TRANSCRIÇÃO – HQ da Vida #15 LGBTTs: Professor X

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TRANSCRIÇÃO – HQ da Vida #15 LGBTTs: Professor X

 

(Nota: a transcrição é um recurso de acessibilidade que viabiliza o acesso para pessoas com alguma deficiência auditiva, além de ser um mecanismo eficiente de consulta para o conteúdo do podcast. Não pretende, portanto, substituir a audição do programa, mas, sim, complementá-la)

 

Vinheta de abertura: entre efeitos sonoros de impacto, uma voz com reverberação anuncia “HQ DA VIDA, o seu podcast sem quadrinhos.”

 

(Trilha sonora de Background alusiva a histórias em quadrinhos)

 

Dann: Olá, pessoal. Aqui é Dan Carreiro.

 

Sidney: Eu sou Sidney Andrade, e esse é o HQ da Vida número 15!

 

Dann: Esse é um podcast que, como alguns já sabem, tem como objetivo contar histórias de super LGBTs.

 

Sidney: Pois é, Dann. E hoje, antes da gente começar o nosso episódio, eu queria mandar uns beijinhos. Posso?

 

Dann: à vontade. Vamos lá.

 

Sidney: Então, vamos mandar beijinhos pro pessoal que comentou com a gente lá, faz um tempo já, mas eu queria mandar, primeiro lugar, um beijo pro Luciano, sem sobrenome, que foi o nosso primeiro comentador do site, menino. Acredita? Ele foi o first do HQ da Vida, ele comentou no HQ de Bolso #05. Um beijo aí pro Luciano. Também queria mandar um beijo pro pessoal que comentou lá no Sound Cloud, que foi a Érika Ribeiro, maravilhosa, linda, um beijo pra Érika lá do SAD, né…

 

Dann: E do Small Talk…

 

Sidney: Isso, do Erika’s Small Talk, maravilhosa, um beijo, Érika, sua linda. Um Beijo pro Raul Marchiori também, comentou lá num episódio da gente, lá no Sound Cloud. Um beijo pro Marcelo Pereira, que é do podcast Tem Base, é um podcast que tá nascendo agora, né, sobre o movimento sindical; e ele é nosso ouvinte assíduo, ouvinte hétero, né, da cota hétera (Dan ri), e ele adora a gente, já comentou, ele dá vários feedbacks pra a gente, um beijo pro Marcelo também, um querido. E lá no Twitter, a gente teve umas interações com o Eduardo Silva, que vocês conhecem pela alcunha de Eduardo Sacer, que é lá do podcast Loggadocast. Eles são, assim, besties do SAD, né. A gente sempre ouve lá junto com o pessoal do SAD, Eduardo, aí, um beijo também, pra essa voz cremosíssima que o Eduardo tem, eu adoro. E pro querido Jean Carlos, meu deus. Jean Carlos, me beija, me abraça, que é lá do Polimorfia Podcast, que dá muita força pra a gente também no podcast.

 

Dann: Na verdade, também houve outras interações com outros podcasters dessa podosfera, pela #PodcastFriday. Quem quiser também acompanhar, existem indicações, que várias pessoas indicam alguns podcasts e usam essa hashtag. E algumas pessoas amorzinhos começaram a usar essa hashtag para o HQ da vida. Quem começou…

 

Sidney: Indicar o HQ.

 

Dann: Quem começou essa indicação do HQ da Vida, especificamente, foi o Jean Carlos que você citou aí. Mas outros foram retuitando…

 

Sidney: Eu tenho um pedido, também… Atender a um pedido de um beijo que um ouvinte novo nosso pediu (ele solta um risinho) para mim. Queria mandar um beijo pra um tal de Thiago Kramer, que agora é nosso ouvinte, e queria… Exigiu, né, um beijo dessa pessoa que vos fala. Então, um beijo, querido. Meu amor, um xero no seu pescoço! (Dan ri alto)

 

Dann: Você converteu ele pra a podosfera?

 

Sidney: consegui, menino! Tu não acredita. Consegui converter uma pessoa pra ser ouvinte de podcast. Mas enfim, vamos seguindo com o programa.

 

Dann: (entre risos) Como é que é? Vamos seguindo. Aqui em casa, eu não consegui ainda, viu.

 

Sidney: Ai, é uma barra, né, migo. Eu sei como é.

 

Dann: O nosso convidado do dia é militante político, jornalista, mestre em Ciências da Comunicação e professor da Universidade Federal de Rondônia. Quem é este nosso convidado, Sidney?

 

Sidney: Isso, a gente vai bater um papo muito legal sobre LGBTs e comunicação, né, nessa era tão louca que a gente vive hoje, nessa era da comunicação, com o querido Thales Pimenta. Entra aí, Thales.

 

(EFEITO SONORO DE TRANSIÇÃO)

 

Thales: Olá, meu nome é Thales Pimenta. Eu sou mineiro. Atualmente, tô morando no extremo sul de Rondônia, Norte do Brasil (ele ri). Sou pesquisador audiovisual, mas principalmente jornalista. E militante da população LGBT, eu acho (ele ri). Porque eu sou gay. E dou aulas na Federal de Rondônia atualmente, tem uns dois anos já.

 

Sidney: Você dá aulas de quê, Thales?

 

Thales: NO departamento de jornalismo.

 

Sidney: Jornalismo. Você é professor de comunicação.

 

Thales: Uhum.

 

Sidney: Muito bem. E aí, a gente sempre começa a nossa conversinha remontando aos primórdios das nossa vivências. E a gente quer saber de você, como é que foi pra você a sua autodescoberta? O nome… A palavra que a gente usa aqui é “insight”. Eu costumo dizer que é a autoconsciência, ou como você tomou consciência de si mesmo e da sua diferença, no sentido da sua sexualidade, teve algum acontecimento marcante, foi aos poucos, como é que foi?

 

Thales: é, acho que foi as duas coisas. Foi aos poucos porque… Ah, evidentemente, desde quando eu comecei, assim, a me socializar mais. Quando eu saí de casa e fui pra a realidade da escola e comecei a conhecer bastante o entorno, e andar, enfim… Estar exposto a outras pessoas, e às regras das outras pessoas. Eu fui vendo que eu não me encaixava muito nesses projetos de vida que envolviam casamento… Porque, na infância, é tudo tão plástico, que a gente fica, realmente, performatizando. Performatizando gênero, performatizando sexualidade. As  pessoas falam sobre casamento, falam sobre tudo, e é o tipo de coisa que eu, por exemplo, não colocaria crianças minhas, por exemplo, se eu fosse pai hoje, ou fosse um pedagogo, alguma coisa do tipo, dificilmente eu recorreria a essas estratégias de falar sobre casamento e etc. como um dispositivo pra desenvolver a criança. Porque eu acho que a criança tem muitas outras coisas que ela pode desenvolver antes, como linguagem, competência matemática, noção de espaço…

 

Sidney: É engraçado como a gente condiciona o crescimento, no sentido de cobranças em expectativas de gênero, né?

 

Thales: Exatamente, já fica moldando a criança.

 

Sidney: E de uma… como é que a gente chama, Jesus? É uma, como se fosse assim, a normativa do padrão de relacionamento…

 

Thales: Isso. E aí, era mais ou menos isso que acontecia, e eu não me encaixava muito, porque a imagem, por exemplo, do casamento, das relações monogâmicas, héteros, e etc. eu não… Assim, a princípio, apesar de não me ver… É como se fosse um conjunto de expectativas. E nesse conjunto de expectativas, é como se fosse um painel onde você enfia sua cabeça lá pra aparecer e tirar uma foto, tipo rodeio, e etc. eu enfiava lá minha cabeça, mas eu achava aquilo extremamente superficial. É como se não fosse uma coisa minha mesmo. Como se eu não pertencesse àquele universo de sentido de coisas. Então, eu nunca… Mas, ao mesmo tempo, como na infância eu tinha muitas atividades, muitos outros objetivos… Eu estudava, eu lia bastante, etc. Eu acho que a infância tem meio que essa… Cria em volta da gente uma redoma, pra algumas crianças é assim. Cria uma redoma em volta de você, na qual você consegue voltar pra ela, sair dela, etc. pra se sentir seguro. E era o que eu tinha. Eu contava muito com a televisão, videogames, literatura e etc. pra realmente fabular um mundo que eu achava que cabia, que condizia com as minhas expectativas pessoais, individuais, a minha vida íntima mesmo. Agora, sempre acontecia muito choque entre a minha vida íntima e a vida coletiva. Que as pessoas esperavam que eu fosse, que eu fizesse. Ah, tipo assim, quando eu comecei a crescer, eu já tive conflitos de ordem social mesmo, das pessoas me identificando como gay, e muito antes de eu realmente me colocar dessa forma politicamente. Porque isso aí eu só fui realmente saber que era necessário fazer lá pelos 19, 20 anos. Quando eu já tava na graduação e eu achava que eu tinha que desenvolver essa fibra moral e procurar mesmo certos… Enfim, entender que eu tenho prerrogativas só pelo fato de eu ser um ser humano, e de eu querer ter as minhas liberdades individuais. Que era coisa que eu não encarava como um direito meu orgânico, antigamente. Acho que é muito reflexo mesmo das tutelas que a gente sofre ao longo da vida, sendo gay mesmo. Gays, lésbicas, transexuais, etc.

 

Dann: Você falou, por exemplo, que quando você… Algumas pessoas te rotulavam gay, sendo que nem você ainda tinha esse entendimento sobre si próprio. Mas, por exemplo, você também tinha entendimento do que era dois homens se beijando? Porque, por exemplo, hoje, a gente tem isso na mídia. Mas antigamente era muito difícil. A gente vê uma menção em relação a isso. Até mesmo no Brasil, pela herança pós ditadura, tinha até certas proibições em relação a isso, a gente já viu vetos de pessoas até travestis ou gays, porque, nessa época, misturavam-se identidade de gênero com orientação sexual. E aí, não tinha nada na televisão que nos representasse. Então, como você teve esse contato pra saber o que é um gay, por exemplo?

 

Thales: Pois é. Nos meios de comunicação… bom, eu sempre fui da TV aberta, durante a infância e adolescência, eu não tive canal fechado. Então, eu não tinha realmente noção de certas coisas. Mas, ao mesmo tempo, parece que demorou um pouco pra eu me despertar, porque eu não me enxergava nas expectativas de gênero das pessoas, eu tinha um outro jeito de me apresentar, um outro jeito de me portar, que eu acho que se enquadra naquilo que a gente chama de criança viada, né (risos). E aí, era basicamente isso. Só que, ao mesmo tempo, eu não tava… como eu não tinha orientação, eu sentia coisas em relação a meninos, entendeu, uma forte vontade de me socializar especificamente com eles, que era muito mais “homossocial” do que homossexual. E aí, eu acho que, enquanto estavam desenvolvendo a sexualidade muito mais rápido, entendeu, em oposição ou então em complementação às meninas, chegando… Tinha seus draminhas, suas narrativas, suas histórias mesmo de primeiro amor, de segundo amor, de terceiro amor, de ficar, de fazer não sei quê. Eu fui… Essas coisas ficaram muito adormecidas em mim. Acho que porque eu não via isso nos meios de comunicação, eu não via isso nos livros, eu não via isso na internet, porque, na época, imagina, era internet discada. E era acesso àquelas primeiras, Terra, Bol, AOL 30 dias grátis, e não sei o quê… a gente tinha um computador muito precário, então eu realmente não via. Então, pra mim, essa parte ficou desligada durante muito tempo. Então, todo mundo se desenvolveu muito rápido, todo mundo teve sua desenvoltura emocional iniciada. E a minha ficou ali, entendeu. Eu acho que eu era muito mais… Por isso que eu me tornei uma pessoa muito mais social do que realmente sexual, eu me considero assim ainda. Tanto que, pra mim, a esfera dos relacionamentos é complicada exatamente por isso. Porque as pessoas faziam um silenciamento sobre as questões que emergiam de vez em quando, na minha relação com as outras pessoas na escola. Então, eu não conseguia fazer certas perguntas, e essas coisas foram ficando pra escanteio. E com isso, eu acho que a primeira vez que, por exemplo, eu descobri que existiam lésbicas, sendo bem sincero, foi assistindo o clipe daquelas cantoras russas…

 

Sidney: t.A.T.u!

 

Thales: t.A.T.u…

 

Sidney: Meu deus! T.A.T.u.;Amo! (risos)

 

Thales: eu descobri…

 

Sidney: Se bem que a gente descobriu que elas são homofóbicas… Esse ano…

 

Thales: É. Acho que uma delas, a morena. Eu fiquei muito decepcionado.

 

Sidney: Mas é, foi uma morte horrível…

 

Thales: E aí, a outra falou uma coisa muito massa. Ela disse, “Bom, a gente vive num país em que essas coisas são normatizadas como tal, você não pode e etc. Só que eu acho que a gente… A liberdade individual é tudo. E dentro…”

 

Sidney: Elas são russas, né?

 

Thales: São.

 

Sidney: E elas são, até onde eu entendo e até onde eu me lembro, porque eu também era muito jovem na época que elas tavam fazendo sucesso, elas foram uma dupla de mulheres lésbicas, mas foi aquela dupla lésbica produzida  pra o fetiche masculino…

 

Thales: Foi.

 

Sidney: Até porque não tinha outra maneira de você manifestar um desejo por outra mulher, uma mulher por outra mulher, se não fosse pela via do fetiche masculino, naquela época, infelizmente.

 

Dann: Era o que poderia ser… como é que fala? Passável pra a sociedade aceitar, né?

 

Sidney: É,  exato.

 

Thales: É. Não, e o pior de tudo é que mesmo isso agora já não é mais o tipo de produção que eles aceitam, porque a legislação, o código penal lá da Rússia mudou. Então, hoje eles tratam isso como uma espécie de… É como se fosse o equivalente de, pra a gente, de apologia às drogas. Só que como é do campo da moral e tudo, então eles levam muito mais a sério do que a nossa apologia às drogas.

 

Sidney: Uma perversão…

 

Thales: Eu acho que, fazendo um comparativo, é mais fácil uma pessoa postar foto de beque todos os dias na internet, do que lá você fazer um post com a foto com uma pessoa que você gosta dando um beijinho ou fazendo uma declaração de amor. Que isso aí já é denunciado, já é… Sei lá…

 

Sidney: Infelizmente, tá ficando cada vez mais tenso lá na Rússia.

 

Thales: E na Chechênia.

 

Dann: Na verdade, na Chechênia, na verdade, é um território da antiga União… Não sei se é um território russo ainda…

 

Thales: Já é reconhecido como Estado Nação, tudo, e o território é deles. Mas, de qualquer forma, eu acho que eles têm relações com a Rússia de caráter econômico, por causa da própria região mesmo.

 

Sidney: É, mas… A gente vê que é uma região, independente das fronteiras geográficas e políticas, as fronteiras culturais ali por aquele entorno são bem semelhantes.

 

Thales: São.

 

Sidney: Nesse sentido.

 

Dann: Oh, Thales, e voltando a essa questão da descoberta, por exemplo, quando você já começou ser apontado ou também se percebendo como gay, como que se deu, por exemplo, essa relação sua em relação, por exemplo, no sentido de, primeiro você teve medo, receio, e foi primeiro tendo namoradinhas, ao invés de namoradinhos, como que funcionou esse processo?

 

Thales: Eu… foi… Enfim, eu não digo que é tardia, porque… Que foi um desenvolvimento tardio de sexualidade porque eu acho que, como os focos são outros na infância e na adolescência, a gente tem que desenvolver primeiro as habilidades de comunicação, de socialização, de linguagem, enfim. Entender tanto o mundo natural quanto o mundo social ao seu redor pra, daí, explorar essas coisas com mais profundidade. Então, eu não tinha essa noção de que eu tinha que me formar como sujeito, entender meu papel no mundo pra depois exercer esse papel e parará-parará… Não tinha essa problematização toda, era só um adolescente. Mas, ao mesmo tempo, eu me resguardei de muita coisa. Só que aí, quando chegou a época de efetivamente, enfim, conhecer pessoas, eu já tava na 8ª série. Muitos colegas meus já tinham exercitado, já tinham feito sexo. O que eu considero muito prematuro, 8ª série, gente? É muito prematuro. Eu acho muito prematuro.

 

Dann: 14 anos, né.

 

Thales: É, 14 anos. Eu tinha… Acho que as primeiras experiências foram com colegas de bairro, ou colegas de escola, mas muito restritas e também muito fugazes. Você via, por exemplo, eu tenho uma amiga aí que é casada com o cara que ela conheceu no ensino fundamental, entendeu. Então, pessoas que mantiveram esses relacionamentos, entendeu, pelo menos no nível da amizade, etc. Mas eu vejo que tod… Eu me mudei muitas vezes, eu morei em 11 cidades. Só no Brasil foram 9. Então, todas as vezes em que eu me mudava, eu percebi que eu só… eu tenho uma puta de uma rede na internet. Mas, coincidentemente, você vê, eu tenho muito mais amizade com as meninas que eu conheci, com os caras héteros que eu conheci, etc. Mas com os gays mesmo, é muito difícil eu manter contato. Era muito difícil, até eu realmente atingir essa maturidade política de entender meu papel no mundo, e me pensar como um cidadão comunicativo, que tem que exercer suas habilidades pra poder esclarecer coisa, se preciso, no que eu penso, e parará-parará… Demorou muito tempo. Então, eu perdi muita gente ao longo da trajetória, inclusive namorados que eu tive, com os quais eu não converso mais, porque eu acho que esse silêncio, ele não é só de fora pra dentro, ou seja, as pessoas que estão ao seu redor não falam sobre isso porque, sei lá, é um tabu ou existe um enorme preconceito em relação a isso. Mas eu acho que o fato de as pessoas também não falarem já te torna meio que o fantasma da nação, ou seja, você não faz parte do projeto civilizatório. Os seus desejos não fazem parte da disciplina de desejos. Entendeu. Por exemplo, muitas amigas minhas falam isso, amigas negras, por exemplo. Elas dizem que… eu aprendi muito com uma delas, inclusive. Ela falou assim, que da passagem pra a Nova República, aqui no Brasil, a gente tem o projeto de branqueamento a todo vapor. E aí, esse projeto de branqueamento coloca a mulher negra, em relação ao homem branco, como uma possibilidade de branqueamento, mas o contrário não acontece. O homem negro com a mulher branca. Tanto que, se vocês lembram, antigamente, os negros, lá nos Estados Unidos principalmente, eram linchados por se relacionarem com mulheres brancas. Ou com mulheres imigrantes, mas que também eram brancas, tipo irlandesas, e etc. e tal. Então, rolava muito disso. Era inadmissível a ideia da mulher, que é objeto de desejo do agente de desejo, que é o homem branco, querer uma outra coisa que não seja isso. Então, tinha as representações, o negro como a pessoa exótica ou violenta. Ou então, exótico e sexual. Sempre uma coisa muito mal representada na literatura, na política, nas ficções da civilização. Então, assim como ela fala que, às vezes, ela se sente um fantasma em relação às pessoas, eu também me sentia. Eu continuo me sentindo. É o fantasma da civilização. Você não… É como se você não fizesse parte do projeto geral, que é um projeto heterossexista, um projeto branco, e etc. Em alguns aspectos, eu me vejo incluído. Em outros aspectos, não. Talvez, etnicamente, sim. Mas para por aí, porque é como se eu não tivesse exercendo aquilo que as pessoas esperam de mim. E aí, eu percebi que esse silêncio faz parte de nós também. Nós como fantasmas, a gente não interage entre si, às vezes.

 

Sidney: E isso acaba repercutindo, ou acabou repercutindo, nos teus relacionamentos? Você mencionou que começou a se relacionar meio tardiamente. Como foi a tua primeira relação e como é que repercute esse desajuste? Essa sensação de desconserto e de desajuste no projeto social, e como é que isso repercute nos teus relacionamentos e no teu primeiro relacionamento, até hoje?

 

Thales: Poxa, no primeiro, na verdade, eu… O primeiro relacionamento foi de caráter extremamente experimental. Até, eu diria, muito ingênuo, porque eu realmente não… A gente via, eu e esse menino, Caio, a gente via as pessoas ao redor ficando e etc. Mas a gente nunca conseguiu chegar a comunicar, realmente, sentimentos.

 

Sidney: E qual era a idade?

 

Thales: É o primeiro ponto. É, eu tinha 14 anos.

 

Dann: Era mais sexo, né?

 

Thales: Na verdade, pra chegar a sexo, a gente ainda passou por vários estágios. O primeiro beijo durou, sei lá, meses. Aí, depois teve primeiros acercamentos aos mapas inexplorados do corpo (risos). E aí, até, enfim, você chegar na parte sistemática mesmo de transar e etc. Demorou muito tempo. E a gente também teve que ter… Era uma coisa tão misteriosa, tão… Imagina, a gente já tinha tido, em Ciências e depois em biologia, aula sobre educação sexual. Então, era uma coisa muito tácita entre os professores, entre os alunos, etc. Coordenação pedagógica organizava eventos. Levou, uma vez, uma enfermeira pra poder orientar a gente sobre DSTs, etc. só que a gente olhava aquele sexo, ele era baseado na penetração reprodutiva. Era pênis, vagina.

 

Dann: Sendo que existe tanta coisa pra fazer no meio disso…

 

Thales: É. Mas se limitava àquilo. E como a gente já tinha essa coisa de se silenciar, porque existe um silêncio em torno da gente, da existência daquilo que a gente queria, então a gente também não… A gente olhava aquilo de uma forma muito intransitiva. Sem… como se a gente não conseguisse obter nada a partir daquilo ali. Porque, por exemplo, muita gente acha que, “Ah, não, mas penetração a gente descobre, é do ser humano querer colocar em algum lugar” e etc. e tal. Então, de você aprender sobre vagina e depois ir, sei lá, pro sexo anal, é um pulo. Não, não foi um pulo.

 

Sidney: E é até uma visão falocêntrica, né.

 

Thales: É uma visão falocêntrica. Eu até acredito, por exemplo, que exista pulsão sexual e vontade de utilizar as possibilidades do corpo e etc. Só que, ao mesmo tempo, todas essas… Até as mecanicidades, como a gente pode chamar, essas coisas mais mecânicas, que o povo acha que é mecânico, elas também são coisas muito simbólicas. É muito da perspectiva… Que, por exemplo, tem formas de usar o corpo aí que a gente não tem em determinadas culturas, e não tinha antigamente. Eu não vou saber nem dizer quantas coisas, não. Mas a gente sabe que…

 

Sidney: bom, mas tem uma… você falando aí, eu lembrei daquela máxima, eu não sei se é em House of Cards que diz que tudo é sobre sexo, menos sexo, porque sexo é sobre poder.

 

Thales: É, faz muito sentido.

 

Sidney: E isso se manifesta lá nas relações, o modo como a gente lida com o próprio corpo e com o corpo do outro tem mais a ver com poder sobre o corpo do outro do que com o próprio sexo em si, por causa desses condicionamentos sociais.

 

Thales: O que foi, ao mesmo tempo, legal…  De não ter ainda… Porque como eu não me socializava ainda entre outros gays, lésbicas, pessoas trans, então… Acho que eu fui ter contato com a primeira pessoa trans na minha vida, no meu entorno social mesmo, quando eu tinha 18 anos. Pra vocês verem, eu tinha acabado de entrar na graduação. Eu tinha 17, na verdade. Eu conheci a Yulia, que é uma amiga minha lá do Rio de Janeiro. Ela era a melhor amiga do meu segundo namorado, Lélio. E o Lélio, posteriormente, muito tempo depois, quando a gente só tava mesmo amigo e etc. Ele foi um dos namorados que eu conservei mesmo como amigo, inclusive. Só que eu acho que essa… Existe não só uma cultura de competitividade entre homens gays, como também existe esse silenciamento e esse desgaste das relações. Então, as pessoas mantêm uma relação até certo ponto. E quando essa relação não faz mais sentido, por qualquer razão que seja, parece que é muito fácil caducar aquilo ali, entendeu. Então, se desgasta com extrema facilidade. Que é uma coisa que eu percebi, e ela se mantém muito fortemente porque, primeiro ponto, é uma socialização masculina, a gente não pode fugir disso. A manifestação dessa socialização é obvia pelo seguinte aspecto, você não desenvolve a sua maturidade emocional até certo ponto, como homem, como a mulher desenvolve, é uma questão cientifica já, já é comprovado. Isso não é pesquisa, não é só teoria, já é uma demonstração de laboratório, entendeu, de você desenvolver, tipo… Ah, eu me reconheço como sujeito. Eu nasço, eu vejo que eu existo como bebezinho. Aí, eu to formando meu ID, a existência. Depois, eu entendo que eu tenho o ego, porque eu mamo. E daí, eu choro e a pessoa me dá de mamar. Aí, depois é o superego, que é o momento que eu vejo, tipo assim, opa, pera aí, então as minhas vontades não dizem tudo. As pessoas também têm as delas, então tenho que me controlar um pouco pra não pagar mico. E aí, depois que desenvolve a empatia, que você para de olhar pro outro só de forma performática, e você vê que, porra, realmente, as pessoas também têm os lugares delas no mundo, eu tenho que tentar me colocar no lugar delas. Ao mesmo tempo, entendeu, que você tem isso nas meninas muito forte, você tem nos meninos muito fraco. São três anos de diferença nesse desenvolvimento. E eu acho que isso repercute muito. E aí, entra também o fato da gente ser invisibilizado. Então, as nossas relações não existem pra as pessoas, então pra gente, às vezes, a gente não vê sentido delas existirem também.

 

Dann: Oh, Thales, desculpa te interromper, você falando isso aí das meninas e dos meninos, eu achava que, em vez de ser um condicionamento mais biológico, isso tinha a ver também com a questão social dos papéis que são direcionados para as meninas desde novas, em relação aos homens.

 

Thales: Não, mas, na verdade, é só isso. Biologicamente falando, você não tem praticamente nada. É mais pelo direcionamento dos papéis mesmo. Porque, por exemplo… Claro que ego, superego, são coisas… Id, ego, são coisas inevitáveis, que você nasce e você começa a ver que você existe. Agora, quando você começa a desenvolver o superego e empatia, você já ta na fase da socialização secundária, onde você se expõe não só à família, à mãe, mas também aos membros dela, à escolinha, aos professores, pessoas da comunidade, do bairro onde você mora, etc. Então, tudo isso vai formando você. E eu percebi que… Muito mais pra frente, eu percebi que é uma falta de desenvolvimento emocional mesmo entre homens gays principalmente. Que bota a gente pra… A gente tem relacionamentos, mas eles acabam muito rápido, entendeu. A durabilidade deles não é impressionante como a gente vê, por exemplo, entre meninas lésbicas. Que também não tô idealizando o relacionamento lésbico pra dizer que, nossa, elas são tão evoluídas, tão melhores. Porque elas próprias dizem que têm problemas e que é muito difícil. E também é parte muito da mesma coisa, são coisas muito parecidas, por exemplo, a mulher é socializada pra ser objeto de desejo, não agente. Então, ela não comunica. E se ela comunica, é só sob a perspectiva masculina, sob o agenciamento masculino. Aí, no momento em que você se relaciona com outra mulher, pra muita gente, é um disparate, porque, imagina, nossa, dois objetos se desejando e se agenciando. Como que pode um negócio desses? Então, são outros fantasmas da nação.

 

Dann: Quando a gente grava o HQ da vida, a gente tenta não fazer com que isso seja sobre nós, e sim sobre o convidado. Mas é porque tive um insight, tem hora que a gente evita, mas tem hora que tem que ir. Quando era mais novo, eu não achava que seria permitido que eu tivesse relacionamentos duradouros, eu sempre achei que eles iriam acabar eventualmente. Que era como se fosse… Não existia como estruturar um relacionamento a longo prazo….

 

Thales: Pré datado…

 

Dann: Era. Já era… Tinha início, meio e fim, e bola pra frente que a vida vai ser assim eternamente. E cá tô eu, há oito anos…

 

Sidney: Até porque faz parte do projeto, como o Thales falou aí, já que a gente existe, e existir já é uma resistência, também vem uma narrativa contra isso no sentido de apagar e dizer, “Não, vocês existem, mas vocês tão fadados a essa coisa incompleta, porque o completo mesmo, o certo mesmo é desse outro jeitinho aqui”.

 

Thales: Exatamente. E por isso que eu acho que eu procurava muito mais a quantidade de parceiros, até certo ponto da vida, do que a qualidade dos relacionamentos. Porque eu realmente já encarava aquilo como fadado a terminar. Muito igual isso que vocês falaram, nossa… coisas que identifica numa conversa (risos).

 

Sidney: Thales, tu mencionou que tu morou em 11 cidades. Em 11 cidades, sei lá, é seguro afirmar que foram em todas as regiões do Brasil, as cinco?

 

Thales: Puts, eu nunca morei no Centro-Oeste. E o Norte, pra ser sincero, Vilhena, onde eu moro agora, é a primeira cidade do Norte onde eu já morei. Mas eu já morei no Nordeste, no Sul e no Sudeste, aqui no Brasil.

 

Dann: você morou no exterior também?

 

Thales: Também.

 

Sidney: Também no exterior. Percorreu várias cidades, e a gente, enfim… A gente entende, nessa pegada, sei lá, globalizante, cosmopolita que a gente tá hoje em dia, interconectado… A gente percebe que apesar de a gente estar muito conectado, as cidades são identidades também.

 

Thales: São.

 

Sidney: E você passou por várias. E aí, como é que é, sei lá, viver tantas cidades numa existência só e… Eu tô tentando direcionar pra um questionamento de, assim… como é que é a tua experiência enquanto sujeito gay a partir dessa tua história nômade? O que é que isso implica?

 

Thales: Oh, implicou não só no desgaste de muitas relações e… Porque, por exemplo, se você mora a vida inteira em determinada cidade, inevitavelmente você vai continuar vendo continuar vendo aquelas pessoas que você já viu, então você vai ter um contato, querendo ou não, que pode ser baseado em tudo, competição, ou simplesmente, tipo, “Ah, é um conhecido meu”, ou “A gente já teve uma coisa, mas a gente não tem mais, então desgastou, mas eu continuo vendo essa pessoa nos rolezinhos da galera gay, dos LGBTs, e tal, então eu vou continuar conversando com essa pessoa”.Aí, não. Por eu ter me mudado sempre, é como se eu descontinuasse essas presenças na minha rede. Então, na verdade, quando eu penso no meu passado, nas experiências que me constituíram e tudo, eu sempre penso muito em ausências. Entendeu? E não em presenças. É muito doido. Pelo lance das viagens. E também, ao mesmo tempo, eu não tenho identidade cultural, eu acho, assim. Se tenho, ela é muito mais de cidadão brasileiro, de cidadão do mundo, do que de, por exemplo, mineiro. Vocês tão vendo que, provavelmente, não tenho sotaque…

 

Dann: Eu sou de Minas, e eu não te acho mineiro, por exemplo. (risos)

 

Thales: É, e eu sou de Viçosa ainda.

 

Dann: Nossa, bem mineiro!

 

Sidney: E eu, fora de Minas, também não percebo, porque a gente percebe as marcas. Também não tem. Mas aí eu já puxo pra outra questão que você… Já que agora a gente entende que, enfim, você, geograficamente, é um cidadão do mundo, não só virtualmente. Porque hoje todo mundo é cidadão do mundo porque tem… A gente tá conectado, o mundo inteiro. A gente tá… O mundo inteiro é um grande cluster do Sense8… só que…

 

Thales: Exatamente…

 

Sidney: Só que não é via sensorial, é via tecnológica. Mas você, por causa disso, você tem uma presença muito forte, muito firme, pelo que a gente segue você nas redes sociais. E aí, eu queria saber da tua percepção, enquanto ativista. Se é que você se considera assim.

 

Dann: É, no início ele falou, “Ativista, eu acho”…

 

Sidney: Ah, sim. Se é que dá pra chamar assim, porque a gente, pelas suas postagens, vê um teor bem posicionado e politizado, no sentido de questionar essas dinâmicas entre as relações das pessoas e as suas distâncias.

 

Thales: Sim.

 

Sidney: Como é que você se coloca, e por que você se coloca assim, contundentemente, diante desse contexto de você ser um cidadão do mundo, não só virtualmente, mas também geograficamente, no mundo físico?

 

Thales: Cara, porque… bom, uma das coisas que me motiva, e que me faz ainda tá presente na internet o tempo inteiro e… Enfim, postando e indicando problemáticas pra as pessoas observarem, perceberam essas coisas ao redor delas… Porque tudo é… tem muita coisa que é dada como natural, por exemplo. A minha própria trajetória de vida, com todas as experiências que eu tive dentro do movimento LGBT, de silenciamento, de preconceito, apagamento e identidades fabricadas. Por exemplo, historicamente falando, “travesti” não é uma palavra que foi inventada pelo grupo. É uma palavra que foi inventada pela sociedade civil pra essas pessoas. Então, essas pessoas, historicamente, se identificam com a… Elas precisaram fazer um esforço de naturalização e de afetivização do termo “travesti”, pra poder se id…

 

Sidney: De ressignificação…

 

Thales: É de ressignificar mesmo, e se entenderem como tal, como sujeitos políticos e tal. Mas o q… E hoje em dia, não. As pessoas têm outras palavras e outros termos, transexual, transgênero, e etc. Enfim, mulher trans, homem trans, parará-parará… Que vão dando conta de, tipo assim, realmente tornar esse patamar identitário algo que você pode ocupar com conforto, entendeu, com segurança de você mesmo. É como se você tivesse desenvolvendo a sua redoma, entendeu, pra você ter uma experiência que é inatingível. Tudo bem, podem te maltratar, podem te tratar de tal forma, mas a certeza sobre você próprio, você sempre terá. Que é uma coisa que roubaram da gente durante muitos séculos, na cultura ocidental moderna. Então, esse momento é um momento de muito privilégio, da gente ter acesso a tanta informação e conseguir formar o caráter e essa redoma em volta. E é claro, é um processo doloroso…

 

Dann: Sim.

 

Thales: Ser ativista, acho que não é… Pra mim, hoje em dia, é um pouco mais fácil porque eu ainda consigo falar de coisas mais gerais. Por exemplo, no século 21, agora, a gente tem uma multiplicação de performances, que a gente fala que é pós-verdade, ou pós-discurso. Que o discurso em si não é mais tão importante quanto a performatização. Então, as pessoas performatizam os gostos delas por música na internet. Não basta só você falar que você gosta de tal coisa, você tem que performatizar esse gosto, criar página pra poder dizer, por exemplo, “Unidos contra o Indie”… Não é uma página de pessoas que odeiam o Indie, é uma página de pessoas que gostam de Indie, fingindo que não gostam, estereotipando o perfil de quem não gosta.

 

Sidney: (ar de riso) Ah, um movimento hipster, né…

 

Thales: É. É um negócio, tipo… E aí, eu vejo que isso se reproduz em tudo. Por exemplo, na militância, as pessoas não se focam tanto no discurso mais, elas se focam na etiqueta. Ou seja, qual é o jeito certo e o jeito errado de falar sobre tal coisa, ou quais palavras você tem que usar e quais você não pode, e etc. e tal. Ou seja, as pessoas tão muito além do conteúdo em si. Às vezes, a pessoa tem uma coisa brilhante, mas pela forma como ela falou, ela é identificada como “Ai, mas isso é meio homofóbico”, ou então, “Ai, mas isso é meio não sei quê”… Então, assim, a gente tá vivendo essas coisas que são do patamar da performance. E é muito, na verdade, a nossa política. Acho que desde, por exemplo, a década de 80, quando a Colômbia e os países, tipo Brasil, começaram a substituir as ruas e os comícios feitos nas ruas pela televisão, entram os meios de comunicação. E aí, a gente veio com a internet, e etc. Hoje, as pessoas… A gente não consegue mais, por exemplo, fazer grandes compêndios como Lincoln VS fulano de tal, fazendo debate de ideias através de literatura. Hoje, a gente vê, tipo, “Oh, presta atenção na cor da gravata”. A gente presta atenção na forma como a pessoa tá se expressando. A Dilma é chamada de burra porque tem uma dicção complexa, entendeu, porque ela sofreu tortura, etc. Então, as pessoas não prestam atenção no nível discursivo, apenas, nas verdades que são oferecidas. Elas também prestam atenção na performance.

 

Sidney: É porque, assim, o meu questionamento, diante desse teu ponto, é, você acha que… Porque você falou de redoma, outras pessoas, em outros campos da comunicação chamam de bolha.

 

Dann: Uhum.

 

Sidney: A tua fala evoca um pouco isso, ao mesmo tempo, que a gente se cerca das nossas bolhas, das nossas redomas, a gente tá cada vez mais vulnerável a ponto de ter que se preocupar com o X no final da palavra, e não no que a gente vai dizer. A ponto da gente ter que se preocupar com o termo e não com o conteúdo. Mesmo a gente estando dentro de uma bolha. É meio… Sei lá qual é a palavra… dicotômico, contraditório… Não sei se é contraditório. Mas é peculiar de perceber que a gente tá vivendo esse momento em que a gente tá cercado de pessoas que estão a nosso favor, na mesma medida em que a gente está vulnerável às pessoas que podem nos atacar, porque a gente tá cada vez mais exposto, apesar das bolhas. E a gente tem que se preocupar cada vez mais com detalhes que, noutros tempos e noutras condições, seriam insignificantes.

 

Thales: É um movimento isso aí. São dois movimentos. O primeiro porque a gente passa muito tempo dentro da própria redoma, tentando fortalecer o caráter e se aceitar e se entender, e se configurar como sujeito daquela forma, entendendo que, não, “eu tenho valor dessa forma, e eu gosto disso e pronto, independente do que a galera de fora ache”. Muita gente não conseguiu fazer isso, muita gente conseguiu. Só que esses dois perfis de gente, que conseguiu viver bem com a sua própria redoma e gente que continua tendo conflito com isso, essas vivências se deslocam pro campo do social. Por quê? Porque a gente começa a encontrar outras pessoas na internet que vivem em suas redomas. A gente tenta sair delas, assim. É como se fosse uma epistemologia do armário. Quando eu digo isso é, tipo, você abrir e fechar de acordo com as necessidades… tipo, você não vai abrir o armário pra todo mundo. Eu, por exemplo, por mais abertamente gay que eu seja, essa abertura sempre tem que acontecer de novo em vários lugares. Então, por exemplo, eu tô andando num bairro novo que eu nunca fui, eu vou numa loja que eu nunca pisei. Então, assim, as pessoas ali, naquele momento, elas não me conhecem. Então, é como se a minha presença, eu entrando no lugar, ou eu conhecendo novas pessoas, já fosse uma nova abertura de armário com algumas coisas que incomodam,  entendeu.

 

Sidney: Nossa, entendo demais.

 

Thales: Então, é sempre você reviver a sua abertura de armário. Então, isso nunca tem fim. Entendeu. E em muitos lugares você tenta passar da forma mais neutra possível, porque você sabe que é um lugar ameaçador, ou que… Por exemplo, eu tenho muito isso de estar num lugar fechado… Eu não tenho agorafobia, eu não tenho claustrofobia, eu não tenho porra nenhuma assim. Só que, ao mesmo tempo, eu já fico imaginando quais rotas de fuga são possíveis naquele espaço, porque eu nunca sei que tipo de pessoa vai ficar animadinha depois de beber umas e vai querer implicar comigo, vai querer dar um murro na minha cara. Eu fiz judô por causa disso, entendeu. Eu nem gostava de luta. Eu não gostava do ethos masculinista desses esportes. Todo mundo fala que tem uma filosofia por trás, mas no final das contas, você vê que são perfis muito contíguos, muito similares que entram com objetivo de, tipo… Porque são fãs de luta, de artes marciais e etc. Então, tem um masculinismo por trás, mesmo com mulheres inclusas. E até as expectativas que as pessoas criam em relação a elas são diferentes, porque é a mulher ocupando um espaço que, a priori, é masculino. Então, eu procurei a luta não por causa da cultura física ou do cultivo das artes marciais, como o próprio nome diz. Mas porque eu queria me defender. Eu sabia que eu ia achar isso necessário. Então, assim, eu já imobilizei muita gente na rua, já tive que quebrar a cara de um monte de gente, entendeu. E também apanhei muito, de desmaiar, entendeu. Fez parte da minha trajetória. Então, voltando ao ponto, no momento em que você, com todas essas experiências que você mantém dentro da sua redoma quando você não consegue expor pra todo mundo. Você tem essa redoma, você vê  pessoas com outras redomas na internet, no seu entorno, a gente começa a socializar essas experiências. Aí, é a primeira crise. Por quê? Porque a sua vivência sempre esteve associada a o quê, à esfera privada. Então, você nunca soube sistematizar sua vida e suas experiências de forma coletiva. Então, é um choque muito grande. Porque, de repente, você se vê abrindo a sua redoma pra outras pessoas, midiatizando essa redoma, colocando ela em perspectiva, narrando ela através de Snapchat, de Instagram… Se bem que, antigamente, era Orkut. Era Orkut, Facebook, e Fotolog, Flog…

 

Sidney: Tu tá falando isso de forma geral. Mas se a gente estreitar para o mundo LGBT, como é… Será que…Enfim, essas dinâmicas são as mesmas, porque a gente tá sempre se apresentando. Porque, por exemplo, eu tenho uma abertura muito mais confortável na minha bolha da internet do que na minha bolha do trabalho, por exemplo. Apesar de, na internet eu sou aberto…

 

Dann: Ou até a bolha da casa, né, Sid?

 

Sidney: Da casa… São… Vamos construir assim, tem a minha redoma… Vamos usar o termo do Thales, no caso. Tem a minha redoma da internet, tem a minha redoma do trabalho, e tem a minha redoma da casa.  A minha redoma da casa é totalmente opaca, no sentido da minha vivência LGBT. Aí, tem a minha redoma do trabalho, que ela é mais translúcida, porque eu sou declarado, mas eu não me manifesto declaradamente porque eu sinto que eu preciso me preservar de alguma forma, porque eu estou em um ambiente, entre aspas, hostil.

 

Thales: Exatamente.

 

Sidney: Já na internet, a minha bolha é totalmente transparente, porque eu me sinto totalmente confortável.

 

Thales: Exatamente, exatamente!

 

Sidney: Quando a gente vê, quando a gente aplica isso… Por exemplo, a gente tá falando aqui, somos três homens cis gays, e cada um com a sua interseccionalidade. O Danilo é negro, eu sou cego, sou uma pessoa com deficiência, e tal. E o Thales deve ter a tua interseccionalidade aí. Enfim, tem a sua aparência, também, que você… A gente já… Inclusive foi tema de posts seus também, que você não cultiva uma, ou até então não cultivava uma aparência que fosse muito… Agradável…

 

Dann: Padrão heteronormativo.

 

Sidney: Padrão. Isso. E aí, cada um tem a sua zona de opacidade dessas redomas. Só que é muito mais difícil… Eu não sei… Eu tô dizendo assim pra te perguntar das tuas redomas, quais são os graus de opacidade delas? Porque você tá falando aí, na internet, você é muito… A gente Lê as suas postagens, você é muito desenvolto. Porque a gente sempre é, né. A gente se cerca. E se a gente encontrar qualquer pessoa que nos ameaça, a gente simplesmente bloqueia. Mas em casa ou no trabalho, como são as suas redomas?

 

Thales: Eu começo pela internet. Porque na internet com as pessoas que socializam essas experiências da população LGBT, experiências de homens gays, experiências afetivas, de mulheres, etc. Basicamente, o que a gente  tenta fazer é sair das redomas individuais e tentar criar uma que seja coletiva, onde isso tudo seja, de alguma forma, abarcado, abraçado, colocado em cena, convivendo uma experiência com a outra. Só que, quando a gente faz isso, a gente coletiviza, a gente torna transparente, a gente vê que essas redomas individuais entram em choque dentro da coletiva. Primeiro, porque a gente não consegue sair da nossa redoma… Porque na redoma individual, que é opaca, ela é opaca justamente porque tem muita coisa da vida individual que a gente não consegue abrir pro coletivo, mesmo entre pares, entre pessoas semelhantes, entre colegas ou amigos do movimento LGBT, etc. A gente não consegue porque, de repente, a apresentação pode ser confundida com alguma problemática, com alguma coisa. Então, é muito difícil você conseguir expor. Por exemplo, é… Não, não vou dar exemplo nenhum, não precisa (risos). Aí, o que acontece, então? Por exemplo, o meu… Eu vejo as pessoas, por exemplo, falando sobre as suas experiências de vida como gays, como lésbicas, como trans e etc. Aí, essas coisas acabam descambando pra discussões de problemáticas que estão por trás. “Ah, sua fala foi muito isso. Sua fala foi muito aquilo. Você tem que rever isso porque você, como gay, tem que fazer tal coisa” e não sei quê. Ou então, “Ah, você, como trans, não pode falar uma coisa dessas. Isso é uma barbaridade” e parará-parará. Então, assim, eu vejo que não são só choques de caráter político, não são só processos sociais convivendo. São também vidas privadas entrando em choque na internet. Então, a minha militância, hoje, se eu tivesse como… Dentro desse assunto que a gente colocou, da forma como a gente colocou, usando os termos que a gente colocou, eu diria que a minha militância é baseada em tentar superar os choques entre as redomas das pessoas, entendeu. E tentar não pacificar, mas, tipo assim, esclarecer determinadas coisas e dizer, “Cara, vamos superar isso. Isso é muito performático, a gente tá muito na… Vamo tentar atingir um grau de lucidez a respeito de tais coisas”, assim. Porque eu vejo certas discussões na internet acontecendo e eu falo, “Velho, pelo amor de deus. Eu vou tá sempre nisso?” A gente vai tá sempre nisso? Entendeu.

 

Sidney: Parece que não (incompreensível)…

 

Thales: O maior exemplo, assim, de redomas que não se resolveram nessa convivência da internet, nessa transparência que a gente acha que a gente tem… Que assim, pressupõe-se que seja. A gente tenta agir na internet como se fosse transparente, mas a gente vê muitos bloqueios o tempo inteiro. E esses bloqueios viram conflitos, entendeu. Então, são as opacidades tentando se manter, ou tentando quebrar uma a outra, e vice-versa. É muito louco. Então você vê que realmente as redomas se chocam. E aí, por exemplo, uma coisa que eu vejo muito acontecendo hoje é gays… Acontece muito entre gays, gays brancos. Por exemplo, fala assim, “Ai, eu não tenho… Meu lugar de fala, como homem branco, etc. Portanto, eu não entendo tudo sobre tal coisa. Não sei… Não entendi o que foi apontado por você, fulano, mas eu respeito o seu lugar de fala”. Aí, eu fico pensando, quer dizer, beleza, você tá dizendo que você respeita o lugar de fala da pessoa, mas ela tá te apontando mecanismos, fenômenos que existem, que são gritantes pra alguém que treina a sua percepção. Entendeu? Então, como que você é capaz de falar que respeita o lugar de fala do outro, sem antes ter entendido o que ela falou? É muito doido. Tem gente que é assim…

 

Sidney: E parece que, dizendo isso, é como se tivesse se isentando de… “Não, eu não preciso de ter um posicionamento sobre isso, já que o meu lugar não é esse”.

 

Thales: É. Tipo aquele clipe da Malu Magalhães. Eu tava discutindo isso com a Sueli, uma amiga minha, militante. Ela fala, “Velho, a estética dancing hall, com laje, corpo besuntado de óleo e etc. É tudo muito fetichezado”.

 

Dann: É Sueli Feliziani?

 

Thales: É, uhum.

 

Dann: Ai, eu amo ela! (ele ri)

 

Thales: Eu também amo ela. Beijo, Sueli! (ele ri)

 

Dann: Ela é super amorzinho…

 

Thales: Ela nem vai ouvir. Mas vamos chamar ela pra ouvir.

 

Dann: Sim, meu sonho era ela, um dia, falar sobre bissexualidade, maternidade… Enfim, ela…

 

Thales: Ai, vai ser maravilhoso.

 

Dann: Mas, enfim, desculpa te interromper. Mas é porque o amor por Sueli é grande. (ele ri)

 

Thales: Não, eu sou praticamente evangélico da igreja Feliziânica, pelo amor de deus. (risos)

 

Dann: Somos duas! Pode falar…

 

Thales: E aí, tipo, Ela tava me falando isso, essa estética dancing hall, breaking dance na laje, com corpos besuntados de óleo, e a menina se apropriando da dança. Só que ela, tipo, os dançarinos existem num plano e ela existe em outro. Vocês já repararam isso no videoclipe do “Você não presta”? Que parece que, realmente, tipo, tecnicamente falando, ela finge que não tá nem aí pra as câmeras. Mas, na verdade, ela tá super consciente do que tá acontecendo. E aí, quer dizer, ela é uma coisa meio blasé, meio natural que você vê que não é. Não é espontâneo. E aí, isso se junta com o fato de ela pegar umas danças que ela não conhece, e ela dança extremamente mal. Fica parecendo que é grosseiramente relapso aquilo ali. E parece que ela tá dissociada dos corpos negros dentro do vídeo. Aí, quando você fala que isso é um pouco de racismo, você ta dizendo que ela é capaz de chamar alguém de… Ai, ela é capaz de fazer o que fizeram com aquele jogador de futebol, La no estádio? Não. A gente tá dizendo que ela é uma pessoa boçal que seria capaz de empurrar alguém da escada por ser latino? Ela tem cinco empregadas filipinas em casa? Também não. Mas, quando a gente fala “racismo”, a gente não tá falando da pessoa ser malvadona, ou boazinha. Que é um maniqueísmo, entendeu, que a própria branquitude coloca. Eu fiz essa reflexão um dia, eu falei, “Cara, é muito doido”.como que você lê, você leva um tapa na cara. É um xablau atrás do outro. E realmente as pessoas levam pra isso. Ai, se bota racismo no meio, é mau ou é bom. Entendeu. Então, ou você é ou você não é. Sendo que, na verdade, racismo também é um sistema de conhecimento. O fato de você achar que, no seu videoclipe, a única forma de você apresentar corpos negros é essa, entendeu, de certa forma, parte de um direcionamento estético. E esse direcionamento estético é muito comum… Ele não é nada novo no que você vê em filmes, entendeu, com elenco inter-racial. Em videoclipes. O próprio cinema norte-americano tem esses padrões. Então, o videoclipe dela reproduz uma… Só esses caminhos comuns, assim. Então, não é novidade, entendeu. Então, é, de certa forma, racismo.

 

Sidney: É só a reprodução de um racismo já institucionalizado.

 

Thales: é. O que não quer dizer que ela não seja uma aliada útil e etc. e tal entendeu. Mas ficou muito nisso do mau ou bonzinho, e tudo. E a gente não consegue superar. Mano, a gente tem séculos de discussão no Brasil sobre racismo. A gente já discute o papel social, o lugar social, função, todas essas noções dentro do conceito de racismo, a gente já discute há muitos anos. Mas eu acho que o Brasil tá falhando. O tempo inteiro, século 21, a gente ainda tá discutindo isso e vendo as mesmas reações. Parece que é uma fita tape… É uma VHS repetindo o tempo inteiro. Parece que volta e reproduz tudo de novo. E eu fico incomodado. Então, o que eu faço quando eu to militando? Eu tento resolver, entendeu, essas opacidades que já não precisavam mais ser opacas. A gente já podia trazer certos fenômenos pra a zona de transparência. Entendeu. É isso que eu tento fazer o tempo inteiro. Então, eu já to meio que no nível, eu acho, que do ideológico mesmo. De tentar organizar as ideias sobre determinadas coisas, pra as pessoas enxergarem como eu to vendo. Não porque eu ache que meu ponto de vista é certo, mas porque eu acho que tem coisa que é como é. E não devia ser opaca. Por exemplo, quando você vê o clipe dela, é inegável que, se você treina o seu olhar um pouquinho, você já consegue perceber o que o pessoal do movimento negro tá falando. Então, você não tá sendo tiranizado pelo movimento negro. Ai, os malvadoes da justiça social. Não, gente! Ele simplesmente tá apontando uma coisa que existe. Entendeu. Que é realmente concreta, só que a gente não vê, por quê? Porque, na cultura ocidental moderna, nem tudo tá exposto, nem tudo tá compreensivo. Aliás, compreensível. Você não consegue entender tudo de uma vez. Então, eu acho que você exercitar o lugar de fala não é só você falar que você respeita o lugar de fala do outro. É você também ouvir, entendeu, e tentar perceber aquilo ali.

 

Sidney: Ouvir o outro falando do seu lugar, ouvir mesmo, abrir os ouvidos.

 

Thales: É, porque, se não, fica parecendo… E aí, o que acontece? Se não, fica parecendo que é uma coisa meio Shakespeareana, “ai, ter ou não ter vivência, eis a questão”. (risos)

 

Sidney: Ai, é sempre isso mesmo.

 

Thales: Entendeu…

 

Sidney: Mas vamo passar pra esfera do trabalho agora, Thales.

 

Dann: é.

 

Sidney: No seu ambiente acadêmico…

 

Dann: Antes do Thales falar do trabalho, eu queria até ver como ele se percebe. Por quê… Estamos aqui… Tem o Sidney, que tá no Instituto Federal de Pernambuco…Tem eu que tô no Instituto Federal do Norte de Minas…

 

Sidney: Paraíba, viado! Não erra meu Estado!

 

Dann: Uh, meu deus! Por quê…? (risos) Ah, eu sei por que eu falei Pernambuco, é porque eu tava falando com o povo de Pernambuco mais cedo, antes de gravar o… Outro podcast… (Thales ri) Então, eu vou editar… Ah, eu que edito, então vou…

 

Sidney: Agora você pode editar à vontade, né, bicha?

 

Thales: Então, deixa passar! Ficou engraçado vocês pedindo edição. Deixa passar! Deixa passar! (risos)A galera precisa ouvir esse bastidor aí (risos).

 

Dann: A gente corta tudo.Mas eu vou deixar agora, só porque você pediu. Mas então… Temos três pessoas que tão em Institutos Federais e Universidades Federais, que é um ambiente acadêmico. E eu, por exemplo, tenho uma dificuldade enorme com ambiente acadêmico de tratar essas questões sobre LGBT, tudo mais. Não no sentido de ser agressivo, mas de, de fato, me sentir deslocado. É tão hétero aquele ambiente, é tão padrão… Que eu não me sinto pertencente àquele lugar. Eu me sinto uma pessoa que, a todo momento, tem que colocar pra eles, “Você está sendo homofóbico”. Mas, assim, eu tenho que gastar toda minha didática, porque eu tenho que ser educado, eu tenho que sentar e explicar, “Você está sendo homofóbico, querido, por causa disso, disso e disso”…

 

Sidney: Que, além de tudo, vai ser taxado de histérico, de escandaloso…

 

Dann: Isso. Eu não posso me exaltar, eu não posso me emocionar… Por exemplo, se alguém fizer uma fala no grupo do Whats App dos professores, que é muito… Evoca memórias de sofrimento minha, e que são homofóbicas, eu tenho que ser o mais didático possível, porque, se não , eu ganho o estereótipo da bicha histérica, louca do campus. Entendeu?

 

Thales: é. Exatamente.

 

Dann: Então, eu sempre tenho que exercer a minha diplomacia, ser didático, não importa quantas pauladas eu já recebi na vida, eu tenho que…

 

Sidney: É muito exaustivo.

 

Thales: Exaustivo.

 

Dann: voltar pra eles, sorrir , e entrar no jogo. Você sente…

 

Sidney: Que tem isso também?

 

Dann: Que tem essa performance pra poder executar diariamente no ambiente de trabalho?

 

Thales: Então, comigo acontece da seguinte forma. Quando eu entro em sala de aula pela primeira vez, por exemplo, com uma turma de calouros, eu já tento ser, na primeira aula… Eu tento expor toda a minha metodologia de ensino, todas as formas de avaliação, como que a gente vai conduzir as discussões, e etc. E tentar realmente não pessoalizar e não fulanizar os assuntos. Então, a gente trabalha sempre no nível ou conceitual, ou então técnico, ou até metodológico. Mas a gente nunca trabalha no nível do pessoal, a não ser falar de experiências de trabalho, jornalísticas, etc. Até porque minhas disciplinas todas aqui são assim, teorias do jornalismo, técnicas e gêneros jornalísticos. Então, eu trabalho realmente mobilizando algumas competências dos alunos que eles já têm, por sempre terem assistido televisão, lido jornais e acessado a internet, etc. Eu já tento mobilizar essas competências e botar a galera pra escrever notícia, matéria, nota, reportagem, crônica, parará-parará. Então, assim, as pessoas, na sala de aula, trabalham. Agora, eu peguei turmas, entendeu, com as quais eu nunca tinha tido contato, mas ao mesmo tempo, elas já estavam na universidade há um tempão. Foram duas. Uma foi uma turma de uma orientanda minha, Jéssica. Inclusive, ela é a melhor pessoa. Foi uma turma… Uma gracinha. Eles fizeram uma puta de uma revista de 82 páginas, entendeu. A gente não teve nenhum tipo de conflito, porque eles já vinham de uma ética de trabalho muito boa. Só que eu tive uma outra turma com a qual foi muito difícil de trabalhar, por conta da homofobia. Eu tenho total certeza disso. Porque eles não vinham de um padrão de… De um processo de escolarização aonde a experiência pedagógica tinha centralidade, entendeu. Pelo contrário, a experiência pedagógica, pra eles, era condicionada a como o professor se apresentava em sala de aula, se ele era assim, se ele era assado, e etc. Então, eu percebia que as pessoas me escutavam, elas viam que elas não tinham como… Por exemplo, elas sabiam que se elas tivessem que debater comigo, elas teriam que ler o texto, entendeu. Debater comigo no nível da parte do qual eu tava trabalhando. Então, a gente teve alguns debates, eles não foram tão bons quanto nas outras turmas. Eu diria, assim, que foi a única turma com a qual eu tive problema mesmo, por causa desse padrão mesmo de fulanização. Então, eu tento desfulanizar. A partir do momento em que eu piso em sala de aula, eu já coloco, eu já faço essa estratégia, eu já tento trabalhar sempre no nível do profissional mesmo, e me restrinjo a isso. E o que surge de experiência pessoal discutida é sempre relacionado a trabalho, é sempre relacionado a impressões da pessoa sobre o campo da comunicação, sobre jornalismo e etc. Ou então, sobre internet, sobre os assuntos que tão sendo discutidos, que estão mais em voga. Aí, às vezes, eu até boto uma militância no meio. Só que é sempre assim, no nível do informacional, entendeu. Do comunicativo. Porque eu realmente não foco no emocional, no pessoal, e etc. Agora, no trabalho, eu tento ter essa mesma postura, precisão de linguagem, eu tento ter… Eu tento estar disponível pra as pessoas, eu tento me colocar dentro dos projetos delas, assim como eu tento colocar elas nos meus. Hoje, por exemplo, eu tenho um projeto de pesquisa que tá indo pro segundo ano de realização. Eu tenho orientandos. Uma orientanda e um orientando, o Diógenes. E, tipo assim, é muito tranquilo com eles. Só que quando eu vou pro âmbito do trabalho mesmo, dos meus colegas, dos meus co-workers, dos meus colegas de trabalho, é complicado. Porque, por exemplo,…

 

Dann: Hum…

 

Thales: Eu tive uma chefia… Assim, processo na universidade, por exemplo, sabem que no serviço publico, sempre que existe um conflito, esse conflito é narrado exaustivamente pelas pessoas do ambiente, até você ter memórias e disputas de memórias sobre aquele conflito. Então, fulano não gosta de fulana, ele vai te contar tudo. Aí, fulana conta tudo também. Então, você…

 

Dann: É, você tá descrevendo a minha realidade também.

 

Thales: É a realidade, eu acho, que do serviço público federal muito assim, infelizmente, é desse jeito. Porque a gente tem um pagamento muito bom pra exercer as funções que a gente exerce, então a gente tá lá pra oferecer produções de elite. Mas, ao mesmo tempo, a nossa cultura profissional não chegou ainda no nível do cultivo das boas relações, que seria, assim, a premissa básica pra você chegar…

 

Sidney: Até porque essa aura de elite acaba afetando os egos, né…

 

Thales: Afeta, afeta. Então, todo mundo fica muito encastelado. Encasteladinho, assim, nas suas redomas…

 

Sidney: Nossa, você não tem noção, a dificuldade que eu tenho de falar… Porque eu não sou professor, eu sou técnico no núcleo de acessibilidade do meu instituto. Você não tem noção da dificuldade que é pra eu dialogar com os professores.

 

Thales: Ah, eu imagino.

 

Dann: É complicado…

 

Thales: Até porque a gente tem… Por exemplo, a Josi, ela é técnica em… Ela é intérprete e tradutora de sinais aqui na universidade.

 

Sidney: De Libras.

 

Thales: Isso, de Libras. Ela é a única técnica que a gente tem, num contingente de alunos surdos que já tá crescendo bastante. Então, você tem aluno surdo num curso, aluno surdo no outro, etc. e etc. E ela faz a tradução e a interpretação sozinha, entendeu. Por exemplo, a gente tava até fazendo um revezamento, ela e a professora Fernanda. Professora Fernanda é do departamento de Ciências da Educação, e ela também é fluentíssima… ela é dona da Libras, praticamente, de tão boa que ela é. Só que, ao mesmo tempo, ela é professora, ela não é técnica. É um duplo problema. Primeiro, ela vai acumular função, ou ser desviada da função dela, aqui é um problema. E segundo, quando ela começa a exercer atividade de caráter técnico especializado, ou técnico administrativo, ela basicamente ta roubando o protagonismo de uma pessoa que podia ser contatada com seu próprio código de vaga, pra poder fazer isso. Então, tipo, não tem sentido. E fora que, tipo, acho que a classificação brasileira de ocupações aqui, ela tem aí… Você tem muitas funções, entendeu, que você pode exercer como técnico nessas áreas. Então, não vejo motivo. Sinceramente, não vejo. E aí, a gente tem isso…

 

Sidney: É falta de informação sobre o tema. Tu ta falando da professora de Libras e da técnica, da intérprete… O que eu percebo, é falta de conhecimento sobre o tema acessibilidade. Mas eu acho que a gente já tá digredindo um pouco…volta lá pra tua narrativa lá…

 

Thales: Ah, pra mim. Mas aí, assim como elas sofrem com esses problemas de caráter funcional, pelo lugar que elas ocupam. Uma lida com surdos há muito tempo. E elas têm alunas surdas. Então, a gente tem, por exemplo, técnicos… Aliás, não. A gente tem terceirizados na universidade, se não me engano, três terceirizadas mulheres que são surdas também. Então, assim, a gente tem uma comunicação muito boa. Eu falo… Eu não me comunico muito bem em Libras, ao… Mas eu tento arranhar. E aí, eu consigo, assim. Porque eu acho que a segunda língua oficial, a gente tem que saber um pouco, né. No país…

 

Sidney: Devia. Devia aprender na escola. Isso é uma vergonha. Isso é uma vergonha.

 

Thales: Mas elas enfrentam problemas de caráter funcional. Assim, eu vejo que, no nível antropológico mesmo, não tem tanto, a não ser esse que é um dos grandes bloqueios na vida delas. Agora, os meus bloqueios, eles são relacionados a mim mesmo, como gay, pelo seguinte. As pessoas te passam instruções de como fazer determinada coisa, e se não for passada por email, entendeu, pode ser que aquilo ali esteja errado. Se tiver errado e você tiver feito, seguido as instruções de forma errada porque elas já estão erradas, aí o que acontece? Você vai devolver o trabalho, vai entregar alguma ordem de serviço, alguma coisa, a pessoa vai olhar pra você e vai dizer o seguinte, “Ah, isso aqui tá errado. Você não fez do jeito que era pra fazer”. Aí, você vai dizer pra pessoa, “Não, você me falou que era pra fazer assim”. E ela vai olhar na sua cara e vai dizer que não, que não foi ela, que o problema é seu. Entendeu. Acontece muito isso. Acontece também, por exemplo, de você falar determinadas coisas por email… Por exemplo, todo mundo discute, todo mundo briga, todo mundo fica disputando memórias sobre coisas que aconteceram. Só que quando você vai fazer isso,  você não é o sujeito da razão, você é o sujeito das emoções. Entendeu. Então, eu, quando mando um email, as pessoas nem respondem. Ou então, respondem achando assim… Fulanizando o debate, como se fosse o nível do emocional. E eu, não. Eu tô fazendo uma análise bem séria da situação, às vezes. Ou então, eu to simplesmente descrevendo empiricamente o que rolou, mas as pessoas tratam aquilo ali num nível que não condiz com aquele contato que eu quero estabelecer com elas. Justamente porque eu sou gay. E também, agora a gente mudou de chefia, por exemplo, e eu to conseguindo, pela primeira vez, ver uma cultura profissional brotando muito sadia. A gente tem um ou dois servidores vinculados ao departamento que, infelizmente, ou se engajam muito pouco ou não ajudam em nada, ou então só tentam criar empecilhos, obstáculos e etc. Mas, no geral, a gente tem uma relação muito boa. Agora, se eu saio do meu departamento aonde as pessoas já têm uma mentalidade diferente, e vou pra departamentos mais tiranossáuricos, eu vejo muito isso. As pessoas me chama de professorzinho, de garotinho. “Ah, o garoto lá da comunicação. O garoto lá do num sei aonde”. E assim, eu não sou garoto.

 

Dann: Uhum.

 

Thales: Eu fiz o mesmo  que eles fizeram, eu já vim com um mestrado muito diferente de gente que veio com graduação pra cá, porque a época era outra. A gente saiu do status de território em Rondônia pra status de unidade federativa, de Estado. Então, as pessoas, muita gente de lá conserva esse status antigo. Inclusive, ganha um pouco mais por causa disso, porque é ex território. E aí, tipo assim, a galera me olha como se eu realmente fosse uma pessoa que não tivesse algo a acrescentar e etc. Eu vejo, por exemplo, às vezes, eu me ofereci agora pra fazer a identidade visual dos departamentos. Porque a gente tem pouquíssimos cursos dentro da universidade, são só cinco. E eu me ofereci pra fazer cinco logotipos com manual de identidade, porque eu sou da área de programação visual também, alem de teorias do estudo do jornalismo e etc. Então, eu me ofereci pra fazer. E as pessoas me tratam com extremo corpo mole. Quer dizer, eu to me oferecendo pra fazer um serviço técnico especializado pelo qual eu não vou cobrar, porque eu vou fazer pelo boletim de serviço da universidade. Vai ficar registrado no meu currículo? Vai. Mas, assim, eu to fazendo porque eu acho que é importante a gente ter uma identidade visual nos cursos, pra a gente ter uns bons ofícios, uma boa comunicação externa, uma boa comunicação externa padrão e etc. Eu acho isso essencial. Quer dizer, eu to prestando um serviço que é de utilidade pública. E as pessoas recebem o email, demoram duas semanas pra responder, demoram três. Entendeu. Porque sou eu que to me oferecendo pra fazer. Então, eu vejo que várias coisas acontecem na universidade. Desde esses alunos que me encaram, assim, de uma maneira desdenhosa, ou então subjuntiva, encarando como se eu fosse uma pessoa falando, entendeu, como se eu não tivesse nada a acrescentar. Eu vejo isso acontecer muito, assim. E não é pela minha idade, não. Porque eu já to chegando aos 30. Só que eu vejo que é pela minha condição mesmo de pessoa da população LGBT. E eu tento, então, ser o mais cordato possível. Eu tento ser simpático, eu tento tratar tudo por email, entendeu. E falar, “Fulano, eu mandei o email pra você. Responda”. OU então eu levo um ofício, peço pra a pessoa dar o recebido, ela vai ser obrigada a responder. Então, assim, eu tento usar o serviço público a meu favor, gerar provas a meu favor, entendeu. Pra não ser incomodado . Porque eu faço o meu trabalho e eu quero que as pessoas estejam cientes que tá acontecendo, tá deus no comando, e é isso aí (risos) Mas…

 

Sidney: (entre risos) Foco, força, fé, né.

 

Thales: Só que, tipo assim, até eu trabalhando eu sou incomodado. E tem gente que não trabalha e não é incomodado. Porque ocupa um lugar social diferente de mim, são pessoas mais velhas, são pessoas adultas, são homens, entendeu, barbados…

 

Sidney: Vários pesos, várias medidas.

 

Thales: Por exemplo, a gente tem na universidade… Não vou dizer em qual departamento porque, né… Uma questão ética. Mas a gente sabe que, no serviço público, você tem gente que não trabalha e tem gente que trabalha.

 

Dann: Sim.

 

Thales: Mas aí eu vejo aluno que manda mensagem pra a ouvidoria, manda reclamação via protocolo…

 

Dann: E nada muda também.

 

Thales: Na universidade, pra poder reclamar de professor… Oh! Não, isso se os alunos chegam a reclamar pra querer mudar. Porque, geralmente, quando reclama, não muda mesmo não. Ainda mais quando a pessoa é apadrinhada. Só que tem muita gente que já nem manda, já nem reclama porque já sabe… respeita a pessoa como pessoa, pode não respeitar como profissional, mas existe a lealdade, entendeu, em relação à pessoa que, tipo assim, “Por mais que seja meu inimigo, ele é uma pessoa assim, assim e assim… É um homem, e tal. Então, eu não vou bater de frente com ele porque eu aceito essa pessoa existir com esses defeitos que ela tem”. Agora, eu percebo que as pessoas não são leais nesse nível comigo. Então, se eu tiver qualquer defeitinho… Por exemplo, um dia, faltando duas semanas pra terminar a disciplina, uma aluna chegou e perguntou, “Poxa, mas eu não tenho esse cronograma”. Eu falei, pera aí, eu enviei esse cronograma pro email da turma, você tem o acesso a esse email, você já acessou coisas, já enviou coisas por esse email. Eu pedi, no email, pra as pessoas imprimirem o cronograma, pra terem ele também dentro da bolsa, no caderno e etc. Pra saberem quais são os textos. Os meus textos das disciplinas são 100% disponíveis na internet, se tem coisa que não tá, eu escaneio e boto lá na pasta do Dropbox, ou então em algum site, tipo Scribd, etc. então, assim, eu não acredito que com toda essa acessibilidade que eu tento colocar em sala de aula… Por exemplo, texto escaneado, eu tento escanear e também reconhecer as letras, pra que o programa de leitura faça a leitura. Entendeu? E eu não to nem pensando em alunos com deficiência visual. Eu nem pensei ainda. Porque eu nunca tive alunos com deficiência visual. NO entanto, eu tento, entendeu, fazer com que as pessoas tenham como copiar e colar o conteúdo…

 

Sidney: Facilitar o mais possível o acesso.

 

Thales: Exatamente, porque se eu já facilito pros alunos que são videntes, quando chegar um com deficiência visual, vai ser muito melhor ainda, porque já tá tudo lá. Entendeu. E eu, por exemplo, tento não trabalhar muito com suportes. Se eu exibo alguma coisa, é muito mais material audiovisual. Porque eu realmente não gosto de trabalhar com nada alem do discurso e das atividades práticas mesmo. Eu gosto. Eu acho que é muito mais importante a gente debater, socializar o assunto e praticar aquilo ali. Então, eu vejo que tem aluno que não se engaja. Então, assim, aí eu falei pra a menina, “Olha, pelo amor de deus, é como diria a minha vó, ou caga ou sai da moita”, velho. Você tá aqui numa disciplina onde tá todo mundo consultando todos os dias, na sua frente, o cronograma. A gente tava usando o laboratório de informática, ou seja, o computador era aberto todos os dias, por todos os alunos. Então, assim, a pessoa chegar pra mim e falar isso… Aí, a menina escutou a expressão que eu usei, “ou caga ou sai da moita”, ficou ofendida, desceu a lagriminha. Mas eu falei, bom, eu não vou me estender, não. Vamo voltar pra a aula, e tudo. Continuei como se nada tivesse acontecido. A pessoa mandou uma mensagem pra a ouvidoria, falando que, “Ah, o professor tem problemas, ele desconta nas pessoas”. Quer dizer, ou seja, até na hora de reclamar de mim, eles pressupõem que eu sou uma pessoa que tem problemas.

 

Dann: Por ser gay, talvez…

 

Thales: É exatamente. Como se, tipo assim, eu tivesse tentando meio que me vingar pelas coisas que fazem comigo. Sendo que, na verdade, o meu papel ali é simplesmente um mediador de aquisição de conhecimento, gente. Eu sou completamente ciente disso. Eu chego, cumpro minha carga horária, faço as minhas atividades que tenho que fazer, eu discuto com base no texto referência do dia, e acabou. Eu não fico… Eu não fulanizo as coisas. Então, eu fico muito chateado porque, quando se trata de vir falar comigo, ou falar sobre mim, ou lidar comigo, as pessoas fulanizam. Entendeu. E eu não gosto disso. Mas eu vejo que é porque eu ocupo um lugar social diferente. E eu não me sinto, tipo, vitimista por falar dessas coisas, não. Porque eu acho que…

 

Sidney: Que reconhecer, né…

 

Thales: Se as pessoas vão reconhecer ou não isso, o problema é delas. Agora, eu tenho o direito de reconhecer isso e expressar, assim como muita gente faz as mesmas coisas. Então, tendo essa postura, tipo, meio… Ah, eu vou continuar fazendo, independente de tudo que aconteça. As pessoas meio que cansaram também, eu percebi que teve muita gente que mudou de tratativa, de conduta, pelo cansaço gerado, entendeu. Por exemplo, eu já tive uma colega de trabalho que roubou um trabalho meu e inscreveu num congresso como se fosse dela.

 

Sidney: Vixe!

 

Thales: É. E assim, eu…

 

Sidney: Na cara dura.

 

Thales: Eu me sinto tranquilo de falar sobre isso, porque é uma coisa que está documentada, que está em ata de departamento, então qualquer pessoa do Brasil inteiro pode… Qualquer falante de português pode acessar o site e ver lá as atas do ano passado, onde tá registrado isso. Então, assim, coisas objetivas, eu gosto de colocar tudo na zona de objetividade, o máximo possível. Porque…

 

Sidney: É que tem que se armar, se não, qualquer coisa será usada contra você. Contra nós.

 

Thales: Exatamente. Mas eu acho cansativo. Isso me cansa muito, entendeu, ao mesmo tempo.

 

Sidney: Muito. Demais. Nossa…

 

Thales: Porque, quer dizer, eu tenho que ser consciente das coisas e metaconsciente, ou seja, eu tenho que ser consciente e consciente da minha consciência. Olha que louco.

 

Sidney: Oh, migo, é tão cansativo que eu tô até cansado de ouvir você falar, eu já to cansado desse povo que você ta falando aí, já. Olha… (risos)

 

Thales: Exato.

 

Sidney: Querendo bater com os dois pés no peito.

 

Dann: Oh, Thales, eu acredito que isso se repercute na esfera tanto das mulheres, na tratativa das mulheres no ambiente de trabalho, com os gays… E eu acho que isso é evidente, assim. É visível, na verdade, que isso ocorre. E todas as histórias que você está falando aí, eu tenho histórias similares pra poder te contar. Então, assim, infelizmente, a esfera profissional também é afetada.

 

Thales: É. Com certeza, é muito afetada. Então, você vê, por exemplo, eu sinto duas coisas. Primeiro, no serviço público, quando eu entro, consigo conversar com muitos homens, entendeu, ao meu redor, consigo trabalhar com eles e etc. Mas isso se dá, em partes, por duas coisas. Primeiro, pode ser porque a pessoa seja desconstruída já, ou nunca tenha tido algum tipo de barreira em relação a gays, lésbicas, etc. Como eu vejo que eu tenho colegas, La na universidade, que são maravilhosos.

 

Dann: Eu também tenho.

 

Thales: Eu tenho colegas héteros que eu falo, meu deus, se você fosse gay, eu casava com você, entendeu. Maravilhoso. Pessoas, assim, extremamente voltadas pro trabalho, pra a cultura da organização, entendeu, da produtividade, pra capacitação de alunos, etc. Não sei se é capacitação ou profissionalização, mas enfim. Eu não sei qual a palavra que usa. Mas pra, tipo, desenvolvimento de competências, de habilidades e etc. Aí, então, eu vejo que tem gente assim. Só que, ao mesmo tempo, também tem gente que só convive comigo porque eu sou um homem ocupando a mesma vaga que a pessoa ocupa. Então, ela me respeita nesse nível de estar ali ocupando o mesmo espaço, entendeu, de ser um sujeito produtor. Agora, no nível individual… NO nível de me encarar como par, por exemplo… Então, eu entro dentro da esfera da masculinidade, eu entro por uma questão de classe, por uma questão de trabalho, pelo cenário do capitalismo. Só que, aí, eu nunca vou ser o mesmo homem que essas pessoas são, e elas nunca vão me enxergar como tal. Então, eu não sou incluído em determinadas coisas. Eu não…

 

Sidney: Fora dali, não…

 

Thales: é, fora dali, não. Eu não encaro isso como um problema porque eu acho que todo mundo tem a opção… Pelo menos, assim, se no nível profissional, eu to sendo tratado da forma correta, entendeu, do que o regimento prevê,  entendeu, cooperatividade, etc. Beleza. Vamo lá. Eu não preciso realmente ser amigo de todo mundo. Só que eu vejo…

 

Dann: E nem deve…

 

Thales: Só que eu vejo que algumas coisas que são do âmbito pessoal também afetam o trabalho, e vice-versa.

 

Sidney: Claro.

 

Thales: Então, é complicado.Assim, você tem que tá o tempo inteiro…

 

Sidney: Olha, migo… É, como eu acho que eu já li em algum lugar, e a gente sempre reafirma aqui, só o fato de existir já é uma resistência.

 

Thales: É.

 

(VINHETA: ENTRE EFEITOS SONOROS DE IMPACTO E DE DISTORÇÃO DE ÁUDIO, A VOZ ANUNCIA “MOMENTO SUPER PODERES!”)

 

(FADE IN E FADE OUT DA TRILHA SONORA)

 

Dann: Então, chegamos agora também naquela…

 

Sidney: Já deu o tempinho…

 

Dann: Na parte do podcast que a gente fala dos super poderes.  Não vamos te pegar de surpresa…

 

Sidney: Dessa vez, não vamos. Você não vai ser pego de surpresa, porque você já sabe…

 

Thales: É… (risos)

 

Dann: Porque, um disclaimer para os ouvintes, é porque já foi gravado esse programa. Mas aí, a gravação não deu certo. Então, vamos para o momento super poderes. Se você tivesse esse super poder para combater toda essa estrutura aí, que já até discutimos ao longo do programa, e que pudesse ajudar todos os LGBTQIPA, qual seria o seu super poder?

 

Thales: Ah, eu ia querer ser o Professor Xavier, viu. (Dan ri)

 

Sidney: Gente! Poderosíssimo.

 

Thales: com certeza, eu ia querer. Ou, pelo menos, a… Não, não ia querer ser a Fênix, não, porque é muito BO. (risos) Mas, com certeza, eu ia querer ser o Professor Xavier, e ter uma telepatia, assim, de… Mais pra revelar as coisas que as pessoas não tão vendo, e tal. Se fosse possível, eu faria isso. Se não fosse, eu ia querer ser a Kitty, que atravessa parede e que some. (risos) Que eu ia adorar sumir…

 

Sidney: Sumir, sim, às vezes, é.

 

Dann: Já que não resolve, era melhor sumir, né.

 

Sidney: Tu queria os poderes mentais do Xavier pra fazer o quê? Porque ele lê mente, ele também, às vezes, manipula as pessoas, localiza as pessoas… Em que sentido?

 

Thales: É… ah, ixe… eu ia usar pra muita coisa… No trabalho, eu ia usar pra isso, pra tentar otimizar as paradas, pra poder entender o que ta passando na cabeça das pessoas e trabalhar com isso, entendeu, e tentar, tipo, dirimir essas distorções. E fora do trabalho, eu ia usar, assim, pra tudo. Pra, tipo, saber quem tá em situação de perigo, pra… (ele ri) eu ia ser só… Ia dar só eu ligando pra a polícia, “Oh, tá acontecendo tal coisa”. (risos)

 

Sidney: Excelente.

 

Thales: Porque eu acho que, no século 21, a gente não tem super poderes… Não sei se a gente já chegou a ter, alguma vez, na história da humanidade, um super poder. Super poder como a gente entende na ficção. Mas eu acho assim, que a gente tem muitas competências e habilidades já, de comunicação, de informação, socialização mesmo, que tecnicamente, teoricamente, já eram pra ter, tipo, direcionado a gente pra um outro patamar de civilização. A gente já devia tá num outro nível. E eu vejo que, tipo, a galera ainda não chegou lá. Então, às vezes, eu realmente sonho com a… A Literatura serve pra isso, pra a gente realmente saber que, pelo menos no âmbito…

 

Sidney: sonhar com um futuro possível…

 

Thales: É. Pelo menos na imaginação, você consegue, tipo, resolver coisas que, na vida real, tá foda. Tá pesado… (risos)

 

Dann: É isso aí…

 

Sidney: Como diria o ditado, ser humano, o pior tipo de gente…Independente de…

 

Thales: Apela. Às vezes, o ser humano apela, igual uma amiga minha fala. A Stefany.

 

Sidney: apela, sim.

 

Sidney: Thales, foi um prazer, uma satisfação…

 

Dann: Então, é isso. Temos um programa maravilhoso…O Thales…

 

Thales: Oh, gente, espero que tenha ajudado. Nossa senhora! (risos)

 

Sidney: Sim.

 

Dann: Eu gosto de gravar programas com professores, que é um programa, geralmente, mais didático, no sentido de que a pessoa não vem falar sobre sua experiência, ela vem plantar experiência, plantar um conceito, depois cruzar (Sidney ri), depois… Fechar e amarrar a ideia do que ela quer transpor.

 

Sidney: foi ótimo.

 

Dann: Thales, muito obrigado, viu, pela disponibilidade. E…

 

Thales: Oh, gente…

 

Dann: É isso, temos um programa.

 

Sidney: E por gravar de novo.

 

Dann: É, duas vezes, duas disposições.

 

Sidney: Desculpa aí, miga.

 

Thales: Tomara que, dessa vez, vocês tenham ouvido tudo direitinho. Porque acho que da outra vez era a internet que tava ruim aqui.

 

Dann: Sim, sim.

 

Sidney: Dessa vez foi ótimo.

 

Dann: Eu troquei de provedor da internet…

 

Sidney: Dessa vez, tá parecendo que você tá aqui do meu lado, igual o Wolfgang e a Riley, no Sense8. (risos)

 

Thales: Seria meu sonho! (risos)

 

Dann: Meu sonho, gravar um podcast assim. Então, gente, é isso. Vamos…

 

Sidney: Vamos dar tchau?

 

Dann: Vamos dar um tchau… Ah, se você quiser fazer um jabá, deixar suas redes sociais, pra alguém poder acompanhar, algum trabalho que você vem desenvolvendo dentro da universidade… Pode deixar aqui.

 

Thales: Ah, então,

 

Dann: Jabá aí, antes da gente dar o tchau…

 

Sidney: Se divulgar.

 

Thales: No Facebook, muita gente que eu não conheço ainda chega a  acompanhar algumas coisas dos posts, e tal. Quem quiser fazer isso, pode botar lá, “Thales” com TH, um L só, E-S. Thales, normal. H. Pimenta. Ou bota Thales Pimenta, que vocês vão me encontrar lá. É uma foto minha quando eu tava com cabelo, de franjinha. Super fácil de identificar quem é. E tem lá informações profissionais. Então, todo mundo que escutar o podcast já sabe que o professor da UNIR, da Federal de Rondônia, tá lá. E também, tipo, acho que tem… Quem puder também dar uma olhadinha no TV UNIR, no Youtube, TV UNIR. “Unir” de “união” mesmo, o verbo. UNIR  é a sigla da nossa universidade, e aí, vai lá dá uma olhadinha, TV UNIR,, entra no canal, porque tem um trabalho muito massa sendo feito, assim. Porque a gente não ganhou a outorga de rádio e TV que todo curso de jornalismo ganha quando abre. Porque ela tá sendo monopolizada por Porto velho…

 

Sidney: Nossa…

 

Thales: Que é o campus sede da universidade. Então, enquanto isso, a gente tá tentando driblar com produção audiovisual assim, de caráter mais independente. Eu mesmo já orientei trabalho de alunos calouros, assim, recém veteranos, na verdade, que fizeram um documentário sobre assédio moral e discriminação no trabalho, entendeu. Pra muita gente que possa estar passando por isso, por ser LGBT, etc. Vale a pena dar uma conferida, ir lá, o título é “Falando de discriminação e assédio moral no trabalho”. É basicamente isso. Tá lá dentro…

 

Dann: Vamo colocar na postagem também, o link.

 

Sidney: Vamos colocar o link.

 

Thales: Boa. Tá lá upado lá no TV UNIR. Foi feito integralmente pelos estudantes, eu realmente só orientei, e eu fiquei muito impressionado com o resultado. E aí, agora a gente tá com o coletivo de documentários experimentais e jornalísticos chamado Perséfone. Mais pra frente, a gente vai colocar outros documentários produzidos pelo projeto de extensão no canal da TV UNIR no Youtube. E a expectativa é que apareça também dois canais de TV aqui da região, afiliados ao SBT e à Globo. Então, vamo ver.Aí, eu espero que a galera…

 

Dann: Gente, esses héteros ficam com muita raiva dessas bicha afrontosa (risos). É isso, então. Thales, muito obrigado, então.

 

Sidney: Dá um tchauzinho pros nossos ouvintes.

 

Thales: Tchau, gente! (ele ri)

 

Dann: Tchau!

 

Thales: Beijo, galera! (ele faz som de beijo)

 

Sidney: Valeu.

 

(EFEITO SONORO DE TRANSIÇÃO)

 

Dann: Gente, que programa maravilhoso! Né, Sidney?

 

Sidney: Ah, pois é. Como diz aquele vídeo do Terça Insana, muita ideia, muito pensamento, muita ideia, muito pensamento… (Dan ri) Olha… Muitas coisas…

 

Dann: enfim, Thales, muito obrigado por ter colaborado com o HQ da Vida e deixado seu relato aqui pra a gente. Sidney, quais são as indicações… Quer dizer, a indicação que você tem pra hoje?

 

Sidney: então, Dan, hoje eu vou trazer como indicação para os nossos ouvintes um livro que eu acabei de ler, e estou um pouco… Né, porque, enfim… O pessoal sabe, quem é ouvinte assíduo sabe da minha barra com a religião, que eu sempre pergunto, a gente sempre discute, e eu acabei de ler o livro chamado Entre a cruz e o Arco-Íris, da escritora Marília de Camargo César. E é um livro muito interessante, eu diria. Não vou dizer que foi agradável de ler, eu saí de alguns capítulos um pouco contrariado. Essas ideias e tal… Mas enfim, o que trata o livro? É um livro teórico, mas com linguagem meio jornalística, assim, a relação entre homossexualidade e religião. A pergunta que norteia o livro é por que é que os homossexuais não têm o direito de manifestar sua religiosidade na mesma medida que os heterossexuais, e como é que se dá essa relação entre a diversidade sexual e as religiões? Nesse livro, mais especificamente, a religião católica e protestante, o cristianismo, já que essa religião tem preceitos muito fortes com relação à homossexualidade e outras coisas que fujam da heteronormatividade, como a gente falou. E muito me impressiona, e eu acho que já deixei claro aqui no HQ, em algumas entrevistas, como é que eu fico impressionado com LGBTs que, mesmo sendo LGBTs, conseguem conciliar isso com a sua vida religiosa cristã. Que, pra mim, é incompatível. E o livro deixa… Assim, os relatos que o livro traz são importantes pra marcar essa contradição e essa incompatibilidade. Mas também ele traz informações de como é que está surgindo esse movimento de igrejas inclusivas, e teologias que acolhem a diversidade sexual. E a autora deixa claro, nesse ponto, inclusive, o desconforto dela. Porque ela é uma autora evangélica, e ela deixa claro, no começo do livro, que ela foi investigar isso partindo do pressuposto de que como é que essas igrejas conseguem pregar uma palavra, quando tem tão explicitamente na Bíblia que ela segue,  e que a maioria das pessoas seguem, que isso é errado. Como é que essas igrejas conseguem acolher essa sexualidade que, pra outras igrejas, é tão rechaçado e rejeitado? Enfim, é um livro interessante de ler. É importante, inclusive, pra quem não gosta da religião, por causa da sua orientação sexual ou da sua identidade de gênero que foge da heteronormatividade, pra entender como é que esses processos se dão na cabeça dessas pessoas. É um livro importante pra a compreensão. Não vou dizer que foi fácil de ler, nem foi… Não foi docinho de ler, não. Mas é importante a leitura.

 

Dann: E pra complementar essa indicação sua, Sidney, a gente pode também indicar o HQ da Vida com a Amanda, chama “HQ da Vida: Amanda Maravilha”, ficou muito legal e ela comenta um pouquinho sobre igrejas inclusivas. E é interessante. E essa semana, a gente também publicou no site do HQ da Vida, uma reportagem com o titulo “Fé, sexualidade e cultura: Por que as atitudes LGBTs variam amplamente entre as nações”. E falando no site do HQ da Vida, vocês podem nos encontrar no WWW.hqdavida.com.br; e em quais mais lugares, Sidney?

 

Sidney: Vamos lá pra as nossas redes. É facebook.com/hqdavida; twitter.com/hqdavida; soundcloud.com/hqdavida; a gente também tá no Youtube, você procura lá por “HQ da Vida Podcast”. Também estamos no Medium, você vai lá no Medium e procura por @hqdavida. Sempre lembrando, a gente pede encarecidamente, gente, pelo amor de deus, estrela nós no iTunes, você que tem conta lá, pra a gente subir no ranking dessa podosfera brasileira. Me ajuda!

 

Dann: É isso aí. Gente, então, vamos dar um tchau, né?

 

Sidney: Vamos lá. Xero, pessoal, até o próximo HQ.

 

Dann: Tchau, tchau.

 

(FADE IN E FADE OUT DA TRILHA SONORA)

 

FIM

 

Transcrito por Sidney Andrade

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