Transcrição – #02 Htreta: “Cura gay”

Transcrição – #02 Htreta: “Cura gay”

 

(Nota: a transcrição é um recurso de acessibilidade que viabiliza o acesso para pessoas com alguma deficiência auditiva, além de ser um mecanismo eficiente de consulta para o conteúdo do podcast. Não pretende, portanto, substituir a audição do programa, mas, sim, complementá-la)

 

Vinheta de abertura: entre efeitos sonoros de impacto, uma voz com reverberação anuncia “HQ DA VIDA, o seu podcast sem quadrinhos.”

 

(Trilha sonora de Background alusiva a histórias em quadrinhos)

 

Dann (narração): Nos últimos dias, eclodiu na mídia brasileira, com forte repercussão nas redes sociais, um debate em torno da decisão interlocutória proferida pelo juiz da 14ª Vara Federal da Sessão Judiciária do Distrito Federal. Na decisão, segundo algumas matérias, ele teria autorizado psicólogos a desenvolverem terapias de reorientação sexual. Essa prática é popularmente denominada de “cura gay”.

 

(Vinheta: Entre batidas, ouve-se repetidamente a palavra “Treta”)

 

Dann: Olá, ouvintes. Este é o HTreta, nosso programa-plantão pra debater sobre temas polêmicos da última hora. Hoje, a gente vai tratar de um assunto que, infelizmente, voltou a todo vapor neste mês de setembro. A famigerada “cura gay”. Eu sou Dann Carreiro e estou sem o Sidney Andrade hoje, neste programa. Mas vamos tentar dar prosseguimento da melhor maneira possível. E aí, vamos chamar os nossos participantes desse programa de hoje. Ligia Lila.

 

Ligia Lila: Olá, eu sou servidora pública, sou formada em direito. E eu vou tentar esclarecer um pouquinho das implicações jurídicas dessa liminar. E espero que vocês… Que eu possa ser didática e ser simples, pra explicar.

 

Dann: E agora, o Pablo de Assis.

 

Pablo de Assis: Oi, boa noite, boa tarde, bom dia, dependendo de quando você tá ouvindo. Eu sou psicólogo, sou podcaster também, e quero tentar mostrar também um pouco do lado científico disso daí. E também dos aspectos políticos que envolvem a profissão da psicologia. Na verdade, acaba sendo a maior vítima disso tudo.

 

Dann: Ok. E agora, o meu xará, Danilo Cursino.

 

Danilo Cursino: Olá, olá, todos vocês. Tudo bem? É bom poder gravar podcasts de novo. Eu nem me lembro mais qual é essa sensação. (risos)

 

Dann: E, Danilo, explica para o nosso ouvinte de qual local você vem pra poder nos dizer sobre essa tal dessa cura gay.

 

Danilo: Bom, de qual lugar eu venho. Primeiramente, eu venho de São Paulo, sou paulista. Atualmente, eu moro em Santo André, perto da faculdade. Mas sou paulista. E o lugar que eu venho mais metaforicamente, eu venho como um homem bissexual aqui, pra falar como fica esse lado dentro dessa conversa. Porque a gente escuta muita piadinha do tipo, e pessoas se manifestando. Mas algumas vezes,… Falar um pouco mais sério.

 

Dann: Ok. Lembrando que B não é de biscoito, né.

 

Danilo: Não é de biscoito, não é de bolacha, não é de besta.

 

Dann: Ok, gente. E agora, vou mandar… Antes da gente ir pra a pauta, nós vamos mandar os beijinhos. Que é a nossa sessão especial de pessoas que interagem com a gente no Twitter, no site ou em outras redes que a gente tem aí, podcastais.

 

(Vinheta: Trecho de música, entre o batidão e sons de beijos, Mc Xuxú canta “Um beijo pra quem é DJ, um beijo pra quem é Mc, um beijo pra quem é do bem, um beijo pras travesti!”. A voz de Pabllo Vittar finaliza “Eu não vou perder meu tempo lendo hater”)

 

Dann: então, temos o Oga Mendonça, o pessoal do Não Me Critica, o Mário Márcio Félix, que não pôde gravar conosco hoje; e também o Sidney, que me deixou hoje igual Bochecha sem Claudinho, a mistura do Brasil com Egito ou, sei lá, a fusão do Gotrunks…

 

Danilo: Beijo, maravilhoso.

 

Dann: E um beijo para os nossos patrões, nós temos Carla, a Fernanda, o Deivisson, o Wagner e o Luciano José. Mas também temos novos patrões, que é o Guilherme Piaça, a Érika, que faz parte do Seriadores Anônimos, do SAD e do Erika’s Small Talk, sim, ela faz vários podcasts; E temos o Julian Vargas, e a nossa patroa aqui presente, que vai receber um beijo ao vivo e a cores, que é a Ligia Lila. Né, Ligia?

 

Lila: Isso, obrigada pelas boas vindas.

 

Dann: Ok, gente. Então, vamos iniciar o debate, pra a gente começar a colocar para o ouvinte o que é a cura gay. A gente tá usando esse termo aqui, “cura gay”. A gente sabe que não é cura gay, mas nós vamos explicar e explanar pra vocês como que funciona isso, o que está em jogo e como funciona essa treta aí que tá pegando no mês de setembro. Então, eu vou começar com a Lila, nos explicando o que foi essa decisão do juiz e qual impacto que isso tem, se isso é uma legislação, o que é uma liminar, como que funciona o impacto disso no meio jurídico?

 

Lila: Uma liminar é uma tutela provisória. Ela não faz coisa julgada, não abre precedente, também não gera jurisprudência. É uma decisão pontual pra aquele caso, e que pode ser revertida. Ela pode ser cassada por outro juiz, pode… De repente, outro juiz de outra vara fala assim, “Considero suspensa a decisão da liminar”, e mandando voltar ao estado que estava antes. Liberando aí a questão do obedecimento à resolução do CFP. Então, é pra aquele caso em concreto. Não é pra todo mundo, não vale pra todo mundo. É pra o que tá sendo pedido naquele caso específico. E aí, os efeitos práticos que isso pode acarretar no exercício da profissão, acho que o Pablo pode falar melhor aí.

 

Dann: Ok, então lembrando que uma liminar não é uma situação que é posta e que… Não é algo sólido, mas que pode ser revertido e outro juiz pode rebater essa liminar, é isso?

 

Lila: Assim, eu não gosto muito de falar termos em Latim. Mas é porque o Latim, pra a gente, é como se fosse o Inglês ou Alemão. Coisas que você demoraria um conceito enorme pra falar, você pode resumir em duas ou três palavras em Latim. E quando você pega o conceito, fica mais claro. A liminar se funda em duas coisas, que é a “fumaça do bom direito”, Fumus Boni Iuris; e o Periculum In Mora, que é o “perigo da demora”. O que é a fumaça do bom direito? O juiz analisa aquele caso, ele fala assim, “Olha, aqui me parece que tá certo, então por isso eu vou deferir a liminar”. Não é uma coisa assim, você tem um direito liquido e certo. Não. Ele fala assim, “Parece aqui haver um direito, um conflito, e como eu fui chamado pra me posicionar, eu vou me decidir na posição A ou B”. E o perigo da demora é pra evitar que o direito se perca, ou pra evitar que haja um dano ou lesão grave, de difícil reparação. Esse perigo da demora é a questão da urgência da decisão. E até eu já li bastante sobre esse caso, e tem juristas que estão criticando porque, pra você deferir a liminar, tem que ter as duas coisas, o Fumus Boni Iuris e o Periculum In Mora. E até você pode questionar qual é a urgência dessa decisão? Que direito que está sendo afetado se eu tomar essa decisão agora e não daqui um ano, ou daqui dois anos, no curso do processo? Eu não vejo aí outros juristas mais renomados, mais qualificados que eu, também não vejo a questão da urgência dessa decisão. Não parece uma coisa que, se eu não decidir agora, o direito irá se perder.

 

Danilo: Deixa eu até te perguntar uma coisa, Ligia, eu fiquei um pouco… Eu li uns textos por aí que, num primeiro momento, isso não teria efeito prático. Essa decisão não interferia em nada de agora. Não ia ter um efeito prático agora, imediato. Mas isso serviria como jurisprudência. Isso procede? Ou essa decisão já muda alguma coisa logo de cara, como funciona?

 

Lila: Então, baseado nessa decisão aí, teoricamente, os requerentes, quem entrou com esse pedido da suspensão da resolução, já teriam direito de se pronunciar cientificamente a respeito da tal terapia de conversão. Seria converter uma pessoa LGBT a se tornar uma pessoa heteronormativa. Mas, seria basicamente, no meu entendimento, porque direito é bem complexo… Mas, no meu entendimento, seria pros requerentes só. Não seria pra todo mundo falar, ah, baseado nessa decisão, agora fulano que tá lá em outro estado, que não tem nada a ver com essa ação, também pode exercer essa terapia da reversão, baseada nessa decisão. Entendeu.

 

Dann: Entendi. E no caso da psicóloga que fez, que é uma pessoa que fez esse pedido, e que tem o CFP, o registro de psicólogo que foi cassado desde 2009. Isso, no caso, pode ser revertido, com base nessa liminar? Usado como defesa dela, no caso?

 

Lila: Não. Pode ser usado como defesa dela, ela pode ingressar com outro processo, processando o CFP e querendo ser reintegrada como psicóloga. Mas especificamente pra reverter a suspensão dela, não, porque os fundamentos da decisão não falam nada sobre isso. Só fala que… E é até engraçado você ler a decisão, porque o juiz dá um monte de justificativas, que ele tem que realmente justificar a decisão; e você pensa que ele vai decidir num sentido. Você, lendo a peça, você acha que ele vai decidir que foi indeferindo o pedido, negando o pedido, falando no Português mais claro. Mas não, ele decide acolhendo o pedido. E fica até meio contraditório com os argumentos que ele fala. Porque, na verdade, o que a decisão pede, é que sejam liberados os estudos acerca de pesquisa científica sobre sexualidade. E, na verdade, isso nunca esteve ameaçado pela resolução do CFP. Aliás, na decisão do juiz, parece que, claramente, ele vê que realmente deve haver pesquisas cientificas sobre o tema, como há, talvez, há quase um século ou dois sobre a pesquisa cientifica sobre gênero e sexualidade. E que não é proibido por essa resolução. Então, ficou até meio uma coisa contraditória, no meu entender, a decisão.

 

Pablo: Assim, o que a decisão acaba dizendo, na verdade, não é nem questão de ser contraditório. Pelo que dá pra ver lá na peça, basicamente o juiz tava dizendo é que, pra evitar futuras interpretações erradas, eu já to dizendo qual que deve ser a interpretação. A interpretação é que o Conselho de Psicologia não pode proibir nenhuma pesquisa ou prática no caminho da reorientação sexual. É isso que a peça acaba dizendo. O problema é que pesquisa nunca teve em risco. Práticas são proibidas porque elas fazem mais mal do que bem. Então, é que nem você dizer que a gente vai autorizar remédios com base de mercúrio, porque tem que fazer pesquisa, apesar de já ter várias pesquisas, já sabe que faz mal, mas mesmo assim a gente vai autorizar porque tem gente que quer usar. São argumentos que não fazem sentido. A não ser que seja pra você amarrar as mãos do Conselho, pra fiscalizar essas práticas. Porque não só o Conselho não pode interpretar desse jeito, como o Conselho também, pelas palavras lá da peça, tá proibido de… Como é que eu posso dizer? Eu to tentando me lembrar de cabeça. Mas ele tá proibido de evitar que psicólogos façam isso. Então, se tem um psicólogo que tá fazendo isso, ele pode, não precisa de autorização do Conselho e o Conselho não pode fazer nada a respeito. Basicamente, é isso que essa liminar acaba trazendo.

 

Danilo: Uma coisa que eu tenho a impressão, lendo até a decisão desse juiz, é que sempre foi tentado esse tipo de coisa, mas pela via religiosa. As pessoas alegavam liberdade religiosa, e tudo mais. E eles tentaram dar uma espécie de 360 agora, apelando pra  Ciência, pra ter esse mesmo efeito e, talvez, ser um pouco melhor aceito…

 

Pablo: É porque… Eu também não entendi direito o que aconteceu. Nos Estados Unidos existem vários centros de reversão sexual, todos eles religiosos. Nenhum deles científico, porque lá o Conselho de Psicologia e o Conselho de Psiquiatria, a sociedade médica, todo mundo nos Estados Unidos sabe que, cientificamente, isso não funciona. Mas você tem muitos centros religiosos de repressão sexual. E todos eles fazem muito mal. Então, os psicólogos e médicos dos Estados Unidos acabam acolhendo vítimas desses centros, pra poder dar um jeito de acolher e evitar suicídios, evitar depressão, evitar problemas mais graves que esses centros acabam causando nas pessoas. Aqui no Brasil, se eu tiver uma igreja e quiser montar um centro desses, não é proibido. Dizendo que é um centro religioso de reversão sexual, não é proibido fazer isso. Só que eu nunca entendi por quê psicólogos religiosos querem utilizar o titulo cientifico pra poder fazer esse tipo de prática. Até que, recentemente, alguém explicou o que aconteceu, através de um argumento que é “siga o dinheiro”. Que eu achei um argumento bem interessante. Se vocês me permitirem de novo, eu vou falar aqui de cabeça, mas deve tá na pauta em algum lugar o link pro argumento todo. Mas, basicamente, em 2011, um psicólogo também religioso e pastor, que eu não vou falar o nome dele, mas é bem conhecido nas internets e na televisão; ele abriu clínicas de recuperação psicológica, principalmente pra tratamento de dependentes químicos. Infelizmente, as clinicas de dependência química que a gente tem no Brasil, a grande maioria, não todas, mas a grande maioria tem base religiosa. Eu acho que as clínicas não religiosas, psicológicas ou cientificas mesmo, não sei por quê, elas não abrem. Apesar de ser possível, mas não tem esse interesse, ou não tem dinheiro, não tem verba pra isso. Mas são clinicas religiosas. Ele abriu uma dessas clinicas religiosas de recuperação. Mas a ideia não seria só recuperar dependentes químicos. A ideia seria, inclusive, oferecer tratamento de reorientação sexual. Tanto é que… Isso aconteceu em 2011. Em 2012, essa conversa toda começou a vir à tona. Essa psicóloga foi cassada em 2009. Teve outra psicóloga no Paraná, não me lembro agora quando foi, que também teve o registro cassado nessa mesma época.

 

Danilo: Ah, isso aí eu conheço…

 

Pablo: Não, pode… Eu não quero falar o nome pra não dar Ibope.

 

Dann: Eu acho que não precisa falar.

 

Pablo: É, pra não dar Ibope. Ela também teve o registro suspenso aqui no Paraná, ela recorreu, e tudo mais. Não só porque ela fazia práticas de reversão, mas também como ela se dizia psicóloga cristã, o que também é incompatível com o código de ética, princípios de laicidade e tudo mais. Nessa época, em 2012, 2013, isso veio à tona. Principalmente através do legislativo. Em 2013, foi lançado, então, um projeto de decreto legislativo contra o Conselho Federal de Psicologia, tentando reverter, nessa resolução 01 de 99, os artigos que falavam explicitamente sobre práticas de reversão sexual, ou práticas de cura gay e coisas desse tipo. Que os psicólogos não podiam se pronunciar a respeito, não podiam praticar a respeito, defendendo práticas de reorientação sexual. Então, esse projeto legislativo tava tentando reverter e limitar isso. E o argumento utilizado dizia que, pelo Conselho Federal de Psicologia ser uma autarquia, ele não poderia proibir práticas profissionais. Como essa regulamentação estaria proibindo, então teria que reverter isso. O problema é que o artigo 2 do código de ética é todo proibitivo. Psicólogo não pode fazer publicidade com valor, o psicólogo não pode atender por correspondência, o psicólogo não pode fazer um monte de coisa. Então, que surja também o artigo 2 do código de ética, já que a argumentação é essa. Mas não, o problema era só com os específicos pra a cura gay. Obviamente, em 2013, teve um bafafá, não deu certo. Inclusive, na mesma época, teve um outro deputado pastor que foi nomeado presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias. Ele dizia que democracia é pra as maiorias, não pra as minorias. Então, por que ele foi colocado lá como presidente dessa comissão? Mas, tudo bem. E ele tentou passar adiante, mas não passou. Tava bem na época das manifestações lá de 2013, então foi tudo junto, o pessoal começou a criticar essas ações.

 

Dann: Entendi.

 

Pablo: E não foi pra frente, através do legislativo. Como no Legislativo não deu certo, em 2015 eles resolveram ir através do judiciário. Fazer exatamente a mesma coisa. Se você ler o projeto de lei da cura gay de 2013, e você ler a peça lá dessa psicóloga que entrou pelo judiciário, você vai ver que as argumentações são muito parecidas. Não só isso, mas essa psicóloga também foi contratada como assessora de um deputado também religioso. Então, tá tudo ali muito próximo, sabe. Parece, tipo, vamo tentar dar um jeito de fazer isso passar. Tudo pra quê? Porque se o governo conseguir eliminar essa regulamentação, e autorizar que psicólogos possam realizar esse tipo de pratica, eles podem entrar também com um projeto de lei autorizando o financiamento público dessas ações. O problema foi que, aí foi que eu entendi. Por conta das clausulas da Constituição sobre a laicidade do Estado, o governo não pode financiar igreja. Consequentemente, ele não pode dar dinheiro público pra a igreja pra tratar homossexual. Então, indo através da ciência, através de psicólogos e de clinicas psicológicas, eles podem pedir dinheiro publico pra isso.

 

Dann: Caraca!

 

Pablo: Então, uma forma que esses psicólogos charlatões encontraram pra, eventualmente… Na verdade, eles estão trilhando os passos pra conseguirem dinheiro público pra fazer isso.

 

Dann: Entendi. Então, aquela frase que você iniciou, dizendo siga o dinheiro…Chegamos nela, então, no que significa isso.

 

Pablo: Exatamente. E tudo começou por conta desse psicólogo pastor que começou suas clinicas de reabilitação em 2011. Porque, antes disso, não se falava sobre isso.

 

Dann: Entendi.

 

Danilo: E esse assunto veio à tona na época ali de 2011, 2013, era quando tava tendo mais manifestação ali das pessoas, mas eu gosto bem de lembrar que esse tipo de terapia… Como é que eu posso dizer? Rasteira, que dá um tipo de esperança pra pessoas que não são aceitas, existe desde sempre. A gente ouve muitos relatos aí de conhecidos, e até na internet, de pessoas que foram numa igreja, que passaram por coisa parecida, mas debaixo dos panos. Então, só queria dizer que essa conversa tá ali por debaixo dos panos bem antes de chegar no mainstream.

 

Pablo: Assim, entre igrejas, sempre aconteceu. Sempre aconteceu. O problema é por quê isso começou a acontecer entre os psicólogos. Em 99, o conselho veio com essa resolução porque, já nos anos 90, existiam psicólogos que tentavam esse tipo de pratica, por conta, inclusive, dessas que foram cassadas, que misturam… Geralmente, eram psicólogos que misturavam religião e ciência. Que, por motivos religiosos, de fé e crença, ou whatever, eles diziam que estavam dispostos a ajudar essas pessoas a reverter a orientação sexual. Ou a curar a homossexualidade, sei lá o que eles tavam inventando na época. E aí, o Conselho chegou e precisou entrar com uma ação e falar “não”, por conta de um monte de pesquisa científica, por conta de um monte de coisa, a gente precisa se posicionar. Se você quer se dizer psicólogo, se você quer utilizar o nome da profissão, você não pode fazer esse tipo de coisa, que é anticientífica, que é antiético, que é anti tudo. É contra a Declaração Universal dos Direitos Humanos. É contra um monte de coisa. E não faz sentido a gente fazer isso. Então, eles precisaram ver isso em 99, porque já tinha gente fazendo. E aí, deu uma certa amenizada. Essas psicólogas que foram pegas, foram aquelas que falaram, “Não, quer saber, eu não preciso respeitar o Conselho de Psicologia, vou fazer mesmo assim, porque a minha fé é maior”. E foram cassadas como psicólogas. Se elas quiserem continuar fazendo essas práticas como religiosas, elas têm total direito. Mas não como psicólogas.

 

Dan: Entendi.

 

Pablo: E aí, a ideia de trazer a Psicologia é… Na minha cabeça, só faz sentido, se tiver por trás esse interesse de você poder pegar dinheiro público pra financiar clinicas de tratamento psicológico.

 

Dann: Introduzir isso dentro do sistema público de tratamento, no caso.

 

(TRANSIÇÃO: EFEITO SONORO DE AVISO)

 

Dann (narração): A partir de agora, e durante todo o programa, vocês irão ouvir o relato publicado no site Lado Bi, da UOL, pelo Márcio Caparica. Inclusive, recomendamos, ouçam o podcast Lado Bi. Sobre como acontece o processo de cura gay dentro de congregações religiosas.

 

(FADE IN E FADE OUT DA TRILHA SONORA)

 

(INÍCIO DE LEITURA DE TRECHO)

 

Voz: Sempre tive atração por homens, mas não havia para mim sequer a possibilidade de viver essa homoafetividade. Sou filho de pastor presbiteriano. Cresci numa cidade do interior de Minas Gerais, onde todos conheciam minha família. Aos 16 anos já tentava compensar meu interesse por outros homens entrando em competições com os amigos para ver quem beijava mais mulheres no Carnaval, esse tipo de coisa. Mas durante a juventude nunca tive qualquer tipo de relacionamento, nem sexual nem afetivo, nem com mulheres nem com homens.

 

Voz: Aos 18 anos tive minha primeira paixão por um homem: um colega de faculdade. Eu havia acabado de me mudar para São Paulo para fazer faculdade, e estava muito sozinho. Essa paixão me trouxe muito sofrimento. Não via possibilidade de que esse amor se realizasse. Tentava sair com mulheres, mas nada mudava. Nunca tinha sequer beijado ou me declarado para um homem; não havia essa perspectiva para mim. Fiquei cada vez mais deprimido, até que comecei a tentar me suicidar. Foram três tentativas. Na primeira delas, mandei uma mensagem me despedindo do colega por quem havia me apaixonado, e ele acabou me salvando. Nas outras duas, o medo de ir para o inferno fez com que eu não fosse até o fim. Depois dessa última, esse colega de faculdade entrou em contato com minha mãe, que veio de Minas Gerais para me socorrer.

 

Voz: Quando ela chegou, me encontrou afundado em casa, há vários dias sem trocar de roupa, nem tomar banho, nem ir pra faculdade, nem ir para o trabalho. Ela me perguntou o que estava acontecendo, e eu só chorava; quando ela perguntou se o problema era minha sexualidade, desabei no pranto. A reação de minha mãe foi dizer que a homossexualidade era um erro. Ela deixou claro que estava preocupada com a repercussão em casa, principalmente sobre o que os outros pensariam quando soubessem que o filho do pastor era gay. Disse que eu deveria procurar uma pastoral para que minha orientação sexual fosse revertida. Lembro vividamente da tristeza no rosto de minha mãe quando disse a ela que gostava de homens. Foi o empurrão que faltava para que eu buscasse algum tipo de terapia que “curasse” minha homossexualidade.

 

(FIM DA LEITURA DO TRECHO)

 

(FADE IN E FADE OUT DA TRILHA SONORA)

 

Dann: O canal Nerdologia fez um vídeo bem ilustrativo de 6 minutos, explicando. E ele cita uma revisão sistemática. E como professor, eu decidi dar uma olhadinha nessa revisão sistemática, ele cita muito elementos… Já tá traduzido. Mas é uma revisão sistemática de 2008. Eles trazem… Pra quem não sabe o que é uma revisão sistemática, existe um método de pesquisa, palavras-chave que serão utilizadas dentro das bases de dados indexadas que têm artigos científicos. Então, eles tentaram buscar artigos, e acharam artigos no recorte de 1956 a 2004. E quando eles começam a falar sobre os resultados que eles encontraram, eles verificaram várias questões que são problemáticas nesses tipos de terapias, quando já foram usadas. Que são as terapias reparativas. Eles citam que existem falhas metodológicas, os princípios científicos não são atingidos pra levantarem aquelas hipóteses que são utilizadas dentro de estudos científicos e, principalmente, violavam os direitos humanos. E eu tava até comentando, antes da gente começar a gravação, que tem a declaração de Helsinque, que você não faz pesquisa com seres humanos a seu bel prazer, existe um conjunto de regras. Existe um comitê de Ética, o CONEP, na verdade, o Comitê Nacional de Ética em Pesquisa. Existem comitês locais, regionais, que recebem esses projetos, avaliam e emitem parecer, se esses projetos atendem ou não às resoluções do CONEP. A antiga era 196/96, ela foi atualizada pra 466/12. Qualquer profissional de saúde vai fazer uma pesquisa sobre lombalgia, por exemplo, precisa passar pelo comitê de ética, ser avaliado e, a partir daí… Mesmo que seja um TCC, tem que ter todo esse processo pra poder ser liberado. Então, não é uma coisa solta. E pelo que a Ligia falou do lado jurídico, pelo que o Pablo falou do lado do CFP, a gente vê que, na verdade, não seria aceito nem no mundo científico, nem pelos princípios da declaração de Helsinque, nem pela resolução 466/12, porque gera mal estar. Os resultados do estudo dizem que depressão, pensamento suicida, disfunções sociais são sempre sintomas que aparecem a partir dessas terapias de reversão sexual.

 

Pablo: Boa parte dessas pesquisas se baseia numa… Geralmente, essas terapias aversivas tentam provocar alguma mudança de comportamento gerando aversão ao contato com esse comportamento. Quem assistiu aquele filme Laranja Mecânica, nos anos 60, 70, aquela prática, aquela terapia que o protagonista recebe, é um tipo de terapia reversiva…

 

Danilo: (incompreensível), algo assim…

 

Pablo: É um tipo de terapia aversiva. Você tem várias formas de poder fazer isso. E ali, naquele caso, a terapia aversiva é pra diminuir o comportamento agressivo do protagonista do filme. Então, a ideia é utilizar esse mesmo tipo de prática pra evitar comportamentos indesejados. Mas, como o próprio filme mostra, não funciona. Ali é um bom exemplo de como terapias aversivas não funcionam, e a gente não conhece nenhuma outra forma de fazer esse tipo de mudança. Terapias aversivas também são completamente antiéticas, porque você vai tá usando dor e sofrimento pra poder provocar uma mudança de comportamento. Então, principalmente por isso, essas práticas são proibidas.

 

Dann: E olhar que a gente tem um leque de anos de estudos que provam que não deu certo. Inclusive, eu vou deixar no link da postagem o artigo pra vocês conferirem. E Ligia, pode emendar aí o que você ia dizendo.

 

Lila: Não, eu ia dizer que além das convenções internacionais e das orientações da OMS, que a gente tem também aqui a nossa Constituição, a nossa lei maior, que também proíbe esse tipo de pratica. Entre os fundamentos da República, tá lá, no inciso terceiro, a dignidade humana. Então, a República Federativa do Brasil não só preza pelo direito à vida, mas também você tem direito a ter uma vida digna. E como a gente tem conhecimento aí de terapias em outros países, boa parte dessas terapias de reversão, igual o Pablo falou, funcionam como torturas, na verdade.

 

Dann: Sim. Inclusive, fazendo essa intersecção religiosa, Danilo, você já foi exposto a algum tipo de reza, de oração, pra poder diminuir os sintomas? (risos)

 

Danilo: Olha, assim, eu, nunca. Eu tenho uma família bastante religiosa, tudo o mais. Mas, incrivelmente, eles sempre foram muito… Sempre aceitaram muito, foram muito compreensivos comigo. Mas a gente ouve bastante por aí, de pessoas bem próximas, de coisas bem macabras que aconteceram nesse sentido, sim. Poderia muito bem ter sido eu, sabe.

 

Dann: Sim. Inclusive, saindo um pouco do campo técnico, eu perguntei para o Danilo porque eu queria contar uma história que já aconteceu comigo. Na adolescência… Minha mãe não era protestante, nem nada, mas ela ficou sabendo de uma pessoa de um bairro bem distante, que eles faziam orações e orações poderosas. Ela já não tava suportando a minha viadagem, e me levou lá pra orar algumas vezes, e eu ia a contragosto. Eu era obrigado a entrar numa salinha… Assim, não teve nada de tortura, nem nada. Mas eu tive que ir contra a minha vontade. E eles orando, e eles falando que tinha o capeta no meu corpo, que eu tava com a Pomba Gira. E nada de se manifestar. E uma vez, numa das ocasiões, eles foram na minha casa, com mal contato, e na hora que eles começaram a rezar em mim, a televisão ligou. Aí, a moça disse que era a Pomba Gira manifestando em mim. Eu tive que passar por isso. E minha mãe acreditou que eu tinha uma Pomba Gira, que foi fruto disso e daquilo. E a gente já tem todo um passado religioso de preconceito com religiões de matriz africana, devido à minha avó ter sido Mãe de Santa. E minha bisavó também. Então, gerou uma confusão e até um sentimento de culpa em quem tem que culpar de o filho ser gay. Enfim, essa foi a barra que eu passei. Mas eu não passei por nenhuma tortura, digamos.

 

Lila: Não foi tortura, mas foi um sofrimento psíquico. Não deixa de ser um sofrimento.

 

Dann: Muito. Sim, porque o que você sente ser colocado como…

 

Danilo: O que não deixa de ser tortura também, né.

 

Lila: É.

 

Dann: Sim, talvez… Não sei se eu consegui sublimar isso de forma legal. Não ficou impactante. Mas cada pessoa recebe isso de uma maneira. Imagina. Assim, eu lembro de muitas vezes ter rezado pra deixar de ser gay, pedido, “Deus me cura, eu não quero ser gay, eu não quero ser gay, eu não quero ser gay, eu não quero ser gay”. E amanhecia mais viado todo dia (risos).

 

Danilo: Isso eu também posso dizer que eu passei. “Eu não quero ser isso”, reza e fala. “Por que eu sou assim? Por que eu sou diferente? Me ajuda”. Mas a gente aprende a conviver com isso.

 

Lila: Assim, eu acho que até quem não é religioso, quem não é cristão e tal, vai passar por isso, se descobrir LGBT, porque a gente está inserido numa sociedade cristã. E tem o padrão heteronormativo. Então, mesmo você não sendo religioso, e você se achando a pessoa mais desconstruída e que já superou a sua criação cristã, mesmo assim você pode se deparar, ao se descobrir LGBT, pode se deparar com medo, com a culpa. Não só o medo da homofobia, mas o medo de se assumir mesmo. Ou de causar sofrimento aos seus familiares. Tendo crescido no Brasil, a gente não tá livre dessa carga cristã e católica, principalmente, que a gente tem.

 

Danilo: Sim, sim. É uma coisa que eu tenho bastante problema, quando eu ouço as pessoas falando, necessariamente associando a homofobia e esse tipo de coisa à religião. As pessoas não param pra pensar, em alguns momentos, que isso tem a ver com toda uma construção, sabe, um fundo em que a religião é só mais uma variável nesse processo.

 

(FADE IN E FADE OUT DA TRILHA SONORA)

 

Dann (narração): Relato, como acontece o processo de cura gay dentro de congregações religiosas.

 

(INÍCIO DE LEITURA DE TRECHO)

 

Voz: Fiz uma busca na internet e encontrei uma igreja presbiteriana que eu poderia visitar. Depois do culto, fui conversar com o pastor, que ouviu minha história e me disse que, assim como são Paulo tinha um espinho do pecado na carne, eu também tinha; se eu não conseguisse extirpá-lo, teria que viver uma vida de celibato. Aos poucos comecei a conhecer os jovens dessa igreja, que me levaram até a igreja Bola de Neve. Foi então que o processo de “cura” realmente começou.

 

Voz: A igreja Bola de Neve tem um marketing muito bom. As pessoas pensam que essa igreja é bastante liberal porque permite que as pessoas usem dreads etc. Mas a verdade é que eles são extremamente conservadores. Quando passei a integrar suas células, eles me apresentaram ao que chamam de Ministério de Cura e Libertação. Esse é um núcleo da igreja que tenta ajudar as pessoas a se livrarem de vícios como adultério, abuso de drogas… e homossexualidade. Achei que essas pessoas finalmente conseguiriam transformar minha homoafetividade, e passei a me dedicar integralmente às doutrinas que eles pregavam.

 

Voz: Nós fazíamos reuniões coletivas, com por volta de dez pessoas, em que o líder lia trechos da Bíblia e passava ensinamentos. Também havia consultas “particulares”, em que eu ficava numa sala com um terapeuta, conversando, sentado em um sofá, ladeado por duas pessoas. Essas pessoas tinham a função de orar por mim durante toda a consulta. Os “terapeutas” tentavam controlar até detalhes íntimos da minha vida: insistiam para que, se eu tinha que me masturbar, pelo menos o fizesse olhando fotos de mulheres. Uma vez, tentaram tirar o diabo do meu corpo: fizeram com que eu tirasse a camisa, e, enquanto eu estava sentado numa cadeira, insistiam que havia uma serpente nas minhas costas, que havia botado ovos em minha cabeça. Nunca houve violência física, mas a violência psicológica era muito grande.

 

Voz: Tive que jogar fora meus CDs e tirar o alargador da orelha. Não convivia mais com os amigos, passei a usar outros tipos de roupas e até me forcei a namorar uma garota da igreja – hoje me sinto bastante mal por colocá-la nessa situação. Tentavam de todas as formas encontrar uma justificativa para minha sexualidade: perguntavam se eu havia sido estuprado, por exemplo. Até decidirem que a culpa era da minha família: ter uma mãe dominadora e um pai submisso teria me tornado homossexual. Por causa disso, passei a acusar meus pais de serem os responsáveis por meu sofrimento e me afastei também deles. Eu passava óleo de unção na fronte antes de sair de casa, para evitar pensamentos impuros. Combater a maneira como eu sou se tornava um fardo cada vez maior, que fazia com que eu me sentisse cada vez mais diminuído.

 

Voz. Por trás das terapias de “cura gays” tocadas por igrejas está uma associação chamada Ministério Ágape, que reúne líderes religiosos de várias congregações.

 

(FIM DA LEITURA DE TRECHO)

 

(FADE IN E FADE OUT DA TRILHA SONORA)

 

Lila: Continuando aqui com o Direito, tem aqui o inciso quarto do artigo terceiro da Constituição. Constitui objetivos da República Federativa do Brasil promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação. E o STF já decidiu que esse sexo aí engloba tanto gênero quanto orientação sexual. Então, a gente tem como princípio… Um objetivo, na verdade, objetivo fundamental da nossa República, não promover o preconceito. Assim, eu vejo que essa decisão, esse pedido, essa decisão viola vários artigos e incisos aqui da Constituição. Inclusive, o artigo quinto, inciso terceiro também fala, ninguém será submetido a tortura nem a tratamento desumano ou degradante. Que isso enquadraria aqui, a terapia de reversão. No fim, a tortura psicológica, mas a tortura física também. Inclusive, há relatos de estupro corretivo em lésbicas pra, supostamente, tratar a homossexualidade e fazer com que elas se tornem héteras. Que é uma coisa muito louca.

 

Dann: Inclusive, tem um link da postagem, que acho que foi você que nos deu, Ligia; que é uma fotógrafa aqui da América Latina que passou por essa situação, e ela passou a investigar essas situações. E aí, gerou essa reportagem que tá no link da postagem. Foi você quem nos passou, né?

 

Lila: É, acho que sim. Que fala que ela disse que ela precisava ser curada pra fazer a reportagem, e acabou presenciando várias dessas torturas. Inclusive, tem histórias também de outras jornalistas, no passado, que foram investigar os tais sanatórios, e que foram institucionalizadas e passaram por tortura lá dentro, e que precisou de intervenção externa pra deixar, poderem sair mesmo da instituição. Porque uma vez que você entra numa instituição dessa, é muito difícil sair, porque eles vão querer te torturar até te reduzir a… Sei lá, um estado que você não sabe mais distinguir o que é realidade e o que não é, entendeu. Acho que o Pablo pode falar melhor a respeito disso.

 

Pablo: E se esse tipo de prática se aproximar das clínicas de tratamento de dependência química, que já existem por aí, boa parte dessas clínicas acabam sendo verdadeiros centros de tortura. Inclusive, tem o CQC, lá naquela época, que fez uma denúncia contra uma clinica que tava exigindo dinheiro pra poder liberar uma paciente interna, e como a mãe era pobre, tinha dado todo o dinheiro pra poder leva-la pra a clinica, porque ela não sabia, tinha procurado a filha com maconha, essas coisas todas, a clinica não queria liberar, se não pagassem pra ela. O que, pra mim, isso significa, basicamente, cárcere privado ou sequestro. Você tá aqui preso comigo, não vai sair de dentro da casa, só vai sair mediante pagamento. Pra mim, isso é sequestro. E crime.

 

Lila: É, é sequestro.

 

Pablo: Que já acontece em outras circunstancias, principalmente com pessoas pobres e negras. E se for aberto pra esse tipo de prática com relação aos homossexuais, vão ser só voltado pra pobres e negros.

 

Dann: Oh, Pablo, eu fiquei pensando também no White People Problems, sabe. Se tiver um pai rico, mas totalmente dentro dos princípios da heteronormatividade, bem cristã ainda. Pra quem não sabe o que é heteronormatividade, ou cis-normatividade, que a gente vai falar logo mais, voltem no HQ de Bolso e lá vocês vão fazer o dever de casa. No HQ de Bolso sobre Transexualidade, e no HQ de bolso sobre Heteronormatividade. Mas voltando à pergunta, White People Problems. O pai tem dinheiro, o pai é preconceituoso, o adolescente é menor de idade, e o pai tem veto de poder assinar ou não, e aceitar isso. Então, por exemplo, nessa situação, o pai pode internar um filho e deixar ele lá 30 dias, gastar horrores pra ver se sai o viado, volta homem…

 

Pablo: Uhum, sim. Isso já acontece com usuários de drogas. Quando o pai descobre que o filho fuma maconha… Descobriu um baseado no bolso do filho, independente se ele fumou ou não, já fazem isso. Tem aquele filme, bicho de Sete Cabeças, que ilustra bem essa realidade. E é baseado em fato real. E de fato a forma como foi feito o internamento é, de fato, como aconteceu com a pessoa que escreveu o livro, que é O Canto dos Malditos. Se eu não me engano, o nome dele é Austregésilo Carrano. E aconteceu aqui em Curitiba, no Hospital Psiquiátrico do bom Retiro. E aconteceu bem daquele jeito mesmo. E acontece o tempo todo isso. Então, é o que mais aconteceria se, assim… O dinheiro público ia ser basicamente pra internar as pessoas pobres, e quem tivesse dinheiro, quem ia sofrer mais iam ser os jovens e as crianças.

 

Dann: Entendi. E com o aval, né, no caso.

 

Pablo: Sim.

 

Dann: Com amparo legal. Inclusive, é interessante também a gente dizer sobre… Nós estamos falando sobre a sigla LGBT, a gente está focando nos gays, mas, na verdade, a gente tem que falar na sigla de LGBT. Inclusive, temos o Danilo, que é bissexual, e ele vai explicar um pouquinho o que ele ouve da bissexualidade. E temos também as pessoas transexuais, que ainda estão no CID. E o Pablo também pode explanar pra a gente essas questões, como são vistas.

 

Pablo: O CID, só pra explicar, o CID não é o Sid aqui que apresenta também o HQ da vida. (risos) O CID é o Código ou Classificação Internacional de Doenças da Organização Mundial da Saúde. O problema é que a última versão mais recente do CID, que é a versão do CID 10, ele é de 1990. Então, digamos que ele tá um pouquinho desatualizado.

 

Dann: Só 27 anos, né.

 

Pablo: Mas nem tanto, porque o DSM 5, que é o Manual Estatístico Diagnóstico de Doenças Mentais da Associação Psiquiátrica Americana, ele é de 2016, e ele ainda traz a transexualidade como transtorno mental.

 

Danilo: Acho que a última vez que foi atualizado foi pra retirar a homossexualidade como…

 

Pablo: É. Na verdade, o CID, o que ele mantém da homossexualidade é o que eles chama de Transtorno da Orientação Sexual Egodistônica. Frisando, orientação sexual não é doença, mas eu não estar em sintonia com a minha própria orientação sexual, é. Então, o problema não é minha orientação, o problema é eu não aceitá-la. Então, se eu chego num consultório médico e falo, “Olha, eu sou gay, mas eu não gosto de ser gay”. Legal, você está em sofrimento. O Seu sofrimento é pela não aceitação de você ser gay. Então, a gente poderia tratar eventualmente essa não aceitação. Mas não a homossexualidade. Isso aí já tá claro no DSM 4 de 94, no próprio CID 10, as práticas comuns já acabam levando pra isso, pra essa compreensão… De com prender a egodistonia. Mas aí depois eu falo sobre isso, que tem bastante pepino pra comentar.

 

Dann: Sim, nós vamos voltar nessa pauta aí, que eu achei ela super interessante, até mesmo com uma situação que eu vivenciei hoje. Mas, Danilo, diga aí pra a gente sobre a bissexualidade. Como que uma parcela da sociedade…

 

Danilo: Certo… bom, primeiro, a gente não existe. A gente já começa aí por essa problemática. O bissexual não existe, seja na sociedade, seja até mesmo dentro da militância LGBT, o bissexual muitas vezes é tratado como… O que eu costumo dizer, o gay incompleto ou um hétero quebrado. Broke hetero, sabe. Então, pra começar, a gente já não existe. Começa por aí. Pessoas tentando curar a gente, tem dos dois lados. Tanto do lado heteronormativo da coisa, que diz que a gente tá confuso, que diz que a gente tá por uma fase, que diz que a gente só não se achou ainda em algum dos dois lados, sabe, aquela coisa de adolescente, experimentando. Do lado da militância, a gente é visto como covarde, a gente é visto como uma pessoa que não entrou muito bem de cabeça nisso, e uma hora vai ter que sair de cima desse muro, se quiser continuar fazendo parte dessa militância e quiser continuar falando em nome dessa luta. Como se a gente tivesse sempre devendo pra todos os lados. A gente fala muito de cura gay e etc. Mas se existe uma cura que tá mais do que chancelada pela sociedade, por todo esse sistema que a gente vive, é a cura bissexual. Desde sempre. Porque a gente tem a nossa identidade apagada de uma maneira conivente. Tanto que os níveis de… Até o que o Pablo tava falando, de quando você experiência essa coisa da, entre muitas aspas, cura gay, você tem maiores índices de depressão, de suicídio dentro de pessoas que vivenciam isso. E, não à toa, dentro da comunidade LGBT, os bissexuais, homens e mulheres, são os que mais sofrem com problemas mentais, e também são os que têm as maiores taxas de suicídio, proporcionalmente. Eu acho que tá muito ligado uma coisa à outra. A gente tem que discutir essa problemática da cura gay, que surgiu com essas polêmicas dos últimos anos, mas eu acho importante também a gente debater como a cura bissexual é tão chancelada e, às vezes, até socialmente bem vista… Não sei se posso dizer assim.

 

Dann: É, inclusive, rolaram várias piadinhas no Facebook, e talvez seja até a hora de fazer um disclaimer sobre essas piadas sobre a cura gay, tomar meio comprimido, como se bissexual fosse meia coisa, meia outra.

 

Danilo: é, eu até cheguei a compartilhar esse tipo de coisa mais como ironia. Mas depois eu até entendi que, assim, o que é uma ironia pra mim, é uma problemática. Entendi o problema que existia nisso. E realmente, existe muito essa visão de que bissexual é metade uma coisa, metade outra. Acho que até isso (incompreensível) que a gente tem que decidir um lado, ou que existe um lado pra ser decidido…

 

Dann: É como se fosse Fifty-Fifty.

 

Danilo: Fifty-fifty… E não é. A sexualidade humana é muito mais complexa que isso. Alguns bissexuais costuma dizer, eu incluso, que a gente não é 50% homo e 50% hétero, a gente é 100% bissexual. A gente gosta dos dois gêneros, ou de vários gêneros, seriam os pansexuais, que eu costumo dizer que são bissexuais políticos. Bissexuais mais políticos que entendem todo o degradê de gênero. Mas eu também não vejo problema em bissexual, a partir do momento que você reconhece o seu privilégio enquanto cis, entende o gênero aí dentro, eu acho que não tem problema. Eu mesmo, por definição, seria um pansexual, mas eu gosto de usar bissexual mais politicamente mesmo. Eu acho que até essa percepção de que bissexual é 50/50, não é bem uma coisa, não é bem outra, é que acaba dando a ilusão pra as pessoas de que pode tá de um lado. Você não escolhe por quem você se apaixona, você simplesmente se apaixona. Eu mesmo namoro um homem, (incompreensível) e eu não escolhi sentir atração por nenhuma dessas pessoas. Não é como se eu tivesse uma chavinha dentro de mim que desse pra ligar ou desligar. Hoje eu vou… Sei lá… Hoje eu vou numa festa hétero, eu vou ligar o hétero, sabe. Hoje eu vou numa festa LGBT, eu vou ligar a chavinha do lado gay. E a gente sabe que não é assim. Sexualidade não funciona assim. Você não escolhe. Acho que é isso.

 

Dann: Pablo, sobre o CID…

 

Pablo: Então, o CID é mais usado pelos médicos e psiquiatras. A gente, na Psicologia, acaba usando como uma forma de diálogo mais. Mas o CID não é parte do diagnóstico psicológico, propriamente dito. Existem várias outras formas de diagnóstico psicológico, mas esse não entra. Não que a gente também não possa fazer diagnósticos baseados no CID. A gente pode. A gente acaba fazendo. Na hora de fazer laudo, a gente acaba se pautando nele. Mas ele é um código muito mais voltado pro campo da Medicina. Porque a gente entende que esses comportamentos psicológicos são muito mais complexos do que meramente a gente procurar sintomas biológicos. E isso é uma coisa que a gente tem que prestar atenção, porque boa parte dos problemas que são ditos psicológicos, eles têm o componente biológico, obviamente, mas ele também tem o componente social muito forte. Então, a própria egodistonia, que tá presente no sofrimento, que tá presente lá no Cid, ela geralmente… E aí, eu posso dizer com quase 100% de certeza, ela geralmente tá associada ao meio social onde a pessoa vive. Porque, dificilmente, uma pessoa, por exemplo, que… Vamos supor aqui um quadro bem estranho. Um homem heterossexual convivendo num ambiente heterossexual heteronormativo, de repente não gostar de ser heterossexual e querer ser homossexual. Mas se sentir incomodado por ser heterossexual e desejar ser homossexual. Eu nunca ouvi nenhum caso disso. Não sei se existe, mas é um caso extremamente raro. Esse seria um exemplo de uma egodistonia. Mas provavelmente isso não vai acontecer porque o meio onde a pessoa tá vivendo tá reforçando que ser heterossexual é normal, ser heterossexual é legal, ser heterossexual é o caminho. Então, a pessoa, muitas vezes, nem vai… Se ela não tiver contato com alguém que é homossexual, ela nem vai pensar na possibilidade de cogitar ser homossexual. E aí, desejar fazer uma reversão, uma reorientação pra ser homossexual, alguma coisa assim. Então, porque tudo depende muito da pressão social. Então, a gente sempre vai compreender que esses exemplos de egodistonia estão muito relacionados a pressões sociais, que geralmente são os próprios homossexuais, bissexuais, pansexuais. E aí, aqui a gente não tá falando dos transexuais porque existem vários transexuais que são heterossexuais também. E isso é uma outra questão. Mas só falando dos cisgêneros, geralmente esses heterodivergentes vivem numa sociedade heteronormativa que ensina pra eles que ser diferente é errado. E aí, o sofrimento vem por conta disso. Se a gente não entende isso, a gente vai achar que só pelo fato da pessoa chegar no consultório de um psicólogo e falar, “Olha, eu sou homossexual, mas eu quero deixar de ser homossexual. Você me ajuda?” que é um pedido legitimo, e não é um pedido legitimo. Porque esse é um pedido que é embasado e endossado por uma pressão e uma opressão social muito forte. E esse é o tipo de análise, por exemplo, que não tá presente no CID. Não tá presente no DSM.

 

Dann: Uhum.

 

Pablo: Eles só vão analisar o aspecto biológico. O aspecto da pessoa estar sofrendo, esse sofrimento pode levar à depressão e ao suicídio. Ok. Mas o que tá trazendo? O que tá levando esse sofrimento? É a pressão social, é a pressão familiar, é a pressão religiosa, é a pressão da cidade, e a pressão, muitas vezes, das leis e das proibições. Tem lugares, por exemplo, onde homossexuais não podem ser vistos em público, tendo comportamentos afetivos. Tem lugares onde o casamento homossexual não é aceito. Então, você tem uma série de pressões sociais que faz a pessoa se questionar  se não seria melhor ela deixar de ser homossexual. Eu gosto muito de usar a analogia, vamos imaginar 100 anos atrás. Ou pouco mais de 100 anos atrás. Acabou de abolir a escravatura, nenhum negro mais é escravo. Só que toda sociedade mostra que ser negro é impossível, você não pode estudar, você não pode trabalhar, você não tem emprego. Você não consegue ser negro, se você não for escravo. Imagina um cara desses chegando assim, “Olha, existe uma tecnologia que faz com que eu fique branco, será que não seria melhor eu ser branco pra ser mais bem aceito na sociedade?” E aí, dentro dessa lógica puramente biológica, o pessoal, “Ah, é possível transformar um negro num branco? Então, vamos transformar ele num branco, sem problema nenhum”. Só que, ao fazer isso, o que eu tô fazendo? Eu to mascarando o racismo. Ou seja, eu to eliminando a diversidade, eu tô fortalecendo o preconceito. Então, tem uma série de problemas sociais que tão envolvidos nisso que ficam apagados com esse tipo de discurso. E isso que é o mais grave. E é isso que os psicólogos acabam estudando. Precisam, teoricamente, estudar. E que essas pessoas que ficam defendendo esse tipo de resolução como a do juiz não entendem. Eles acham, “Ah, mas se a pessoa quiser, ela pode”. Não. Ela pode pedir, mas o psicólogo tem obrigação de orientar. Tem obrigação de conhecer os problemas sociais, e tem obrigação de conhecer os problemas sociais da própria pessoa e fazer com que ela perceba o que tá acontecendo.

 

(FADE IN E FADE OUT DA TRILHA SONORA)

 

Dann (narração): Relato, como acontece o processo de cura gay dentro de congregações religiosas.

 

(INÍCIO DE LEITURA DE TRECHO)

 

Voz: Depois de seis meses sem deixar de sentir atração por homens, busquei uma outra igreja treinada pelo Ágape. Era uma igreja menor, menos famosa. Imaginei que, em um ambiente mais “familiar”, eu teria um acompanhamento mais próximo, que facilitaria o processo.

 

Voz: Em nenhuma das igrejas as pessoas me tratavam como igual. Todos da congregação sabem quem são as pessoas que estão se submetendo ao processo de “cura gay”; por causa disso, muitas vezes evitam conviver com você. Em acampamentos da igreja, havia um desconforto grande entre os homens por causa da minha presença: os rapazes temiam que eu pudesse me interessar por eles. Mesmo conversar com eles era difícil, não tínhamos interesses em comum, e eu sentia que devia ficar “fazendo o papel de hétero” o tempo todo.

 

Voz: Acho importante frisar que não foi por falta de esforço da minha parte que a terapia de “cura gay” não funcionou. Eu me dediquei com afinco. Durante os dois anos e meio em que me submeti a isso, li a Bíblia inteira quatro vezes e meia. Fazia tudo que me orientavam, durante as sessões de terapia e fora delas. Frequentava as sessões promovidas pela igreja e me consultava com terapeutas que os líderes da igreja indicavam. A cada consulta eu achava que dessa vez a questão havia se resolvido, apenas para ficar frustrado quando, pouco depois, percebia que continuava o mesmo. E pior, minha depressão só se agravou durante esse período. Continuava tomando remédios para evitar que eu tentasse me matar novamente. Depois de dois anos e meio sem perceber qualquer resultado, comecei a questionar o que estava fazendo, e a questionar os líderes da igreja. Também foi nesse período que li um livro transformador, Torn, de Justin Lee. Foi a primeira vez que alguém oferecia uma visão que conciliava o cristianismo e a homossexualidade. De repente, descobri que não precisava mais negar minha orientação sexual. Isso tudo aconteceu em 2014, quando o país entrou numa comoção política, e eu percebi que  os amigos da igreja e alguns de seus líderes se alinhavavam com Bolsonaro. Não concordava com esse tipo de posicionamento e senti que tinha cada vez menos em comum com aquelas pessoas. Aos poucos, comecei a me afastar delas.

 

Voz: Isso fez com que eu procurasse outra terapeuta, uma que não estivesse associada ao culto. Com sua ajuda, fiz as pazes com o que sentia e comecei a lidar bem com minha sexualidade. Continuava a frequentar a igreja, mas os outros membros da congregação me tratavam como pária, diziam que eu havia desistido. Deixaram bem claro que ou eu me adequava à maneira como eles pensavam que eu deveria ser, ou teria problemas para me encaixar nos padrões da igreja. Não queriam que eu fosse quem eu realmente era – me senti expulso. Abandonei essa igreja pouco depois. Duas semanas mais tarde, fiz uma tatuagem de uma cruz com um arco-íris no fundo. Sim, é possível ser gay e cristão.

 

Voz: Aos 24 anos, vivi uma nova adolescência, tive o primeiro beijo, o primeiro namoro, a primeira transa. Hoje meus pais dizem que nunca me viram tão feliz e tão saudável. Ainda não falamos abertamente sobre minha sexualidade – eles sabem que eu namoro, mas não tocam no assunto. Sinto que ainda têm a esperança de que a “cura gay” vai acontecer por algum outro caminho. Mas pelo menos não me agridem. Às vezes algum comentário deles me fazem acreditar que estão tentando compreender como sou. Continuo sendo cristão, mas não frequento qualquer igreja – nem mesmo as inclusivas. Não me sinto confortável.

 

Voz: Não sou capaz de condenar alguém que busque um processo de “cura gay”, porque eu mesmo já me submeti a isso. Mas posso dizer tranquilamente que só passa por isso quem não vê outra perspectiva de vida. E isso acontece por falta de informação. Qualquer profissional realmente qualificado ou amigo próximo vai tentar mostrar para a pessoa que é possível viver a homossexualidade de maneira saudável e feliz, mesmo que agora isso pareça impossível. O caminho que trilhei para aceitar minha sexualidade teve que passar por esse tipo de “terapia”, mas hoje vejo que poderia ter me tornado uma pessoa realmente feliz muito mais cedo se houvesse encontrado alguém mais qualificado para me orientar.

 

(FIM DA LEITURA DO TRECHO)

 

(FADE IN E FADE OUT DA TRILHA SONORA)

 

Dann: E eu vou usar aqui o papel de advogado do diabo, eu coloco assim, “Ah, mas quem pediu foi ele. Você não leu o ato judicial, não há nada de errado nele, pois apenas defende a liberdade dos psicólogos e dos próprios gays que querem voltar a ser heterossexuais”. Então, quem devemos combater a partir dessa fala? O que vamos combater, na verdade?

 

Lila: eu queria destacar um termo do pedido e da sentença, que ele fala em práticas homoeróticas. Então… (risos)… né?

 

Dann: To até rindo.

 

Lila: Por essa lógica, o errado não seria você ser homossexual. O errado é você exteriorizar isso e… Na lógica da decisão e do pedido, eu não to endossando, não. O errado seria você exteriorizar sua sexualidade e viver sua sexualidade. Aquele velho discurso, “não, deus te ama do jeito que você é, você pode ser homossexual. O que ele odeia é a homossexualidade. Ou seja, a prática homoerótica”. E você vai obrigar a pessoa a viver no celibato, então. Quais outros transtornos que podem resultar disso? Transtornos psíquicos.

 

Danilo: Como se a sexualidade fosse algo flutuando por aí… Não tivesse em pessoas, não fizesse parte da personalidade delas.

 

Pablo: Inclusive, eu quero assustar os usuários heterossexuais que tão ouvindo esse programa, que práticas homoeróticas também acontecem entre heterossexuais. (risos) Se tem dois caras… Pensa assim, homoerotismo, o que é? É você ter algum tipo de vínculo erótico, e daí a gente vai poder entender o erotismo como qualquer busca de prazer, através de relação entre duas pessoas. E homo é quando você tem duas pessoas do mesmo sexo, do mesmo gênero. Se você tem dois amigos que tão jogando futebol e, de repente, eles conseguem marcar aquele gol, eles se abraçam e comemoram ali, sentem prazer ali, isso é uma prática homoerótica.

 

Dann: Hum!

 

Pablo: e muito comum até. Ou seja, eu to sentindo prazer com alguém do mesmo gênero que eu.

 

Lila: (incompreensível) ou compartilhando um momento comigo.

 

Pablo: Não necessariamente um prazer genital, mas…

 

Danilo: É comum. Tem bastante relatos, em vestiários, de masturbação coletiva, não necessariamente pessoas LGBT.

 

Pablo: Também. Sim.

 

Dann: Tem um caso que ocorreu esse, e o jogador foi… Por causa do vídeo que foi divulgado nas redes sociais, esse jogador foi demitido. Não sei de qual foi o lugar, de qual time, porque eu não sou…

 

Danilo: Acredito que era do Rio Grande do Sul.

 

Dann: … a gay do futebol…

 

Danilo: Era de algum time pequeno do Rio grande do Sul.

 

Dann: Entendi.

 

Pablo: Mas assim, eu queria que você lesse de novo essa frase, porque ela tá toda errada, e eu queria analisar, ponto a ponto, os erros dela.

 

Dann: Vamo lá. “Quem pediu foi ele ou ela”, é a primeira frase.

 

Pablo: Não. Porque mesmo quando a pessoa vem e procure, entre aspas, por livre e espontânea vontade, ela pode muito bem, e geralmente, ela tá reproduzindo um desejo social. E não um desejo pessoal. Não é ela que resolveu, por si só, fazer isso. Mas, muitas vezes, com a pressão social, se sentiu coagida a buscar essa transformação.

 

Dann: E aí, também a pessoa vai chegar pra você, “Mas não, Pablo, você não leu o ato judicial. Não há nada de errado nele, pois apenas defende a liberdade dos psicólogos e dos próprios gays que querem voltar a ser heterossexuais”.

 

Pablo: Tá, então vamo ver aqui os vários erros dessa frase. Primeiro, eu li a resolução muito bem. Segundo erro, ela não defende a liberdade, muito pelo contrário. Ela cerceia a liberdade porque ela tem práticas de proibição e regula como que as pessoas devem interpretar a regulamentação 01 de 99. Ela tá ali censurando. Censurando a pratica de liberdade. Ela também não é prática de liberdade porque liberdade, em si, não é um direito absoluto. Toda liberdade tem limites. Não posso agir com liberdade tirando a liberdade do outro. Então, se a minha liberdade tira a liberdade do outro, também eu não tô sendo livre, essa liberdade não é um direito meu. Então, a prática profissional tem que ser baseada em princípios éticos e princípios científicos. Não é princípio de opinião. Psicologia não é bagunça. É isso que as pessoas não entendem. A gente precisa ter essas bases científicas pra a gente poder atuar. E se a ciência já tá, há décadas, mostrando que esse tipo de prática é prejudicial, a gente deve, é obrigação nossa defender críticas a essas práticas e proibir, sim, essas práticas. Além do mais, como foi discutido aqui, práticas de pesquisa com seres humanos, até mesmo pra evitar as barbaridades que aconteceram durante a Segunda Guerra Mundial, com pesquisas em seres humanos que acontecia em campos de concentração, em nome da ciência, entre aspas; a gente precisa levar em consideração uma série de valores éticos que essa autorização simplesmente ignora. Então, se eu quiser tentar criar uma pesquisa pra fazer isso, eu não vou ser nem aprovado no título da pesquisa, porque ela já fere uma série de princípios éticos e científicos. Então, não, ela não é liberdade. E também não é liberdade do sujeito que procura, porque esse sujeito, geralmente, tá sendo coagido pela família, pelo grupo social, pela própria sociedade, pelas leis. Ele tá sendo meio que forçado a fazer isso, então também não é liberdade.

 

Dann: E esse mesmo sujeito fala assim, “Mas, Pablo, você está me proibindo de buscar meu tratamento para mim. Como assim?”

 

Pablo: Ele pode buscar o tratamento que ele quiser. A questão é se ele vai receber. É a mesma lógica, por exemplo, da Fosfoetanolamina, lá com… Do câncer. É um remédio que não tem eficácia, não tem nada, mas se eu quiser tomar aquele remédio, eu posso. Ele é vendido em lojas, se você procurar na internet à venda, eu posso encontrar a Fosfo, e eu vou e tomo à vontade. Não é proibido. O que é proibido é ele ser vendido como medicamento e ser prescrito como tratamento pro câncer. Isso é proibido, porque não existe nenhuma evidência de que funciona dessa forma. Então, chegar e falar, “Não, os médicos não podem fazer isso”, não está proibindo  o sujeito de ir lá e tomar Fosfoetanolamina  pra tratar o câncer dele do jeito que ele quiser. Não tá proibindo.

 

Dann: Entendi.

 

Pablo: Então, assim, se a pessoa quiser procurar uma terapia de reversão, ela pode. Geralmente igrejas oferecem isso. Ou seja, não é que geralmente igrejas fazem. Onde eu vou encontrar esse tipo de terapia sendo ofertada geralmente são em ambientes religiosos. O que ele tá fazendo é proibindo psicólogos de serem charlatões. Inclusive, isso é crime. Charlatanismo é crime. E eu não sei nem por quê as pessoas querem fazer isso, sendo que não pode porque é charlatanismo.

 

Dann: Entendi. Inclusive, eu queria até perguntar a Lila… Que as pessoas, inclusive, ficou aquela treta, “Você não leu, você leu”. E aí, Tem o Vinícius Dittrich, que fez uma postagem pública e fez uma carta aberta ao juiz, que ele foi conferir o documento, e a resolução que é citada é a 001 de 1990. E ele até brinca sobre esses esclarecimentos, mas ele fala assim, que na verdade, isso nem era sobre a 001 de 1999, que é a que a gente está comentando aqui. Essa é sobre psicólogos com mais de 65 anos serem isentos do pagamento de anuidade. NO sentido aí, o que acontece quando esse documento é expedido de forma errada? Existe uma retificação, como que funciona isso?

 

Lila: Houve um erro material de quem digitou a sentença…

 

Dann: Será que foi o estagiário? (risos)

 

Lila: é, provavelmente… Ao digitar, trocou aí a numeração. Mas pelo conteúdo da decisão, a gente vê que ele não tava tratando de anuidade de psicólogo, ele tava tratando da resolução mesmo que proíbe a prática de cura gay e esse tipo de coisa. Foi só um erro material que pode ser corrigido, sim. A gente tem que se ater mais ao conteúdo mesmo da decisão, e não tanto à numeração incorreta.

 

Dann: eu gostei da fala do Vinicius, mas no final ele coloca um PS que quase ninguém leu. E aí, haters sempre vão ser haters, então… Depois, tá no link da postagem também, caso vocês queiram conferir essa carta aberta ao juiz. E, pessoal, eu acho que a gente já chegou em alguns consensos. Já falamos sobre bissexualidade, falamos sobre a transexualidade, que ainda encontra no CID. Inclusive, temos um HQ de Bolso falando somente sobre Transexualidade. Nós falamos também sobre os aspectos jurídicos que permeiam isso. Qual é a visão, também, do CFP. E eu acho que a gente venceu essa pauta mostrando pra as pessoas. Inclusive, apesar desse nome do programa ser “Cura Gay”, a gente sabe que não é a cura gay, podem ficar tranquilos. Antes de rebater, espero que vocês tenham ouvido nós até este momento.

 

Pablo: Ouvir até o final (incompreensível)…

 

Lila: Acho melhor você colocar “cura gay” entre aspas, ou colocar “cura LGBT”, porque com certeza vai ter alguém implicando com isso.

 

Dann: É, já preparar para o chorume dos retuites, dos compartilhamentos sem, na verdade, lerem. Provavelmente, eu vou acatar. Eu queria que cada um fizesse um comentário final, pra a gente poder arrematar e fechar esse programa.

 

Lila: Então, eu acho que essa decisão aí, principalmente que tá no campo da Psicologia, mexe muito com a saúde mental dos LGBTs. Ter que, reiteradamente, ler esse tipo de notícia, como o Danilo Cursino falou, não é de hoje que isso está em pauta. Que existe a bancada evangélica que tem um projeto de poder muito claro. Que, inclusive, almeja eleger um presidente evangélico. Então, esquecer o amor. Não é de amor que se trata. Se trata de sexo, de política e de poder. É disso que se trata.

 

Dann: Lila, faça seu jabá também no nosso programa, por favor.

 

Lila: então, eu participo do É Pau É Pedra, podcast dos patrões do Anticast. Eu já fui host de alguns programas. Fui host da maioria dos programas sobre Game Of Thrones, o É Pau É Guerra. E participei também do clube do Livro, fui host de um clube do Livro. Inclusive, temos planos de voltar a gravar os podcasts.

 

Dann: Inclusive, eu participei desse podcast, desse programa.

 

Lila: Sim, também. Foi sobre o Livro A guerra Não Tem Rosto de Mulher, da Svetlana, ganhadora do Nobel do ano passado, se não me engano. E também tô participando de alguns SAC Feminista, que é o programa do É Pau É Pedra que quer responder dúvidas que os ouvintes nos mandam sobre feminismo. Eu tô sempre aí. Vocês me encontram lá no É Pau É Pedra e por aí nas internets. E na Cracóvia, né, que é o grupo dos patrões do Anticast.

 

Dann: Sim, pague o Patreon e vai lá brincar com a gente. (risos) Pablo.

 

Pablo: Então, considerações finais. Eu disse, lá no começo, que provavelmente uma das maiores vítimas dessa liminar do juiz acaba sendo os psicólogos. Não querendo desmerecer o sofrimento vivido pela comunidade LGBT, mas esse sofrimento já existe. Ele já é real. Esse tipo de conversão sexual já é uma prática comum. O que essa resolução faz é admitir esse tipo de prática dentro do campo da ciência psicológica. Então, é um ataque frontal direto contra o Conselho de Psicologia. Não é uma decisão contra a comunidade LGBT, que já sofre demais. Acaba sendo um ataque contra os psicólogos, de uma forma geral. Que a gente já não é muito bem visto na sociedade, as pessoas já não entendem direito o que a gente faz. E ainda com esse tipo de autorização, psicólogo misturando religião e ciência, acaba virando mais bagunça ainda. Nossa imagem acaba ficando bem pior. As pessoas ficam cada vez mais confusas. E as ajudas que a gente pode eventualmente trazer pra a sociedade acabam sendo prejudicadas. Mas eu vi recentemente uma argumentação que eu achei bem interessante. Tem uma pessoa que falou que achou bom esse tipo de discussão ter ido pro judiciário, e que todo mundo recorra a todas as decisões. Que agora o Conselho vai recorrer da decisão, vai tentar cancelar essa liminar. Daí, os psicólogos que entraram com o processo vão tentar de novo recorrer. E vai sempre recorrendo até chegar no Supremo, pro Supremo parar de vez essa besteira. O meu medo é, que com o Supremo que a gente tem hoje, e que hoje, no dia da gravação, autorizou o ensino religioso confessional nas escolas públicas, eu não sei se ele teria bons olhos pra esse tipo de prática, mesmo com toda a pressão social. Não sei. Tenho medo. Mas oremos pra todos os deuses possíveis, pra que, quando chegar lá no Supremo, o Supremo para de vez e entenda que existem resoluções internacionais do qual o Brasil é signatário, existe a Constituição que proíbe esse tipo de prática, que existem  coisas que são maiores que a própria resolução. E a resolução é só uma orientação pra os psicólogos pra eles se atentarem pra vida de que não podem fazer esse tipo de coisa, já por conta de leis maiores do que a própria Psicologia. Fora todos os princípios e evidências cientificas. Então, se chegar lá no Supremo e o Supremo barrar de vez, daí a gente para com essa palhaçada. A não ser que o próximo passo desse grupo seja querer mudar a Constituição. Mas, até isso acontecer, vai ter muito chão pela frente.

 

Dann: Pablo, faça seu jabá dos seus sites…

 

Pablo: Jabás. Eu tenho o meu site pessoal, que tá meio parado, porque eu tô reformulando o aspecto visual dele. Espero que, até o final do ano, eu consiga ter um layout novo, com novos textos e novas atrações, que é no Pablo.deassis.net.br; tem também o podcast de Psicologia, eu tô com planos de fazer também videiocast, um canal no Youtube, mas todas essas questões vão tá lá no meu site. Também eu participo como podcaster lá no site mitografias.com.br; eu participo ativamente do Papo Lendário e de outro podcast, que é o Papo Cético, a gente fala sobre pensamento científico. No Papo Lendário, a gente fala sobre mitologias e religiões do mundo todo. E também tem outro podcast que é só meu, que é o Horrores Urbanos, onde eu falo sobre criaturas horripilantes que rondam as nossas cidades e vidas. E especificamente nessa primeira leva, que vai durar alguns anos, tô tratando de criaturas chamadas de devoradores de almas. Também tô participando de um  spin off do  É Pau É pedra, que é o É Pau É Pedra filosofal, que a gente tá discutindo Harry Potter.

 

Dann: Meu deus, eu também tô lá. (risos)

 

Pablo: é. Eu só participei de uma gravação, porque foi a única que eu consegui participar mesmo, por questão de agenda. Mas a ideia é que eu participe mais. Eu acho que é por aí. Também tem Facebook e Twitter, daí é só procurar pelo meu nome, vocês podem me achar por aí e conversar comigo.

 

Dann: Ok. Danilo.

 

Danilo: Oi!

 

Dann: vamos lá, sua mensagem final e o jabá.

 

Danilo: A minha mensagem final é, principalmente, vamo ficar de olho, pressionar, fazer barulho mesmo. A gente tem que ir pra a rua, a gente tem que falar e ser ouvido. Eu costumo dizer que a gente não pode baixar nunca a cabeça pra os opressores. Se você não pode lutar com a mão, você pega um pau, você pega uma pedra, você se defende da maneira como você pode. Mas o que a gente não pode fazer nunca é se calar no meio deste absurdo. A gente precisa mesmo falar, porque, ao contrário de outras vezes que essa barbaridade foi proposta, hoje a gente tem voz. E a gente vai falar por cima, sim. E a gente vai falar contra, sim. E a gente vai derrubar isso, sim. Com a nossa força, meus (incompreensível). E também vamo parar de normalizar a cura bissexual porque, como eu disse, esse assunto entrou muito em pauta agora com a cura gay, até algumas piadinhas sobre bissexuais, mas a gente tá tratando algumas pessoas nessa sigla ainda como doentes, não só os bissexuais, também os transexuais. Vamo olhar aqui, essa sigla tem quatro letrinhas, mais letrinhas até, deve ter umas 15 oficialmente. Muitas dessas pessoas tão sofrendo também, de uma forma ou de outra, tentativas de serem curados de sua condição. E isso por coerção social. A gente não pode aceitar isso. A gente tem que se levantar e falar não só quando a coisa fica tão crítica quanto agora, mas todos os dias.

 

Lila: Danilo.

 

Danilo: Oi.

 

Lila: Não, o outro Danilo (risos).  Só um jabá que eu esqueci, porque eu to escrevendo uma coluna sobre livros no site do Podcast Olhares, que é olharespodcast.com.br; que vai ao ar quinzenalmente. A primeira coluna foi sobre O Conto de Aia, e a segunda coluna foi sobre o livro Outros Jeitos de Usar a Boca, que eu devo falar o nome da autora errado, mas vou aportuguesar, que é Rupi Kaur, ela é indiana e mora nos Estados Unidos. Não sei se ela é americana e de ascendência indiana. Sobre esse livro de poemas aí, foi ao ar na segunda-feira, então quem quiser conferir, pode ir lá no site do Olhares e ler minhas colunas.

 

Dann: Ai, que bacana! E, Danilo, faça o jabá aí do Trans-Missão.

 

Danilo: gente, Trans-Missão! O Trans-Missão tá um pouco parado atualmente. Mas eu tô fazendo aqui uma retratação pública sobre isso. Aline, Alex, Felipe, que são meus companheiros. A gente vai voltar, sim. Vai acontecer isso. É um projeto muito legal que eu não quero abrir mão tão cedo. Tem uns programas já lá no ar, a gente tem…

 

Dann: Nove programas…

 

Danilo: Onze programas já lançados…

 

Dann: Ah, desculpa.

 

Danilo: Nove? Nem eu sei mais quantos tem…

 

Dann: Eu acredito que foi nove porque eu lembro da Aline fazendo o jabá no Anticast 305. Se eu não me engano, ela falou nove. Eu associei.

 

Danilo: Ah, é. É que eu acho que a gente tem dois que tão ocultos. Eu tenho que dar uma olhada. Mas entra lá no É Pau é Pedra, tem lá a playlist do Trans-Missão, você consegue ouvir os programas antigos. O último que a gente fez, a gente chamou a, na época, presidente da Associação de Mulheres da cidade de São Paulo, pra falar sobre desigualdade de gênero. Foi um papo que todo mundo saiu da mesa enriquecido. Era uma mulher incrível falando sobre como a língua consegue apagar o gênero feminino, e de todas as problemáticas do mundo feminino, e do mundo lésbico também, principalmente. Ouçam. Outros jabás que eu tenho… Todas as minhas coisas estão meio paradas… Mas eu tenho um canal no Youtube. Redes sociais, vocês conseguem me encontrar em qualquer uma delas como danilocursino, tudo junto, em todas elas. Tudo que vocês conseguirem imaginar aí é danilocursino.

 

Dann: Eu sou super a favor da volta do Trans-Missão e, inclusive, quero ser convidado… (risos)

 

Dann: Nossa, mas se eu te disser que você tava nos planos quando a gente parou, você não vai acreditar em mim.

 

Dann: Eu tenho um carinho com o Trans-Missão porque, quando eu comecei o HQ da Vida, vocês também começaram o Trans-Missão. E foi junto. E eu achei que a gente ia andar. E vocês tão lá parados. Mas tem que voltar.

 

Danilo: A gente vai andar. Eu achei muito legal a ideia de ter um programa que tem uma pessoa de cada sigla nele, pra discutir tudo. É uma ideia muito legal que a gente não pode deixar morrer.

 

Dann: Acredito que seja o único que existe aí na podosfera, que tem o L, o B, o G e o T. então, não deixe morrer, não deixe flopar.

 

Danilo: sim. Só mais um jabá, um jabá espontâneo. Eu preciso fazer esse jabá que não é, necessariamente, para mim. Os meninos do The Library Is Open, um podcast sobre RuPaul’s Drag Race, eles fizeram um programa incrível sobre visibilidade bissexual. VisiBIlidade bissexual. Acho que já deve tá no feed deles. Eles falam sobre RuPaul’s Drag Race geralmente, quando tá on season, quando tá passando. Quando tá off season, eles fazem geralmente programas com temática LGBT que tá aí pra enaltecer a nossa comunidade. Eu sou muito fã deles. Eles confundiram a gente, inclusive, no… risos) Eu só queria dizer que eu adoro vocês, meninos, mas somos Danilos diferentes, e pode chamar os dois pra participar de algum programa sobre RuPaul’s Drag Race, que a gente… (risos) Tô me convidando mesmo. E tô convidando o Danilo também.

 

Dann: Ah, eu vou adorar. Inclusive, eu vou até linkar aqui. Que todo mundo já percebeu que todo mundo é do É Pau É Pedra. Eu tô lá no É Pau É Pedra filosofal, eu gravei o Clube do Livro com a Lila, eu tenho vontade de gravar o Trans-Missão e, recentemente, a gente gravou um Jah! Sobre RuPaul, que deve tá indo ao ar. Não vou fazer temporalidade, talvez vai ao ar antes de eu lançar esse programa, ou talvez vai depois. Mas tá lá também. Tudo no feed do É Pau É Pedra. E The Library Is Open, eu amo eles, e sigo também no Twitter. Inclusive, foi até um pedido nosso pra eles criarem, pra a gente poder usar a hashtag #podcastfriday.

 

Danilo: Eles estão ouvindo, provavelmente.

 

Dann: sim, sim, sim. Então, é isso. Eu acho que a gente já conseguiu chegar à conclusão de que esses desejos individuais de querer voltar a ser heterossexual é uma pressão social com base em toda a heteronormatividade. A Ligia explanou pra a gente sobre a área jurídica. O Pablo explicou pra a gente sobre a área da Psicologia. O Danilo falou do seu local de fala da bissexualidade. É uma pena a gente não ter uma pessoa trans, porque seria interessante. Eu tenho muitas amigas trans, que eu tenho que deixar esse disclaimer aqui. Reclamaram muito no Facebook que as pessoas trans estão fazendo a luta delas aí… E eu me enquadro como uma pessoa que gosta de caminhar na luta com elas. Mas que esse bafafá não gera muito debate igual gerou, por exemplo, das questões da cura gay, especificamente. E que elas estão aí no CID há muito tempo. Inclusive, uma foi até irônica, falou assim, “Bem vindas, amigas homossexuais”.

 

Danilo: Ai, Amanda Palha, maravilhosa.

 

Dann: Então, vamos olhar também pra as outras letras da LGBT. Vamo deixar de ser GGG. E também repensar isso aí. Enfim, eu espero que vocês tenham gostado desse programa, e tenham esclarecido esses elementos que foram todos discutidos na web loucamente. E lembrando, o HTreta não é um programa que tem periodicidade, é um programa eventual. E aí, quando tiver algumas tretas que envolvem a área nossa, LGBT, a gente pode tentar propor e arrumar um pessoal maravilhoso, como fizemos hoje, pra poder conversar com a gente. É isso aí. Então, vamos dar um tchau coletivo? Tchau, tchau!

 

Pablo: Tchau!

 

Lila: Tchau!

 

Danilo: Tchau, gente!

 

(FADE IN E FADE OUT DA TRILHA SONORA)

 

FIM

 

Transcrito por Sidney Andrade

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