamento da retina.

Dan: Então, do descolamento da retina. Vai acontecer uma série de episódios durante esse percurso aí, que são três, quatro anos, né. E você vai se ver sem a visão…E aí…

Sidney: Não vou me ver, né, menino…

Dan (meio constrangido): É, ai que horror!

Thiago: Meio…

(SIDNEY SOLTA UMA GARGALHADA)

Dan: Ai, credo, Sidney, que medo.

Sidney (ainda rindo): Não, não foi gafe, não. É que eu gosto de brincar…

Dan: Mas, assim, brincadeira á parte, a gente conversa muito e a gente sempre usa o verbo “ver”, no sentido de visualizar… É, eu sei… Eu sei que você quer me trolar! (ele ri) E você conseguiu.

Sidney: É que eu gosto de brincar com isso. Mas não tem que ajustar o verbo “ver”, não, gente.

Dan: Eu inclusive ia te falar isso. Eu tinha uma dificuldade de usar o verbo “ver” contigo. Aí, quando eu comecei a ver que você usava o verbo “ver”… Porque “ver”, né, na verdade…

Sidney: É porque a gente extrapola o sentido da visão pra o sentido do conhecimento. A cultura associa a visão ao conhecimento, né, e tudo que é do domínio do conhecimento acaba caindo no domínio da visão. Os verbos e os termos sobre visão acabam dominando a linguagem. Isso é comum, e não é errado, não tem que ficar com vergonha nem pisar em ovos pra usar, assim,quando você tá…

Thiago: Em outras línguas acontece isso também?

Sidney: Acontece. É porque isso é ocidental, né. É um processo ocidental, de tomar… Desde o Iluminismo, e o nome Iluminismo não é à toa, né. De iluminar, porque desde sempre a gente tem a noção de que a gente consegue o conhecimento através da visão, né. E por isso, Iluminismo, né, a era do conhecimento. Porque outras luzes revelam outras coisas aos olhos e, por isso, a gente conhece melhor. Essa associação é, até onde eu conheço, bem ocidental e europeia, né. Vem da Europa, desse apanhado histórico aí. Desde antes, né. O termo Iluminismo já surge por causa dessa centralidade da visão, né, que a gente desenvolveu ao longo do desenvolvimento do conhecimento humano.

Dan: Hum, bacana, eu não sabia. Não tinha feito essa relação. Olha só. E eu queria muito conversar com você, hoje, sobre capacitismo. E sobretudo capacitismo no meio gay. NO meio LGBT, na verdade. Porque as pessoas acham que quem tem deficiência visual, ou qualquer outra, né, ela não tem direito ao amor, ou… Na verdade, as pessoas… Eu vou usar um termo mais chulo, talvez. Fala assim, essas pessoas não transam, essas pessoas não têm vida. E aí, eu queria que você contasse, um pouco, por exemplo, já que você está com seu namorado há três anos, você já conheceu ele sem visão, foi isso, né, no caso?

Sidney: Foi, foi isso mesmo. Ele já me conheceu, eu já não enxergava. Os outros, os anteriores, eu ainda enxergava. Tinha baixa visão. E aí, eu posso dizer a diferença, né. Eu comecei a perder a visão aos 19 anos. Eu tive um descolamento da retina, em um dos olhos. E acabei perdendo a visão completamente, desse olho. Nessa ocasião que eu descolei essa retina. Foi aos 19 anos. Aos 20 anos, no ano seguinte, eu descolei a retina do outro olho. Só que eu fiz cirurgias e consegui não perder a visão. Só que acaba que a retina, como ela é uma parte do olho que é muito sensível e delicada, porque é composta de células nervosas, uma vez ela descolada, ela acaba deixando sequelas, por mais que você consiga recolocar ela no lugar. E por causa do descolamento, apesar de eu não ter perdido a visão totalmente, eu fiquei com baixa visão. Ou seja, eu perdi sensibilidade da retina, mas eu não era completamente cego. A isso a gente dá o nome de baixa visão. Baixa visão é toda aquela pessoa que tem um problema de visão que não é corrigível com os meios, assim, banais de corrigir uma visão, como é o caso de óculos e lentes, essas coisas,né. São visões que só o óculos não basta. Geralmente você precisa de ampliação, de mudança de contraste, essas coisas. E eu fiquei durante quatro anos com baixa visão. A maioria dos meus relacionamentos foram nessa época que eu tinha baixa visão. E era uma época que eu não me identificava enquanto pessoa com deficiência, porque a minha baixa visão era suficiente o bastante pra eu passar. Eu tinha uma… (ele ri) Ai, que engraçado (Thiago ri), eu tinha uma passabilidade não deficiente, entendeu. Uma passabilidade sem deficiência, melhor dizendo, né. E aí, eu fingia, e tal. E tava em negação, por conta dessa situação, porque não é fácil você admitir pra si mesmo que você tem uma condição a qual a sociedade enxerga enquanto incapacitante. E por isso, isolada, né. Te isola da convivência em sociedade, por causa dessa sua característica, né, física. E nessa época, eu não me encarava, não me enxergava… Olha aí, Danilo… (Dan ri) Não me enxergava assim, enquanto pessoa com deficiência visual, né, apesar de eu usar o computador com ampliação da tela. Pra ler um livro era um sacrifício porque eu tinha que encostar o livro no nariz, nessa época, e tal. Foi a época que eu concluí a minha graduação. Depois (incompreensível) que eu enxergava pouco, outro problema, foi um glaucoma que eu tive, que acabou tirando essa baixa visão que eu tinha, né. Aí, foi quando eu fiquei completamente cego. Foi em 2012, né, se eu não me engano. Desde 2012 que eu não enxergo nada. Aí, sim, eu sou cego, né. E o termo é esse mesmo. Pode usar, gente. Agora usa com quem é cego mesmo. Porque quando o assunto é deficiência visual, não é uma questão de ser ou não ser, entendeu, cego ou não. Existem muitas matizes, como o meu próprio exemplo já mostra, né. Eu tive uma época que enxerguei com um olho só. Eu tive uma época que enxerguei pouco com um olho só. E agora eu não enxergo nada. Então, tem vários níveis…

Dan: E o termo seria “pessoa com deficiência visual”…

Sidney: Pessoa com deficiência visual, se você não sabe qual é o grau de deficiência visual que ela tem. Agora, eu to dizendo a vocês que eu não enxergo nada. Eu sou cego. É, eu sou uma pessoa com deficiência visual. Tão entendendo a diferença? Toda pessoa cega é uma pessoa com deficiência visual…

Dan: Eu acabei de descobrir agora isso.

Sidney:  toda pessoa cega é uma pessoa com deficiência visual, mas nem toda pessoa com deficiência visual é uma pessoa cega.

Dan: entendi. E dentro, por exemplo, dos graus de, por exemplo, uma pessoa com hipermetropia, uma miopia maior, que de certa forma limita ela ali, ela também entra nesse espectro desse termo, ou não? Ou deveria, e elas não querem ter um estigma dentro da palavra?

Sidney: Essa pergunta puxa uma diferença que é muito sutil, mas que é muito significativa quando a gente tá falando de deficiência. Só é deficiência quando você se priva, ou quando a sua condição te priva de direitos e deveres, ou de exercer a sua cidadania com autonomia. Então, falar que uma pessoa que tem miopia… Por exemplo, eu quando tinha miopia, né, antes dos 19 anos, eu tinha 13 graus de miopia. Falar que eu era deficiente visual seria injusto porque eu não me privava de nada por causa da minha miopia. NO máximo, eu tinha vergonha, por causa dos óculos.

Dan: é, 13 graus…

Thiago: A espessura dos óculos…

Sidney: Exatamente, mas… Assim, essa pergunta é importante que puxa… Porque tem gente que diz assim, “ah, mas então eu uso óculos, então todo mundo tem deficiência de alguma forma, né.”

Dan: Ah, é. Que também tem questões jurídicas, né, que entrariam aí, no caso.

Sidney: é, existem as definições jurídicas, mas existe a definição, assim, do bom senso, e também até uma definição padronizada em convenções da ONU sobre o assunto, que existe uma diferença que a gente precisa entender entre o que é deficiência e o que é doença, e o que é uma condição médica. Porque são coisas diferentes.

Dan: Tem tudo a ver com o texto seu, né.

Sidney: Uhum. Então, você dizer que você tem miopia, você não tá dizendo que você tem uma deficiência visual, você tem uma doença nos olhos. Não sei nem se chama doença, né, miopia, acho que não é doença, não. Porque é a formação do olho que causa a miopia. Então, não chega nem a ser doença.

Thiago: Ah, eu acho que é. Eu dei uma wikipediada aqui…

Sidney: Ah, foi? (eles riem) Então, você ter miopia significa dizer que você tem uma doença nos olhos. Vamos chamar assim, né, de doença. Você tem uma condição médica nos olhos. Mas isso não significa dizer que você tem deficiência porque a condição médica difere da deficiência, porque a deficiência não é do indivíduo. A deficiência é externa ao indivíduo. Ela é imposta sobre o indivíduo, por causa de algumas condições físicas psicológicas ou sensoriais, no caso. Então, quando você tem miopia, você só tem uma condição médica. Quando você é cego, você tem deficiência. Por quê? Porque a sua condição médica de pessoa que não enxerga te priva de várias situações na sociedade, de vários direitos, e de exercer a sua liberdade enquanto ser humano, porque a sociedade toda espera que todos enxerguem.

Dan: bacana!

Sidney: É uma diferença, assim…

Dan: Essa diferença…

Thiago. Entendi. Eu acho que entendi.

Sidney: Deficiência é só…

Dan: Oh, Sidney, posso te interromper só pra te falar uma coisa?

Sidney: Pode.

Dan: É, o seu texto. Olha aqui, que definição ótima, do seu próprio texto, lá, das gordas, no wordpress. (Dan lê) “Deficiência, desse modo, não é o meu médico quem determina, mas o comportamento cultural. Meu médico me diz: descolamento das retinas, glaucoma, visão nula em ambos os olhos. A sociedade, então, por sua vez, em função desse diagnóstico, me força a ficar em casa, porque mesmo sair na rua, para ir até a padaria, no final da avenida, é praticamente impossível: calçadas irregulares, falta de padrões, pessoas despreparadas para lidar com um transeunte que empunha uma bengala e não é idoso… De modo que, o essencial é compreender que deficiência é uma condição social que resulta dessa expectativa coletiva de que todos os corpos funcionem do mesmo jeito. Dentro do meu quarto, por exemplo, eu deixo de ser deficiente, pois, adaptado e organizado como está, consigo dispor do espaço sem me privar e sem depender de olhos alheios. Em uma cidade onde as calçadas fossem padronizadas, devidamente sinalizadas e acessíveis para circulação universal, eu não seria mais uma pessoa com deficiência. Seria apenas cego, somente um aspecto particular meu, uma característica, como meu cabelo ser castanho.” Eu adorei esse trecho do texto seu.

Sidney: É, porque é importante… e é engraçado a gente pensar nisso, e falar de acessibilidade, porque a condição da deficiência, eu acho que de todas as minorias representativas, ela é a mais universal. E, ironicamente, ela é a menos falada, é a mais jogada pra debaixo do tapete. Porque qualquer pessoa pode se tornar uma pessoa com deficiência, ou pode estar em condição de deficiência. O que é “em condição de deficiência”? você, Danilo, eu soube que caiu da escada e quebrou o braço, né.

Dan: Uhum.

Sidney: Né, esses dias. Suponhamos que você tenha quebrado a perna, e na faculdade que você trabalha, no instituto que você trabalha não tem rampa nem elevador. Você tá com a perna engessada, você não consegue subir pra dar aula. Você está em condição de deficiência, porque você está privado de um acesso, por causa da incapacidade que o espaço teve, e da expectativa das pessoas e, por consequência, de tudo que elas projetam, de esperar que todas as pessoas funcionem do mesmo jeito e, ao mesmo tempo, e sempre, entendeu. Porque , aí vocês pensam, a gente fala de acessibilidade e a gente lembra logo das pessoas cegas, das pessoas cadeirantes, e tal. Mas uma pessoa idosa, que não se vê na… Não entra nessa categorização de pessoa com deficiência, se ela não consegue dobrar os joelhos por causa da condição, né, dos ossos dela, por causa da idade avançada, ela também não tem acesso. Então, ela também está em condição de deficiência. Uma mulher grávida que não pode subir uma escada também está em condição de deficiência, porque ela não consegue subir a escada, porque a escada não é projetada pra que o acesso seja universal. Inclusive, a escada é o pior exemplo de design. Eu não sei como é que ela resiste até hoje, porque a escada pressupõe que você tenha duas pernas e dois joelhos articulados.

Thiago: Nossa!

Sidney: como é que esse design tão burro não caiu em desuso até hoje, entendeu? Porque é muito… Isso eu to dando um exemplo banal, sabe, de uma escada. E agora, eu peço pra todo mundo que tá ouvindo, sempre que chegar na frente de uma escada, olhe pra ela e pense em quantas pessoas não podem subir essa escada simplesmente porque  a mentalidade coletiva julga que todas as pessoas têm duas pernas e dois joelhos articulados.

Dan: Nossa, eu não tinha pensado nisso. E você acredita que, ano passado, exatamente há quase um ano mesmo, eu caí daqui do primeiro andar aqui de casa. E eu fiquei dez dias usando a cadeira do escritório pra poder me locomover pela casa, que eu não conseguia andar. E a casa não tem estrutura nenhuma pra poder me locomover, pra tomar banho, descer as escadas… Eu precisava de outra pessoa.

Sidney: E daí, você tira que pessoa com deficiência poderá ser qualquer pessoa.

Thiago: Pode ser qualquer um.

Sidney: ao contrário de… enfim, a gente fala da homossexualidade, das sexualidades, né, das transgeneridades, da negritude, condições inerentes ao sujeito. Elas já vêm com o sujeito. Elas fazem parte do sujeito. Mas nem toda deficiência faz parte do sujeito, já desde sempre. Algumas, sim,né. Mas qualquer pessoa pode entrar, a qualquer hora da vida, né, seja por uma fatalidade ou outra, nessa condição de deficiência, mas não porque é cruel. Mas porque as pessoas não pensam nisso e escolhem ignorar esse fato As pessoas que eu digo, a cultura, a sociedade, né, como a gente organiza o nosso pensamento. E por isso, a gente faz escadas desse jeito, né. Esperando que a vida inteira a gente passe o resto da nossa vida caminhando com duas pernas e conseguindo dobrar nossos joelhos. Aí, enfim, se eu penso só em mim, isso já seria motivo suficiente, né, pra que a gente parasse pra pensar e mudasse essa mentalidade, né, esse mindset, que vigora.

Dan: Eu fiquei pensativo, aqui, no trecho do texto que você fala assim, “Dentro do meu quarto, eu deixo de ser deficiente.” E aí, eu pensando na situação, por exemplo, de como que isso correlaciona com o meio LGBT. Primeiramente, eu imagino que as pessoas não imaginam que, por exemplo, quem é cego não está no Facebook. O Facebook, por exemplo (após um instante de silêncio, os outros riem).

Sidney: Uhum. Ah, isso… Pois é, rapaz.

Dan: Usar Facebook, Tinder, qualquer outra coisa pra poder conhecer outra pessoa.

Sidney: rede social.

Dan: é, rede social.

Sidney: Se já choca eu estar no Facebook, o que dirá eu estar no Grinder, entendeu. (Thiago ri) Imagina o choque da pessoa, né, quando eu falava que eu não enxergava. Simplesmente, tem gente que parava de conversar comigo porque… Ou por medo, ou por ignorância, por não saber lidar, ou por covardia mesmo, enfim. É muito difícil lidar com um diferente tão extraterrestre, né, como é a questão da deficiência porque existe todo esse estigma por trás, de que as pessoas com deficiência são coitadas, são assexuadas. Assexuais, no caso, né. Não têm desejo sexual e elas vivem em função da sua deficiência. E esse discurso é muito colonizador na cabeça de quem não tem deficiência, e na cabeça de quem tem deficiência também. Porque é a primeira coisa que eu pensei. E é a primeira coisa que pessoas que acabam se tornando, né, entrando numa condição de deficiência, elas pensam,né. Justamente esse pensamento trágico, né, e apocalíptico da pessoa, que daqui por diante não existe vida possível. Não existe uma vida feliz e contente possível, porque a sociedade acha, a mentalidade vigente acha que não é possível você ter uma vida íntegra tendo uma condição que é lida como incapacitante. Então, se eu sou cego, eu vou ser… Eu vou me isolar, né, no meu quarto, eu vou ouvir só rádio, não vou sair, né, não vou ter amigos. E engraçado, se eu tiver amigos, serão todos amigos cegos, porque eu não vou me relacionar com pessoas videntes, obviamente. Essa é a expectativa. E era a expectativa que eu tinha, inclusive, quando eu fiquei cego. E é isso que desespera, né, esse isolamento e essa exclusão que não pertence à minha cegueira, porque não veio num pacote, entendeu. É consequência de uma mentalidade que acha que por que você não enxerga, e porque…

Thiago: Você não pode fazer nada…

Sidney: Não posso fazer nada, porque o padrão é enxergar, e você não tá no padrão. E é um padrão que eu não vou conseguir reverter. Porque a minha condição, e a maioria das condições de pessoas com deficiência que entram nesse estigma, né, do “deficiente”, com esse termo entre aspas, porque ele é totalmente pejorativo, elas tão nessa pegada de que elas tão condenadas a viver em função dessa deficiência, e de nada mais. Aí, quando eu digo que sou feliz, você… Por isso que é tão tocante e é tão prejudicial esse tipo de abordagem midiática que aborda a deficiência no…

Dan: Como herói…

Sidney: … pelo viés do heroísmo.

Thiago: Ah, a gente já conversou sobre isso na Cracóvia. O heroísmo.

Sidney: Pois é, o exemplo de superação. E por que é que existe essa construção midiática? Porque a sociedade sem deficiência espera tão pouco de nós, que qualquer coisa que a gente faça já é…

Thiago: Eu tô fazendo aspas aqui, com as mãos aqui, ta. Qualquer coisa, levar uma vida “normal”, é a superação, né.

Sidney: Normal, exatamente. E esse discurso da normalidade que é tão prejudicial, né. Por que o que é normal? Normal é eu enxergar? Mas, enfim, desde que houve olhos, houve também olhos que não enxergam, porque é natural, né. Se é tão normal ter olhos, tão normal quanto ter olhos é perder a visão deles. Porque é da vida, é natural que acidentes aconteçam, ou que erros de percurso aconteçam. Enfim, desde que existiu gente, existiu gente que desvia do que é considerado o esperado, e o normal. Então, por que não é normal ser cego, se desde o começo da humanidade houve cegos? Por que não é normal não andar, se desde o começo da humanidade houve pessoas que não andavam? Ou vocês acham que é um fenômeno do século 21/ (ele pergunta entre risos) Claro que não. (os outros riem)

Thiago: É coisa dos comunistas!

Sidney: Né, os comunistas!

Dan: É petralha!

Sidney: Os petralhas!

Thiago: “No governo FHC  não tinha cego!”

Sidney: Não tinha. Não tinha ninguém (todos riem).

Dan: Oh, Sidney, uma coisa que eu acho interessante na sua fala, que é essa questão de tratar como herói pessoas com deficiência, que geralmente as pessoas também abstraem até a possibilidade dessas pessoas também serem mau caráter. Como qualquer outra pessoa.

Sidney: A idealização, né.

Dan: E de usar isso como uma ferramenta pra eles, sabe. E assim, é ruim isso, também, de certa forma, porque cria até mecanismos de uma pessoa desenvolver seu mau-caratismo. Que coloca num pedestal…

Sidney: Também. Isso, por um lado, facilita, né, que pessoas com deficiência se aproveitem dessa idealização da pessoa com deficiência, né, enquanto pessoa casta, pura, um anjo que precisa ter a sua pureza preservada. O que não é, em absoluto, verdade. E também tem a questão de que, quando você me idealiza enquanto essa pessoa, né, pura e casta, você me desumaniza. Porque nenhum humano é puro e casto em tudo. E eu não sou bom nem ruim. Não só bom nem só ruim. Como qualquer outra pessoa sem deficiência não é só boa nem é só ruim. Eu tenho defeitos, eu tenho qualidades, eu tenho meus dias de mau humor, meus dias de vitalidade. E isso é universal, isso serve pra todo mundo. E quando você me tira dessa possibilidade, inclusive, de eu ser mau humorado, inclusive de eu ser combativo, né. “como é que esse cego tá…” Eu vou, na rua, alguém me puxa pelo braço e vai me guiar, eu digo “não, não quero, obrigado, eu não tô indo pra lá.” E aí, a pessoa sai de mau humor, dizendo “a pessoa querendo ajudar, e esse cego ingrato.” E eu não posso nem… Eu não tenho nem o direito de recusar uma ajuda que eu não preciso (Thiago ri).

Dan: Você já me contou alguma coisa sobre o banheiro, né.

Sidney: Ah, o banheiro. NO meu trabalho tem o piso tátil, né, que é aquele piso que guia a gente pelos locais, com marcações e tal, no chão, né, no solo. E eu conheço o meu ambiente de trabalho, a ponto de eu não preciso de ninguém pra me levar e me trazer no banheiro, né. Porque, inclusive, a primeira coisa que eu tenho que aprender… Porque você imagine você ter que pedir pra alguém lhe levar no banheiro, toda vez que você precisa ir no banheiro, né.

Dan: Horrível.

Thiago: Nossa…

Sidney: Quão constrangedor é isso. Mas mesmo assim…

Thiago: Ai, desculpa, eu lembrei da escola agora. “Professor, posso ir ao banheiro?”

Sidney: Pois é, quando eu não conhecia, eu tinha sempre que pedir. Isso é constrangedor demais, eu detesto. E aí, só que quão chocante é eu, uma pessoa cega, eu vou lá com a minha bengala, to lá com a bengala estirada na minha frente, andando autonomamente em direção ao banheiro. Pra ir no banheiro, eu tenho que primeiro passar numa sala pra pegar a chave do banheiro, e eu passo nessa sala, pego a chave, abro a porta, mas tem gente que não acredita que eu consiga pegar a chave, tem gente que não acredita que eu consiga botar a chave na maçaneta, abrir a porta. E cotidianamente eu sou abordado por pessoas que querem me ajudar. Às vezes elas pergunta, e perguntar  nunca ofende, né. E é bom sempre perguntar, quando você aborda uma pessoa, você pergunta se ela precisa, essa é a regra máxima. Você não ajuda se você não sabe que ela precisa de ajuda. E segundo, você não ajuda de um jeito que você acha que ela deve ser ajudada. Você ajuda do jeito que ela diz que precisa ser ajudada, pois quem sabe da ajuda é quem precisa da ajuda. Mas eu não preciso de ajuda pra ir no banheiro, mas todo dia eu sou abordado. Às vezes educadamente, às vezes não. E quão desgastante pra mim é isso, entendeu. Mesmo as pessoas que me perguntam, “precisa de ajuda?” todo dia eu tenho que dizer que eu não preciso de ajuda pra ir no banheiro. Quão desgastante não é isso. E toda vez que eu tenho vontade de ir no banheiro, eu tenho que pensar nisso, talvez alguém me aborde e pergunte se eu preciso de ajuda.

Thiago: Faz uma cópia da chave (Sidney ri)

Sidney: É capaz. Acho que eu vou pedir. Essa baixa expectativa que as pessoas têm das pessoas com deficiência, e essa, assim… Porque parece, pra essa mentalidade, eu acho que eu falo isso no texto, que a pessoa com deficiência não tem vida interior. Ela não tem personalidade, ela não tem desejos, não tem ânsias, não tem vontades, entendeu. Ela tá ali, e se você ajuda, você fez a sua boa ação do dia, né. Vai pro céu, né, ganhou um pedacinho lá no terreno. E vida que segue, né. Só que eu tô lá, indo no banheiro sozinho todo dia, e sendo abordado todo dia por pessoas que acham que eu sou incapaz.

Dan: Esse episódio do banheiro, que você me contou, eu falei, mas gente, e o povo ainda acha… Como é que fala? Fica nervoso com esse tipo de situação. Não tinha que ficar nada, né?

Sidney: eu já ouvi relatos, uma menina cega, ela foi, tava subindo a escada, ela colocou a bengala pra subir a escada, né. Chegou, simplesmente, chegou um rapaz perto dela, nada falou, nada perguntou, pegou-a no colo, no braço, subiu a escada carregando ela… você tem noção do quão violento é isso? E ainda sai se achando o herói, porque fez uma boa ação, fez um cego subir a escada, quando o problema dela não era nas pernas.

Thiago:Caraca!

Sidney: Quão agressivo, quão violento.

Thiago: É, que agressivo, que desnecessário. Sei lá, eu tô…

Dan: Não, e mulher, né, gente. E mulher. Já tem medo numa sociedade que é misógina.

Thiago: Exatamente. “Onde esse cara vai me levar?” né. “O que ele tá fazendo?”  Não falou nada. Não avisou…

Sidney: Pois é, e o pavor dessa menina, nessa hora. E se ela reclama, ele fica mal humorado, porque ela é uma ingrata, né.

Thiago: É, de ter salvado a donzela em perigo.

Sidney: E se ela não reclama, pra se poupar do mau humor de quem achou que tava sendo o super herói, ele sai se achando o super herói. Ele salvou.

Thiago: O super herói. Ele vai repetir.

Dan: Nossa, e se essa menina for empoderada, assim, de feminismo e tudo o mais, ele vai falar assim, “além de feminista, é cega.” Deve usar, assim, tudo como sinônimos de coisas ruins. Eu acho.

Sidney: É, são as convergências que agravam ainda mais a situação de vulnerabilidade.

Dan: Nossa, eu imagino que deve ter sido uma situação muito triste. Oh, Sid, e no caso, o seu namorado, você teve a cegueira, e você chegou a ficar com outras pessoas antes de ficar com seu namorado?

Sidney: Sim, foi (Thiago ri). É aqueles relacionamentos que eu digo que não foram relacionamentos (eles falam ao mesmo tempo, sobrepondo-se, por alguns instantes). Foi quando eu perdi a visão, foi nesse ano de 2012, que aí eu tava muito isolado, muito deprimido.

Dan: Entendi. Pode falar…

Sidney: E aí, eu buscava relações pra suprir esse vazio, que obviamente não era algo pra se preencher de fora, né. Tinha que vir de mim primeiro, né. Eu tinha que me aceitar e tal. Foi um ano muito doloroso pra mim, né. Teve esses dois relacionamentos. Na época, era namoro, pra mim,né. Na minha cabeça. Mas hoje, vendo de fora, pra mim foi só o meu desespero de não aceitar a situação de que eu estava cego, definitivamente daquela vez. E eu tava no desespero de jamais fui amado antes, jamais serei amado novamente, entendeu.(incompreensível) Uma autoestima muito precária. Antes disso, justamente por causa do meu histórico, né, de infância e tal, quando eu perdi a visão foi o fundo do poço pra minha autoestima. E aí, você no fundo do poço, você só consegue achar pessoas (incompreensível). Não foram relações…

Dan: você chegou a fazer terapia?

Sidney: Não. Até hoje não fiz. Como eu disse, eu sempre… Isso que eu vou falar não é, de jeito nenhum, uma indicação (os outros riem). Eu não tô indicando que as pessoas façam o mesmo que eu, eu não recomendo pra ninguém. Mas, como eu sempre, e aí, desde criança, esse ímpeto de autoanálise…

Thiago:  Autoconhecimento, né. Você falou lá no início.

Sidney: Isso, exatamente. Eu me trabalhava. Comecei a escrever, como um modo de terapia também, né…

Dan: é, mas é uma técnica, né.

Sidney:… Desenvolver talvez uma obra literária, e tal. Nessa época foi mais fértil, nesse sentido. E, enfim (ele solta um riso) essa parte eu não recomendo, porque é bom que as pessoas procurem ajuda médica sempre. Na medida das suas possibilidades, né. Essa outra parte eu não recomendo porque é muito (ele hesita, rindo)…

Thiago: Faça o que eu digo, não faça o que eu faço.

Sidney: Que é que eu fui tentar o mestrado, né, cego. Aí, o meu mestrado foi a minha terapia. O que é muito mais doloroso (ele ri).

Dan: Inclusive, qual foi o tema mesmo, da sua dissertação? Você já tinha me contado, esses dias…

Sidney: O tema… como eu tava nessa… Inclusive, por causa disso, a minha dissertação de mestrado foi sobre tecnologia assistiva e Literatura. Eu tava aprendendo a usar o leitor de tela, e como eu não queria deixar de ler, eu tava muito empenhado em ser o mesmo leitor que eu vinha sendo até então, né. Só que agora com os leitores de tela. E aí, pra entender essa condição, tanto da minha deficiência visual, que era nova pra mim, tanto dessa condição de você ler sem os olhos, que era novo pra mim também. Aí, a minha dissertação foi sobre apreciação literária e leitores de tela, e acessibilidade, né.

Dan: Eu tinha esquecido sobre o tema seu. Inclusive, dá até um outro podcast, depois, pra falar sobre isso. Acho que fica legal. A gente conversar sobre isso…

Sidney: Aí, à medida que eu fui escrevendo a dissertação, e eu fui tendo que ler sobre acessibilidade, sobre deficiência, e relacionar isso com arte, né, que foi a parte terapêutica pra mim, relacionar isso com a arte literária, foi que eu fui compreendendo, né, o meu lugar enquanto pessoa cega. Onde eu me encaixava, e tal. E onde eu queria me posicionar, né. Eu tinha que achar um lugar pra mim, enquanto pessoa cega, desesperadamente, porque, até então, eu não tinha me achado como pessoa vidente, né. Eu sempre fui meio errante na vida, e essa necessidade de me encontrar, agora numa condição nova, me deu esse ímpeto de me entender mais. E entender meu lugar, né, enquanto pessoa cega e o meu mestrado foi positivo pra mim nesse sentido, de me posicionar na vida. Na minha vida, e de me posicionar diante de mim mesmo. O que eu tenho pra oferecer pra mim, e também para o mundo, agora que eu não enxergo mais? Porque é uma situação nova. E eu to falando isso assim, como se eu fosse um veterano na coisa. Mas eu só tenho cinco anos de pessoa cega. Eu só tenho cinco anos de pessoa com deficiência. E eu sou um noob, entendeu? Eu sou um iniciante, né. Aí, eu passei a conviver com pessoas cegas, aqui no Instituto de Cegos aqui da cidade. E aí, você convive com histórias enormes, longuíssimas. E aí, eu ganhei uma perspectiva de quão recente tava pra mim, e que era normal eu sentir todo aquele desespero que eu tava sentindo…

Dan: No Instituto de Cegos, você chegou a conhecer algum LGBT cego? Ou só suspeitos… (eles riem)

Sidney: é, só. Porque você imagina, se sair do armário enquanto pessoa sem deficiência já é complicado, você imagina você com uma deficiência, né. É bem mais difícil. Bom, eu desconfiei de vários, né. Porque o radar acusa. Mas, assim, sabidamente, abertamente, não conheci nenhum.

Dan: Entendi.

Sidney: Até hoje, né. No caso. Não conheci. Mas queria conhecer, inclusive, pra saber… Porque eu não tenho esse diálogo, entendeu. Pelo menos, não de pessoas cegas. Eu tenho de ler sobre, né, no caso. Mas não tive esse contato, assim, de trocar experiência de vida, diálogo, de vivência, não tenho.

Dan: O que eu conheço… Que eu conheci recentemente, que a gente já comentou, que é daquele podcast do Lado Bi, que foi um convidado, do editor da revista Lampião da Esquina.

Sidney: Sim, é o Glauco Mattoso. Exatamente. Ele é poeta, né, escritor e é cego também. Eu conheci ele no começo… É porque quando eu tava começando a ler, eu procurei saber sobre todo mundo que tinha algum tipo de relevância, né, que também não enxergava, e eu acabei cruzando com ele também, né. Com o nome dele por aí afora.

Dan: É uma busca de representatividade, no caso, né. Quem te representa, no caso.

Sidney: com certeza. Claro, pra saber que você não tá só, quão importante é isso, né.

Dan: Como que a representatividade, de fato, importa, né.

Sidney: Importa demais. Tanto é que eu tenho a minha foto do Demolidor lá no meu Facebook, né (ele ri).

Dan: Sim, adoro ela, ela é maravilhosa. Falar em representatividade…

Thiago: Você mudou, né?

Sidney: Mudei, Thiago.

Dan: Quando saiu o filme “Hoje eu não quero voltar sozinho”, acho que é “Hoje eu não quero voltar sozinho”, como que foi? Lembrei agora, eu tive esse insight. Lembrei desse filme, achei ele tão bonitinho.

Sidney: Ah, ele é muito bonito. Bom, eu não acho ele um filme ótimo. Assim, enquanto filme, né. Enquanto obra cinematográfica, não acho ele ótimo. Mas ele aborda muito bem a… Pra os padrões do que se aborda na arte, né, na mídia…

Dan: Eles erraram em alguma coisa durante a…? Você viu alguma coisa, algum erro, alguma coisa assim do tipo?

Sidney: Não que eu tenha lembrança. Inclusive, esse filme derivou de um curta-metragem, né que foi lançado anos antes.

Thiago: “Hoje eu quero voltar sozinho”.

Sidney: Exatamente. E eu lembro que esse filme eu assisti, eu enxergava, né, o curta. Eu assisti ele, enxergando. Já o longa, eu assisti sem enxergar, né. Eu assisti com o meu namorado descrevendo. Assim, ele representa bem, né. E ele tem todo aquele anseio do menino que quer sair da barra da saia da mãe, mas eles são sup… (ele tenta várias vezes, mas não consegue pronunciar). Super protetores!

Thiago: O poder deles é ser super protetores (ele ri).

Sidney (entre risos): Exatamente. O que é muito comum, né. E a super proteção acaba, inclusive… Existe essa ameaça nesse filme,né, específico, mas em outros a gente vê com mais desenvolvimento, que é o quão prejudicial pra pessoa com deficiência é a super… (novamente, ele não consegue pronunciar). Eita! A proteção exagerada da família.

Dan: Você teve esse tipo de situação?

Sidney: Na minha casa, não. Até porque, como eu já perdi a visão já era adulto, né, não tinha mais essa relação de tanta dependência afetiva e de vida, né, com a família. Eu tinha 25 anos, quando eu perdi a visão, né. Então, acabou não acontecendo porque eu não permiti. Eu já era muito autônomo antes, né, e acabei não permitindo que acontecesse isso, né, depois que eu perdi a visão. Mas isso tem a ver com a minha personalidade e com o privilégio que eu tive. Que é um privilégio, né, de ter sido, durante 25 anos, uma pessoa que enxergou. E isso é ter um privilégio porque eu pude cursar a escola enquanto pessoa sem deficiência, pude cursar a faculdade enquanto pessoa sem deficiência, ainda que eu tivesse baixa visão, né, mas eu tinha a passabilidade, né, lá, como eu falei. Inclusive, muito novo pra mim isso, né, da passabilidade sem deficiência. E esse privilégio eu tive, né e por causa desse privilégio, eu pude desenvolver, inclusive, uma autonomia dos meus familiares que eu carrego comigo desde que eu perdi a visão também, né. Quanto a isso, essa experiência de super proteção eu não tenho,né. O que é bom.

Dan: Positivo.

Sidney: Porque eu acho… Porque muito da minha insegurança é por causa da minha cegueira, e se eu for super protegido, talvez eu tivesse conseguido sair muito menos do que eu já saí, né, da minha depressão e do meu isolamento. Se eu tivesse essa super proteção em casa, é muito prejudicial. Vocês não têm noção do quanto é prejudicial pra uma pessoa e como é difícil você discutir isso, porque a família tá fazendo isso por cuidado, né. Por querer, por gostar…

Thiago: Porque ama, porque não sabe lidar de outra maneira.

Sidney: Exatamente. E é muito difícil você desatar esses nós de super proteção porque, inclusive, é um medo justificável. Porque a sociedade, a cultura lá fora não é receptível pra pessoa com deficiência de forma alguma. E é apavorante, inclusive. É apavorante pra mim que sou pessoa com deficiência, e é apavorante pra os meus familiares e pra quem me ama também,né, porque é real e é tácito.

Dan: Mas, enfim, é interessante saber como funciona essa relação familiar, até mesmo porque parece, assim… Querendo amar, por um gesto de amor, acabam que escorregam muito, assim, sabe. E acaba não…

Sidney: É, e privam a pessoa, prejudicam,né, sem querer. Em nome do amor, você prejudica sem saber. Sem perceber também, né. E voltando ao filme, o filme é legal porque ele aborda uma temática que é inédita duplamente. Que é a pessoa com deficiência protagonista de um filme, e uma pessoa com deficiência homossexual, né, que é mais difícil ainda você ter na ficção. E o quão chocante deve ser pras pessoas saberem, descobrirem que tem pessoas com deficiência que são gays, que são bis, que são lésbicas, trans, e que têm vida sexual, né. Isso ainda é muito chocante. Isso é lamentável.

Thiago: Mais chocante ainda,né. “Nossa, como assim, você tem tempo pra isso? Você não fica só sendo cego aí?” (Sidney ri)

Sidney: Exatamente.

Dan: É, ainda tem essa parte. Mas eu acho que isso tem mais a ver com o isolamento social. Igual você falou que a questão da deficiência ser um comportamento social, uma pessoa que diverge do que é normal pra sociedade. Então, acaba que esse tipo de deficiente… Por questões que a sociedade não tá pronta pra receber essas pessoas. Então, acaba que a deficiência se manifesta a partir do momento que não existe uma estrutura pronta pra receber, no caso.

Sidney: É, e nem tá pronta, e nem está disposta a tá pronta. Porque a estrutura já é tão fixa, tão fixada, que dá tanto trabalho. Porque só pra eu convencer as pessoas o quão benéfico seria se elas descrevessem as imagens nas postagens que elas fazem, e mesmo assim, uma coisa que só levaria 30 segundinhos a mais do que ela teria de fazer pra publicar aquela foto, e mesmo assim a gente não consegue estabelecer um hábito desse, que é o principal. Imagine outras coisas maiores, como você projetar um edifício já pensando, do projeto, em que ele seja acessível do projeto, não que ele tenha que ser adaptado posteriormente. Pra mim, a principal ferramenta que a gente tem pra começar a caminhar nisso, é que a gente desenvolva, em primeiro lugar, acessibilidade atitudinal. É a primeira acessibilidade pela qual a gente passa, e se a gente colocar isso, pra mim, a gente já anda meio caminho, né. Que é você entender, você pessoa sem deficiência, entender que existem pessoas que têm conformações físicas e psicológicas e sensoriais diferentes do que é considerado normal, do que é considerado padrão, do que é esperado, e você se abra pra essas pessoas e não espere delas que elas se isolem porque elas não correspondem a um padrão que você espera. Então, à medida que você se abre pra isso e pensa, “eu estou postando uma imagem”, e tem pessoas no Facebook que não enxergam. E você descobre que tem pessoas no Facebook que não enxergam. Passa  esse primeiro choque de saber que elas também tão nas redes sociais. Como é que elas usam. É você parar pra pensar que você poderia ter uma pessoa com deficiência como seu amigo no Facebook, mas você não tem porque o ambiente não é acessível. Não é esperar que as pessoas com deficiência cheguem, pra que você acessibilize a sua atitude. É que você acessibilize a sua atitude pra que atraia pessoas com deficiência pra o seu entorno, e que seja receptivo pra elas. Porque um ambiente acessível, tanto na atitude quanto na conformação física, na arquitetura, ele não traz prejuízo nenhum pra quem não tem deficiência. Um ambiente acessível é benéfico pra todo mundo, não existe prejuízo numa acessibilidade, só existe vantagem. Tem muito essa expectativa de que porque eu peço acessibilidade  e as pessoas fazem, é como se eu devesse um favor a elas, entendeu. É Como se eu devesse uma reverência, porque elas tão acessibilizando. Isso não é só no Facebook , é na vida inteira, né.  Eu vejo muito essa atitude de reverência, como se eu tivesse sendo beneficiado por um favor e por uma boa vontade, uma generosidade muito enorme. Nada mais é do que a obrigação de você, enquanto pessoa, se preocupar com o acesso da outra. Porque a convivência com o diferente é boa pra você também. Pro mal ou pro bem. Pode ser desagradável, mas a convivência com a diferença é bom, você conviver com pessoas com deficiência nos diversos ambientes e poder possibilitar o acesso a esses diversos ambientes é bom pra você, não porque você vai achar pessoas com deficiência gentis e legais e todos seres humanos incríveis, não. Mas porque você vai lidar com vivências diferentes, pro bem ou pro mal. Entendeu, essa expectativa tem que ser desfeita também, de que a pessoa com deficiência, porque ela está tendo acesso, porque estão possibilitando o acesso, ela deve algum favor e deve algum benefício, alguma reverência. Não é o caso, não é um favor.

Dan: Sidney, eu queria também te fazer uma pergunta que é capciosa. E eu acho que eu já te fiz, ou não tenho lembrança. Eu já te fiz uma, mas agora é uma reformulação da pergunta. A eterna e velha e querida e saudosa treta entre linguagem… (Sidney ri, Dan acompanha)… não binária. E aí, o que acontece. Tudo bem, trocar pelo X eu acho que é difícil, porque você falou que interrompe o leitor e tudo mais.

Thiago: Ah, tá, entendi.

Dan: Mas e aquela merda daquele Cracolês? (Sidney ri) Como que seu leitor lê aquilo? (Thiago ri) Eu não sei escrever Cracolês até hoje… E você escreve, você interage, e você é a rainha do Cracolês, eu sei que você escreve muito em Cracolês. Como funciona isso?

Thiago: E muito bem, Cracolês. Até… A intenção do Cracolês é atrapalhar mesmo,né? (Dan ri)

Sidney: É, exatamente. Essa é a diferença. O Cracolês, lá no grupo, né, da Cracóvia, ela é uma piada. E a piada tem essa intenção de você atrapalhar a leitura mesmo, por causa da escrita caótica, né. E quanto a isso, pra eu ser incluso, eu tenho que entrar na brincadeira também. E pra mim, não existe inclusão quando… se a intenção é confundir, eu que tô lendo o leitor de tela, o Cracolês, me confunde tanto quanto vocês que leem com os olhos. Entende? Não existe exclusão porque a intenção é essa. Se a intenção é confundir, ambos estão confusos igualmente. Eu e vocês, né. Claro que a gente desenvolve um entendimento.

Thiago: Eu já usei leitor pra ler Cracolês, pra testar, e eu acho mais fácil, tá. (ele ri)

Sidney: É porque a maioria do Cracolês se baseia na fonética, né, ele troca as letras de acordo com a fonética. E aí, você vai escutar, você escuta do mesmo jeito, na maioria das vezes, é por isso que eu sou tão bom… (eles riem)

Dan: só pra esclarecer para os ouvintes, o Cracolês é uma linguagem caótica, eu não sei explicar melhor, em caixa alta. O Que mais, Sidney?

Sidney: Que você escreve, troca todas as letras e, enfim, pra parecer que é…

Thiago: Parece uma criança que ta começando a…

Sidney: … uma criança escrevendo. Pra ser confuso mesmo.

Dan: Uma coisa agora, então, ficou claro. Por exemplo, uma coisa é você saber que existe o Cracolês, já saber da existência do Cracolês e pelo que eu entendi, existe um… Gente, eu sou analfabeto de Cracolês. Existe um código de como lê aquela porcaria (ele ri) Oh, meu deus, o povo vai me matar.

Thiago: Ler em voz alta. Sempre que você puder, releia em voz alta.

Dan: Ah, ta.

Sidney: Não, é que tem a ver com a grafia…

Dan: Hum, mas assim, uma coisa é você saber que é um momento cômico, da brincadeira, você falou, da piada. Outra coisa é você, do nada, tá lendo um texto sério que tá bacana o assunto, pá! E trava num X, trava numa @, é mais ou menos isso, né?

Sidney: A @…

Thiago:Ah, isso me irrita, e eu não uso leitor.

Dan: Ah, e uma outra… Um argumento que você usou comigo que eu achei ótimo, fantástico. Ele não é usado na linguagem falada. Ninguém fala “todXs”

Sidney: Exatamente, eis a diferença. O Cracolês é proposital, né, é pra ser uma piada e quanto a isso, tudo bem. Porque o excludente seria que as pessoas deixassem de falar Cracolês em meu benefício. Aí seria aquela coisa, ah, vamos passar a mão na cabeça dele, porque, enfim… Não, eu tenho que tá lá igual. Mas aí com relação a esse tipo de neutralização de gênero que tem se praticado na internet… A minha posição é… Enfim, é porque as pessoas perguntam, “atrapalha ou não atrapalha?” Eu digo, atrapalha. Aí vocês perguntam, “então, você é contra ou a favor?” Eu digo, eu sou a favor. Eu sou a favor da neutralidade da linguagem. Obviamente a gente precisa repensar a nossa linguagem pra incluir as pessoas que não se identificam nessa binariedade, isso é necessário. E isso é o mínimo, é obrigação da gente repensar nossa linguagem de acordo com as novas demandas. Isso é obrigação, a gente repensar a nossa linguagem. Agora, por que atrapalha, e por que eu acho que os X e os @ atrapalham mais do que ajudam? Não só na acessibilidade, mas no próprio discurso da neutralidade do gênero. Porque isso que o Dan disse é o ponto principal. Não é bom pra quem é não binário, porque como é que você verbaliza uma @? A @ sequer é fonema. A @ é só um sinal gráfico, não tem correspondência na fonética, não é uma letra, entendeu, não tem correspondência com o som. Então, quando você bota “TOD@S”, não tem como uma pessoa dizer isso na fala. E porque não tem como uma pessoa dizer isso na fala, não tem como essa linguagem se solidificar, entende, se arraigar no diálogo cotidiano. Não tem como ela se estruturar e se convencionar, porque ela não é possível na fala. E ela não é possível na fala, disso advém a dificuldade do leitor de tela. Porque o leitor de tela nada mais é do que verbalizar, por meio de uma voz automática, o que tá escrito. Então, o que é que ela faz? Como o @ não é letra, não tem som pro @, ela Lê “tod-arroba-s”. aí, isso dificulta a compreensão.

Thiago: “Olá, MENIN-ARROBA-S” (ele ri)

Sidney: dificulta. Agora é preciso que a gente pense em maneiras mais eficazes e mais acessíveis de neutralizar o gênero. Não é como se não existisse, a língua é rica o bastante pra isso, entendeu. É preciso a gente repensar isso. E em segundo lugar, a minha birra com essa discussão é que as pessoas que são contra a neutralidade de gênero usam o discurso da acessibilidade como pretexto. Quando, na verdade, elas não estão preocupadas nem um pouco com acessibilidade.

Dan: Elas são preconceituosas, né…

Sidney: Exatamente. Eu vejo gente bradando aos quatro cantos que é contra essa neutralização, dizendo que exclui as pessoas cegas, quando elas não tão nem um… Aí, você vai na página dessas pessoas, elas não têm uma imagem descrita. Aí, você vê que elas não tão preocupadas com acessibilidade, elas tão só usando isso como pretexto pra deslegitimar um discurso que elas julgam como errado, né, que é o discurso da neutralidade. E aí, eu acho isso nocivo tanto pra o discurso que elas tão tentando desconstruir, e impedir que aconteça, né, que é a neutralidade da linguagem, quanto pra acessibilidade, que está sendo usada como moeda de troca e como barganha pra provar um ponto, quando, na verdade, você não se preocupa em nada com acessibilidade. Você tá pouco se lixando pra isso.

Dan: Enfim, eu acho que essa parada da linguagem… Eu acho que daqui uns dois, três anos, você sempre será perguntado e nós temos um texto seu, que vamos até colocar na postagem do episódio, que explica sobre isso, que é bem autoexplicativo.

Sidney: Inclusive, esse texto é legal porque no próximo dia 3 de dezembro é o dia internacional da pessoa com deficiência, né. Tá pertinho aí do lançamento do podcast.  Aí, fica o texto pro pessoal ler nesse dia. Pra saber o que é capacitismo, né, o que é acessibilidade e quão importante é isso pra todo mundo, não só pra mim, não só pra nós que temos deficiência, mas pra todo mundo, né, porque todo mundo só tem a ganhar.

Dan: Oh, Sid, a gente trocou a data do programa, mas acabou que saiu melhor do que a encomenda. Trocar a data, então, do programa, pra adiantar lá, no caso. Ficou mais interessante essa situação. Enfim, gente, vamos agora então para o momento super poderes, para finalizar o nosso programa. Já que o Thiago está aqui, eu vou perguntar aos dois os super poderes.

(VINHETA: ENTRE EFEITOS SONOROS DE IMPACTO E DE DISTORÇÃO DE ÁUDIO, A VOZ ANUNCIA “MOMENTO SUPER PODERES!”)

(FADE IN E FADE OUT DE TRILHA SONORA)

Dan: Thiago, qual é o seu super poder?

Thiago: Oi?

Dan: O seu super poder.

Thiago: Meu super poder é terminar com as brigas de casal usando o Vapor de Virilha (Dan ri).

Sidney (rindo): Como assim?

Dan: Ah, gente, eu queria entender esse super poder da criatura.

Thiago: Então, é que aconteceu mais de uma vez, né, de eu tá com amigos e pessoas em volta, em festa, algum lugar. Casal brigando. Eu sempre sou aquele, sabe, para com isso, deixa disso, e tal, e tal, e tal. Aí teve uma vez que eu (ele ri), a gente tava no carnaval, eu já tava bem  bêbado, né. Tava uma festa de rua no Rio de Janeiro, tava com a bermuda de tactel, eu abanei a bermuda na frente do casal, e falei “VAPOR DE VIRILHA!” (todos riem) Eles começaram a rir e pararam de brigar.

Dan: gostei desse super poder.

Sidney: Eu acho, inclusive, que o super poder vai ser esse, “Vapor de Virilha”. (todos riem) Você vai gritar isso e disparar o poder.

Thiago: Por causa das bibas, né, Las Bibas From Vizcaya. Que elas ficavam gritando, “Vapor de Virilha”.

Dan: Olha só… nunca tinha visto uma aplicação prática.

Sidney: Tem até nome o super poder dele…

Dan: Não, a verdade já usou, ele existe, né, na verdade (eles riem). E você…

Thiago: É, tem um uso real, né, o poder.

Dan: E você, Sid, qual vai ser o seu super poder?

Sidney: Ai, que difícil. Eu ouço todo mundo falando, né, os super poderes, e nunca parei pra pensar no meu. Mas, não sei… Eu acho que eu queria ter aquele super poder… Não tem aquele conto do Dickens que vem um fantasma e mostra… É o fantasma do Natal presente, o fantasma do Natal passado e o fantasma do Natal futuro… Que ele mostra como é que o passado, o presente e o futuro lá do protagonista, né, que é muito egoísta, e ele quer fazer com que ele mude de atitude diante das pessoas ao seu redor. Eu acho que eu queria ser… ter esse poder do fantasma do futuro, né. Eu queria fazer com que as pessoas se enxergassem, talvez, lá na velhice, quando elas já estivessem precisando de mais auxílios do que elas gostariam, e que se colocassem no lugar de se ver impossibilitado de fazer várias coisas porque, já que a expectativa é que as pessoas correspondam a um padrão de corpo funcional, né, íntegro. Que as pessoas, talvez, nessa experiência de se enxergar não no auge da sua funcionalidade física, que elas parassem um pouco pra pensar em como é não ter acesso às coisas por causa da sua conformação física, ou mesmo psicológica, sensorial. E talvez pensasse hoje pra fazer esse futuro mais acessível.

Dan: Ai, eu adorei o seu super poder. Então, gente…

Thiago: Ah, e eu to me sentindo meio tonto, agora…

Dan: VAPOR DE VIRILHA!

Sidney: É, mas aí eu também quero o Vapor de Virilha pra jogar no povo que não  pensa em acessibilidade…

Thiago:boa, boa! (todos riem)

(FADE IN E FADE OUT DE TRILHA SONORA)

Dan: Então, temos uma HQ sem Quadrinhos, Thiago?

Sidney: Oxente, oxe, essa fala é minha, eu que tenho que responder!

Dan: Mas hoje vai ser diferente, afinal, você é o convidado, né, Thiago?

Thiago: Temos, sim, uma HQ da vida.

Dan: Oh, Thiago, obrigado por participar aqui como host conosco, de ter sido receptivo. Eu adorei gravar com você, a dinâmica foi ótima. E eu gostaria de mandar, também, um beijo para os nossos ouvintes. Que agora eu tenho algumas centenas de ouvintes, que já é alguma coisa. Temos ouvintes em Buenos Aires, que essa semana ouviram a gente. Eu acredito que é uma bicha mafiosa, amiga minha… (sidney ri) Um beijo, gu! De uma cidade chamada Francisco Norato; Sete Lagoas, deve ser parente me stalkeando; Lagos, Portugal; Mountainville, sempre ouve e eu não sei quem é; Ashburg, que também sempre ouve; rio de Janeiro; BH; São Paulo; e minha querida cidade, Montes Claros, provavelmente, o pessoal de montes claros que deve ter ouvido, deve ter ouvido o programa do HTreta – PEC 241. Mas enfim, um beijo pra cada um. E hoje eu vou deixar a indicação… As indicações, que hoje temos o Sidney e o Thiago. As indicações com os dois. Então, Tiago, pode começar a falar qual sua indicação de livro, tudo mais, por favor…

Thiago: bom, a indicação é o livro A Casa dos Budas Ditosos, do João Ubaldo Ribeiro. É um livro meio… é bem… (ele ri) Digamos que é o 50 Tons de Cinza nacional (ele ri).

Sidney: é o 50 Tons de Cinza se prestasse, né (os outros riem).

Thiago: Ah, sim, é… 50 tons de Cinza… Mas (incompreensível)… depois a gente conversa em off

Sidney: É como os 50 deveria ser, né.

Thiago: Que ajudou… tirou um monte de gente das travas, também, né.

Sidney: Sim, sim. Ah, esse livro é maravilhoso.

Thiago: É isso.

Dan: E, Sid, qual é a sua indicação?

Sidney: Ah, hoje a gente vai ter indicação literária, né. Eu vou indicar também uma obra literária, que eu li muito e me ajudou muito na minha autodescoberta, inclusive enquanto pessoa homossexual, mesmo, que é o Caio Fernando Abreu. A bicha que não lê Caio Fernando Abreu, menino, olhe… (os outros riem) Eu vou cassar essa carteira. A obra que eu vou (ele ri, se interrompendo). É porque, assim, ele é considerado um dos expoentes da Literatura LGBT no Brasil, embora ele não se considerava assim, não se denominava assim, né. E ele também não escreve só Literatura homoafetiva, né. O escopo literário dele é muito amplo e muito rico. Mas ele ficou conhecido por isso porque ele era transgressor, lá na época dele, inclusive, né. Tinha toda essa questão. Ele ousava. E as cenas dele, meu filho, são quentíssimas. O livro que eu vou indicar é o Triângulo das Águas, a versão que eu tinha em livro físico era da Editora Agir, se eu não me engano. Esse livro tem uma novela chamada “Pela Noite”, que é a peça literária do Caio que eu li até hoje que eu mais gostei. E eu indico pra todo mundo. Todo mundo tem que ler essa peça, porque ela trata com uma delicadeza e com uma verdade imensa, assim, a angústia de uma pessoa gay que não se aceita, mas exerce, né, a sua homossexualidade, e de uma pessoa que tá muito bem com isso, e o encontro improvável dessas duas pessoas e como é que elas conseguirão se relacionar, né, estando em escopos tão distantes da homossexualidade. Uma pessoa que está bem com isso e lida bem, e outra que, apesar de tudo, ainda tem essa ideia arraigada na cabeça negativa da homossexualidade. Essa perspectiva é ímpar. As outras novelas desse livro, Triângulo das Águas… Essa é a terceira, a última, pra mim, a mais bonita. Mas as outras são excelentes também. E leiam, por favor, leiam.

Dan: Eu, como não aguento ficar calado, eu tava pensando aqui… Como a gente comentou, eu vou deixar bem claro aqui pros ouvintes, existem dois programas do podcast chamado Lado Bi, um que ele entrevista o editor da revista Lampião da Esquina, que é um programa maravilhoso. E um programa que ele falam sobre capacitismo, mas eles não conversam sobre a ótica de pessoas cegas, no caso, né, Sidney? Não teve, não lembro dessa realidade.

Sidney: Lá, o assunto é deficiência física, né. São deficiências, mas são escopos diferentes da deficiência. Ser cego não é ser deficiente físico, né. Tem vários tipos de deficiência, a cegueira está dentro das deficiências sensoriais, que tem a ver com os sentidos, né. No caso do Lado Bi, que é muito bom também, a gente recomenda, né, tá aí o link…

Thiago: Ah, posso recomendar também um podcast?

Dan: Pode, pode.

Thiago: O Mamilos.

Sidney: É, mesmo… Menino, tem vários, tem um que eu participei também, sobre acessibilidade, que é o Braincast. Ah, eu não vou lembrar, 181, se eu não me engano.

Dan: Eu vou colocar aqui no link o Braincast e Mamilos. Você participou do Braincast, Sidney?

Sidney: Participei, menino, tu num sabe! (Thiago ri)

Dan: Ah, eu quero ouvir esse. Eu não ouvi. Então, provavelmente.

Thiago: Tá chique, né.

Dan: Ai, que bicha chique!

Sidney: Foi, eu e o Victor Caparica, que é o primo do Márcio Caparica, lá do Lado Bi.

Dan: É, o Victor Caparica. Eu  vi ele no Face, agora.

Thiago: É o 181, isso mesmo, Braincast 181.

Dan: Ah, então, Braincast 181.

Sidney: Então vamos para nossas redes sociais?

Dan: vamos para as redes sociais, Sidney.

Sidney: No Facebook (ele e Dan riem). No Facebook você encontra a gente no facebook.com/hqdavida; no Twitter, a gente está no @hqdavida; a gente também está no Youtube, você pode assinar o canal lá, é só procurar por “HQ da Vida Podcast”; a nossa página no Sound Cloud é soundcloud.com/hqdavida;

Dan: E por falar em Youtube, temos uma notícia boa. Os nossos episódios, agora, foram todos transcritos, até o presente momento, pelo Sidney. Enfim, em breve, eu quero prometer pra dezembro, né, Sidney, eles estarão no Medium. E essa foi uma sugestão do Medium…

Sidney: Promessa é dívida…

Thiago: vou cobrar.

Dan: Não foi só uma sugestão do Sidney, como na verdade, eu estou muito corrido, até o dia do espetáculo que vai ser dia 25, 26, 27. Não adianta fazer propaganda, porque não tem muitos montes-clarenses ouvindo. Mas até o dia do espetáculo, eu tô muito corrido com esses afazeres, esses compromissos. Mas o Sid, na verdade, já formatou, tá maravilhoso, tudo lindo, eu só tenho que, depois, dar uma olhadinha pra gente ver como que a gente vai inserir no Medium. Então, essa é uma ideia que visa criar acessibilidade para pessoas com deficiência auditiva, mas também serve pra quê, Sidney?

Sidney: É, além da acessibilidade, que como a gente agora aprendeu, é muito importante, a transcrição também tem a vantagem de ser um material de consulta muito fácil, muito simples, se você quiser consultar o conteúdo do podcast de uma maneira mais rápida e ágil, né, é só ir lá e procurar no texto. É um produto de consulta muito prático também, né. E é um registro. Fica aí a dica, né. Serve pra todo mundo, tá vendo como acessibilidade é bom pra todo mundo?

Thiago: E, pessoal, olha só, o email pra contato é hqdavida@gmail.com; o Sound Cloud é “HQ da Vida, só reiterando; Twitter, @hqdavida; E não esqueça de dar 5 estrelinhas também no iTunes. Ah, e também colocar acessibilidade, descrevam! Quando for postar uma foto em rede social, descreva. Procura a tag no Facebook, #TimelineAcessivel.

Sidney: Vamos acessibilizar tudo, não é mesmo? Thiago, faz seu jabá aí, menino! Tá tomando meu lugar… (os outros riem)

Thiago: Ah, você que tá tomando o meu lugar… Você é o convidado hoje.

Sidney: Hoje, a gente tem um host que é convidado e um convidado que é host.

Thiago: Convidado que é host… (todos riem) O meu jabá? Bom, sou o Tiago, @_Thiago_ no Twitter, de lá me acha em qualquer lugar.

Sidney: Tá fácil, tá na pista?

Thiago: Pode me chamar pra qualquer programa…

Sidney: Olha aí, gente…

Dan: Gente, fica a dica da palavra, “programa”, viu.

Thiago: É, de computador, de rádio, de TV…

Dan: Ele é um garoto de programa.

Thiago: De podcast…De… Né, programa. (todos riem)

Dan: enfim, Thiago, muito obrigado, muitíssimo obrigado. Então, vamos dar um tchau coletivo, todo mundo? 1, 2, 3 e… Tchaaaaau….

Sidney: Tchau…

Thiago: Tchau, pessoal…

Dan: Tchau, tchau.

Thiago: Falou, beijo, gente.

Dan: Beijo.

(FADE IN E FADE OUT DE TRILHA SONORA)

FIM

 

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