Transcrição – HQ de Bolso #09 – Padrão de Beleza e Capacitismo

Transcrição – HQ de Bolso #09 – Padrão de Beleza e Capacitismo

 

(Nota: a transcrição é um recurso de acessibilidade que viabiliza o acesso para pessoas com alguma deficiência auditiva, além de ser um mecanismo eficiente de consulta para o conteúdo do podcast. Não pretende, portanto, substituir a audição do programa, mas, sim, complementá-la)

 

Vinheta de abertura: entre efeitos sonoros de impacto, uma voz com reverberação anuncia “HQ DA VIDA, o seu podcast sem quadrinhos.”

 

(Trilha sonora de Background alusiva a histórias em quadrinhos)

 

Dann: Olá, ouvinte, Aqui é Dann Carreiro.

 

Sidney: Eu sou Sidney Andrade e esse é o HQ de Bolso número 09.

 

Dann: Então, pessoal, o HQ de Bolso tem a intenção de provocar discussões iniciais sobre temas que abrangem as vivências Queer. A gente quer começar o assunto para que você possa ter um ponto de partida com o qual possa buscar mais informações. Queremos iniciar conversas importantes que precisam ser debatidas sempre mais a fundo. Lembrando, aqui é só o começo.

 

(fade in e fade out da trilha sonora)

 

Sidney: E hoje nós vamos falar sobre dois temas que, apesar de não parecer, andam de mãos dadas, que são o padrão de beleza e o capacitismo. Vamos aprender aí qual é a correlação entre esses dois temas. Não é mesmo, Danilo? Mas antes disso, a gente vai para os nossos beijinhos.

 

(Vinheta: Trecho de música, entre o batidão e sons de beijos, Mc Xuxú canta “Um beijo pra quem é DJ, um beijo pra quem é Mc, um beijo pra quem é do bem, um beijo pras travesti!”. A voz de Pabllo Vittar finaliza “Eu não vou perder meu tempo lendo hater”)

 

Dann: Primeiramente, vamos mandar beijos para os nossos padrinhos, que são Wagner Coutinho, Fernanda Cary, Deivisson Hoffmann, Guilherme Piaça, Julian Vargas, Érika Ribeiro, Ligia Lila e Luciano Loureiro.

 

Sidney: (faz som de beijo) Um beijo para os padrinhos maravilhosos que a gente tem. E a gente também quer mandar beijo pra quem? Em primeiro lugar, para o Marcelo Pereira, que é lá do podcast Tem Base. Tem base, Danilo? Marcelo Pereira que é um colega nosso, amigo querido e deixou um comentário maravilhoso pra a gente, lá no nosso HTreta sobre a cura gay, não é mesmo?

 

Dann: Isso aí, eu vou ler o comentário pra vocês. “Meninos, esse episódio ficou excelente. Fiquei pensando que, nesse momento de ascenso reacionário e fanático religioso que vivemos no Brasil, a comunidade LGBT é potencialmente a vanguarda do povo brasileiro em enfrentamentos como este. Gostei muito da explicação dos motivos econômicos pelos quais há esta investida jurídico-parlamentar na aprovação da cura gay. E outra coisa que me fez pensar é no movimento do design inteligente, que surge também nos Estados Unidos, que busca uma apresentação científica para o criacionismo judaico-cristão para, desta forma, ser melhor abordável nas escolas daquele país. OU seja, há um movimento do cristianismo fundamentalista de se buscar uma roupagem científica, sempre de maneira deturpada, para justificar a imposição de seus valores sobre o conjunto da sociedade. Sejamos vigilantes. Debates como o que vocês trouxeram são muito importantes. Beijo no coração de vocês. Senti a falta do queridíssimo Sidney.”

 

Sidney: Ah, um beijo, Marcelo. Sentiu minha falta, mas já estou aqui de volta. E muito importante a gente atentar para esses detalhes mesmo que ele aponta. Valeu, obrigado aí pelo comentário. Gente, deixa mais comentários pra a gente ler aqui também.

 

Dann: Sid, e temos mais beijinhos e esses beijos têm um motivo. Você pode explicar aí?

 

Sidney: Pois é, olha só, tá saindo por aí um podcast especial. Amanhã vai sair um podcast especial sobre o Dia do Podcast, que é no dia 21 de outubro. E a gente pediu ajuda lá na Cracóvia para as descrições de algumas  logos de alguns podcasts, e nos ajudaram com isso, então a gente vai mandar um beijinho de agradecimento para o Renan Gimenez Azevedo, esse lindo; a Ligia Lila, que tá sempre por aqui, sempre nos dando motivos pra beijá-la, é maravilhosa…

 

Dann: E ela sempre ganha mais de um beijo por programa.

 

Sidney: Sempre. Ai, Lila, todos os beijos do mundo para Lila. O Igor Moretto, que é lá do podcast Animagos, também nos ajudou. E a Débora Veiga Ruiz, também lá da Cracóvia, uma linda, também nos ajudou lá com as descrições. Beijos para todos esses descritores super atentos e super a postos.

 

Dann: E agora, indo para a pauta, como o Sidney já havia dito, hoje vamos falar sobre padrão de beleza ideal e o capacitismo. Sidney, inicie esse debate maravilhoso, aí.

 

Sidney: Vamos como o Jack Estripador, não é? Por partes. Dividindo aqui nosso podcast, já que são dois temas. Vamos falar primeiro sobre o que é padrão de beleza. Ou pelo menos o que é que se entende por padrão de beleza atualmente, nesta altura do século 21, não é mesmo? Bom, pra explicar, primeiro a gente tem que saber por que esse nome, “padrão de beleza”. O que é um padrão? É um ideal imposto. Ou pelo menos, um ideal aspirável, tudo aquilo que é padrão. E também é padrão tudo aquilo que é pressuposto. Como a gente veio falando da heteronormatividade, lá no outro HQ de bolso. A heteronormatividade, ou seja, a norma hétero é o padrão, a gente parte do pressuposto que todo mundo é hétero. E quem não é hétero, tá desviando do padrão. Assim como o cis-sexismo e a cis-normatividade, que a gente falou no podcast sobre transexualidade. Que o padrão é cis-normativo, o que significa dizer que quem foge da cis-normatividade, ou seja, as pessoas trans, estão fugindo desse padrão e, portanto, estão erradas, não é mesmo? Também, dessa forma, existe um padrão de beleza, que é primordialmente pregado pelo marketing, pela publicidade, pela TV e pelo cinema. Esse padrão nos mostra um ideal de beleza que deve ser almejado. Só que o perigo do padrão de beleza é que ele é impossível.

 

Dann: São os chamados corpos não normativos que, na verdade, fogem de tudo que não é a norma. Ou seja, ser gordo, ser não hétero, ser não cis, não ser branco, no caso… Tudo que foge desse padrão podemos chamar de corpos não normativos. E aí, podemos fazer, primeiramente, uma inferência. O que é beleza?

 

Sidney: É difícil a gente fazer essa pergunta, o que é beleza, porque… Bom, beleza, como diz o ditado, está nos olhos de quem vê. Portanto, ninguém é bonito pra mim…

 

(Efeito Sonoro: “Yes, baby! Bam!”)

 

Sidney: Bom, como dizem, beleza está nos olhos de quem vê. E é por isso que é difícil da gente debater o que é beleza, já que isso é um conceito pessoal, um critério de valor pessoal. Só que existe, para além do critério de valor pessoal, um conceito cultural que é compartilhado socialmente, por todo mundo, do que é belo. E isso é possível de se observar a partir do que a cultura valoriza como beleza. E, como o Danilo falou, reiterando, é importante que a gente ressalve que a beleza, para os padrões de hoje, ela é… Porque ser bonito é ser branco, quem é negro foge do padrão. A beleza é gordofóbica, porque o bonito é ser magro. E a beleza é machista, porque impõe sobre os corpos femininos muito mais imposições do que sobre os corpos masculinos. Embora a gente saiba que o padrão de beleza também pesa sobre os homens, mas esse peso cai de maneira diferente.

 

Dann: E ainda temos que pensar que o que é padrão de beleza hoje não é o mesmo padrão de beleza que foi 10 anos atrás, assim como não foi no século passado ou no século retrasado. Esse padrão de beleza foi mudando ao longo do tempo, de acordo com as visões sociais acerca do modelo estético que deveria ser incorporado. E temos outra coisa, aquela frase “gosto não se discute”, ela não se mantém, na verdade. Pensar que gosto não se discute é uma balela, é a primeira balela que a gente vai falar sobre o assunto. Porque, na verdade, gosto se discute, sim. Não que a gente queira impor o gosto de uma forma desconstruída. Você tem direito de gostar de qualquer coisa que você goste, mas você tem que entender o porquê que você gosta daquilo. Existe um motivo por trás, existe uma construção. Geralmente, essas pessoas tendem a visualizar que a forma como ela vê o mundo foi criada por ela, mas ela não sabe que ela tá inserida numa sociedade e não tem um pensamento crítico de que tudo que ela pensa sobre aquilo, na verdade, é imbuído de umas construções que foram vivenciadas ao longo dos anos. Então, gosto se discute, sim. Não queremos mudar seu gosto, mas é discutível.A gente pode pensar por que você tá com essas ideias aí.

 

Sidney: Não é questionar que você não tem o direito de gostar do que você gosta, mas é parar para pensar o que é que te levou a gostar. E entender que existem coisas que são mais valorizadas do que outras na nossa cultura, e que, obviamente, isso vai influenciar no seu gosto, e no meu. Porque a gente não tá… O nosso gosto não é um floquinho de neve especial que fica separado da cultura e intocável. Ele também é influenciável pelas pressões e pelos diálogos sociais. Mas, Danilo, à parte isso, tem outro aspecto também do padrão de beleza. Porque a gente fica se perguntando, mas se isso é um padrão que é construído socialmente, por que a gente não desconstrói? Como é que esse padrão se sustenta? Atualmente, o padrão de beleza se sustenta sob dois argumentos. O primeiro argumento é o da perfeição física, aquele ideal de corpo perfeito que é almejado, e as pessoas vão para limites sobre-humanos para atingir esse ideal do corpo perfeito. E esse ideal do corpo perfeito está, inclusive, imbuído numa falsa ideologia de saúde perfeita. Então, o padrão de beleza se sustenta sob a justificativa de que beleza é igual a saúde. E igual a saúde no sentido de quê? Porque você só é bonito se for magro, porque é associada a ser gordo a falsa ideia de que  gordura é má saúde. E sob esse crivo, as pessoas se acham no direito de vigiar a saúde alheia. Mas, na verdade, elas estão vigiando o padrão que elas não conseguem atingir. Se você não consegue atingir, você é cobrado por isso. E em vez de você ser cobrado no sentido de dizer, “Mas você não está cumprindo com o padrão de beleza que a sociedade espera”, a gente diz assim, “Não, mas você não pode engordar porque não faz bem pra a saúde”. Quando a gente muito bem sabe que… E deveria saber melhor… Que ser gordo não é sinônimo de ser doente e ser magro não é sinônimo de ser saudável.

 

Dann: É, e a gente tem  também que pensar o seguinte. Lá no início eu já comecei dizendo que isso é uma construção social e que ela foi mudando ao longo do tempo, juntamente com a sociedade. Então, por exemplo, no passado, ser gordo já era um sinônimo, sobretudo para as mulheres, de boa saúde. De ter curvas, de ser uma mulher maior, no caso. E hoje isso já não é visto como saudável, e nem como uma questão de ser próspero. E por que a gente não vê isso? Quem é o principal vilão aí dessa visão que a gente tem hoje, desse corpo ideal, essa eterna juventude, quem é que tá nos oprimindo e mantendo essa imagem desse padrão?

 

Sidney: Então, quem ajuda a manter é a mídia, nada mais nada menos que a mídia, na medida em que ela impõe, vendendo aquilo como o que é desejável, só esses corpos de hoje em dia, que são os corpos magros, os corpos altos. Os corpos ricos, por que não? Enfim, a sua beleza também tá muito calcada no seu poder aquisitivo, de você poder consumir, não é verdade? E tudo isso recai sobre as pessoas na medida de que elas se cobrem pra cumprir esse padrão. Quem não cumpre esse padrão acaba se punindo. É daí que a gente tem distúrbios como bulimia, como a anorexia, e até mesmo depressão. Pessoas que se martirizam porque não conseguem atingir o padrão, uma pessoa que tá querendo, mas não pode. Ou por exemplo, vamos dizer que uma pessoa consegue desconstruir na cabeça dela que o padrão de beleza é ilusório e não existe certo ou errado no parecer. Isso é tudo coisa que a gente bota na nossa cabeça. Mas mesmo assim, a pessoa não consegue se dissociar disso. E tem até um relato aqui numa matéria que a gente tá linkando no post, de uma pessoa que diz assim, “Eu sei que eu acho bonito as gordas, eu acho bonitas as minhas amigas de cabelo crespo, mas eu não consigo me achar bonita gorda, eu não consigo achar o meu cabelo crespo bonito”. Existe também essa barreira da autoaceitação, mesmo quando a gente aceitam que o padrão de beleza é ilusório. Porque ele fica tão imbuído na gente que a gente nem consegue se soltar dele.

 

Dann: Quando eu li essa pauta, eu acho essa pauta maravilhosa, e fui estudando para a pauta. E encontrei esse relato. E na hora que eu encontrei esse relato, eu falei assim, poxa, tá aqui um ponto importante pra eu pensar e trabalhar isso. Porque, por exemplo, a gente tá falando de vários temas aqui sobre LGBTs. E Sidney e eu, uma hora ou outra, iremos nos encontrar nesses temas. E hoje eu acredito que é tipo uma fusão de temas que nos tocam diretamente. Eu já tive, boa parte da minha vida, gordo. Inclusive, fica o recado para os ouvintes. Quem é ex gordo não está liberado o alvará de ser gordofóbico.

 

Sidney: É porque a gente já percebeu que você estar numa minoria não vai te livrar de reproduzir o preconceito sobre essa minoria. A gente vê gays homofóbicos, a gente vê mulheres reproduzindo machismo, e a gente também vê pessoas gordas reproduzindo gordofobia, assim como pessoas ex gordas.

 

Dann: E isso é triste, mas esse relato nem é sobre uma pessoa gordofóbica. É uma pessoa que é desconstruída, que tem toda essa ideia dos corpos como eles devem ser, e não precisamos reproduzir esses padrões de beleza e essas opressões estruturais. Porém, ela entende isso, ela olha para uma mulher e consegue ver a beleza e tudo o mais. Porém, nela mesma ela tem essa dificuldade  de ver, e se impõe padrões que são até difíceis dela mesma alcançar.

 

Sidney: E fica até a culpa sobre essa pessoa, recai ainda mais, e isso não deve fazer nada bem para a saúde mental dessas pessoas, porque recai, ainda, inclusive, a culpa daquele ditado, eu não consigo praticar aquilo que eu prego.

 

Dann: Justamente. Ela prega uma coisa e acaba se vivenciando em outra e tem uma dificuldade de se desvencilhar dessas opressões estruturais. Então, fica aí o aprendizado.

 

Sidney: E por aí a gente percebe que, obviamente… Pra mim, está muito óbvio que o padrão de beleza não é bom nem pro corpo nem pra a mente de ninguém, nem pra quem corresponde ao padrão, porque tem que tá o tempo todo mantendo essa cobrança; e a quem não corresponde, porque fica excluído dos jogos sociais por causa de não se encaixar nesses padrões.

 

Dann: Justamente. Falando de padrões, nós vamos  agora desembocar no capacitismo. Primeiramente, precisamos definir o que é capacitismo, não é?

 

Sidney: Então, menino, vai parecer que não tem nada a ver, mas no final eu juro que parece. Eu juro que tem a ver. Pra começar, capacitismo, essa palavra feia que talvez você nunca ouviu falar. Porque é um tipo de preconceito que as pessoas não costumam nomear muito, inclusive porque é um tipo de preconceito muito sorrateiro que se disfarça sob a capa de várias boas intenções. Capacitismo é o preconceito que as pessoas com deficiência sofrem por serem pessoas com deficiência, ou seja, por não cumprirem com a norma de um corpo funcional. Então, além de um padrão de beleza, existe também um ideal de corpo funcional. E quem não corresponde a esse corpo funcional, ou seja, quem tem partes do seu corpo que não funcionam de acordo com aquilo que é considerado normal… E esse “normal” é entre muitas e muitas aspas, porque se você começa a entender o capacitismo, você começa a entender que normalidade, quando o assunto é corpos, não existe. E essa normalidade que é pregada, que é todas as partes do seu corpo funcionando perfeitamente, também é um ideal inalcançável. Porque ninguém é assim também, ninguém tem todas as partes do seu corpo perfeitamente como diz o livro de biologia, ou como ele gostaria que fosse. Então, o capacitismo é esse tipo de preconceito. Assim, se a gente for traçar uma analogia, o capacitismo está para as pessoas com deficiência, assim como o racismo está para os negros, o machismo está para as mulheres, a homofobia está para os gays, a transfobia está para as pessoas trans. É o preconceito voltado para esse tipo de parcela da população e esse tipo de identidade também, porque as conformações físicas das pessoas, sejam elas divergentes ou não do que é considerado normal, elas também compõem as suas identidades.

 

Dann: Justamente. E, Sidney, eu queria que você pudesse… Dentro dos links da postagem, tem um texto maravilhoso seu. Explicar para o nosso ouvinte um exemplo fácil para a pessoa entender sobre o capacitismo de situações cotidianas que ocorrem, que tá presente lá naquele texto do Medium.

 

Sidney: Olha só, um exemplo que eu passo muito… Existem dois estereótipos que recaem sobre as pessoas com deficiência. Ah, primeiro, gente, vamos aprender os termos, que é importante, nesse sentido. Não são deficientes, não são excepcionais, não são pessoas especiais…

 

Dann: Não são anjos…

 

Sidney: Não são anjos e nem são desgraçados. Gente, são pessoas com deficiência. O termo é esse. Não usa deficiente, não usa aleijado, não usa nada disso, porque é derrogatório, é insultuoso e acaba reduzindo a pessoa ao seu, entre aspas, defeito. Porque as nossas conformações físicas são vistas como defeitos. Isso porque a gente tá, ainda, calcado numa sociedade capacitista. Ou seja, eu ser cego, a minha cegueira, o fato dos meus olhos não funcionarem é visto como um defeito. Se a gente vivesse numa sociedade que não fosse capacitista, ser cego não seria um defeito, ser cego seria só uma característica minha, como eu ter a pele branca, como eu ter o cabelo castanho, como eu ter 1,65m.

 

Dann: Essa lógica capacitista também tem muito a ver com o capitalismo, precisam de um operário que esteja conforme o padrão que eles estipularam li…

 

Sidney: então, a pessoa com deficiência é basicamente vista a partir de dois estereótipos. Um é o do coitadinho, ou seja, a pessoa incapaz totalmente, incapaz inclusive de cuidar da própria vida, de responder por si mesma. E aí, você subestima essas pessoas, inclusive, retira a humanidade delas, achando que elas são anjos que têm que preservar a sua castidade. Daí, as pessoas com deficiência são retiradas, inclusive, de seus direitos reprodutivos, de seus direitos de relacionamento. As pessoas não olham pra uma pessoa com deficiência com olhos de pessoa possível de ser desejada. E a gente tá excluído dessa mentalidade. E o outro estereótipo é o do herói da superação, do exemplo de vida, que geralmente a gente vê mais isso na época das paraolimpíadas. Ou em reportagens da TV, que é aquele exemplo… bom, você vê uma reportagem sobre uma pessoa que tem deficiência que fez um mestrado. E daí, de que ela superou todas as barreiras pra fazer um mestrado. Por que esse estereótipo é ruim? Apesar de você estar aí se perguntando, “Mas isso não é bom, a gente achar que a superação é boa?” Isso não é bom porque, a partir do momento que a gente estimula esse tipo de discurso da superação, a gente tá dizendo pra a pessoa com deficiência que a sociedade nunca vai mudar, e que ela vai ter que sempre se desdobrar o triplo, porque a sociedade não é acessível, porque a sociedade não está disposta a se modificar em prol da acessibilidade. E a gente vai  sempre ter que dar esse dobrado pra ter o mesmo reconhecimento, porque, nesse exemplo que eu dei do mestrado, pra você ter um diploma, você tem que estudar o mesmo tanto, mas se esforçar o triplo do que as pessoas sem deficiência, a partir das suas dificuldades. Se a sociedade fosse acessível, você teria que se esforçar igualmente, e ter o mesmo mérito que as pessoas sem deficiência têm quando conquistam o seu diploma. São vários estereótipos aí.

 

Dann: Inclusive, eu lembro uma vez, quando eu tinha te conhecido… Gente, ninguém nasce desconstruído. Então, vamos lá, sessão puxão de orelha em Danilo. Alguma coisa do HQ e você falou assim, “A gente não espera a demanda nascer pra a gente poder ofertar acessibilidade. A gente cria a acessibilidade e, assim, a pessoa pode buscar aquele produto ou serviço”. Então, no caso, a gente tentar fazer com que o HQ seja o máximo acessível possível é a gente já ofertar e, caso alguém apareça e queira consumir esse produto, ele está acessível. E pronto. Não precisa ficar, por exemplo, colocando mil empecilhos pra fazer um cardápio em Braille, por exemplo, porque ninguém que frequenta lá o local é uma pessoa cega. Mas se tivesse esse cardápio em Braille, talvez teríamos clientes que fossem cegos e passariam a frequentar aquele local.

 

Sidney: Pois é, essa é a parte cruel do capacitismo. A gente, ainda por cima, leva a culpa da falta de acessibilidade. Porque, por exemplo, num restaurante não tem rampa, aí o dono do restaurante diz, “Mas a gente não faz rampa porque a gente não recebe clientes cadeirantes”. Aí, o cadeirante fica, “Mas eu não vou no seu restaurante porque não tem rampa”. Ou seja, a oferta tem que vir antes da demanda, porque se não houver oferta, não haverá demanda. É simples assim.

 

Dann: Parece estranho no início. Mas depois que você vê, começa a perceber assim, puta que pariu. Tá tudo errado.

 

Sidney: Tem vários links explicando, gente, o que é capacitismo. Porque eu sei que, por ser um conceito novo, ele talvez seja difícil de a gente dar conta dele todo aqui só nesses minutinhos.

 

(EFEITO SONORO: “Yes, baby! Bam!”)

 

Sidney: Mas agora, a gente vai pra a terceira parte que é juntar. Por que a gente tá associando capacitismo com padrão de beleza? O que isso tem a ver uma coisa com a outra? Bom, a gente falou lá em cima que o padrão de beleza é racista, é machista, é gordofóbico, e tal. E o padrão de beleza, obviamente, também é capacitista. Porque se a gente vive numa sociedade onde o ideal é o corpo completamente funcional, é claro que corpos que não são inteiramente funcionais, ou seja, corpos, entre aspas, defeituosos, não vão ser vistos, inclusive, como possivelmente belos. E a gente vê que o padrão de beleza isola ainda mais a pessoa com deficiência e também faz com que as pessoas que não se aproximam desse padrão também experimentem um tipo de capacitismo, que é a parte de ser isolada das relações sociais por não cumprir com uma expectativa de corpo que é imposta socialmente.

 

Dann: Basicamente, gente, a gente tem que entender que numa cultura que não fosse capacitista, apresentar uma conformação física, sensorial e intelectual diversa não seria deficiência, mas sim características humanas que compõem a integridade dos indivíduos, sem os reduzir a essas características. Basicamente, uma pessoa com deficiência não é somente a deficiência dela, existem N elementos… É como se fosse você ter o cabelo castanho claro, os olhos marrons, o tom de pele preto, por exemplo. Você é uma pessoa cheia de características e não é reduzida somente à sua deficiência.

 

Sidney: E numa cultura capacitista, ter uma conformação física diferente… Inclusive, se não fôssemos capacitistas, a gente poderia mais facilmente enxergar beleza nos gordinhos, nos altinhos, nos baixinhos, nas pessoas que não têm as duas pernas, ou não têm um dos membros, nas pessoas que não enxergam, nas pessoas que… Enfim, todo tipo de conformação… Se a gente não fosse capacitista, o padrão de beleza talvez não fosse tão forte porque a gente não esperaria das pessoas a perfeição física. Em suma, é isso.

 

Dann: Então, pessoal, se você gostou deste programa, se você quer puxar a nossa orelha, quer deixar um comentário, como que as pessoas podem entrar em contato conosco, Sidney?

 

Sidney: Pois é, sugestões, também estamos aceitando, de temas e de pessoas para entrevistar. E também se você quer falar da sua opinião sobre o tema do HQ de Bolso aqui, ou dar o seu pitaco, você pode enviar um email pra a gente no hqdavida@gmail.com; ou comentar lá no nosso site, WWW.hqdavida.com.br; segue a gente no facebook.com/hqdavida; ou no twitter.com/hqdavida; lê a gente lá no Medium, no @hqdavida; e assiste a gente lá no Youtube, você procura pelo canal “HQ da Vida Podcast”. Pedindo sempre, gente… Não seja uma pessoa estranha, estrela a gente no iTunes, vai lá e dá 5 estrelinhas, não custa nada, não é difícil. Por favor!

 

Dann: E, gente, ajudem esses viados, a gente não quer ficar rico. A gente não quer fazer a Carolina Ferraz. A gente só quer manter esse podcast maravilhosamente no ar e ofertar produtos maravilhosos pra vocês. Caso você queira nos ajudar, vocês podem nos ajudar pelo Patreon, WWW.patreon.com/hqdavida; pelo Padrim, que termina com M, não é PADRINHO, WWW.padrim.com.br/hqdavida;

 

Sidney: Isso aí, gente. Então, um xero para todo mundo, e até o próximo HQ.

 

Dann: Um beijo!

 

(FADE IN E FADE OUT DA TRILHA SONORA)

 

(BLOOPERS)

 

FIM

 

Transcrito por Sidney Andrade

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