Transcrição – HQ da Vida #16 LGBTTs: O Incrível Callado

TRANSCRIÇÃO – HQ da Vida #16 LGBTTs: O Incrível Callado

 

(Nota: a transcrição é um recurso de acessibilidade que viabiliza o acesso para pessoas com alguma deficiência auditiva, além de ser um mecanismo eficiente de consulta para o conteúdo do podcast. Não pretende, portanto, substituir a audição do programa, mas, sim, complementá-la)

 

Vinheta de abertura: entre efeitos sonoros de impacto, uma voz com reverberação anuncia “HQ DA VIDA, o seu podcast sem quadrinhos.”

 

(Trilha sonora de Background alusiva a histórias em quadrinhos)

 

Dann: Olá, ouvinte. Aqui é Dann Carreiro.

 

Sidney: Eu sou Sidney Andrade, e este é o HQ da Vida número 16, Danilo.

 

Dann: Então, pessoal, o HQ da Vida é um podcast que, como alguns já sabem, tem como objetivo contar histórias de super LGBTs. E, Sidney, pra quem você vai dar os beijinhos da quinzena?

 

Sidney: Então, a gente tá beijoqueiro ultimamente. Hoje, temos um beijinho para um comentador que comentou lá no nosso site, que é o Rodrigo Cornélio, ele parece que é do podcast Entre Fraldas, que é um podcast amigo nosso, que tá sempre interagindo com a gente lá no Twitter. E ele comentou elogiando o nosso HQ de Bolso #07, sobre as gerações LGBTs. Obrigado, um beijo pro Rodrigo.

 

Dann: Por falar em Rodrigo, eu preciso dar dois recadinhos. Um, primeiro, é sobre o dia do podcast, que é 21 de outubro. Inclusive, o podcast Entre Fraldas estará no “Uaipod”, que é um evento que ocorrerá em BH, dia 21 de outubro, e eu estarei representando o podcast HQ da Vida também lá, no dia 21 de outubro. E comentamos em um grupo de contribuintes do Anticast, e acabamos fazendo o Patreon. No último programa, a gente já tava sendo apadrinhado, graças à deusa, só que não pudemos ter feito esses avisos porque, na verdade, o programa já tava gravado, e não tinha como voltar pra poder gravar e dar este recado pra vocês. Então, agora temos o Patreon e o Padrim. O Padrim é WWW.padrim.com.br/hqdavida; e o Patreon é WWW.patreon.com/hqdavida; se você quiser ajudar esses podcasters LGBTs, então venha fazer parte. Temos lá as metas, e caso você também queira sugerir outras recompensas, estamos de coração aberto. E para isso, então, a gente precisa agradecer Carla Gonçalves, Deivisson Hoffmann, Fernanda Cary e Wagner Coutinho, que são os nossos primeiros padrinhos aí, que estão nos prestigiando com essa cotinha, ok. É isso, patreon.com/hqdavida e padrim.com.br/hqdavida.

 

Sidney: A gente já tem padrinhos maravilhosos. E  importante frisar que as nossas metas agora são só para pagar os custos de manter o HQ da Vida. Gente, ajuda NÓIS (risos), pra a gente não quebrar.

 

Dann: Ajude, por favor. E aí, vamos agora para o nosso convidado. Quem é o nosso convidado, Sidney?

 

Sidney: Pois é, hoje, a gente vai conhecer a história maravilhosa… Gente, gruda a orelha nesse podcast, porque a história do Danillo Callado é muito bonita, muito interessante. Tem vários plots twists, então fica aí, escuta até o final, porque vale a pena. Danillo Callado, vem falar com a gente.

 

Callado: bom, meu nome é Danillo, eu tenho, atualmente, 29 anos, moro no Rio de Janeiro, sou carioca, nunca saí daqui. E sou professor de Educação Física, já formado desde 2009.

 

Sidney: Pra a gente ter uma noção, pros nossos ouvintes terem a noção de que lugar da sigla você tá, você é um homem trans, não é isso?

 

Callado: Isso, correto.

 

Sidney: Então, como a gente começa, geralmente, a primeira pergunta que a gente faz é sobre o primeiro insight. NO seu caso, como é de identidade de gênero, a gente fica sempre curioso pra saber quando foi… como é que, na infância, era a sua relação com a sua identidade de gênero, se é já desde criança, ou desde quando foi. Quando foi a sua primeira autoconsciência da sua identidade?

 

Callado: Essa questão da transexualidade veio posterior a uma questão de homossexualidade. Então, no caso, não dá pra falar da transexualidade sem falar da vivência homossexual. Então, desde a minha infância, eu me percebia diferente das outras crianças. Mas como criança, eu não tinha noção exata do que tava acontecendo. Eu não tinha como me enquadrar em nada, porque eu não tinha nenhum padrão que me abrangia. Então, em brincadeiras, por exemplo, o  clássico… brincadeiras de gênero, que separa-se homem e mulher, eu ficava um pouco perdido, gostava mais de brincar com os papéis masculinos. Então, por exemplo, uma brincadeira clássica que tinha, que era a brincadeira dos Power Rangers, que eu sou de 87, então tinha essa época. E aí, a gente pegava um grupo de amigos pra brincar, por exemplo, e nunca sobrava um personagem masculino pra mim, por exemplo. Eu tinha que ser ou a Ranger Amarela, ou a Ranger Rosa. E aí, me fazia não querer brincar. Eu não gostava muito de brincar, não. Então, eu sempre ficava torcendo, por exemplo, pra as duas meninas que brincavam no grupinho pegarem as duas e, poxa vida, sobrou um masculino pra mim, droga, vou ter que pegar (risos). Festa junina, eu sempre torcia pra faltar menino e aí, eu ter que, poxa vida, me fantasiar de menino pra poder participar da festa. Enfim, sempre buscava esses papéis. Mas, na minha cabeça, era só uma questão de gosto, era só uma questão de conforto. Criança não pensa muito nessa situação. Não tive muitos problemas com isso, porque os meus pais não eram muito agressivos com relação a isso, então eu não tinha muita repressão com relação a esses eventos, não. Pelo contrário, minha mãe sempre foi muito liberal, muito tranquila com isso. Nunca fui interpelado, tipo, nunca ninguém me perguntou o que eu era, o que eu queria, ou causou nenhum tipo de constrangimento nesse sentido, não. Eu sofria algumas brincadeiras na escola, mas acho que é comum com LGBT, e pelo que eu vejo do pessoal, não é nada muito absurdo, não. Bullying, eu sofri, lógico, bullying, mas já vi muito piores com o pessoal da sigla. Então, eu acho que, nesse ponto, é irrelevante.

 

Dann: Eu ia te perguntar uma coisa, você falando que não sofreu muito bullying, isso pode ser também um recorte de classe? Porque como a gente não te conhece por inteiro, às vezes, por exemplo, quando a gente… Eu vim da periferia, e parte da vida, sim, parte da vida, não. E, na periferia, essas opressões podem ser mais acentuadas, tanto para um homem gay, para um homem trans, para uma mulher trans. Como que, no caso, essa vivência sua tem um recorte de classe também, por não ter sofrido tanta opressão, no caso?

 

Callado: É, pode ser. Porque eu sempre vivi no mesmo nível de classe, eu não ascendi nem caí. Acredito que seja uma questão de classe média mesmo, não muito alta, uma classe média comum. A minha mãe é enfermeira, (incompreensível) de dois concursos. Mas praticamente criou a gente sozinho, sem muita ajuda do meu pai. Eu estudei em um bom colégio. Desde a quinta série. Eu fiz prova pra um colégio estadual aqui do meu município, da minha cidade. É um colégio que foi eleito, algumas vezes, o melhor do Brasil. Então, é um colégio de excelência, mas é um colégio publico, nunca paguei por isso, graças a deus. E foi um colégio, realmente, de bom calibre. Um bom colégio. O pessoal que estudou comigo, geralmente, uma classe média alta, até classe alta mesmo. Uma galera que realmente tinha muita grana. Tanto que eu tenho amigos do colégio que, hoje, são médicos, advogados, engenheiros, enfim. Tem colegas que fizeram projetos pra a NASA.E é uma coisa, assim, bem alta mesmo. E esse colégio tinha, inclusive, por exemplo, apoio pedagógico. Alguns alunos que sofriam bullying ou que sofriam algum tipo de problema nesse sentido, tinha o que a gente chamava de SOE, Sistema de Orientação Pedagógica.

 

Sidney: Ah, no meu colégio também tinha o SOE.

 

Callado: Isso, Sistema de Orientação Educacional, se não me engano, SOE.

 

Sidney: Ou é Estudantil, algo assim.

 

Callado: É, alguma coisa nesse sentido. E eu lembro que eu cheguei a ir pra reuniões no SOE, em alguns momentos. Mas são episódios que eu não tenho muita recordação, exatamente por quê eu fui parar no SOE (risos). Alguma coisa nessa linha, eu não recordo o motivo, na verdade. Então, o recorte de classe, acredito que tenha influenciado nisso. Porque eu realmente sempre fui de classe média, sempre lidei com pessoal de classe média mesmo. Eu nunca tive uma vivência mais profunda com o pessoal de classes diferentes, não.

 

Sidney: Então, Callado, pelo que você falou, a tua experiência na escola foi enquanto homossexual. É isso? Então, era como você se percebeu primeiro, foi assim? Como foi esse processo?

 

Callado: Calma aí, na escola eu não tive nenhum tipo de vivência LGBT. Por eu ser uma pessoa que tinha um comportamento relativamente diferente do padrão, lógico que a adolescência acaba apontando. O adolescente acaba apontando tudo que sai do padrão. É comum à adolescência mesmo. Mas eu não tive nenhum tipo de vivência LGBT. Eu tive alguns apontamentos, mas não tive nenhum tipo de vivência. Não foi nada, assim, exacerbado, não. Eu sofri um pouco, não vou negar, mais do que a maioria das pessoas que não são LGBT. Mas pro padrão de bullying que os LGBT costumam sofrer, o meu não foi muito profundo.

 

Dann: E você era… Esse sofrimento na escola vinha mais das meninas ou dos meninos?

 

Callado: Olha, na escola, a questão toda era o seguinte, eu não tinha atração por meninos, por exemplo. E aí, eu fiquei na escola até uns 17, 18 anos. Não, 17. Eu fechei o 3º ano com 17. Então, quando chegou ali por volta de 15, 16, 17 anos, começou uma cobrança pra que acontecessem relacionamentos. Namoro, ficadas, enfim. E aí, foi uma fase que eu tentei me encaixar. Eu tentei me enquadrar. Foi uma época que eu comecei a tentar me enquadrar porque já não tava mais conseguindo viver do jeito que eu me sentia confortável numa situação neutra. A sociedade, a situação mesmo já pediu um enquadramento. Então, as meninas começaram a namorar. Os meninos, também. E aí, começou-se uma cobrança de quem não namorava. Como que vai ser, enfim. E aí, eu cheguei a fazer, por exemplo, uma festa de 15 anos, por pura pressão, por vontade de me encaixar. E eu ganhava muitos presentes, coisas que eu não gostava de usar, por exemplo, brincos, saias, e coisas assim. Indumentárias femininas, eu ganhava muitos presentes. E eu não gostava muito de usar. Então, eu comecei a tentar me enquadrar, e aí, nesse ponto, eu comecei a ter um certo sucesso social. Então, as pessoas começaram a elogiar, começaram a achar legal. E aí, por decorrência dos elogios, eu comecei a achar que era o caminho. Comecei a encarar esses elogios como o retorno positivo do esforço que eu tava fazendo. E aí, eu comecei a me esforçar, comecei a tentar me enquadrar, quanto mais eu tentava, mais relativamente eu conseguia. Recebia mais elogios e achava que tava tudo bem. Só que não tava, não. Era só uma espécie de personagem mesmo. Eu tava realmente tentando me encaixar, mas ao conseguia muito bem. E aí, essa fase durou dos 14 a 15, até uns 17, 18, que foi quando eu entrei na faculdade. E aí, as coisas começaram a mudar. Vocês querem perguntar alguma coisa?

 

Sidney: E você chegou a ter relacionamentos com garotos, nessa fase?

 

Callado: O que aconteceu nessa fase da escola foi o seguinte, eu não tinha namorado. Não tinha nenhum tipo de namoro fixo. Algumas amigas minhas frequentavam muito, na época, micaretas, que era a festa da época, do momento. E aí, eu, menor de idade, não poderia nem ir. Não sei nem se isso pode ir ao ar, mas enfim…eu ia. Mesmo não podendo, eu ia.

 

Dann: Acho que não tem importância, não.

 

Callado: Pois é, eu ia. E aí, nesses eventos, eu conseguia ficar com meninos, por exemplo. E eram coisas bem (incompreensível) característico da micareta mesmo. E me dava um alívio social, relativamente. Porque eu cumpria o papel que me era exigido, que era cumprir e fazer acontecer uma heterossexualidade, e não me envolvia muito. Que eu realmente não… Era uma coisa que podia me gerar relativamente um sofrimento que eu não tava muito a fim de me envolver. E aí, eu consegui usar essas micaretas como uma válvula de escape. Uma válvula de escape da época, que funcionou muito bem, inclusive. Dos 14, 15, eu comecei a sair… É, dos 15 pra 16 eu comecei a sair mais pra micaretas. E aí, ficou entre os 17 e 18 ainda funcionando muito bem. Mas aí, depois, as coisas mudaram de cenário.

 

Dann: Entendi. E aí, no caso, esse cenário mudando, é época de ir pra faculdade?

 

Callado: Isso, foi quando eu passei no vestibular, e aí eu entrei na federal da minha cidade também, UFRJ, pra cursar Educação Física. E aí, eu comecei na faculdade, era um ambiente totalmente novo. E algumas pessoas de uns períodos mais avançados que os meus começaram a identificar traços LGBT em mim, e começaram a comentar isso comigo. Então, começaram a me apontar traços LGBT  em mim. Então, eles acabaram me forçando a olhar pra uma temática que eu não tava preparado, que eu não tinha pensado nessa possibilidade ainda.

 

Sidney: Esse apontamento, essa mostra, foi… Como você fala, que foi externa a você. Mas foi de forma agressiva, ou de forma amigável?

 

Callado: Não, não. Foi de uma forma relativamente irreverente. A gente passou por um trote, que é bem comum nas faculdades publicas aqui. Eu não sei como é que são nos outros estados, mas aqui é muito comum. As brincadeiras do trote, e tal. E aí, nessas brincadeiras, alguns apontamentos foram feitos, mas de forma discreta. Tinha um grupinho LGBT na faculdade. Era uma galera que andava junto, e tal. Eles tinham essa vivência LGBT, mas eles não eram inferiorizados por causa disso.

 

Sidney: Sim. Olha, eu, honestamente, eu seria levado a pensar o contrário, sendo um curso de Educação Física. Olha o preconceito aí. Eu tendo a achar que, num ambiente de Educação Física, que, provavelmente… Aí você me corrige, se eu tiver errado. Ele é predominantemente masculino, até onde o senso comum diz. E, portanto, machista e essas coisas que a gente espera de ambientes predominantemente masculinos cis-gênero, no caso. Então, pelo visto, no seu caso, não era tanto assim.

 

Callado: Olha, o meio de academias, que é o meio que eu atuo, ele realmente tem um pouco esse caráter. Mas não é tanto quanto se imagina. Por exemplo, o senso comum exacerba um pouco isso. Mas ele tem realmente essa característica, sim. É predominantemente masculino, os homens muito bombados são extremamente machistas. Isso tem bastante, sim. Mas, na faculdade, não tinha exatamente isso. Até porque era todo mundo de meia idade. Não era ninguém muito mais velho. Os mais velhos que tavam se formando tinham, ali, uma média de 25 anos, no máximo. Então, era uma galera de 17, 18, até uns 23, 25. Então, era uma galera relativamente nova, não tinha muito essa pressão, não. Era um clima bem tranquilo, bem amigável. Porque Educação Física é mais a galera praticando esporte, mais a galera de chinelo, enfim…Não era pressão nesse sentido, não, de (incompreensível), ter que ser bem sucedido. Todo mundo ali sabia que ia ganhar pouco, que não ia ser o orgulho da família, enfim… (risos)

 

Dann: Oh, Callado, eu já dei aula no curso de Educação Física, de Bioestatística. Muito tempo atrás. E eu achava uma galerinha, assim, em 2012, uma galerinha que não era tão preconceituosa. Eu acho que, você falando aí esse exemplo de academia, é que eu acho que a academia que soa muito esse ambiente meio opressor talvez. Não sei.

 

Callado: Sim, a academia… Não opressor, mas eu vejo muito como uma via de autoafirmação. Os caras precisam muito se autoafirmar, e eles fazem valer do machismo pra se autoafirmar. Então, hoje, com essa visão que eu tenho, já não é uma coisa que me incomoda tanto. Porque eu meio que fico, não com pena, mas acho que é mais ou menos nessa linha, sabe. Acho que eu não dou muita trela porque eu realmente vejo que é uma coisa muito infantil, muito boba, muito frágil. Mas tem, assim, essa via machista, mas acredito que seja por via de autoafirmação mesmo.

 

Dann: Até  a época da faculdade, não percebia. Mas, por exemplo, você nunca teve aquelas paixonites por menininhas da escola, que a gente geralmente tem e não sabe como que funciona isso, e fica até, “O que tá acontecendo comigo”? Por exemplo.

 

Callado: Sim, esses eventos são muito comuns. Eu tive até uma coisa que eu achava que era uma amizade diferente. Eu achava que era uma amizade diferente, que eu era muito amigo das meninas. E aí, eu gostava mais de umas do que de outras, e eram minhas melhores amigas, então eu achava que era uma questão de amizade. Eu não botava maldade nisso, não. Não encarava isso como uma possibilidade de relacionamento. Essa possibilidade não tinha na minha cabeça. E eu fui descobrir essa possibilidade na faculdade. (incompreensível) sabe que existe pessoas LGBTs, mas era uma realidade muito distante pra mim, uma coisa que eu jamais imaginei que eu pudesse passar perto e viver isso. Então, não era nem uma possibilidade pra mim. Encarava mais como uma questão de amizade diferente mesmo.

 

Dann: Entendi, engraçado que você não queria ficar com os meninos, mas também não pensava se era um homem trans ou uma mulher lésbica, por exemplo. Não tinha essa consciência.

 

Callado: Não, não tinha. Era uma coisa meio amorfa. Eu só sentia que era diferente, e que não poderia ter nem caixinhas pra me encaixar. Me sentia diferente, não me sentia exatamente bem encaixado em nenhum ponto. Mas como eu me encaixava um pouquinho em cada ponto, eu acabava não me sentindo mal por isso. E aí, não pensava no desconforto, porque ali ele tava sendo desviado pra algum outro ponto.

 

Dann: E quando que ocorreu o primeiro contato com uma menina, e como que foi? Se foi uma paixonite ou foi só um primeiro beijo. Como que foi esse processo?

 

Callado: Então, essa experiência foi engraçada. Porque o pessoal da faculdade começou a apontar, e foi uma coisa que me chamou um pouco a atenção. Era um grupinho um pouco mais velho, o pessoal já tava ali no quarto, quinto período, e eu tava entrando na faculdade. E aí, tinha um grupinho, na época, muito característico, que era um grupinho LGBT mesmo, eles eram vistos como, tipo, maneirinhos, super cool, descolados, diferentões, enfim…

 

Sidney: A galera descoladona.

 

Callado: É, exatamente. E aí, essa galera começou a conversar comigo como se eu fosse integrante do grupo, normal (risos).

 

Sidney: Ai, a gente é desses.

 

Callado: É, pois é. Eu fiquei um pouco assustado com relação a isso. E aí, as pessoas começaram me tratar como um natural do grupo. E aí, eu falei, “Gente, o que tá acontecendo, vocês tão me tratando natural desse grupo, se eu não sou desse grupo”. E aí, uma das meninas até comentou, na época, “Ah, você até é, você só não sabe”. E eu falei, “Gente, calma aí, não. Muita calma nessa hora”. Mas eu não dei muita importância pra esse grupo, assim, nesse sentido, no primeiro momento, não. Porque lógico que foi um choque ser visto dessa forma, porque não era nem uma possibilidade pra mim, mas não foi muito perturbador, não. O que aconteceu, foi que uma das primeiras experiências que eu tive, eu tava fazendo estagio da faculdade, comecei a fazer estágio por conta própria numa academia de natação (incompreensível) aqui da minha cidade. E quando eu comecei a fazer estágio, eu trabalhava com uma amiga da minha mãe. Que ela era técnica de enfermagem junto com a minha mãe, que era enfermeira, num posto de saúde. E essa moça também era formada em Educação física e tinha a terceirização de uma piscina. Aí, a minha mãe comentou que eu tava fazendo faculdade, e eu comecei a fazer estágio com ela. Daí, comecei a aprender muita coisa com ela, eu ia pra lá de tarde, logo depois da faculdade. E aí, um belo dia, eu conheci a professora da noite, que era professora lá de natação, trabalhava junto com essa moça. E aí, a professora era lésbica, eu não sabia. E, segundo ela, ela ficou interessada em mim, e começou a investir tempo e disposição em mim. E eu não percebi nada disso. E aí, foi um belo evento, a gente conversando e tal, e ela era muito mais velha que eu. No caso, ela tinha 11 anos a mais do que eu. Eu tava com 17 pra 18. E eu não tinha tido, até então, experiências mesmo de relacionamento. Tinha tentado ter um namoro na faculdade, que durou uns 3, 4 meses, não durou muito. A gente era mais amigo do que qualquer outra coisa. Não tinha tido experiências, não, com relação a relacionamento. Como ela era mais velha que eu, mais experiente, acabou me levando na lábia (risos). E começou a meio que me colocar um espelho na frente. Então, ela começou a me forçar a ver. E aí é que eu entrei em crise. Eu comecei a… ah, eu tive um episódio também que é bem relevante, que foi jogar futebol. Fui profissional de futebol aqui no Rio, e eu tive um episódio relevante com futebol no time que eu joguei. E as meninas eram relativamente mais velhas que eu também. E eu tive um episódio que foi até relativamente desagradável. Duas meninas do meu time, que elas apostaram entre si quem ia ficar comigo primeiro sem meu consentimento.

 

Sidney: Nossa.

 

Callado: É, foi uma coisa bem pesada. A gente tava disputando um campeonato a nível nacional. E (incompreensível) chegou à semi final, e o campeonato era patrocinado pela Nike. Aí, por a gente ter chegado na semi final, a gente recebeu um coquetel de presente da Nike, os quatro times. E a gente foi uma festa, tudo pago pela Nike, sorteio de brinde, enfim. Uma festa relativamente grande, num clube grande aqui do rio de Janeiro. E aí, nesse evento, eu sofri assédio dessas duas meninas, eu era menor de idade ainda, não lembro ao certo a idade que eu tinha. Eu sofri assédio. Uma delas tentou me agarrar no banheiro, e a outra tentou me agarrar na pista de dança. E foi uma coisa bem complicada pra mim. Esse episódio me fez pegar um certo trauma. Então, quando eu tinha… Vamos falar o Português, né. Eu tinha horror a sapatão. Eu tinha trauma, pra mim era tudo monstra, tudo… E aí, quando eu cheguei lá no estágio, que a menina começou a fazer investidas em cima de mim, eu fiquei um pouco aterrorizado, porque eu comecei a reviver a primeira experiência que eu tive com meninas lésbicas, que era um assédio relativamente grave. E eu comecei a travar e isso me deu uma certa piração. E nas conversas e nas interações com essa professora lá do meu estágio, eu comecei a me ver, me descobrir LGBT, no caso, homossexual. Daí, entrei num estado de piração porque eu não queria ser o monstro que eu achava que as lésbicas eram.

 

Sidney: Sim. Você não tinha a melhor das referências pra se espelhar…

 

Callado: Exatamente.

 

Sidney: Então, nesse caso, deve ter sido doloroso pra tu… Se não doloroso, pelo menos difícil de se encaixar nesse novo conceito pra si mesmo.

 

Callado: Foi, foi muito complexo. Muito doloroso mesmo. Eu passei muito sofrimento psíquico mesmo, emocional também. Eu chorava muito, muita dor. E eu não tinha coragem de pedir ajuda pra ninguém. Porque eu não tinha coragem de falar com a minha mãe, com meu pai, eu não sabia o que ia ser da minha vida. Juntando a isso, também tinha um drama meio adolescente de não saber exatamente como vai ser, enfim. Então, realmente foi muito dolorido pra mim. Mas eu consegui passar, eu tomei a decisão de expurgar o sofrimento, então eu chorava muito, eu botava muito pra fora. Eu chorava muito, eu deixava a dor doer, vamos dizer assim. E isso me ajudou muito a passar por essa fase. A partir do momento em que eu comecei a perceber que quanto mais eu lutava pra não ser LGBT, mais eu percebia que eu não tinha nenhum tipo de poder sobre isso. E aí, eu comecei a perceber que, quanto mais eu lutasse, era uma guerra que não tinha vitória. Eu não ia vencer uma guerra, então eu desisti. Aí, eu comecei a pensar, tipo, será que é isso mesmo? Será que eu sou uma pessoa que vai ter que passar por isso na vida? Algumas pessoas passaram, será que eu sou uma delas? Pode ser. Comecei a encarar a realidade de ser isso mesmo. Comecei a pesquisar, comecei a procurar saber, a tentar me entender. Foi quando eu cheguei à conclusão de que não tinha como brigar contra isso, aí eu resolvi abrir pra minha família e…

 

Sidney: E a tua família, como foi que recebeu?

 

Callado: então, na época, eu ainda morava com meu pai. Meu pai nunca teve muita preocupação com relação a isso. Então, pra ele, foi uma coisa, tipo, ah, que se dane. Não foi nada preocupante, até porque ele não tinha muita preocupação mesmo. E minha mãe sofreu um pouco mais, na época, porque ela tinha algumas expectativas. Eu sou o filho mais velho, então ela planejou uma gestação. Todo mundo disse que ia ser menino, ela queria menina. E nasceu uma menina. Então, ela teve todo um projeto de vida que é inevitável das mães fazerem, de casar a filha, enfim… E ser a avó do filho da sua filha, enfim, é todo um projeto de vida ali que caiu meio que por água abaixo naquele momento. Nenhuma família espera, então minha mãe também foi pega de surpresa. Na época, ela ficou meio perdida, tanto quanto eu. E aí, depois de um tempo que a gente passou meio se estranhando, meio se acostumando com a informação, ela resolveu fazer terapia, pra tentar desconstruir os preconceitos que ela tinha, a fim de me aceitar. Então, foi um dia que ela falou uma frase pra mim que eu não vou esquecer. Que ela falou pra mim assim, “Você tenha paciência comigo, por favor, porque eu tô fazendo terapia pra desconstruir 50 anos da minha vida pra poder te aceitar, porque eu te amo”.

 

Sidney: Oh!

 

Callado: E aí, foi uma coisa que…

 

Dann: Muito lindo.

 

Callado: Muito profundo pra mim. Recentemente, eu fui no tatuador e fiz uma tatuagem com o nome dela no meu braço…

 

Sidney: Ai, que bonito!

 

Callado: Realmente, eu (incompreensível). E dali, eu tive um relacionamento com essa professora do estágio. E fiquei um ano e meio, se não me engano. Um pouco mais de um ano no relacionamento. Só que depois de uns seis ou sete meses no relacionamento, eu descobri que essa menina já tinha um outro relacionamento fixo de mais de 4 anos.

 

Sidney: Nossa…

 

Callado: É, numa relação relativamente abusiva. Muito agressiva, muito abusiva. E ela me cerceava muito. Não deixava eu ter amigos, não deixava eu conviver com o pessoal da faculdade, e ela era manipuladora, agressiva, blá-blá-blá. Como era o meu primeiro relacionamento, inclusive eu era adolescente, eu não consegui enxergar nada disso. Eu enxergo isso hoje. Isso eu falo hoje. Mas eu vejo, hoje, que era um relacionamento abusivo. Mas, na época, eu não conseguia enxergar. Até um ponto que começou a não dar mais, não tive mais condições de levar, e resolvi encerrar o relacionamento. E aí, parei por ali… (incompreensível) NO mundo LGBT, eu só tinha tido uma experiência HOMOSSEXUAL, mas não tinha vivido o mundo LGBT e toda sua cultura. E aí, foi justamente o pessoal da faculdade que me iniciou no mundo LGBT.

 

Sidney: entrou pro vale…

 

Callado: Isso (risos). Entrei pro vale. E aí, eu vivi a cultura gay até (incompreensível)… Ali eu me encaixei. Eu comecei a ver expressões mais tranquilas da minha personalidade. Então, eu cortei o cabelo, comecei a usar algumas coisas um pouco mais masculinas, me deu um alívio social tremendo. Eu realmente tava conseguindo fazer algo que eu gostava. Até então, eu sabia exatamente o que eu não queria. Eu não queria usar saia, eu não queria usar brinco, eu não queria uma série de coisas. Mas eu não sabia exatamente o que eu queria. Eu só sabia o que eu não queria. Então, ali eu comecei a descobrir o meu gosto. A descobrir que eu gostava de camisas, que eu gostava de boné, que eu gostava… Comecei a perceber as coisas que eu gostava. E aí, foi um alívio muito grande.

 

Sidney: então, pelo que eu tô entendendo, você se declarou pra sua família, e pra si mesmo, inclusive, enquanto homossexual. Vai ter outra saída do armário, no futuro, então. Não é isso?

 

Callado: Exatamente.

 

Dann: Eu queria ver com o Callado também a questão da religiosidade dele. Porque, se eu não me engano, Callado, você é candomb… (ele não consegue pronunciar) ai, gente…

 

Sidney: É do Candomblé.

 

Dann: É do Candomblé, não é isso?

 

Callado: Não, na verdade, eu sou Umbandista.

 

Dann: É umbandista, né.

 

Callado: Isso.

 

Dann: E como que foi esse toque seu com a religião? Isso foi depois de adulto, ou já é uma questão familiar? Qual é a sua relação com a religião?

 

Callado: Bacana, obrigado pela pergunta. Essa pergunta vai render bastante coisa. Bem bacana, bem legal (risos).

 

Dann: Eu achei pertinente.

 

Callado: Muito, muito. A religião sempre foi muito intrínseca na minha vida. Desde criança. Minha família toda é da Umbanda, minha vó era Mãe de Santo, meu vô era Ogã. Pra quem não sabe, Ogã é a pessoa responsável por tocar os atabaques. Na Umbanda, basicamente, é tocar os atabaques. NO Candomblé, o Ogã tem mais funções. Minha mãe também era médium de terreiro, então eu nasci dentro do terreiro. Fui batizado e passei a minha infância inteira correndo pelo terreiro. E quando eu comecei a ficar numa idade de mais consciência, saindo da infância, ali por volta dos 12, 13 anos, eu comecei a gostar de participar dos eventos religiosos, das giras, das celebrações. E comecei a aprender a tocar atabaque junto com meu pai. Então, existe também, em alguns centros, mulheres que tocam atabaques. Alguns, não. Mas outros têm. Então, eu comecei a tocar junto com meu pai, e comecei a me envolver um pouco com a religião. Só que eu tive um problema dentro do terreiro, entre os meus pais. Meus pais se separaram por conta de uma questão que aconteceu dentro do terreiro. Meu pai traiu minha mãe com uma moça de lá de dentro. Enfim, rolou um estresse, e minha mãe não quis ir, meu pai começou a parar de ir também. E eu comecei a querer ir sozinho, e aí foi quando começou a aflorar a religiosidade enquanto responsabilidade na minha vida. Eu não ia mais com os meus pais, eu já ia por conta própria e já assumi pra mim mesmo uma responsabilidade de participar efetivamente de alguma religiosidade, com periodicidade e com compromisso. E aí, eu comecei a frequentar, só que, em paralelo a minha ida, eu comecei a não entender algumas coisas. Eu gosto muito de entender o porquê das coisas. Então, eu sabia sobre os rituais, eu sabia exatamente o que eu tinha que fazer, mas não sabia o porquê. E aí, eu comecei a querer mais respostas, mais aprofundadas, e acabei saindo um pouco da umbanda, e fui achar essas respostas no Kardecismo. Passei de 4 a 5 anos, não lembro exatamente, frequentando o Kardecismo, e estudando. E o Kardecismo tem um caráter mais profundo em termos de estudo, de explicações, enfim. E achei realmente muitas respostas dentro do Kardecismo. Mas, aí, chegou um momento que eu fui levado de volta, basicamente, pra a Umbanda e voltei a frequentar o centro na época da minha avó. E aí, eu fiquei lá por um bom tempo, já com as minhas respostas, já vivendo por mim mesmo. E o centro resolveu fechar, tem alguma coisa de uns 4 ou 5 anos atrás, resolveu fechar o terreiro, até pela idade avançada dela. E aí, eu comecei a procurar uma outra casa, achei uma outra casa e, hoje, eu frequento (incompreensível). Bem resumidamente, o paralelo da minha religiosidade, desde criança.

 

Dann: Ai, que bacana. Eu tenho avó que era dona de terreiro, mas meu pai e minha mãe não me conectaram e ensinaram que era errado. Eu demorei anos pra me desprender.

 

Callado: É muito comum isso.

 

Dann: Desse conceito que criou na minha cabeça. E aí, eu amava… Nossa, e era uma confusão pra poder ligar essas coisas.

 

Sidney: Ah, eu queria arrematar a questão da tua religiosidade, Callado, porque… bom, é sempre a minha barra. Eu acho que, inclusive, os ouvintes já devem estar um pouco cansados de eu fazer esse mesmo questionamento. Porque não é raro que a religiosidade entre em conflito com as identidades LGBTs. E pelo que eu tô entendendo, você encontrou na sua religiosidade… Assim, se viu acolhido. E, de alguma forma, ela também te ajudou a tu se entender na tua identidade?

 

Callado: Olha, sem dúvida. Realmente me senti muito acolhido, principalmente no terreiro de Umbanda que eu frequento hoje. É uma acolhida, assim, que é sensacional. É muito bom conviver com esse nível de aceitação. Com esse nível de naturalidade. Vai alem da aceitação. Lá eu sou tratado com muita naturalidade. E a religiosidade foi muito importante pra mim porque, nos períodos que eu vivi de muita dor, de muito sofrimento psíquico, eu me agarrei muito na religiosidade. E aí, eu exercitei a fé mesmo. Então, eu aprendi a ter fé de verdade, eu aprendi a me conectar realmente com a divindade, através de orações, e isso realmente me manteve de pé e me manteve firme em muitos momentos.

 

Sidney: Eu adoro ouvir essas histórias de quando a religião ajuda nisso, porque eu acho revigorante. Porque, pra mim, foi tão o contrário, que quando eu escuto…

 

Dann: Uma história diferente, né…

 

Sidney: É, me dá um alívio de pensar que as coisas não são tão terríveis e a gente pode fazer uso desses mecanismos e dessas ferramentas, inclusive, que são usadas contra nós, a gente pode usar a nosso favor também.

 

Callado: É, o que eu vejo muito com relação a religiosidade é que muitas religiões que são mais tradicionais, como as religiões católicas e as religiões protestantes, por exemplo, em linhas gerais, tá… Por favor, em linhas gerais… elas são muito conservadoras e muito tradicionais. E elas acabam por ter uma história muito intrínseca aos Estados, por exemplo, às políticas dos países que a religião é professada. Eu sinto que elas têm um caráter muito político na sociedade. Na Idade Média, foi praticamente o Estado. Hoje em dia, a gente tem aí uma bancada evangélica muito forte no legislativo. Então, eu vejo uma participação dos representantes religiosos muito forte no poder estatal. E aí, quando você tem essa mistura, você foge um pouco da questão da religiosidade em si. E aí, você começa a ter uma mistura do poder religioso, do poder da divindade, com o poder estatal. E aí, você começa a criar, por exemplo, leis baseadas em escritos bíblicos, enfim. Começa a fazer uma salada e a gente sabe muito bem, historicamente, que não é… Não vem frutos bons, não surte muito efeito positivo pra a sociedade como um todo. Mas a Umbanda não tem essa participação. Acho que, por ser uma religião de matriz africana… Que a Umbanda, na verdade, não é uma religião de matriz africana, mas tem influência das outras que são. Tem um cunho excludente, de certa forma, até dessa parte de Estado. Então, a Umbanda não participa muito dessas manifestações estatais ou legislativas. Então, a gente acaba se prendendo mesmo à parte de religiosidade. Eu acho que a grande diferença tá aí.

 

Dann: Eu adorei esse relato sobre a Umbanda. E agora temos que começar a pensar no relato sobre a fase de transição. Como que você teve, no caso, começou a despertar essa consciência sobre a identidade de gênero?

 

Callado: Então, eu vivi no mundo LGBT durante bastante tempo, e eu conheci a minha esposa, e a gente começou o relacionamento. Em alguns meses, a gente já tava morando junto, e a gente oficializou o casamento, mesmo não tendo papel nem nada. E a gente começou um relacionamento, tava tudo bem, até um dia que eu tava navegando pelo Facebook aleatoriamente, e eu vi uma reportagem dizendo “Os 10 homens mais bonitos do mundo que nasceram mulheres”. E aí, eu não consegui abrir. Foi um choque. Uma coisa que realmente, uma segunda descoberta. Eu não sabia que essa possibilidade existia. Nunca tinha pensado nessa possibilidade. Aí, foi um choque pra mim, eu vi aquela reportagem, eu simplesmente não consegui abrir, aquilo ficou na minha cabeça durante alguns dias. Eu comentei, cheguei a comentar com a minha esposa que eu vi a reportagem, e tal, e eu não me senti à vontade pra ver. E a gente começou a pensar muito sobre isso, por que eu não me sentia à vontade pra ver. (incompreensível) certo ponto. E eu comecei a passar por um outro momento de descoberta, tipo, meu deus, será que é isso? E eu comecei a investir, comecei a pensar, comecei a voltar em episódios da minha vida, enfim. Mas eu não tinha nenhum tipo de referência, porque os LGBTs têm uma referência, a gente sabe quem é gay, quem é lésbica, quem não é. Mas na questão da transexualidade, ainda mais transexualidade masculina, não tinha muita referência. Na verdade, eu não tinha nenhuma referência. Então, eu (incompreensível) as fotos ali, e eu não conhecia ninguém que conhecia alguém. (incompreensível) Eu comecei a ficar muito perturbado com isso, uma coisa que realmente mexeu muito com a minha estrutura psicológica, emocional. E eu precisei de psicólogo. Foi uma coisa bem forte mesmo, eu comecei uma terapia porque eu tava passando por um período realmente muito crítico. Porque foi, mais ou menos, no mesmo modelo da primeira descoberta. Quanto mais eu tentava não pensar, ou brigar contra, mais eu me via ali naquela realidade. Cara, eu vou precisar de um psicólogo, porque isso é uma coisa muito séria, muito mais profunda e muito maior. Mexe com gênero, mexe com corpo, mexe com intervenção cirúrgica, mexe com documento, mexe com uma estrutura muito mais complexa. Mexe com sua história, porque eu ia reformular toda a minha história de vida. Então, eu realmente precisei de ajuda, eu comecei uma psicoterapia, e fiquei, pelo menos, uns dois anos, acredito eu. Não lembro exatamente, mas, com certeza, mais de um ano, eu fiquei em terapia, sem nenhum tipo de intervenção cirúrgica, nenhum remédio, nada. Só pra poder decidir e entender se realmente era essa a questão da minha vida, ou não.

 

Dann: Inclusive, esse processo de transição já tem quanto tempo, Callado?

 

Callado: Cara, agora você me pegou. Mas eu comecei a hormonização em 2013. Em janeiro de 2018, eu vou fazer 5 anos de hormonização. Eu ainda fiquei mais um ano e alguma coisa em psicólogo, então já tá indo pra 6 anos já, esse processo inteiro.

 

Dann: E, no caso, quando você contou isso para a sua esposa, como que ela lidou com essa situação?

 

Callado: Na verdade, eu não contei. A gente dividiu isso desde o começo, junto. Eu comentei com ela. Que a gente é muito amigo também, além de tudo, a gente é muito amigo. E aí, eu comentei com ela sobre a reportagem, e a gente veio conversando. E ela mesmo tentando me ajudar a entender o que tava acontecendo. E ela foi acompanhando, acompanhou todo o processo, desde a primeira centelha até todos os detalhes. Ela sempre teve muito presente, muito perto, muito próximo.

 

Sidney: Callado, eu sei que você não pode responder por ela, porque ela não tá aqui, mas a minha questão é a seguinte, sua esposa era casada com uma mulher lésbica, portanto, ela é uma mulher lésbica. Não sei se a identidade dela também já tá definida nesse sentido. Aconteceu algum tipo de conflito interno, ou mesmo externo, na relação, com relação a isso?  Porque, de repente, ela tava casada com uma mulher, e ela era lésbica. E agora, ela tá casada com um homem trans e, de repente, ela tá vivendo uma relação heterossexual.

 

Callado: então, isso aí foi uma das partes mais complexas, porque… É muito relevante isso, e é uma (incompreensível) que a gente teve também. Foi um ponto em que a gente simplesmente não tinha nenhum tipo de referência como isso ia acontecer. Como que ia ficar a questão do desejo, do interesse, e como que isso ia fluir ou não, de acordo com o desenrolar da transição. Mas, como eu já disse, a gente é muito amigo, então a gente resolveu ir junto e encarar junto. Até pra a gente ir vendo o que ia acontecer, porque a gente não tinha nem como traçar uma expectativa. E aí, a gente foi descobrindo, foi crescendo, foi aprendendo, e eu percebi que o gênero, na nossa sociedade, é criado de forma binária. Ou homem, ou mulher. E toda a sexualidade é pautada nisso. Então, ou você é um homem que gosta de homem, ou você é um homem que gosta de mulher, ou você é um homem que gosta dos dois. Então, no caso, por isso, a gente tem as três grandes sexualidades, o gay, a lésbica e o bissexual. NO caso, como eu estou transcendendo o gênero, esse formato de sexualidade apoiado ao binarismo de gênero, pra a gente, não faz mais sentido, por exemplo.

 

Sidney: Eu acho isso muito massa, sabe. De… Ai, continua…

 

Callado: O grande questionamento é esse, porque isso era uma coisa que me afligia na época, pensando, tá, mas e aí? Como que vai ficar agora? Quem é homossexual? Quem é heterossexual? E como é que vai ser isso? E nesse meio caminho, a gente começou a perceber que o fato de ela ser lésbica também é uma identidade. Existe uma cultura gay que se cria na sociedade. Então, é uma representatividade social também. A gente viveu alguns episódios em que socialmente a gente figurava como casal heterossexual, pra algumas pessoas que já começavam a não saber da minha história, porque eu já tava com aspectos e aparência masculinas. As pessoas conheciam a gente assim e já imaginavam de pronto que a gente era um casal heteronormativo. E em alguns eventos que ficava claro e evidente que ela era homossexual, e começou a criar uma serie de constrangimentos. A gente teve algumas discussões com relação a isso, que eu comecei a cobrar que ela figurasse como heterossexual, porque eu precisava disso. Foi um padrão egoísta, eu não tinha percebido isso nesse primeiro momento, foi mais da vivência mesmo, foi ensaio e erro. E ela se esforçou pra viver isso, só que quando ela se esforçou pra viver isso, acabou desconstruindo uma identidade inicial enquanto lésbica. E ela viveu também uma crise de identidade que foi complexa. Então, a gente sentou, conversou, começamos a pensar sobre. E aí, eu comecei aperceber que eu tava sendo relativamente egoísta nesse sentido. E eu comecei a me desprender. Hoje, eu não preciso mais disso, figurar como heteronormativo. Porque a definição homossexual ou heterossexual, pra mim, ela não cabe, porque ela é apoiada num binarismo de gênero que, pra mim, não cabe. Então, não serve pra mim. Eu respeito a identidade dela enquanto lésbica socialmente, na mesma medida que ela respeita a minha identidade masculina e a gente conseguiu entrar num padrão de respeito muito bacana, em que a gente consegue conviver em paz com isso. As pessoas dão uma bugada…

 

Sidney: Eu imagino. Nossa.

 

Callado: Não conseguem entender muito bem o que tá acontecendo, e fica todo mundo com uma cara meio de besta, não sabe nem o que perguntar. Mas, pra a gente, tá funcionando super bem, foi a forma que a gente achou de, graças a deus, conseguir se respeitar e conseguir viver bem nesse sentido.

 

Sidney: Ai, Callado, eu tô, assim, coraçõezinhos nos olhos. Porque é uma história muito linda. Porque é a prova de que as relações humanas não precisam se basear na genitália. E se você gosta da pessoa pelo que a pessoa é, olha… eu não sei, eu fico emocionado só de ouvir.

 

Dann: É desprovido de rótulos, na verdade.

 

Sidney: Sim, sim.

 

Dann: Literalmente.

 

Callado: Na verdade, não digo desprovido de rótulos. Mas eu digo que os rótulos que existem hoje são relativamente insuficientes pro relacionamento que a gente tem. Não existe um rótulo já feito que a gente possa se encaixar, “Ah, tipo, nosso relacionamento é isso”. E a gente passa a vida buscando esse rótulo, porque isso é imposto socialmente, você tem que ter um nome pro seu relacionamento, mas a gente começou a perceber que não tinha que ter um nome pro relacionamento. Por que tem que ter um nome? O fato de criar um nome tava estragando um relacionamento que, sem nome, tava bom.

 

Sidney: Sim.

 

Callado: Então, pra que estragar pra botar um rótulo? Na verdade, os rótulos são relativamente insuficientes, e nem se precisa mais deles nesse momento.

 

Sidney: E quando o que prevalece é o respeito e a cumplicidade, fica mais nítido que a gente não precisa se apegar a esses termos, que são… A gente se esforça muito pra se encaixar em rótulos pra saber circular entre a sociedade, mas eles acabam também nos limitando e nos privando de viver experiências maravilhosas, inclusive, de grandes amores, porque a gente tá preso na caixinha.

 

Callado: Eu acho que a gente precisa realmente se rever, e pensar sobre. Porque são coisas que foram relativamente criadas, na verdade, esses rótulos, em algum momento, foram criados com base em ideologia ou, enfim, o que seja.

 

Sidney: construções.

 

Callado: É, são construções sociais.

 

Dann: Até a própria heterossexualidade cis-gênero, por exemplo, é uma construção social.

 

Callado: Com certeza. E aí, eu acho que enquanto ela tá dando conta do recado, ela tá ali passando despercebida. Mas a partir do momento que ela não tá mais sendo suficiente, ela precisa ser revista, ela precisa ser repensada. Então, a partir do momento que a gente não tá mais confortável com isso, a gente começou a olhar pra isso e repensar. E aí, começamos a perceber que não tinha tanta necessidade assim, e que essa construção já tava vazia. E resolvemos abolir esse tipo de preocupação. Já são tantas. Quanto menos, melhor.

 

Sidney: Verdade. Que maravilhoso. Agora eu fiquei com a dúvida ainda. Fiquei com a questão da sua mãe e aquela frase maravilhosa que ela falou, quando você se declarou homossexual. E agora, quando você se mostrou enquanto homem trans, como é que foi pra ela?

 

Callado: Esse episódio foi muito engraçado. Eu tentei dar pistas pra ela, pra que eu não precisasse falar. Foi muito complexo pra mim falar sobre isso. E aí, eu já tava casado, já não morava mais com a minha mãe. Na época, eu atuava como personal trainer dela. Ela precisava malhar e eu tava junto com ela nesse momento. Então, nesses episódios que eu trabalhava junto com ela, eu ficava tentando dar pistas pra que ela pegasse assim, que eu não tivesse que falar. Mas não tava dando muito certo, não. Eu preciso conversar isso com minha mãe, porque eu achei até uma falta de respeito em algum nível, eu começar uma transição hormonal, começar uma mudança nesse nível sem nem comunicar a ela, e deixar que ela percebesse por si só. Eu achei que ia ser uma agressão a tudo que ela construiu em termos de expectativa, e todo o apoio que ela já tinha me dado até aqui. Eu acho que todas as fases que eu passei de descoberta do meu gênero, as pessoas próximas a mim também passaram exatamente da mesma forma, cada um a seu tempo, essa foi a única diferença. Então, mudança de pronomes, mudança de nomes, mudança de (incompreensível), social, tudo isso as pessoas passam. As pessoas que convivem comigo, que conviveram comigo, na época, passaram e passam. Mas cada uma a seu tempo. Eu entendo perfeitamente todas as fases das pessoas, e consigo respeitar isso de alguma forma. Então, eu precisava passar isso pra a minha mãe, pra que ela pudesse viver essas fases. Eu marquei um almoço com ela, na época, pra falar sobre isso. E aí, a gente chegou lá, ela sabia que eu tinha marcado o almoço pra falar sobre uma questão importante que eu tinha pra falar pra ela. A gente almoçou, (incompreensível) sobremesa, (incompreensível) picolé, eu fiquei enrolando o Máximo que eu pude. E ela, “Fala, você precisa falar alguma coisa. Fala, fala”. E eu não conseguia falar. E ela falou pra mim assim, “Eu já sei o que você tem pra me falar”. Aí eu falei, “Então fala você”. E ela falou mesmo. Ela falou, “Você quer ser homem, né?” Eu falei, “É, basicamente isso”. Ela falou assim, “Bom, isso aí eu já sabia, eu tava esperando esse momento. E vamo lá, vamo nessa”.

 

Sidney: Ai…

 

Dann: Ah…

 

Callado: foi uma coisa que foi muito bacana, tirou  um quilo das minhas costas, ela me ajudou muito e brigou muitas batalhas junto comigo. Inclusive, me ajudou muito a conseguir minha cirurgia. Eu fiz a minha cirurgia do tórax pelo SUS. Na época, minha mãe era funcionária do hospital que fazia a cirurgia, e eu não sabia que o hospital fazia a cirurgia. Ela que descobriu, ela foi lá no setor de cirurgia plástica, descobriu que faziam e me avisou. “Olha, eles tão fazendo”, e tal. E eu fui lá, conversei com a chefe do setor, tudo intermediado por ela, ela conseguiu abrir esse caminho pra mim. Eu até levei um colega que, na época, tava fazendo a transição junto comigo e precisava fazer a cirurgia também. Ele foi junto comigo lá no hospital. Ele não tinha nenhum tipo de conhecimento com ninguém lá, e acabou fazendo até a cirurgia antes de mim. E sem o apoio da minha mãe, eu acho que eu não ia conseguir abrir essas trincheiras que eu consegui.

 

Dann: Nossa, eu fiquei emocionado.

 

Callado: E não tem problema nenhum com isso, ela briga muito pra me respeitar. Eu acho que ela passa até por cima dela, muito, demais. Já até conversei um pouco com ela, porque ela não se respeita em termos das fases que as pessoas passam. Então, eu tive que desconstruir o gênero feminino pra poder construir o masculino em cima, e todas as pessoas que convivem comigo passaram por essa fase. Essa fase é uma fase necessária pra que haja, efetivamente, o respeito e a solidificação do gênero. E ela não conseguiu passar por essa fase. Ela começou a tentar botar na cabeça que ela tem dois filhos homens e é isso. Ela não tem mais um casal. E aí, como ela não conseguiu desfazer o meu gênero feminino, e tentou fazer um gênero masculino em cima, as vezes ela ainda erra o pronome. Erra o nome, erra o pronome. Aí, ela fica meio constrangida. Eu falo, não, pode falar, mãe, acontece, normal, passou. Mas eu sinto que ela ainda precisaria encarar isso um pouco mais mastigado, eu acho. Na ânsia de me respeitar e de me chamar pelo meu nome masculino e acertar os pronomes, ela acabou pulando algumas etapas do processo.

 

Sidney: Ela quis ligar e desligar o interruptor, e esqueceu de fazer a transição junto com você. Não é verdade?

 

Callado: Na verdade, eu acho que ela ficou muito ansiosa em me respeitar, e não conseguiu passar pelas fases. Como todo processo, quando você pula fases, você acaba ficando deficitário. Mas eu respeito também, porque cada um tem a sua forma. E eu acho que ela já conviveu com meu gênero muito antes de eu nascer, então é a pessoa que mais tem vivência com o meu gênero, em termos de tempo. Então, eu não tenho nem parâmetros pra julgar a minha mãe, muito menos julgar aquilo que ela já fez por mim.

 

Sidney: Nossa! Eu já sou fã da sua mãe.

 

Dann: É uma lindinha.

 

Sidney: Já virei fã (risos).

 

Dann: Danilo, a gente tá chegando no momento final do programa. E a gente tem uma pergunta que a gente sempre faz para os convidados. Porem, eu sei que eu vou furar um pouquinho a pauta aqui, eu só queria te perguntar uma coisa, que é relativa aos homens trans. Eu tenho dois conhecidos que são homens trans, e eles, ou então, tanto as namoradas… elas relatam, ou eles também relatam, sobre o processo de transição, esse assumir-se do masculino e todo o processo que permeia, acontece que alguns homens podem ser machistas de uma forma exagerada, e isso pode até causar certos conflitos dentro do relacionamento. Você já se pegou sendo machista em relação a algumas situações especificas?

 

Callado: Olha, eu nunca me peguei, não. Mas se aconteceu, passou batido. Eu acho que o machismo, na transição de homens trans, é rela… Infelizmente, ele ainda é muito presente. Mas eu acho que ele passa pela mesma via de autoafirmação que eu convivo na academia. Então, eu acho que os homens tem muito a visão de masculinidade atrelada ao machismo. Então, eles acham que ser homem é ser escroto, é cantar mulher, é exercer o machismo. Eles associam muito isso. A sociedade, em si, associa muito o machismo à masculinidade. Então, eu nunca fui muito a favor disso, eu consegui descobrir e construir o meu gênero masculino fora desse padrão, porque eu acho que o machismo é, essencialmente, uma falta de respeito. Então, eu tenho o respeito muito intrínseco à minha vivência em todos os campos da minha vida. Eu sou muito preso ao conceito de respeito. E eu acho que, quando você é machista, por essência, você é invasivo. Você tá invadindo o espaço da feminilidade, expandindo a masculinidade num padrão que ela não deveria estar ali. Eu sempre construí a minha masculinidade com muito respeito à feminilidade, e não vi esse padrão machista, não. Mas, infelizmente, fico muito chateado quando eu vejo, porque eu acho que muitos homens trans tentam queimar etapas. Como eu disse, eu tenho 6 anos nessa vivência já, e foi tudo um processo. Foi tudo muito devagar, muito mastigado. Esses conceitos que eu passo pra vocês aqui hoje, nem sempre foram tão elaborados assim. Então, eu fiz terapia intensa durante muitos anos, e foi realmente muito complexo passar por tudo isso. Mas, como todo processo complexo, ele gera um aprendizado muito complexo também e, graças a deus, eu consegui construir também um gênero bem sólido, que não passou pela via do machismo, não. Graças a deus.

 

Dann: Ah, que bacana.

 

Sidney: Excelente.

 

Dann: E agora é a hora do Momento Super poderes, né, Sidney?

 

Sidney: sim, essa é aquela hora que a gente pega o convidado de surpresa, e faz aquela pergunta que fica alguns segundinhos, assim, para responder, sempre.

 

(VINHETA: ENTRE EFEITOS SONOROS DE IMPACTO E DE DISTORÇÃO DE ÁUDIO, A VOZ ANUNCIA “MOMENTO SUPER PODERES!”)

 

(FADE IN E FADE OUT DA TRILHA SONORA)

 

Dann: Então, Danilo, se você tivesse um super poder, para combater toda essa LGBTfobia que a gente vê diariamente, qual seria o seu super poder?

 

Callado: Empatia. Eu acho que as pessoas cometem preconceitos por falta de empatia. Então, hoje, por exemplo, por já ter tido uma vivência socialmente como mulher, por exemplo, eu sei exatamente o que uma mulher passa quando ela tá menstruada em público. Então, eu acho que você conseguir se colocar no lugar do outro. E eu acho muito que, também… Não, eu acho que é isso mesmo. Basicamente, empatia. As pessoas não conseguem se colocar no lugar do outro. Depois que eu tive essa vivência LGBT, tanto homossexual como transexual, eu consegui ser cada vez mais humano. Por exemplo, hoje, eu tenho uma empatia muito grande com pessoas que têm algum tipo de deficiência física, mental, por exemplo. Então, consigo perceber o nível de exclusão que essas pessoas passam, por pura falta de empatia.

 

Sidney: Ah, nem me fala, migo.

 

Callado: No lugar do outro. Um cadeirante, uma pessoa cega, surda, enfim…

 

Sidney: Acho que você não reparou, Callado, mas você tá conversando com uma pessoa cega.

 

Callado: Aí, pois é. Então, nem tinha reparado mesmo, não. Então, eu acho que, nesse sentido, acho que falta muita empatia. Você tentar se colocar no lugar do outro, enxergar o que o outro tá vivendo e quais são as dificuldades das pessoas. Imaginar quais poderiam ser a dificuldades, como você lidaria se fosse você com aquelas dificuldades, e o que você pode fazer pra aliviar as dificuldades de uma outra pessoa e de um grupo, de uma minoria que sofre algum tipo de preconceito ou algum tipo de problema com relação a isso. Então, o super poder que eu teria, que eu gostaria de ter, é de provocar empatia.

 

Dann: Adorei seu super poder. E é um super poder necessário. Acho que os LGBTs sentem necessidade. Se eu não me engano, já foi dito umas duas vezes esse super poder de tocar a empatia do outro ou saber se colocar…

 

Sidney: É, de formas diferentes, mas sempre surge. E como a gente sempre diz também, é o super poder plausível e possível na vida real.

 

Dann: Sim.

 

Callado: Na verdade, não por coincidência, mas ele é o maior mandamento e ensinamento de deus. Amai a deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo.

 

Dann: Olha, eu poderia conversar com o Danillo por horas. Pena que é uma pauta que a gente chega ao fim mesmo. E eu teria outras perguntas que seriam interessantes trabalhar. Mas, infelizmente, a gente chegou ao fim. Danillo, você foi um fofo. Eu te acompanho nas redes sociais, tem talvez uns dois anos ou dois anos e meio. Até mesmo pelo fato de a gente ser xará, eu tenho uma empatia, um carinho enorme por ti. Não te conheço pessoalmente, mas a gente acaba convivendo com as pessoas online, e tem um carinho especial por essas pessoas. E você é uma delas. Eu tenho um carinho enorme. Muito obrigado por ter vindo e ter disponibilizado seu tempo aqui e bater um papo conosco.

 

Callado: Legal, bacana. Achei bacana também poder explicar, poder falar um pouquinho sobre essa vivência. Achei legal. Eu que agradeço a oportunidade. Obrigado.

 

Sidney: Ah, muito obrigado, Danillo.

 

Dann: Se você quiser, Danillo, eu não sei se você deseja isso… Não sei. Mas se você quiser deixar suas redes sociais pra alguém te acompanhar, alguma coisa assim do tipo, você fique à vontade, ou se você tiver algum projeto, alguma coisa que você queira divulgar, aproveitar também este momento e deixar aí pra a galera saber um pouquinho sobre…

 

Callado: Cara, vou te falar o seguinte, não sou muito um cara de redes sociais, não. Mas é o seguinte, por exemplo, não tenho Instagram, não tenho Twitter, não tenho nada disso, não. Mas eu tenho só o meu Facebook mesmo, e não posto muitas coisas de militância lá, não. Porque a minha militância no meio trans é mais essas conversas mesmo, essas construções de conceitos que eu faço com o pessoal no meu dia a dia. Eu não costumo militar nas redes sociais, não. Então, se alguém quiser me seguir pra ver coisas com temática LGBT, vai acabar dando com o burro n’água (risos). Mas meu Facebook tá lá, eu não sei nem se tem a função pra seguir, vou ser sincero. Eu nem sei se tá habilitado, ou não. Mas se tiver, é seguir lá no Facebook. Não tenho muitos mistérios com isso, não. Eu também não tenho nenhum grande projeto, não. Eu gosto… Não que eu viva no anonimato, mas eu acho que essa questão da transexualidade é uma questão de conhecimento público, mas é de cunho pessoal. Então, não é uma questão que eu saio propagando de pronto nos meus meios sociais, não. Não é uma coisa que eu faço questão de esconder, quando surge essa temática, eu falo, eu converso. Não tem problema com isso. Eu acho que a educação e a informação é o meio mais eficiente, na minha visão, de combater um preconceito. Justamente, um preconceito é um conceito não formado, é um conceito formado com poucas informações. Mas eu não sou muito de militar., não. Até porque eu acho que isso é uma exposição relativamente desnecessária. Muita gente confunde. Existem curiosidades que são educativas, como as perguntas de vocês, que foram ótimas. Mas tem curiosidades que são relativamente mórbidas, que não acrescentam muita informação. Então, eu prefiro não me expor nesse ponto, porque no meio de pessoas sem noção que entra pra fazer perguntas muito mais sem noção ainda, tá muito maior do que eu gostaria que existisse.

 

Sidney: Acaba desgastando…

 

Dann: É, e de fato, a internet não tem limites.

 

Callado: Na verdade, a gente tem que impor. Realmente, as pessoas não têm limites, não. Mas esse tipo de curiosidade mórbida eu não costumo sanar, não.

 

Sidney: Então, fica a dica aí pros nossos ouvintes, a gente vai linkar a página do Callado, mas SEJEM educados, não faz vergonha à gente, tá.Por favor.

 

Callado: Na verdade, ser educado é o mínimo. Quando acontece algum tipo de episódio desse, quem passa vergonha é a pessoa que perguntou.

 

Sidney: Exatamente.

 

Dann: Acreditamos que o ouvinte do HQ da Vida seja um ouvinte sensato.

 

Sidney: Callado, eu vou pedir só pra tu dar um tchau pro pessoal, se despedir.

 

Callado: valeu. Galera, foi um prazer conversar com vocês, muito obrigado pela oportunidade de poder deixar aqui informações úteis, e pra quem quiser saber mais sobre o mundo da transexualidade, eu indico com muito prazer o livro do meu amigo João Nery, viagem Solitária. E o site da queridíssima Letícia Lanz, tem muita informação de qualidade lá.

 

Sidney: Ah, excelente. A gente vai colocar os links no post. O João Nery, inclusive, já foi entrevistado nosso aqui. Se eu não me engano, é o episódio 07 do HQ da Vida, a gente vai linkar também.

 

Dann: Danillo, muito obrigado.

 

Callado: Eu que agradeço.

 

Dann: Obrigado.

 

(FADE IN E FADE OUT DA TRILHA SONORA)

 

Dann: Enfim, que programa maravilhoso, Sidney.

 

Sidney: Ai, Danilo, olha, depois que eu escuto histórias como essa, eu fico de coração quentinho. É muito bom ouvir, não é mesmo?

 

Dann: Nossa, eu adorei as intersecções que o Danillo pôde nos mostrar e exemplificar tão carinhosamente. E pessoal, a indicação de hoje é comigo. A última foi do Sid, e eu vou indicar pra vocês um livro do Guilherme Gomes Ferreira. O Guilherme Gomes é assistente social, e ele pegou a dissertação de mestrado dele e transformou em livro. A dissertação chama “Travestis e prisões: experiência social e mecanismos particulares de encarceramento no Brasil”. Eu conheço o Guilherme Gomes pelo Facebook. E o dia que ele lançou o livro, eu fiquei todo empolgado e comprei, e vale a pena para vocês darem uma apreciada. O verso do livro é, nada mais, nada menos, pela poderosa e já nossa entrevistada Jaqueline Gomes de Jesus, que vocês já sabem que é doutora em Psicologia Social. Então, aproveitem aí, que vocês também terão uma oportunidade de ler a apreciação da Jaqueline Gomes sobre o livro do Guilherme. Ok?

 

Sidney: Ah, excelente. E a temática sempre muito urgente e muito importante. Sobre travestis.

 

Dann: Principalmente como que ocorre esse encarceramento no país, que já é desumano em qualquer identidade de gênero e de sexualidade. Mas quando se trata de travestis, o sistema é pior. E aí, precisamos refletir sobre esses modelos de encarceramento.

 

Sidney: Isso. Agora vamos para as nossas redes sociais. E hoje a gente tem mais coisas pra dizer. Vamo lá, facebook.com/hqdavida; twitter.com/hqdavida; soundcloud.com/hqdavida; nosso site é o hqdavida.com.br; se você quiser comentar no nosso podcast, lá na postagem. E também lá no site tem um formulário de contato. Se você quiser mandar um email pra a gente, você manda no hqdavidaWgmail.com; a gente também publica no Medium, é @hqdavida; estamos no Youtube também, “HQ da vida Podcast”. E a gente pede, três coisas hoje, a gente vai pedir. Aumentou a (risos) mendicância aqui. A gente pede que você, 1. Nos avalie no iTunes, dê 5 estrelinhas pra a gente. Gente, não custa nada, é de graça. E 2. Ou 3. Apadrinhe a gente. A gora, a gente tá com os nossos programas de apadrinhamento, de patronagem. Você pode contribuir pra ajudar a gente a manter o podcast no ar. Porque manter isso aqui funcionando custa dinheiro. Se você quiser ajudar a gente, você vai lá no patreon.com/hqdavida; pra contribuir em Dólar; ou padrim.com.br/hqdavida; pra contribuir em Real. Ok?

 

Dann: E aí, gente, a questão do podcast, a gente faz com muito prazer e com muito gosto. É quinzenal pra vocês. A gente só quer mesmo esses padrinhos pra nos ajudar a manter o site, o WordPress… É porque, infelizmente, custa. E o Sound Cloud também. Custa muito. Então, a gente precisa só desse apoio aí pra a gente manter essas belezuras no ar. Ok? Muito obrigado aos padrinhos que, já aí nessa semana que lançamos o patronato, já fomos agraciados; patreon.com/hqdavida; padrim.com.br/hqdavida; É isso aí. Tchau, tchau.

 

Sidney: Xero, gente. Até o próximo HQ. Tchau.

 

(FADE IN E FADE OUT DA TRILHA SONORA)

 

FIM

 

Transcrito por Sidney Andrade

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