Transcrição – HQ de Bolso #08 – Transexualidade

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Transcrição – HQ de Bolso #08 – Transexualidade

 

(Nota: a transcrição é um recurso de acessibilidade que viabiliza o acesso para pessoas com alguma deficiência auditiva, além de ser um mecanismo eficiente de consulta para o conteúdo do podcast. Não pretende, portanto, substituir a audição do programa, mas, sim, complementá-la)

 

Vinheta de abertura: entre efeitos sonoros de impacto, uma voz com reverberação anuncia “HQ DA VIDA, o seu podcast sem quadrinhos.”

 

(Trilha sonora de Background alusiva a histórias em quadrinhos)

 

Dann: Olá, ouvinte. Aqui é Dann Carreiro.

 

Sidney: eu sou Sidney Andrade, e esse é o nosso HQ de Bolso número 08.

 

Dann: então, o HQ de Bolso tem a intenção de provocar discussões iniciais sobre temas que abrangem as vivências Queer. A gente quer começar o assunto para que você possa ter um ponto de partida com o qual poderá buscar mais informações. Queremos iniciar conversas importantes que precisam ser debatidas sempre mais a fundo. Mas lembrando, aqui é só o começo.

 

(FADE IN E FADE OUT DA TRILHA SONORA)

 

Sidney: É isso mesmo, Danilo. E hoje nós vamos falar sobre outra letrinha da sigla que, infelizmente, ainda é muito mal compreendida, o T, que pode se referir aos termos Transexuais, Travestis ou Transgêneros. A gente vai, inclusive, explicar qual é a diferença entre todos esses termos que estão numa letra só.

 

Dann: Antes de começar, vamos dar uns beijos para os nossos queridos patrões.

 

(Vinheta: Trecho de música, entre o batidão e sons de beijos, Mc Xuxú canta “Um beijo pra quem é DJ, um beijo pra quem é Mc, um beijo pra quem é do bem, um beijo pras travesti!”. A voz de Pabllo Vittar finaliza “Eu não vou perder meu tempo lendo hater”)

 

Dann: Nós temos lá no Patreon, Fernanda Cary, Deivson Hoffmann, a fofa da Carla Gonçalves, e o queridíssimo, maravilhoso Wagner Coutinho (risos).

 

Sidney: Olha esse favoritismo aí…

 

Dann: E no Padrim, nós temos nosso mais novo padrinho, que é o Luciano José. Obrigado por entrar e apoiar esse projeto. E quem quiser nos apoiar, pode entrar lá, http://WWW.padrim.com.br/hqdavida ; http://www.patreon.com/hqdavida ; nos ajude, gente. A gente não quer ficar rico, a gente só quer manter esse programa e trazer mais novidades, e trazer mais coisas. A gente jura que a gente ainda não quer ficar rico (risos). Tá longe disso.

 

Sidney: Na verdade, ficar rico, todo mundo quer. Mas com o podcast é que não vai ser, migo, vamos combinar (risos).

 

Dann: Mais ou menos isso. Tem que trabalhar muito em outras coisas.

 

Sidney: A gente não tá Alicinha desse jeito ainda.

 

Dann: Justamente. E, Sidney, você vai mandar beijinhos pra quem essa semana?

 

Sidney: Vou mandar beijos, beijinhos e beijos carinhosos pra dois comentadores que fizeram comentários muito fofinhos lá nos nossos programas, que foi o Anderson Clark, fez um comentário muito fofo; e o Rodrigo Cornélio, que já tá virando comentador assíduo lá no nosso site. Beijos pra eles que comentaram. Também queria mandar beijos pra Érika Ribeiro e Amanda Aguiar, lá do SAD no Ar e do Seriadores Anônimos, beijinho pras meninas aí, o casal Amérika, esse ship maravilhoso, que todo mundo ama na podosfera. E Danilo parece que quer fazer uma menção aí, né, Dann?

 

Dann: É, eu quero mandar um beijo pra as meninas do Chá com Rapadura, elas também têm interagido com a gente lá no Twitter, enfim. Elas, Amérika, e companhia limitada. O Twitter, gente, é um local ótimo pra interagir com o HQ da Vida também.

 

Sidney: quero mandar um beijo pro pessoal lá do Chá com Rapadura porque elas são o sotaque mais maravilhoso dessa podosfera. Lá do Reino Unido, trazendo o sotaque cearense para todos os ouvidos mundiais. Um xero pra as meninas, eu adoro esse podcast, gente. Gente, escuta lá. Recomendamos.

 

Dann: Adoro quando elas mandam um xero. E a vinhetinha delas.

 

Sidney: E a vaia cearense, que eu amo de paixão. Vaia cearense, lá você pode escutar várias.

 

(FADE IN E FADE OUT DA TRILHA SONORA)

 

Dann: A Pauta é sobre a letra T, as pessoas transexuais. E aí, a gente vai falar um pouco sobre…

 

Sidney: Começar…

 

Dann: Começar…

 

Sidney: Começar pelo começo.

 

Dann: Pelo começo. Vamos lá, Sidney.

 

Sidney: Olha só, em primeiro lugar, a gente tem que entender em que lugar da discussão está a letra T de trans. Tem trans que pode ser Transgêneros, Travestis ou Transexuais, a gente já, já, entra nesses meandros. Mas tudo se refere a trans, que está localizado… Lembra lá no nosso HQ de Bolso #03, que a gente falou a diferença entre identidade de gênero e orientação sexual? Então, a transexualidade, a transgeneridade estão no âmbito da identidade de gênero. Então, não são orientações sexuais, são identidades de gênero. São como os sujeitos se identificam e se posicionam no mundo a partir do gênero e dos conceitos de gênero. Lembra daquela diferençazinha básica? O sexo, biológico, e o gênero, que é social. Então, toda pessoa trans é uma pessoa que não se identifica com o papel de gênero que é esperado do sexo que lhe foi atribuído. Nesse primeiro momento, a gente vai fazer uma distinção básica entre pessoas cisgêneras e pessoas transgêneras.  Cisgênero, toda pessoa que se identifica com o sexo que lhe foi atribuído no nascimento. Eu e Danilo somos dois homens cisgêneros, por exemplo, aqui.

 

Dann: Justamente.

 

Sidney: E transgêneras são as pessoas que não se identificam com o sexo que lhe foi atribuído no nascimento. Então, lhe foi atribuído um sexo, a esse sexo se segue uma série de expectativas, por causa do gênero que é correspondido, mas essa pessoa não se identifica, ela se identifica de outro modo. Então, ela passa a ser uma pessoa transgênera.

 

Dann: Em suma, o que Sidney falou, a ciência biológica que vai determinar o sexo de uma pessoa, e o gênero já é uma construção social, ele vai além do sexo. O que importa na definição do que é ser homem ou ser mulher não são os cromossomos nem a formação genital, mas a autopercepção que a pessoa tem e como também ela se expressa socialmente. Vale também dizer que, por exemplo, essas questões de gênero variam entre as culturas. Existe, no nosso material dos links da postagem, vocês vão ter… Inclusive, um dos materiais está sendo repostado, que é da nossa queridíssima Jaqueline Gomes de Jesus, que é um livrinho pequenininho de 24 páginas, dando exemplos, é bem didaticozinho, e dá pra poder entender em três passos as questões de identidade de gênero. E ela diz, por exemplo, que muitas mulheres nos países nórdicos têm características que, pra nossa cultura, são lidas como masculinas. E ser masculino, no Brasil, é diferente do que ser masculino no Japão ou na Argentina. Isso me lembra muito, por exemplo, que eu já vi em algum quadro, não lembro se era em Youtube ou alguma coisa do tipo, que era assim, tinha homens europeus, e a pergunta era se era gay ou hétero. Porque, segundo os nossos padrões do que é ser gay, por exemplo, de se expressar… E olha que isso não é identidade de gênero, é orientação sexual. O homem hétero europeu parece muito com o homem gay brasileiro. Então, essas questões de performance de gênero, o que é ser homem no Brasil, ser homem na Europa, por exemplo, varia muito.

 

Sidney: Isso que tu tá dizendo é interessante porque, a partir dessa observação das diferenças do que é esperado, do que é considerado masculino e feminino, entre os países, observando isso a gente tem a noção tácita, visível, de que gênero é uma construção social, não é um fato natural. Porque se se diferencia de cultura pra cultura, então o que determina a noção de gênero é a cultura, não é o ambiente, não é a biologia, nesse caso.

 

Dann: Justamente.

 

Sidney: E ainda pegando esse gancho, gente, outra coisa que a gente costuma ouvir ser confuso é o que é um homem trans, o que é uma mulher trans. As pessoas ficam, enfim… A sequência dos acontecimentos, pra a maioria das pessoas, ainda é confuso. Então, vamos esclarecer. Homem trans… transexual você já entendeu o que é, é a pessoa que não se identifica com o gênero que lhe foi atribuído. Então, vamos lá, um homem trans foi uma pessoa que, ao nascer, lhe foi atribuído o sexo feminino, porque ele nasceu com uma genitália feminina, uma vagina, mas ela não se identifica com esse papel, e se identifica com o gênero masculino. Então, essa pessoa é um homem trans, que ela passou do sexo atribuído feminino, mas não se identifica com os papeis de gênero femininos, e sim com os masculinos. Então, ela é um homem trans. NO caso, uma mulher trans, ao contrário, é quando uma pessoa, ao nascer, lhe foi atribuído o sexo masculino, mas ela se identifica com os papeis de gênero femininos. Então, ela é uma mulher trans. Ok? É importante a gente ressaltar que pessoas não binárias, ou seja, pessoas que não se identificam com esse binarismo de gênero, ou mesmo as pessoas que são fluidas, a fluidez de gênero, elas também, conceitualmente, são encaradas como pessoas trans. Porque, pelo conceito, trans é toda pessoa que não se identifica com o sexo atribuído. Nesse sentido, pessoas não binárias também são trans. É claro que, na vivência do dia a dia, esses discursos podem entrar em choque, porque a gente tá falando aqui só dos conceitos. E a gente vai deixar isso aqui em aberto, porque a gente vai fazer um programa só sobre não binariedade e sobre fluidez de gênero também, que é um assunto que merece um HQ de Bolso só pra ele. Né, Danilo?

 

Dann: Justamente. Inclusive, Sidney citou aí das pessoas não binárias, antigamente elas eram denominadas como andróginas, e esse termo não é utilizado hoje. Lembrando também que, dentro da letra lá dos LGBTTQIPA, tem as pessoas intersexuais, que podem também ser pessoas trans. Ok? E temos também que falar algumas confusões que as pessoas causam. Por exemplo, a vivência do gênero pode ser tida como identidade, que é o que a gente acabou de falar, que são as pessoas transexuais e as travestis. E também pode-se ter como funcionalidade, repare bem na diferença, porque muitas pessoas começam a jogar tudo dentro da sopa de letrinhas, e misturar o que é gênero como identidade e gênero como funcionalidade. A funcionalidade se refere neste quesito, isso é uma categorização que foi expressa pela Jaqueline Gomes de Jesus, ela fala o seguinte, a identidade é o que a gente já disse, e a funcionalidade é representada por cros-dressers, drag queens, drag kings e transformistas. Por exemplo, eu visto de drag. A minha identidade de gênero não é drag Queen. Eu me identifico como homem cisgênero. Então, não confundam e enquadre aí como identidade de gênero, pois não é.

 

Sidney: Importante não confundir drag queens e drag kings com transgêneros, pessoas trans. Uma coisa não significa a outra. Uma drag pode ser uma pessoa trans, mas nem toda drag é trans. Pode ser cisgênero como, por exemplo, o Danilo, que se monta de vez em quando, mas é um homem cis.

 

Dann: Justamente.

 

Sidney: É bom não confundir.

 

Dann: Um bom exemplo disso, é só assistir RuPaul, existem no meio lá das queens, algumas que já tavam durante o programa e a pressão psicológica, elas falam que, na verdade, não são gays, e elas são mulheres trans que já estavam até em processo de hormonização. Já existem dois ou três casos de trans drag queens em RuPaul.

 

(FADE IN E FADE OUT DA TRILHA SONORA)

 

Dann: seguindo na pauta.

 

Sidney: E aí, Dann, agora é um ótimo momento pra a gente falar de um bicho que talvez muita gente tenha ouvido falar, mas não sabe do que se trata. Que é o tal do cis-sexismo, ou também a cis-normatividade. São dois palavrões que entram nesse diálogo com a letra T da sigla. O que é o cis-sexismo? Cis-sexismo… bom, lembra quando a gente fez o HQ de Bolso sobre heteronormatividade, que a gente falou que a heteronormatividade, ou seja, a heterossexualidade enquanto norma, é o que rege as relações culturais e sociais, e os gêneros na nossa cultura. Então, tudo é definido a partir do padrão heterossexual, na heteronormatividade. Do mesmo modo, isso implica em dizer ainda, na nossa cultura, que existe também uma cis-normatividade, que é o quê? Toda a cultura se pauta a partir da norma do cis-gênero, da cis-generidade. O que significa dizer que a sociedade se pauta para discutir as questões de gênero a partir do cisgênero como natural, o que é orgânico. E, nesse sentido de negar o que não for cis. Então, uma pessoa que nasce com uma genitália, a ela se espera que ela cumpra e corresponda com o papel atribuído a quem tem essa genitália na sociedade. Todo mundo espera que, quando uma pessoa nasce com um pênis, ela vá se comportar e se identificar com os papéis de gênero masculinos que são associados ao pênis. Isso é a cis-normatividade. E o cis-sexismo nada mais é do que a discriminação a partir dessa normatividade dos cis-gêneros. A gente discrimina as pessoas trans porque, a partir dessa mentalidade cis-normativa, a gente toma os trans e as trans enquanto anormais, enquanto diferença e no sentido de negar essa diferença, porque o que é esperado é só que as pessoas sejam todas cis. A gente não conta com essa expectativa de que a pessoa não se identifique com o gênero que é associado à genitália que lhe foi atribuído ao nascimento. Então, tem essa tensão aí, que a gente ainda vive nessa mentalidade de que todo mundo tem que ser cis-gênero e não ser cis-gênero, a partir desse viés, obviamente, culturalmente passa a ser um problema que deve ser, inclusive, erradicado. Né, Dann?

 

(FADE IN E FADE OUT DA TRILHA SONORA)

 

Dann: O cis-sexismo está para a identidade de gênero, assim como a heteronormatividade está para a orientação sexual. Então, essas opressões que são sofridas têm muito a ver com o que é norma, o padrão. O padrão é ser cisgênero, e o padrão é ser hétero. Isso, justamente, gera os preconceitos. E aqui, no caso, o que pode ser gerado é a transfobia. Né, Sidney?

 

Sidney: É, a transfobia, que é o preconceito para com pessoas trans, a aversão, a negação, a violência contra pessoas que não se identificam com o gênero que lhe foi atribuído no nascimento. E o modo mais cruel e mais institucionalizado dessa transfobia se dar, hoje em dia, é a partir da patologização das transgeneridades. Olha só, outra palavra gigante, enorme. O que é patologizar? É encarar a coisa enquanto doença. Então, ainda temos esse viés de que, porque a gente está calcado uma mentalidade cis-normativa, cis-sexista, a gente ainda patologiza a transexualidade. Ou seja, encara ela enquanto problema, enquanto doença e, no caso, uma doença de transtorno de sexualidade. Né isso, Dan?

 

Dann: Se hoje a gente comemora a exclusão da homossexualidade do catálogo do CID, que foi dado em 1990, a gente já falou em programas anteriores, a identidade trans ainda permanece na lista das patologias. A Organização Mundial da saúde ainda tem, a partir dessa cis-norma, o poder de dizer o que é ou não doença. E, neste caso, a transexualidade é categorizada como uma doença mental. Esse catálogo já sofreu dez revisões, onde doenças foram excluídas e incluídas, conforme o contexto; mas, infelizmente, a transexualidade permanece sendo catalogada na sessão F64, que é Transtornos da Identidade Sexual. A transexualidade também permanece catalogada como transtorno pelo DSM, que é o Manual Diagnóstico Estatístico   de Doenças mentais da APA, que é a Associação Americana de Psiquiatria.

 

Sidney: E o que é que  implica em patologizar, encarar a transexualidade enquanto uma patologia, uma condição médica? Implica dizer que toda pessoa que é trans e que quer mudar documentos, quer mudar o seu gênero lá na identidade, ela tem que passar por uma série de exames que vão atestar que ela tem essa patologia. Vocês tem noção do quanto isso é doloroso pra alguém? Pra você ter atestado a sua cidadania e a sua identidade, você ter que admitir que tem uma doença que você não tem, porque a gente ainda encara isso enquanto doença. O sistema ainda encara isso enquanto doença, e o quanto isso é violento, e o quanto isso é opressor pra essas pessoas que não podem sequer ser quem elas são, porque a elas não é dado esse direito nem institucionalmente. Elas têm que passar por uma série de procedimentos médicos cis-normativos, ou seja, quem vai determinar que essas pessoas são trans, pra ir pro documento, são pessoas cisgêneras. Daí você tira a problemática de que quem determina o que é ou o que não é transgênero ainda é a cis-generidade. E aí, a gente tem um problema enorme com isso, de que a transgeneridade ainda está sujeita ao crivo da cisgeneridade, infelizmente. Pelo menos, no discurso institucional. E essas pessoas têm que se submeter a isso pra ter sua identidade atestada.

 

Dann: Se você tiver empatia e se colocar no lugar da pessoa, ter que frequentar terapia, isso deve ser um processo desgastante mentalmente, já que você, as vezes, não é nem lido pela sociedade pelo gênero que você se identifica, já sofre transfobia diariamente. E ainda precisa de que pessoas cisgêneras digam se você é aquilo que você realmente acredita ser. Então, deve ser um pouco complicado e, provavelmente, muito desgastante emocionalmente seguir isso. Uma outra questão que a gente deve ressaltar aqui neste programa é a questão da passabilidade. A mulher trans, por exemplo, que já faz hormonização há certo tempo, fez todas as cirurgias, que inclusive fez a cirurgia de redesignação sexual, acaba que a sociedade, a partir do momento que ela faz todos esses processos, a sociedade até entende e começa a aceitá-la. Só que nem todo mundo quer tomar hormônio, nem todo mundo quer fazer cirurgias, nem todo mundo quer implantar silicone, nem todo mundo quer tomar hormônio, que é o caso dos homens e das mulheres trans. Então, isso varia de individuo pra individuo, igual à cisgenereidade. Cada pessoa tem gostos, personalidades, e seu corpo pode ser modificado tal qual você queira. E não como a sociedade espera de uma mulher, de fato. Isso me remete a uma postagem que, inclusive, eu coloquei na página do HQ da Vida, que é da Yureta. Ela tentou discutir dentro de um desses grupos com um homem sobre, por exemplo… A comparação dos homens que fazem academia, que fazem remodulação hormonal, e tomam testosterona, e têm uma suplementação pesada, e eles estão ali trabalhando com a modificação do corpo deles. Em que medida que isso é diferente de um homem trans e de uma mulher trans, então? Por que os cisgêneros podem e as pessoas trans, não? Qual é a relação?

 

Sidney: É a tal da cis-normatividade ditando, só certos indivíduos podem alterar os seus corpos, e só alterar o seu corpo em certas medidas, porque se passar de alguns limites, as pessoas já não aceitam mais. Então, aí vem toda a problemática de as pessoas também não aceitarem que existem mulheres com pênis e existem homens com vagina. Porque nem todo mundo é obrigado a fazer a cirurgia de redesignação de gênero. Nem todo mundo está disposto a passar por isso. E tem gente que lida bem.

 

Dann: E alguns nem querem.

 

(FADE IN E FADE OUT DA TRILHA SONORA)

 

Dann: Pela primeira vez no Brasil, uma mulher transexual pudesse retificar seus documentos, alterando o seu nome e o sexo na documentação. Essa decisão foi de um juiz de São Bernardo do Campo, e em seu parecer ele escreveu que a identidade de gênero deve ser definida pela pessoa e que a transexualidade não é uma patologia. A Neon cunha é uma designer de 44 anos, e ela solicitou a alteração dos documentos sem laudos ou pareceres que comumente são exigidos nesses processos. Pediu ainda que, caso a decisão fosse negativa, tivesse direito à morte assistida, por se recusar a passar pelo controle médico que a diagnosticaria com a chamada disforia de gênero, que dá um caráter patológico à condição trans. Então, aí é uma vitória da queridíssima Neon Cunha e, pelo menos aí, temos um exemplo positivo.

 

Sidney: É legal essa história que você contou aí, Dann, é bem legal porque ela cria um precedente. E ainda bem que a gente finalmente tem um precedente pra passar a começar a encarar isso de outra forma, no campo do legislativo e do judiciário.

 

(FADE IN E FADE OUT DA TRILHA SONORA)

 

Dann: Sidney, e aí temos algumas perguntas que comumente podem ocorrer, e as pessoas confundem, ou então tão passando vergonha. Então, eu vou fazer algumas perguntas, e a gente vai esclarecendo para o nosso ouvinte. “Transgênero é uma identidade sexual?”

 

Sidney: Transgênero não é uma identidade sexual, é uma identidade de gênero.e é importante a gente entender a diferença. Até algumas pessoas trans não gostam do termo “transexual”, pelo fato de ter o termo “sexual” no final, dá a entender que é só uma questão de fazer sexo. Quando, na verdade, não é. É uma questão de como você se coloca no mundo. Então, ultrapassa, inclusive, a própria esfera do sexo.

 

Dann: Segunda pergunta. “A classificação ‘O’ Transgênero serve para mulheres e homens?”

 

Sidney: Não, gente. Então, essa é a grande questão, as pessoas ficam fazendo mil e uma dificuldades pra tratar a pessoa transgênero de acordo com o gênero que ela se identifica. Então, gente, se é uma mulher trans, você fala “a mulher trans”. Se é um homem trans, você fala “o homem trans”. Se é uma pessoa não binária, você seja educado, seja gentil e pergunte como ela prefere ser referida. Olha só, no discurso da transgeneridade existe um negocinho que também existe no discurso do capacitismo, que a gente vai até falar futuramente sobre isso. Que existem princípios de linguagem inclusiva, e um dos princípios da linguagem inclusiva é que você não deve impor o seu ponto de vista sobre a pessoa quando você vai se referir a ela mesma. Você tem que respeitar o modo como a pessoa se identifica. Então, vamos lá, respeitar. A primeira regra da linguagem inclusiva é não impor o nosso ponto de vista sobre as pessoas e, sim, respeitar o próprio ponto de vista delas sobre si mesmas.

 

Dann: Lembrando que a língua tem seu lugar de opressão, gente. Sempre pense nisso, o falar pode exprimir muito de onde você vem, quem você é.

 

Dann: Esse aqui eu gostaria até para as amigas gays conscientizarem, porque eu vejo muito gay transfóbico. “Arrumar um emprego é a mesma experiência para um gay e para uma pessoa trans?”

 

Sidney: Olha, gente, não vamos confundir alhos com bugalhos. Ser homossexual, ou seja, ter a orientação sexual, que é diferente da identidade de gênero, é uma coisa; ser uma pessoa trans é outra. Existem opressões que operam de maneiras diferentes. Inclusive, a maioria dos homens gays têm a famosa passabilidade hétero. Então, às vezes, é até mais fácil pra eles conseguirem emprego porque o fato de eles serem gays passa despercebido. Na maioria das vezes, dos casos das pessoas trans, o fato dela ser trans está expresso no modo como elas são vistas. Então, elas não podem nem contar com a passabilidade. Vamos abrir a cabeça. Não é porque você é gay que você sabe, entende a opressão de todo mundo que tá na sigla.

 

Dann: E essa próxima pergunta, se você prestou atenção neste podcast, você vai saber responder de cara. “Drag Queen e transexual é a mesma coisa?”

 

Sidney: só voltar lá no comecinho, a gente explicou que drag Queen não é a mesma coisa que pessoa trans. Embora, possam existir drags que sejam trans. Mas drag não é uma identidade de gênero, é uma performance artística. O gênero enquanto funcionalidade. Não é uma identidade de gênero. Existem drags que são trans, existem drags que são cis, e existem drags que, inclusive, que são homens héteros, homens cis héteros. Então, não tem nada a ver uma coisa com a outra.

 

Dann: Justamente.

 

Dann: Essa aqui vai para as pessoas que podem achar que podem perguntar qualquer coisa. “Tenho um interesse autêntico”… Olha só, autêntico… Espero que você não seja um chamado T-lover, que é aquelas pessoas que ficam fetichizando pessoas trans. “Tenho um interesse autêntico por pessoas trans, posso perguntar o que eu quiser saber?”

 

Sidney: Ai, gente, pelo amor de deus, vamo, né… De novo, bota a mão na consciência e dá uma reboladinha. Você não pode perguntar qualquer coisa só porque você tá interessado na pessoa, porque todo mundo tem o direito à sua privacidade. Então, para, viado! Para de perguntar da genitália do povo. Que coisa mais feia, gente. Pelo amor de deus, não passa vergonha. Você não tem o direito de invadir a privacidade de ninguém, seja ela cis ou seja ela trans.

 

Dann: “Ser trans é igual em qualquer lugar?”

 

Sidney: Não é, porque existem as famosas interseccionalidades. Então, uma mulher trans de classe alta, é claro que vai ser muito diferente da realidade de uma mulher trans da periferia, não é mesmo, Dann?

 

Dann: Justamente. E só pra amarrar esse comentário do Sidney, isso aí já vai emendar com a própria pergunta que é, “Para as pessoas trans, namorar é uma experiência similar à dos gays?”

 

Sidney: Não é, inclusive porque a gente tem que ultrapassar um monte de preconceitos que estão calcados no cis-sexismo. E muitas vezes, esses preconceitos são ultrapassados às custas das próprias pessoas trans. O que eu tô querendo dizer é que você não pode usar as pessoas de laboratório.

 

Dann: Enfim, né, Sidney?

 

Sidney: Olha, o assunto é longo. Gente, duas coisas. Primeiro, o nosso viés aqui, na maioria dos casos, quando a gente vai dar esses conceitos, a gente dá nossos conceitos a partir de pontos de vista sociológicos, culturais, comportamentais. Mas se você tem aquele coleguinha que vai destilar a transfobia dele usando aqueles argumentos cientificistas, usando da Biologia, dizendo que isso não é natural e nada disso; a gente tá linkando aqui na postagem um episódio maravilhoso do Naruhodo!, que é um podcast lá do B9, que eles falam da transgeneridade a partir de um viés científico. E você vai ter todos os argumentos pra dizer, inclusive, que é tão natural quanto qualquer outra manifestação da sexualidade humana. Vai lá e escuta, que esse episódio tá bem interessante. E em segundo lugar, Dann, eu queria dizer assim, eu e você, aqui, não temos lugar de fala pra discutir sobre transexualidade. E é por isso que a gente traz, se esforça pra trazer o maior número de pessoas e a maior diversidade de pessoas. Inclusive, de pessoas trans. Então, você vai lá no feed da gente, ouve nossos HQs da Vida, a gente já tem 16 HQs nessa altura. E eu acho que quase metade deles são com pessoas trans. A gente entrevistou, inclusive, o último, foi com o Danillo Callado, que é um homem trans. Você vai viver e ouvir a vivência dessas pessoas a partir delas mesmas.

 

(FADE IN E FADE OUT DA TRILHA SONORA)

 

Dann: E para complementar o que o Sidney disse, tem um texto maravilhoso, que é da Maria clara Araújo. Ela é pernambucana. Tem o Facebook dela também. Tem o Instagram. Maravilhosérrima. E o texto dela chama “Solidão da mulher trans negra”. Ela faz um recorte pela vivência trans, e também por ser negra.

 

(FADE IN E FADE OUT DA TRILHA SONORA)

 

Sidney: Pois é, gente, então é isso. Olha só, se você quer puxar nossa orelha, se a gente falou bobagem, se você quer dar sua opinião, você quer dar sua complementação; você que é pessoa trans e não se sentiu representado no que a gente falou e quer se expressar também, aqui a gente escuta. Entra em contato com a gente. Você pode comentar lá nas nossas postagens no site, WWW.hqdavida.com.br; a gente também tem o email hqdavida@gmail.com; você também nos encontra no Facebook, na página HQ da Vida. NO Twitter, @hqdavida. No Medium, @hqdavida. E também no Youtube, você procura lá por Podcast HQ da Vida. E sempre lembrando de pedir pra vocês, gente, avalia a gente no iTunes, dá 5 estrelinhas, escreve sua resenha lá, pra a gente brilhar.

 

Dann: E ajude-nos a manter o nosso podcast no ar. Contribua com WWW.padrim.com.br/hqdavida; ou em WWW.patreon.com/hqdavida, você pode nos ajudar com a quantia que você desejar, até 1 Real, meu povo! Eu vou deixar agora o meu beijo final, o meu e o da Lola, que é representante do apartamento de baixo, que grava com a gente esse podcast quinzenalmente. Espero que vocês não se incomodem com a Lola, porque ela é uma fofa.

 

Sidney: Gente, a Lola tá quase virando a nossa terceira integrante aqui (risos). Então, gente, um xero pra vocês, e até o próximo HQ.

 

Dann: Até!

 

(FADE IN E FADE OUT DA TRILHA SONORA)

 

FIM

 

Transcrito por Sidney Andrade

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