Transcrição – HQ de bolso #05 – Heteronormatividade

Transcrição – HQ de Bolso #05 Heteronormatividade

 

Vinheta de abertura: entre efeitos sonoros de impacto, uma voz com reverberação anuncia “HQ DA VIDA, o seu podcast sem quadrinhos.”

 

(Trilha sonora de Background alusiva a histórias em quadrinhos)

 

Dan: Olá, Pessoal. Aqui é Dan Carreiro.

 

Sidney: Eu sou Sidney Andrade e esse é o HQ de bolso número 05!

 

Dan: Então, pessoal, o HQ de Bolso tem a intenção de provocar discussões iniciais sobre temas que abrangem as vivências Queer. A gente quer começar o assunto para que você possa ter um ponto de partida com o qual poderá buscar mais informações. Queremos iniciar conversas importantes que precisam ser debatidas sempre mais a fundo. Aqui é só o começo.

 

Sidney: Só o começo, menino. E hoje, o tema, olha, é a tal da Heteronormatividade, essa régua com a qual a cultura insiste em medir as relações sexuais e afetivas humanas, na tentativa de apagar tudo que é diferente dela. Vamos ver se a gente consegue dar conta desse palavrão, né, Dan.

 

Dan: Pois é. O tema de hoje é difícil, porque tem que desembolar este assunto até os dias atuais. Mas a origem dessa heteronormatividade, a gente vai ter que voltar um pouquinho no tempo pra poder chegar ao que a gente quer falar hoje. Né, Sid?

 

Sidney: É um processo bem grande. Eu acho que, em primeiro lugar, Dan, o que a gente tem que…

 

Dan: Definições, né?

 

Sidney: Não. Antes da própria definição, é a gente entender em que campo da discussão sobre sexualidade e diversidade humana está a heteronormatividade. Porque, como a gente viu… Lembra no HQ de Bolso… A gente vai tá sempre retomando o HQ de Bolso sobre identidade de gênero e orientação sexual que a gente fez. É o HQ de Bolso #03. Lá, a gente deu a diferença entre o sexo biológico e o gênero. A diferença, né, que sexo é a esfera biológica, corporal, física e médica; e o gênero é a construção cultural que se faz em torno do sexo. Então, o gênero é o papel que as culturas constroem e as expectativas em torno do sexo. Então, sexo é um dado, e o gênero é outro. Nesse sentido, aqui a gente vai ter outra diferença, que é meio parecida, porque a limitação do vocabulário… Por causa da limitação do nosso vocabulário. Porque a gente também fala a palavra “sexo”, a gente usa pra determinar o gênero, a genitália, macho e fêmea; mas a gente também usa essa mesma palavra pra determinar a relação sexual, o ato sexual em si. E aí, nesse campo, a gente tem que diferenciar, pra gente entender em primeiro lugar o que é (ele gagueja) heteronormatividade… Olha o palavrão, tá vendo? (risos) É difícil de dizer. Pra a gente entender o que é a heteronormatividade, a gente tem que entender que existe uma diferença entre sexo, o ato sexual em si, ou seja, o fato natural, biológico que é fazer sexo; do que é sexualidade, que não é um fato natural, é um fato cultural. O sexo é o ato em si, a sexualidade são os significados que a gente constrói em torno do ato sexual. Então, sexualidade é diferente de sexo.

 

Dan: E acaba sendo uma construção social, né.

 

Sidney: Isso, a tal da construção social. Sexo é um negócio que todo mundo faz, alguns não fazem, mas é um negócio que… É um ato natural, da natureza, no sentido de que é da natureza e da biologia. Mas existe a sexualidade, que são os conceitos que as culturas, nós, seres humanos, enquanto seres que criam significados, a gente vai criar significado pra tudo. E em torno do sexo, do ato sexual, a gente cria os significados pra esse ato. É isso que se chama sexualidade. Só que esses significados vão mudar ao longo do tempo, e vão chegar ao significado que é majoritariamente aderido atualmente, nas culturas ocidentais, que é a tal da heteronormatividade. Mas aí, o que é a heteronormatividade, Dan?

 

Dan: É basicamente a gente crescer, aprender o que é sexualidade, quais são as mais conhecidas e que existe muita coisa além de garoto gosta de garota, e vice-versa. É como se fosse… A gente dita quais são as formas sadias de sexualidade e aquelas que estão fora desse escopo são, na verdade, consideradas perversas, imorais e até mesmo patológicas.

 

Sidney: Isso. É importante a gente ressaltar sempre isso. A heteronormatividade não é uma doença, não é um cataclisma, não é uma tragédia. A heteronormatividade é uma mentalidade. A mentalidade, inclusive, vigente atualmente, que vai dizer pra nós, coletivamente, o que é que a gente deve esperar e achar normal do ponto de vista da sexualidade. Que é a sexualidade heterossexual. Então, é daí que surgem os questionamentos e é daí que surge, inclusive, o conceito de família nuclear. Surge da heteronormatividade, por quê? O certo é um casal hétero que procria. Porque a heteronormatividade está muito calcada no argumento biologizante de que o sexo só serve para a reprodução. Se o sexo só serve para a reprodução, o ato sexual, é claro que a sexualidade que essa mentalidade vai pregar é uma sexualidade que vai rejeitar toda e qualquer forma de sexo que não seja reprodutivo. Muito embora o sexo heterossexual também não seja só reprodutivo. Porque os heterossexuais também fazem sexo sem ser pra reproduzir.

 

Dan: Por prazer…

 

Sidney: Pelo prazer em si. Então, mas aí surge dessa necessidade de afirmar a reprodução humana. E aí, a gente acaba apagando as demais manifestações da sexualidade.

 

Dan: Partindo desse pressuposto que o Sidney falou que, por exemplo, existe o conceito de sexo como um conceito natural do que é feito, e existe a construção da sexualidade como um conceito, na verdade, de construção social, algumas pessoas não sabiam que eram heterossexuais até determinado tempo. Mas como assim não sabiam? Não quer dizer que as pessoas não sabiam o que eram, as pessoas faziam sexo, as pessoas casavam. Esses casamentos, com certeza, eram majoritariamente heterossexuais. Mas a palavra, o termo “heterossexual” começou a  aparecer só a partir de um tempo. Então, em 1901 foi definido que a heterossexualidade era um apetite anormal ou pervertido em relação ao sexo oposto. Só que pra corrigir, mais ou menos, isso, colocaram, duas décadas depois, em 1923, o dicionário Webster definia a orientação sexual… A orientação hétero, né, como paixão sexual mórbida por alguém do sexo oposto. E aí, em 1934 que foi atualizado e colocaram que a heterossexualidade era a manifestação de paixão sexual por alguém do sexo oposto. Então, nós temos aí três movimentos, em três décadas. Em 1901 era um apetite normal ou pervertido. Nesse conceito, a gente já percebe que fazer sexo…

 

Sidney: Já começa a ser visto com esse olhar de sujeira, né.

 

Dan: É. Esse olhar de sujeira, a não ser que seja para se reproduzir.

 

Sidney: A procriação, exatamente.

 

Dan: Aí, em 1923, definia, na verdade, não… Eu falei errado aqui, na verdade, o dicionário Webster definia a orientação sexual, ou seja, nem tinha heterossexualidade, ou seja, orientado por um caminho só, como paixão sexual mórbida por alguém do sexo oposto. Ou seja, só era orientação sexual a heterossexualidade, o que a gente conhece como heterossexualidade. E em 1934, aí foi definido que a heterossexualidade… Já usa o termo “heterossexualidade”, sendo a manifestação de paixão sexual por alguém do sexo oposto. Até aí, já temos problemas.

 

Sidney: Uhum. É só a gente pensar, Dan, quando a gente aprende na aula de História, que… Lembra, na Grécia Antiga, existia o que hoje a gente chama, a então chamada pederastia. A relação entre discípulo e mestre que também era uma relação sexual. E aí, a gente entende, se a gente remeter a esse tempo em que existia esse tipo de relação entre mestre e discípulo, a gente entende que a heterossexualidade nem sempre foi a norma.

 

Dan: Sim.

 

Sidney: Porque, inclusive, na Grécia Antiga, a heterossexualidade era só para a procriação, e o casamento, né. Enquanto que o sexo homoerótico entre mestre e discípulo era um tipo de demonstração de cumplicidade, ou mesmo de um exercício de influência. E aí, a gente vê que, assim, a sociedade como a gente conhece agora, heteronormativa, nem sempre foi assim. A gente costuma achar e acreditar, essa mentalidade nos é tão arraigada, que a gente imediatamente acha que ser heterossexual é um ato automático e natural. Quando, na verdade, não é.Mesmo… E assim, quando as pessoas apelam para o argumento naturalista, que é muito problemático, por exemplo, eles apelam para o argumento naturalista de que a heterossexualidade é o normal e é só o que deve ser aceito porque, se não houver relações heterossexuais, não há procriação. Mas a gente pode pegar o mesmo argumento naturalista e dizer que, na natureza, na maioria das espécies de animais sexuados, ou seja, que se reproduzem  via sexual, também existem casos de homossexualidade.

 

Dan: Sim.

 

Sidney: Na natureza também existe essa manifestação. Então, se a gente for usar até o próprio argumento…

 

Dan: Biológico…

 

Sidney: Naturalista, biológico, mesmo ele nos dá respaldo pra a agente afirmar que a heterossexualidade não é um dado fixo e natural, e não é só a única forma correta, porque na natureza também ocorre isso. Embora eu acho, mesmo defender a diversidade sexual do ponto de vista naturalista, eu acho problemático. Porque como a gente falou no começo, nós somos seres humanos que construímos sentidos. Então, por que é que eu vou me galgar na natureza, sendo que a humanidade evoluiu cognitivamente a ponto da gente, inclusive, admitir que nós criamos os nossos próprios significados pra as nossas próprias relações? Então, pra mim, particularmente, mesmo quando funciona em favor da diversidade, o argumento naturalista é inútil, porque de nada adianta, nós somos seres pensantes, seres sociais que somos sedentos por símbolos e por significados. E o sexo não tá fora disso. Então, a gente não precisa apelar pra isso.

 

Dan: E outra coisa que a gente percebe, é o movimento de buscar origens e o porquê de haver os homossexuais. E isso é nada mais do que reproduzir o padrão dominante. Que, no caso, a gente quer dizer que ser heterossexual é o natural, é o normal. Dentro de uns textos que foram selecionados pra a pauta, dentro daquele da BBC, ele fala basicamente que existem trabalhos, tanto acadêmicos e tudo mais, que são populares sobre a construção social do desejo e da identidade dos homossexuais. São trabalhos até que tidos como positivos e realmente vieram construir essa identidade homossexual. Mas é estranho parar pra pensar que a identidade homossexual só passou a existir em um momento específico da História. E aí, a gente não vê que isso não é visto nem olhado para o lado do heterossexual. Então, parece que, assim, não existe uma razão pra poder estudar as origens da heterossexualidade. E isso tudo tem um cunho tanto de homofobia, quanto um viés também religioso, que perpassa pra poder… Esse entrave, na verdade, para poder discutir qual é a origem da heterossexualidade? Como que funciona isso? Além da questão do sexo mesmo entre genitais diferentes, que estamos dizendo, estamos pensando a heterossexualidade enquanto construção social. Quando que começou essa identidade dita como hétero?

 

Sidney: Você comentou ainda agora e é importante a gente reparar como a heterossexualidade enquanto norma tá intrincada nas atitudes cotidianas. Quando você fala da pesquisa, e hoje em dia a gente vê pesquisas científicas que tentam investigar, como você mencionou, a origem genética da homossexualidade. Isso é heteronormativo por definição, porque impregnado nesse tipo de abordagem está o pressuposto de que a heterossexualidade é natural, é um fato dado, e não precisa ser investigado. O que precisa ser investigado é o desvio disso. Isso é heteronormatividade. É você, ainda que com boas intenções, mesmo assim partir do pressuposto de que existe uma sexualidade padrão, todas as outras são desvio dessa, se afastam dela e, portanto, estão passíveis de uma investigação que ela não está. Isso é um jeito da gente enxergar a heteronormatividade agindo. Mas como é que a gente enxerga, também, em outras esferas do nosso cotidiano? Quando, por exemplo, essa semana, eu recebi aqui na minha casa uma prima distante, que não sabe da minha sexualidade…

 

Dan: “E as namoradinhas…” (risos)

 

Sidney: “E as namoradinhas…” Exato. Ela tá grávida. Aí, a gente se cumprimentou, o assunto resvalou para o bebê e, automaticamente, ela já perguntou, “E o seu filho, quando é que vem?” Aí, a gente dá aquela desconversada, porque nessa pergunta já está implícita a noção de que, por padrão, todo mundo é heterossexual, e você vai ter que revelar para as pessoas que você não é, quando você não for. Isso aí é um jeito. Outro jeito é quando você tem que se abrir no trabalho, porque sempre os comentários partem do pressuposto de que você é heterossexual e pra você… Se você não tá no armário, e se você é uma pessoa aberta quanto à sua sexualidade, isso eu falo de qualquer sexualidade, a gente não tá falando só de homossexualidade, você tem que declarar para deixar claro que você não é heterossexual, porque o pressuposto é de que todo mundo é heterossexual. E aí, você tem que se diferenciar, porque as pessoas não param pra pensar que, nas interações sociais, elas não param pra pensar que você pode ser diferente, e conduzem o diálogo no sentido de não pressupor que você é alguma coisa, e sim deixar que você diga.

 

Dan: Voltando, então, a esse mesmo assunto de como a heteronormatividade se manifesta, quando chega os parentes e perguntam “Cadê as namoradinhas?” Tem até aquela pergunta que é típica do tio ou da tia, “e as namoradinhas? E os namoradinhos?” Temos também que falar sobre representatividade. Por exemplo, olhem para todos os casais da Disney, são casais héteros. E quando tem os casais, ou tem, na verdade, um personagem que não manifesta a sexualidade desse personagem, todo mundo pressupõe que esse personagem seja hétero. É automático.

 

Sidney: Uhum. É automático. A pergunta que faz assim, se você diz assim, “Imagine um homem”. Aí, tem todas àquelas questões, quando você diz “imagine um homem”, você vai imaginar automaticamente o quê? Um homem cis-gênero, branco e heterossexual. Não é isso?

 

Dan: Justamente.

 

Sidney: Porque existem vários padrões de pensamento que são pressupostos. Isso aí é, inclusive, um… E aí, quando você diz “imagine uma mulher”, aí o que você imagina? Que é uma mulher branca, cis-gênero, heterossexual. O pensamento primeiro é esse. Pra você ultrapassar essa barreira, você tem que, primeiro, tirar do caminho esse pressuposto, que tá impregnado já na mentalidade, de que todo mundo parte da heterossexualidade, e quem não é heterossexual, em algum momento, se desviou dela. E você tem que se desviar dela também pra pensar em outras formas de sexualidade.

 

Dan: O modelo de família é tão impregnado que até em placas de trânsito, por exemplo, estacionamento… Dentro da postagem tem um link, que vocês irão ver, dentro de um texto que a gente pegou, que tem um símbolo de uma família… Assim, family friendly park. Um estacionamento… como se fosse amigável, um lugar legal pra se estacionar, a família. E aí, tem o pai, a mãe, um carrinho de bebê e outra criança dada a mão. Então, tem essa estrutura que já é padrão.

 

Sidney: Que é tomada como padrão.

 

Dan: Que é tomada como padrão. E dentro disso, nós temos os derivados… Que eu não sei se eu posso falar que é um derivado da heteronormatividade, mas que andam juntos. São modelos que andam juntos. Que também existe o cis-sexismo, que determina que o que é normal e padrão é a pessoa ser cis-gênero, ou seja, o gênero igual ao sexo que foi…

 

Sidney: Atribuído.

 

Dan: Atribuído ao nascimento. E também a monogamia. Se pararmos pra pensar, a monogamia é tão compulsória quanto a cis-normatividade e a heteronormatividade. Pra ser família, tem que ser hétero, tem que ser cis e tem que ser monogâmico.

 

Sidney: É. E é tão forte isso que, inclusive, entre casais homoafetivos, a gente, às vezes, se pega tentando reproduzir o modelo. Então, mesmo… aí, você tem um amigo, por exemplo, que é hétero, mas que é gay friendly. E aí, você vai apresentar o seu namorado… Ou tem alguém sem noção, aí chega aquela pergunta, “Mas quem é a mulher da relação?”

 

Dan: Já me perguntaram isso.

 

Sidney: Né? É uma forma de preconceito e de manifestação dessa heteronormatividade, como se, mesmo em casais homoafetivos, tivesse que existir a separação do que é diferente. Não passa pela cabeça que podem ser dois iguais, e isso também é uma manifestação de sexualidade plena e completa.

 

Dan: Tem uma reportagem que tem circulando na internet, que um homem chegava pra as pessoas e perguntava, por exemplo, o que elas achavam que justificasse a homossexualidade como orientação sexual. E as pessoas, a maioria, diziam que poderia ser questão de criação, ou da própria natureza da pessoa. E aí, o repórter virara para as pessoas e dizia assim, “E quando você que decidiu ser hétero?” As pessoas, a maioria, nunca tinha parado pra pensar por que ela era hétero. Nunca… elas nunca se descobriram, elas nunca se assumiram, elas nunca tiveram que enfrentar essas questões na sociedade…

 

Sidney: E se confrontar… É o que a gente chama de privilégio da cis-generidade, que eu e você temos, por exemplo. A gente, em nenhum momento, teve que se confrontar com o fato… Porque, a vida toda, nós fomos reafirmados na nossa cis-generidade, porque é a norma. E aí, a heteronormatividade reafirma a heterossexualidade e obriga quem não é a se confrontar. Então, quem é hétero nunca teve que se confrontar porque a heteronormatividade está o tempo todo afirmando a sua sexualidade. Mas, no nosso caso, eu e você, Danilo, aqui, particularmente, somos homossexuais, e a gente teve que enfrentar esse pressuposto pra se compreender e se aceitar.

 

Dan: E se a gente não repensar os nossos privilégios, muitas vezes a gente pode sofrer com a heteronormatividade, mas ser cis-sexista, por exemplo…

 

Sidney: E reproduzir preconceito…

 

Dan: E reproduzir um outro preconceito, na verdade, porque achar que todo mundo deve ser cis. Então, assim, dentro da própria sopa de letrinhas que é ser LGBTTQIPA, ainda existem hierarquias aí, que pessoas às vezes tem algum privilégio e reproduz um preconceito com base no privilégio.

 

Sidney: A própria noção de que as gays afeminadas são inferiores, são vulgares, também é um reflexo da heteronormatividade. Porque não passa pela cabeça… Porque a heteronormatividade também vai dizer qual é o seu comportamento.

 

Dan: Sim. O gay que venceu na vida é qual gay (risos) pra a sociedade?

 

Sidney: É o gay discreto, porque, afinal de contas, tem que corresponder ao seu papel de gênero. Mesmo homossexual, a identidade de gênero é muito encaixotada e determinada pela heteronormatividade. E se você é aquela gay mais aviadada, vem lá o gay discreto e diz, “Ah, mas não precisava ser escandalosa, né, pode ser gay, mas não precisa ser escandalosa” Né? “Pode ser sapatão, mas pra quê ser caminhoneira?” “Se quer…” como é que dizem, assim?

 

Dan: Aquele argumento, minha mãe falava, seja gay, mas não vista de mulher, por exemplo.

 

Sidney: Ai, aí tem uma frase que é bem heteronormativa, que é, “Se eu quisesse bicha afeminada, eu namorava mulher”.

 

Dan: Justamente.

 

Sidney: Ou o contrário, com as lésbicas, “Se eu quisesse mulher masculina, eu namorava com homem, eu não era lésbica”. Isso também é um tipo… É a heteronormatividade ditando, inclusive, as escolhas que você faz enquanto sujeito fora da heterossexualidade. Não é louco isso?

 

Dan: (risos) Até tem aquele texto do Huffpost Brasil, que a pessoa tenta chegar próximo do padrão, mas ela nunca vai ser padrão porque ela vai ter alguma coisa fora do que é dito normal. E aí, aquele gay que consegue ser, por exemplo, representar um papel bem másculo do que a sociedade exige de um homem, ele consegue representar esse papel, e ele fica amigo dos héteros, e tudo mais. Mas ele fala assim, “Você sempre vai ser amigo deles, mas você sempre vai ser diferente, você nunca será como eles”.

 

Sidney: Nunca. Isso, e eles nunca vão lhe ver como um igual. Porque, por mais que você rejeite a sua sexualidade, ou esconda, ou queira se… Como é que diz? Fazer parte, eles não vão lhe enxergar dessa forma, você vai ser sempre o diferente, por mais que você, inclusive, se esforce muito pra parecer igual, inclusive por meio da própria opressão. Reproduzindo opressões que você sofre com outras pessoas também.

 

Dan: E esse próprio gay que conseguiu chegar nesse padrão normativo, ele vai ser o gay que pode oprimir as bichas afeminadas. É aquele gay que aprende a esconder aquela desmunhecada, que ele é todo incubado, ele não é afetado, existem até essas palavras assim, que é como se fossem deméritos em relação às bichas mais afeminadas. As que mais apanham.

 

Sidney: Isso, que dão a cara a tapa, a gente já falou, né. E são os que reproduzem mais isso, né. A gente tá falando aqui de gays, mas você aplica a toda a sigla LGBT. NINGUÉM está isento de reproduzir esse tipo de opressão porque todo mundo, eu, você… E todo mundo canta junto (risos) A heteronormatividade é ensinada a todo mundo, porque ela é o pressuposto, é o padrão, todo mundo tá sujeito a reproduzir o tipo de preconceito advindo dessa expectativa de que todo mundo tem que ser heterossexual e cis-gênero.

 

Dan: Eu nasci em 1988, e a Organização Mundial de Saúde tirou o termo “homossexualismo” como patologia somente em 1990. Olha só como que… Verificando por esse lado, como que funciona essa questão dessa heteronormatividade compulsória. E só lembrando que esse CID ainda tá junto, no mesmo time do grupo necrofilia, pedofilia, zoofilia, gente!

 

Sidney: Tava no mesmo grupo, né, de perversões sexuais.

 

Dan: E lembrando que a questão também da transgeneridade só foi retirada recentemente, mas ainda continua como disforia de gênero.

 

Sidney: Uhum. Hoje em dia, a gente tirou… A Homossexualidade já não figura mais lá no rol de patologias, embora as pessoas mais retrógradas ainda insistam em achar que é. Mas ainda… Faz esse tempinho, imagina pra o caso da transexualidade, que só muito recentemente foi só meio retirado, e as pessoas ainda tratam… Pra alguém se identificar, declarar a sua identidade de gênero trans, ainda precisa passar por vários processos médicos e psiquiátricos…

 

Dan: E cis-normativos. Pra poder… Geralmente, provavelmente quem vai avaliar essa pessoa trans vai ser um médico cis-gênero. Provavelmente, até branco.

 

Sidney: Exato.

 

Dan: Porque existem outras opressões que se encontram nessa sopa de letrinhas que a gente tem. Só uma correção que eu vou fazer aqui, Sid. Na verdade, o grupo que incluía  necrofilia, pedofilia e zoofilia era até 73, mas mesmo assim não deixava de estar no CID. Aí, a APA, na verdade, ela desrecomendou essa questão da homossexualidade…

 

Sidney: O que é a APA, Dan?

 

Dan: APA é a Associação Americana de Psiquiatria. E aí, ela desrecomendou. E aí, mesmo assim, em 77, a OMS incluiu como CID. Então, de certa forma, a área da Psicologia já não queria ver isso como uma doença, mas pela OMS ainda era tratado como doença.

 

Sidney: É, ainda temos um longo caminho, inclusive pra desmanchar esses pressupostos e fazer entender que as pessoas são quem são, independente… E as suas sexualidades se manifestarão independente dos padrões. O que a gente poderia evitar é que essas pessoas se sentissem mal por serem quem são. Todo mundo poderia se sentir bem e entender que todo mundo, hétero ou não, faz sexo por prazer. O sexo não tem que ser só pela reprodução. E porque ele não tem que ser só pela reprodução, já que nós somos seres carentes de significado, a gente tem que significar as coisas, então vamos ressignificar as nossas relações sexuais e as nossas relações afetivas, a ponto de chegarmos, um dia, em que todo mundo vai poder exercer seu impulso sexual de forma sadia, sem precisar sofrer nenhum tipo de repressão.

 

Dan: Justamente. Outra coisa, Sidney, só pra a gente andar já para o final do nosso HQ de Bolso, temos que falar de datas. Já que 17 de maio é o dia que foi tirado do CID, da OMS, dia 14 de junho é comemorado o Dia Mundial do Doador de Sangue. E a heteronormatividade é tão premente, que por mais que a gente não é considerado uma pessoa doente, os Hemocentros ainda têm uma certa dificuldade de receber esse sangue de homens que fazem sexo com homens, segundo o Ministério da Saúde. E aí, eles falam que visam proteger… A proteção do doador quanto, no caso, do receptor. Esse ano, tem uma reportagem do G1, é relativo ao nicho do Distrito Federal, 55 homens foram negados receber o sangue deles, por serem homossexuais. Então, uma pessoa que é homossexual, mas tem um parceiro fixo há mais de um ano, por exemplo, mesmo tendo feito exame previamente, e sendo monogâmico e assumindo-se monogâmico, eles não aceitam o sangue da pessoa.

 

Sidney: No caso, esses 55 homens, você tá falando, é um dado de 2017, até hoje, no mês de junho, 55 homens tiveram seu sangue rejeitado por serem homossexuais.

 

Dan: Justamente.

 

Sidney: No Distrito Federal.

 

Dan: Eles nem falam “homossexuais”. São homens que fazem sexo com outros homens. E aí, eu tenho uma situação, por exemplo, eu já quis doar sangue. Falava que eu estava num relacionamento de dois anos, por exemplo. E aí, o médico que me entrevistou falou assim, “Mas você sabe como é que é, né, gays…” eu falei, “Como assim?” ele, “é, pula a cerca”. Eu falei, “Como assim?!”

 

Sidney: Ah! Sim, porque hétero não pula nunca, né. (risos) A gente tá vendo aí que os únicos casos de adultério e filhos fora do casamento são dos casais gays, não é verdade?

 

Dan: É… Justamente, né, imagina! (risos)

 

Sidney: Olha só como a heteronormatividade funciona até na hora de negar os próprios defeitos, né. As próprias falhas das pessoas. Eles atribuem uma promiscuidade própria a outro grupo que… Assim, não é que é santo, mas também a gente padece dos mesmos desejos e das mesmas falhas que qualquer pessoa que se relaciona com outro ser humano afetivamente. Não existe um diferencial maior ou menor, no sentido, assim, natural da coisa. E mesmo assim, a gente parte do pressuposto de que quem está fora da heterossexualidade é mais promiscuo porque tá fora dessa sexualidade que é dita como sadia, né.

 

Dan: Aí, a gente fica pensando assim, será que o Hemocentro vai justificar? O Hemocentro justificou, e disse apenas o seguinte, que eles não classificam os homossexuais como inaptos a doar sangue, mas apenas homens que tiveram relações sexuais com outros homens. E ponto final. Nem essa janela de tempo que eu tô dizendo que… Essa janela de tempo é biológica, concorda?

 

Sidney: Uhum, um ano?

 

Dan: Uma mulher casada, hétero, vai doar  sangue? Vai receber. Um hétero homem, hétero, cis, casado, vai doar sangue? Vai receber. Eu, homossexual, casado, vou doar sangue? Não vai receber. No máximo, pra evitar um barraco, vai receber e depois jogar meu sangue fora…

 

Sidney: Descartar…

 

Dan: E eles falam que existem… Aí, pra piorar a nota deles, eles falam que o Ministério da Saúde justificou a restrição a homossexuais, aí já não é mais homens que fazem sexo com homens, afirmando que dados da própria (incompreensível) a ponto que a epidemia está concentrada em populações de maior vulnerabilidade, tais como os homens que fazem sexo com homens, novamente. Assim, não sei…

 

Sidney: O que é uma falácia, porque durante muito tempo a gente percebeu que a parcela da população homossexual se cuidava muito mais, e as incidências de HIV, por exemplo, entre homossexuais, durante muito tempo, na última década, se eu não me engano, era muito inferior à dos heterossexuais. Por quê? Por causa do estigma lá, do boom da AIDS nos anos 80, os homossexuais passaram a se prevenir melhor. Afinal de contas, nós éramos acusados da praga gay. E os heterossexuais, mal informados, achando que não contraíam AIDS porque o preconceito era de que só quem contraía AIDS eram homossexuais, o sexo heterossexual não transmitia… Olha o nível de ignorância que a pessoa chega. Aí, chegou um ponto em que os níveis de HIV, de incidência de HIV entre héteros eram maiores do que entre homossexuais.

 

Dan: em Minas tem uma cidade, que eu não vou nem falar o nome, mas teve um surto nos anos 2000, se eu não me engano, de epidemia de HIV. E aí, a maioria das pessoas que estavam contraindo HIV eram mulheres heterossexuais que, na verdade, estavam contraindo dos maridos que pulavam a cerca.

 

Sidney: Ah! Mas é porque eram gays, Dan, e só gays pulam a cerca! Né? (risos)

 

Dan: é mais ou menos isso. Bem, gente, acho que agora desenhamos bem claro o que é heteronormatividade. Já pensar que tudo que foge desse padrão hétero é como algo sujo, é imundo, não tá certo. E isso é que a gente nem tá pisando no calo religioso, né, Sidney?

 

Sidney: Não! Deixa pra lá, miga, é melhor deixar pra lá (entre risos).

 

Dan: Essa pauta aí, a gente nem tá querendo mexer, nesse momento.

 

Sidney: Não, a gente tá falando só de construção cultural e social, e de expectativas.

 

Dan: Mas eu acho que tem que deixar registrado e datado que também o viés religioso faz grande parte desse controle…

 

Sidney: Isso, grande parcela da responsabilidade, justamente, vem do esforço monoteísta… Eu não vou dizer nem cristão, mas monoteísta, de regular os corpos.

 

Dan: Outra questão de regulação de corpos que não falamos é a questão de expansão de cidades e urbanização, à medida que as pessoas saem de pequenas cidades para grandes centros, elas se sentem mais livres. E essa heteronormatividade também foi usada como uma maneira de regular essas sexualidades tão diversas que existem.

 

Sidney: É uma forma de controle, não deixa de ser uma forma de controle, você regular como as pessoas devem se comportar de determinada forma, inclusive no âmbito afetivo e sexual, você não deixa de tá controlando as pessoas pra que elas sigam… Em prol de um discurso e em prol de um interesse que é político, porque todo mundo é político no… todo ser humano é um ser político, mesmo quando está agindo em função de sua religião, ou de qualquer outra ideologia que seja. Enfim, oh, a gente já tá entrando num caminho bem espinhoso. É melhor a gente ir encerrando por aqui, porque se…

 

Dan: É HQ de Bolso, né…

 

Sidney: Isso, e esse assunto é muito, muito, muito grande pra caber só em meia hora.

 

Dan: Exatamente.

 

Sidney: A gente pede encarecidamente que, se você tem algo a contribuir, se a gente falou alguma coisa que não condiz com o que você pensa, o que você acha ou o que você sabe, envia feedback pra a gente, que a gente lê no próximo HQ de bolso. Não é mesmo, Dan?

 

Dan: Pois é, Sidney. Então, a heteronormatividade é algo tão estrutural na sociedade, que quando a gente vai questionar esses privilégios héteros, e na maioria que são até homofóbicos, eles não entendem e não aceitam todas essas lutas LGBTs, em geral. LGBTTQIPA. E acaba que eles até devolvem a moeda, falando que somos até heterofóbicos, e tudo mais.

 

Sidney: Uhum… Ai…

 

Dan: Enfim, gente, sejem menos.

 

Sidney: SEJE MENOS.

 

Dan: Não façam isso, amiguinho hétero, cis, branco e classe média, então, repense todos os seus privilégios. Não é errado ser hétero, branco, cis, nem classe média. Errado é você não ter consciência de outras realidades que não as suas, e outros sofrimentos que não os seus. Ok?

 

Sidney: Exatamente.

 

Dan: E aí, Sidney, vamos dar o serviço de casa para os ouvintes? Novidades, né?

 

Sidney: Vamos, menino! Porque, olha, to empolgadíssimo aqui, tô até emocionado. Toda me tremendo! (risos) Porque, finalmente, adivinhem… Saiu o nosso site! Nossa webpage, nosso websítio, como diriam alguns… (risos) Nós temos uma página na internet agora, miga! Finalmente!

 

Dan: E aí, qual o nosso endereço, Sidney?

 

Sidney: Ai, olha só, agora tá muito mais fácil encontrar a gente. Você vai lá no WWW.hqdavida.com.br; não é fácil?

 

Dan: Facílimo.

 

Sidney: Lá você vai encontrar todos os nossos episódios, você vai encontrar as nossas redes também, e as transcrições também vão estar lá, juntinhas de cada episódio.

 

Dan: Mas não deixem de apreciar também nosso Facebook, que é HQ da Vida; nosso Twitter, que é @hqdavida; Nosso Sound Cloud, que é WWW.soundcloud.com/hqdavida; que mais que temos, Sidney?

 

Sidney: A gente tem o Medium também, no @hqdavida lá no Medium. E você estrela a gente… A gente vai continuar pedindo, gente. A gente tem o site agora, mas a gente vai continuar pedindo que você estrele a gente lá no iTunes, dá 5 estrelinhas. E lembrando que, agora, como a gente tem site, você pode ir lá na postagem do episódio e fazer seu comentário lá na postagem. Muito mais conveniente, não é mesmo?

 

Dan: Deixe seu comentário, que a gente lê aqui no próximo programa. Ou mande um email, hqdavida@gmail.com; não tem como não achar a gente nessa web.

 

Sidney: Agora, olha… A gente tá em todo canto, não é mesmo, Dan?

 

Dan: É isso aí. Então, temos um HQ de Bolso, né?

 

Sidney: Temos, sim. Até o próximo HQ. Xero, gente.

 

Dan: Tchau, tchau!

 

(FADE IN E FADE OUT DA TRILHA SONORA)

 

FIM

 

Transcrito por Sidney Andrade

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