Transcrição – HQ de Bolso #10 – Gêneros Não Binários

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Transcrição – HQ de Bolso #10 – Gêneros Não Binários

(Nota: a transcrição é um recurso de acessibilidade que viabiliza o acesso para pessoas com alguma deficiência auditiva, além de ser um mecanismo eficiente de consulta para o conteúdo do podcast. Não pretende, portanto, substituir a audição do programa, mas, sim, complementá-la)

 

Vinheta de abertura: entre efeitos sonoros de impacto, uma voz com reverberação anuncia “HQ DA VIDA, o seu podcast sem quadrinhos.”

 

(Trilha sonora de Background alusiva a histórias em quadrinhos)

 

Dann: Olá, pessoal. Aqui é Dann Carreiro.

 

Sidney: Eu sou Sidney Andrade, e esse é o HQ de Bolso número 10.

 

Dann: O HQ de Bolso tem a intenção de provocar discussões iniciais sobre temas que abrangem as vivências Queer. A gente quer começar o assunto para que você possa ter um ponto de partida com o qual poderá buscar mais informações. Lembrando que aqui é só o começo.

 

Sidney: E hoje nós vamos tentar dar algumas definições iniciais pra esclarecer sobre o que são gêneros não binários, que é essa galera que nos prova o quão diversos os humanos podem ser na sua sexualidade. Mas antes da gente ir pro tema, nós vamos chamar os nossos beijinhos.

 

(Vinheta: Trecho de música, entre o batidão e sons de beijos, Mc Xuxú canta “Um beijo pra quem é DJ, um beijo pra quem é Mc, um beijo pra quem é do bem, um beijo pras travesti!”. A voz de Pabllo Vittar finaliza “Eu não vou perder meu tempo lendo hater”)

 

Sidney: E então, Danilo, pra quem é que a gente vai mandar nossos beijix, hoje? Conta pra nós.

 

Dann: Hoje, nós vamos mandar beijo para a pessoa que, em um mês, será meu marido, Wagner Coutinho…

 

Sidney: Sério?

 

Dann: Casamento na podosfera…

 

Sidney: Não fala assim, que pode dar azar. (risos)

 

Dann: Fernanda Cary, Guilherme Piaça, Carla Gonçalves, Deivisson Hoffmann, Julian Vargas, Jean Carlos, Erika Ribeiro, Ligia Lila, Luciano Loureiro e Jonathas Santos. Gente, o nosso número de padrinhos só está aumentando, a cada semana.

 

Sidney: Jonathas Santos que é o mais recente, um beijo pra esse lindo do Jonathas, que tá sempre descrevendo coisas nas suas redes sociais, falando pela acessibilidade. Um beijo. E um beijo para todos os nossos padrinhos que são maravilhosos, que acreditam na gente até quando nós mesmos não acreditamos em nós, não é mesmo, Danilo? (risos)

 

Dann: É isso. E também queremos mandar um beijo para o pessoal do Olhares Podcast, que estão com a tag #16diasdeativismonaweb; é um formulário que a gente vai deixar um link na postagem pra que vocês também possam preencher, ok?

 

Sidney: Preencher pra colaborar com esse ativismo, que apesar de ser da web, é importante também a gente participar, 16 dias de ativismo é em prol das mulheres, não é isso, Danilo?

 

Dann: Isso mesmo, Sid. É a campanha 16 dias de ativismo pelo fim da violência contra as mulheres. É uma mobilização anual, praticada simultaneamente por diversos atores da sociedade civil e poder publico engajados nesse enfrentamento. Desde sua primeira edição, em 1991, já conquistou a adesão de cerca de 160 países. A campanha se inicia no Brasil dia 20 de novembro, que é o dia da consciência negra, e mundialmente em 25 de novembro, que é o dia internacional da não violência contra a mulher, e vai até o dia 10 de dezembro. O movimento de ativismo negro tem 21 dias de campanha, 5 a mais que o restante do mundo, como forma de focar no combate à violência contra a mulher negra, incluindo o racismo, começando no dia da consciência negra. É isso. É uma campanha que engloba vários recortes, tanto de gênero e de raça.

 

Sidney: É importante participar e é um movimento interessante pra você perceber que recortes diferentes exigem demandas diferentes.

 

Dann: É isso aí.

 

Sidney: Pra você participar.

 

Dann: Participem! Agora vamos para a pauta, né.

 

Sidney: Vamos para a pauta, Danilo.

 

(VINHETA: “YES, BABY! BAM!”)

 

Sidney: Então, gente, como é que a gente vai começar esse HQ de Bolso hoje? Sempre que a gente vai dar essas definições aqui do que são esses termos, a gente tá sempre remetendo ao HQ de Bolso #03, vocês devem lembrar, quem não lembra, vai lá ouvir. Que é o HQ de bolso que a gente fala sobre a diferença entre identidade de gênero e orientação sexual, que as pessoas confundem. Por que eu tô dizendo isso? Pra esclarecer, em primeiro lugar, onde é que se coloca a discussão sobre gêneros não binários. Como o nome já diz, são gêneros, o que significa dizer que aqui a gente vai falar de identidades de gênero, e não de orientações sexuais. Então, a gente vai tá o tempo todo falando aqui sobre como as pessoas se identificam a partir da sua sexualidade. Nós não vamos falar sobre os desejos delas e pra quem eles estão direcionados. Tá bom? Então, aqui a gente não tá falando de orientação sexual, esse é outro debate. O debate sobre não binariedade diz respeito ao campo da identidade de gênero.

 

Dann: Justamente. Inclusive, a gente já está no HQ de Bolso #10, e esse tema entre dividir o que é identidade de gênero e orientação sexual foi dito lá no HQ de Bolso #03, né, Sid?

 

Sidney: Exatamente. Então, se vocês têm alguma dúvida ainda sobre a diferença, vai lá ouvir, a gente dá até alguns exemplos. E lá a gente promete que vai destrinchar cada um desses termos, e é o que a gente tá tentando fazer nesses seguintes. Já falamos sobre transexualidade no HQ de bolso #08, e se você quiser ouvir sobre as definições iniciais sobre transexualidade, você vai lá e escuta o HQ de bolso #08 também, porque a gente dá essa base. E por que eu tô falando do HQ de Bolso #08 sobre transexualidade? Porque quando a gente tá falando sobre não binariedade, sobre gêneros não binários, a gente tá falando sobre, em teoria, pessoas trans. O que são pessoas trans? Pessoas trans são todas aquelas pessoas que, ao nascer, são designadas com um gênero, a partir da sua genitália, mas elas não se identificam com esse gênero. Então, temos as pessoas trans, homens trans, temos mulheres trans, mas temos também pessoas que não se identificam nem com um gênero nem com o outro. Essas pessoas entram na esfera dos gêneros não binários. Elas são pessoas trans por definição, porque não se identificam com o gênero que lhe foi atribuído ao nascimento, mas também não são binárias. E pra a gente entender o que é não binariedade, a gente tem que entender o que é binariedade.

 

Dann: E pra lembrar, eu acho que uma forma mais fácil de entender a binariedade é que a sociedade é criada e construídos esses conceitos do que é homem e mulher, e não existe nada além do que é ser homem e do que é ser mulher para a sociedade. Até mesmo porque isso é uma construção social, como a gente já veio trabalhando com vocês, tanto na questão da heteronormatividade, tanto quanto a cis-normatividade. Lembrando, Sid, a cis-normatividade é exclusivamente binária.

 

Sidney: Binária. Se a gente for pensar numa analogia, hoje em dia, vocês sabem que a linguagem computacional é binária, é composta por zeros e uns. E ela só pode ser escrita a partir de um bit ser ou um 0 ou um 1. Não pode ser nada além de 0 ou de 1. É dessa forma que a cis-normatividade age diante dos sexos. Diante dos gêneros, aliás. Ela acredita que, porque existem dois sexos discerníveis, só pode haver dois gêneros, ou um ou outro. E nesse sentido, a maioria das pessoas, inclusive as pessoas do meio LGBT, também consideram que ou você só pode ser ou uma coisa ou outra. E se você não é uma coisa, automaticamente você está encaixado na outra coisa, que é o oposto. Essa é a lógica da binariedade de gênero que a gente experimenta, e é ensinada hoje em dia. A não binariedade é justamente o contrário disso, é romper com essa norma binária de achar que as pessoas têm que ser ou uma coisa, ou homens ou do sexo masculino, ou se não são homens, são obrigatoriamente mulheres ou do sexo feminino. Se você é cis-gênero e se identifica, você é uma coisa ou outra. Mas mesmo você sendo trans, não se identificando, se você é designado de um modo ao nascer, mas não se identifica desse modo, automaticamente as pessoas vão achar que você se identifica com o outro modo. É como se fosse uma exclusiva da outra, uma alternativa exclui a outra. E quando a gente fala de não binariedade, a gente tem que quebrar com essa lógica binária exclusivista. O pessoal não binário vem aqui pra dizer que não existem só dois gêneros, existem muito mais gêneros do que a gente queira acreditar. Porque como a gente já mostrou aqui no HQ da Vida também, gênero não tem a ver necessariamente com a esfera biológica. O gênero é socialmente construído. E se ele é socialmente construído, ele pode ter nuances nas suas construções.

 

Dann: A gente vem construindo, aqui no HQ da Vida, uma relação entre as opressões que ocorrem. A gente começou trabalhando sobre o campo da sexualidade e como que isso funciona, quais são as inter-relações de opressões. Depois a gente falou das transexualidades, e as inter-relações de opressões. E quando a gente vai falar de não binariedade, também temos aí outra inter-relação de opressões, né, Sidney? Porque nem toda pessoa que é um homem trans ou um homem cis-gênero gay, ou um homem trans gay, ou um homem trans hétero, independente… Porque pessoas trans têm direito à sua sexualidade, como já foi até dito pela Amara Moira, na entrevista, ela fala que é uma mulher transexual e bissexual, e gosta de afirmar sua bissexualidade porque, geralmente, as pessoas apagam a sexualidade. A não binariedade também é apagada. Temos essa interseção de opressões, porque muitas pessoas não reconhecem a não binariedade como uma das expressões de gênero.

 

Sidney: é. E lembrando, a gente tá falando teoricamente. Teoricamente, como a gente já disse, pessoas não binárias são pessoas trans. Por definição, né? Já que trans é toda pessoa que não se identifica com o gênero que lhe foi atribuído no nascimento. Mas, no dia a dia, você vai poder ver que 1, nem todas as pessoas não binárias se consideram trans, no sentido que a palavra trans tem hoje em dia, porque ela tá muito ligada ainda nessa noção de binariedade. Ou seja, mesmo você sendo trans, você só pode ser ou homem ou mulher, de acordo com o senso comum, inclusive, do próprio meio LGBT. E segundo, também tem pessoas trans binárias, ou seja, que estão dentro da lógica binária, que se identificam ou com uma coisa ou com a outra, elas também acabam… Algumas acabam não reconhecendo as pessoas não binárias como pessoas trans, afirmando também que talvez elas façam parte de outra categoria, entre aspas, que não seja a categoria lá do T. Então, existe essa tensão e esse debate ainda. NO final das contas, vai depender muito de com quem você tá falando, e de como é que essa pessoa se posiciona politicamente diante da questão e do debate.

 

Dann: Justamente. Aqui no Brasil, a gente ainda está alguns passos atrás. Porque ainda as pessoas estão tentando reconhecer e entender. E a gente já vê, por exemplo, as pessoas que fazem a opção de retificar sua documentação pra poder até evitar constrangimentos e tudo o mais, ela sempre vai ter a opção binária. Ou seja, homem ou mulher. Ao passo que, por exemplo, você vê que o Tinder tem várias identidades de gênero definidas…

 

Sidney: Possíveis de você escolher.

 

Dann: Possíveis de escolher. E a gente ainda está preso ao elo binário. Então, mesmo que a pessoa retifique seus documentos, a opção dela de retificação vai ficar ligada, atrelada à…

 

Sidney: Vai ser sempre binária.

 

Dann: À binariedade. As políticas públicas de saúde estão ligadas à binariedade. Até o pensar a falta das políticas públicas de saúde estão ainda atreladas à binariedade. Sair da binariedade, eu acho que é o maior desafio que tem. E acredito que, se pensarmos em vários níveis, desde as pessoas mais desconstruídas até essa onda mais conservadora, quando esse discurso chegar dentro dos espaços que podem ser discutidos, esses campos mais conservadores vão pirar. Porque vai dar tilt, né…(risos)

 

Sidney: É verdade. Porque é uma existência muito contestadora. Porque você tá muito acostumado nessa normazinha simplista, que é você achar que as pessoas são ou uma coisa ou outra, e vem o pessoal não binário pra quebrar com essa lógica simplista e simplória, e reducionista do ser humano. E dizer que o ser humano pode ser muito mais coisas do que do que apenas uma coisa ou outra.

 

(FADE IN E FADE OUT DA TRILHA SONORA)

 

Sidney: Aí, bom, gente, recapitulando só um pouco. As pessoas não binárias são pessoas que não se identificam com necessariamente a binariedade dos gêneros que lhes são atribuídos no nascimento, e é importante a gente frisar que, assim como pessoas trans, assim como toda pessoa que sabe da sua identidade simplesmente porque sabe, simplesmente porque se conhece, simplesmente porque sim, não tem motivo pra a gente questionar a não binariedade das pessoas não binárias. Assim como pessoas binárias cis e pessoas binárias trans sabem e têm convicção  da sua identidade, de que pertencem à binariedade, as pessoas não binárias também têm a convicção e sabem da sua identidade e que ela não pertence a essa binariedade. Então, é uma coisa que, embora você possa não entrar na sua cabeça isso, e você até não concordar, você tem que aceitar que as pessoas conhecem as suas identidades e sabem do que elas estão falando. Então, não tem pra quê contestar.

 

Dann: Então, gente, justamente. Assim como nós temos pessoas trans e pessoas cis que têm certeza da sua identidade de gênero e lidam bem com ela e com as consequências de terem uma sociedade, por exemplo, com a cis normatividade que temos; as pessoas não binárias também são seguras dessa não binariedade delas. Inclusive, a forma de tratar essas pessoas é muito fácil. Não existe muito segredo, não existe muito floreio. Principalmente porque se uma pessoa fala, “Olha, meu nome é Maria, e eu quero que você fale que eu sou O Maria”, é muito simples de respeitar a vontade da pessoa. É possível errar em algum momento, inicialmente? Sim. Isso é possível. O que não e aceitável é que você continue errando e persistindo no erro, apagando essa identidade da pessoa.

 

Sidney: E errando só pelo puro prazer de confrontar uma pessoa que não corresponde às suas expectativas de gênero.

 

Dann: Justamente. E continuando esse assunto sobre a não binariedade, vamos dividir, né, Sidney, em 5 grupos chaves aqui, como basicamente dividem a não binariedade.

 

Sidney: Aos termos, né. Que a gente tá falando aqui muito abstratamente, mas o debate da não binariedade divide, basicamente, em cinco grandes grupos os gêneros humanos. Os gêneros sexuais, no caso. E quais são esses grupos, Danilo?

 

Dann: Então, nós temos o Binário, que Sidney explicou muito bem, que envolve tanto homens e mulheres cis-gêneros e transgêneros. Nós temos o Parcial, que é parcialmente homem ou mulher e neutros, que é um ponto certeiro entre a fronteira do homem e mulher. Temos Terceiro Gênero, que é nem homem nem mulher, é um novo gênero que não tem nada de mulher e nada de homem, algo totalmente novo que vocês jamais irão ver de novo. E temos Gêneros Fluidos, ou muitas pessoas utilizam o termo em Inglês, Sid, que é Gender Fluid, que são os que fluem entre os dois ou mais gêneros, os que mudam a intensidade de um gênero constantemente, ou que são vários gêneros ao mesmo tempo. E tem Sem Gênero, ou então Agênero também, que é nem homem, nem mulher, nem terceiro gênero, e também não tem a fluidez. Quando a Gente gravou o Anticast “Vinhada”, tinha um dos convidados conosco lá, era o Lorena, e ele se identificava como Gênero Fluido.

 

Sidney: É importante a gente enfatizar isso. Que ser não binário não significa que toda pessoa não binária é igual. Não binariedade não é um gênero, não é uma identidade de gênero, é um espectro que engloba várias identidades de gênero que não se encaixam na binariedade. Aí, a gente tem esses 5 grupos, que geralmente divide, que são o grupo dos gêneros binários, que são homens e mulheres, binariamente. Eu e Danilo, aqui, somos pessoas binárias. Aí, tem os gêneros parciais, que são pessoas que são parcialmente ambos os gêneros, ou pessoas neutras também. Tem o terceiro gênero, que são pessoas que não se identificam nem com homem, nem com mulher, mas com uma terceira coisa totalmente diferente. Gêneros fluidos, como Danilo falou, que são pessoas que se movimentam entre os gêneros, de acordo até com as situações também, tem até relatos de pessoas gender fluid que dizem que, a depender da situação, elas se identificam mais com um gênero ou com um outro; elas transitam, fluem ao longo da vida e do cotidiano. E tem os gêneros agêneros, os gêneros que não são nem uma coisa nem outra, nem coisa nenhuma.; são pessoas que se identificam com gênero nenhum. Olha, será que tá difícil, Dann? Será que tá complicado?(risos)

 

Dann: Eu acredito que não é muito complicado. O que as pessoas têm que pensar é que tanto as identidades de gênero e até mesmo as sexualidades não são fixas em si mesmas. É lógico que tem pessoas que têm muita certeza da sua identidade de gênero, de ser uma pessoa cis gênero, que tem muita certeza de ser heterossexual. Mas tem muitas pessoas que transitam nessas identidades de gênero e também nessas sexualidades. Às vezes, um homem se identifica como gay, se posiciona como gay, mas ele não é totalmente, 100% gay. Existem ali algumas variações de ele sentir prazer por mulheres, tanto cis-gêneras quanto transgêneras. E isso não é fixo. É lógico que, talvez, por facilidade, ele se identifique como gay, por exemplo. Mas não quer dizer que ele tem que tá preso ali naquela sexualidade. A mesma coisa funciona com os gêneros. Então, não pode ser muito fixo. Até mesmo dentro de um próprio leque que se abre, a gente percebe que abrem-se outros leques, outras oportunidades e outras características,  que são variações da natureza humana, e que deveriam ter sido contempladas, e que foram sufocadas ao longo dos tempos, pelas construções sociais mais rígidas que a gente teve.

 

Sidney: é. E se a gente não vivesse numa sociedade que tem a binariedade enquanto norma, ou seja, que considera errado tudo que foge da binariedade, talvez nós mesmos, que nos encaixamos enquanto pessoas binárias, nos permitíssemos mais experimentar coisas de outros gêneros, porque não existiria essa expectativa de que você, pessoa binária, tem que corresponder a rigor e à risca tudo que se espera do gênero com o qual você foi designado, ou com o qual você se identifica, mesmo você sendo uma pessoa trans. Essa exigência social acaba podando muito, inclusive, as próprias potencialidades das performances humanas. E a gente que é não binário (sic) acaba se restringindo muito, bitoladinho numa coisa só, como se a vida fosse essa coisinha preta ou branca.

 

Dann: E eu fico refletindo também sobre performance. A gente fala muito sobre essa performance masculina, essa performance feminina, e a gente deu significado a essas performances, e elas são inerentemente femininas e inerentemente masculinas. E justifica… E eu acredito que é como se fosse um ponto até meio incoerente da nossa própria parte que defende essa liberdade de ser o que é, de ter a sexualidade que quiser. Quando a gente depois fala que isso é feminino, isso é masculino…

 

Sidney: Exatamente. E o que é ser feminino, o que é ser masculino, se não um rol, uma lista de coisas que as pessoas inventaram que uma coisa tem que ser ou que não, pra ser feminino ou pra ser masculino. Acaba tudo sendo muito arbitrário, e a gente, porque foi ensinado desde pequeno, acha que é natural.

 

Dann: O HQ de bolso, na verdade, a gente só lança as ideias, lança os questionamentos e deixa material também pra vocês lerem, pesquisar. Mas não dá pra aprofundar dentro da temática no tempo que a gente precisa. Mas ficam aí esses questionamentos pra vocês pensarem, refletirem.

 

Sidney: Então, como a gente sempre traz algumas diquinhas aqui de como você não pagar mico, a gente trouxe uma lista de três comportamentos que você, pessoa binária, né… você, Danilo; Eu, Sidney; nós, pessoas binárias, podemos tomar, algumas atitudes que nós podemos tomar pra que a gente não seja escroto com as pessoas não binárias. Porque ser escroto nunca é legal, gente. Você acha muito legal, na internet, ser aquela pessoa escrotona, carrancuda, mas é só babaca. Então, vamos aprender.

 

Dann: Vamos lá. Ponto 1, não insista na pergunta “Você é homem ou mulher?” ou “Você é mais homem ou mais mulher?” Isso é uma pergunta muito íntima, ninguém sai perguntando o quão cis-gênero você é. Ou o quão hétero, ou o quão gay também você é. NINGUÉM fica insistindo nesse tipo de pergunta.

 

Sidney: Exatamente. Eu fico imaginando, sei lá, deve ser o mesmo desconforto, falando em orientação sexual, pessoas bissexuais, que o pessoal fica sempre questionando, “Mas você gosta mais de homem ou mais de mulher? É 50%?” Não sei o quê… Fica sempre essa baliza, como se você tivesse passando por uma fiscalização pra provar que é não binário de verdade. Quando, na verdade, a gente viu que tem várias nuances, é um espectro muito grande, e você não precisa ficar pondo à prova, porque, como diria Jout Jout, (ele canta) “Não é da sua conta! Não é da sua conta!” (risos)

 

Dann: Ponto 2, a Língua Portuguesa, como nos foi e é ensinada, elitizada, preconceituosa, não dá conta de abarcar tanta diversidade com seus conceitos tradicionalistas. E também não tem disponível o uso de pronomes neutros, como acontece em algumas outras línguas. Na verdade, tem, “aquilo” e “isto”. Porém, tem um problema, né, Sidney.

 

Sidney: É, os pronomes neutros, na Língua Portuguesa, sempre são objetificadores. Isso, aquilo, isto, aquilo. Então, você não vai chamar uma pessoa de “isto”. O segundo ponto é importante pra a gente chamar a atenção na linguagem. A Língua Portuguesa é uma língua que neutraliza para o masculino. Daí  a gente já tem dois problemas, que é 1, a hegemonia do masculino sobre o feminino. Então, acaba que mulheres são desabarcadas de uma generalização, porque a língua é machista por essência. E segundo, que a língua é binária, então você não tem gênero neutro aqui no Português, principalmente. Em outros idiomas, isso é mais simples. No Português, nem tanto. Mas é importante a gente ressaltar que não é porque é difícil que não é possível. É possível, sim, você neutralizar e respeitar as identidades não binárias, a partir de você repensar a sua linguagem e respeitar as identidades das pessoas. Então, como Danilo falou, se você tá muito chocado com o conflito entre falar “A João” e “O Maria”, gente… Língua também é convenção social. Língua não é um fato natural imutável. Língua não é como o Sol, que brilha e faz calor. Ela muda ao longo do tempo. E a gente só acha estranho “A João” e “O Maria” porque a gente foi ensinado de um jeito. E agora, por que você não se dá a oportunidade de aprender outro jeito de lidar com a língua, pra lidar melhor com outras pessoas que não são do seu jeito?

 

Dann: E lembrando que um dos pais da Língua Portuguesa, o Latim, ele possuía gêneros masculinos, femininos e neutro.Assim como no Alemão, que estou aprendendo recentemente, os artigos… Tem três artigos específicos, e isso é muito legal de ver. Estudar outras línguas, acho que te dá outras oportunidades de ver o mundo, inclusive quando se trata sobre identidade de gênero. Olha que correlação super interessante. E terceiro ponto, agora vamos para o terceiro ponto. “Chame i menini como ili quiser ser chamadi”. (risos)

 

Sidney: Olha aí a neutralização… Gente, uma coisa que a gente vem batendo sempre, respeite as identidades das pessoas. Não imponha o seu ponto de vista sobre elas, por mais que você seja contra, por mais que você discorde, não é papel seu questionar as identidades das pessoas. Porque as pessoas são elas, e você é você. Então, não adianta você espernear e chamar João de “O João”, quando João quer ser chamada de “A João”. Ela não vai deixar de ser A João só porque você não quer chamá-la assim. Mas você poderia muito bem facilitar a vida dessas pessoas que estão fora da norma, fora do padrão, e ser menos escroto, né. Respeitar as pessoas como elas querem ser vistas. Porque impor o seu ponto de vista sobre uma pessoa a ela é muito violento, é de uma violência simbólica que acaba menosprezando e atrapalhando a vida dessas pessoas que só querem viver tranquilamente, gente. Qual é o problema?

 

Dann: Justamente. E só pra deixar aqui a título de curiosidade, está no link da postagem também pra vocês conferirem, mas existe uma lista de gêneros não binários. Então, vou só dar alguns exemplos pra vocês, não vou ler todos. Mas tem, por exemplo, em ordem alfabética, nem vou chegar em toda a lista aqui pra vocês. Mas tem Agênero, Aliagênero, Ambigênero, Andrógine, Bigênero, Butch não-binárie, Cristaline, Demigênero, Demiboy, Demigirl, Demi-menine, Efêmere, e assim por diante. Essa lista não para, gente.

 

Sidney: Não para. Como a gente diz, é uma lista porque, dentro da não binariedade, existe espectros de identidades não binárias. E se você quiser conhecer elas, a gente, como sempre, deixa os links que a gente usou pra pesquisar na pauta. Deixa os links pra vocês irem lá e ler, porque se a gente for ler a definição de cada um aqui, a gente vai passar três horas. Mas é muito interessante saber que as pessoas, além de não serem só uma coisa ou só outra, elas podem ser várias coisas, e tudo bem, gente.

 

Dann: E lembrando que dentro dos links da postagem tem links de vídeos do Youtube também pra vocês.

 

Sidney: Isso, com pessoas não binárias falando sobre elas mesmas. Que aqui nós somos dois binários achando que temos alguma propriedade pra falar, quando, na verdade, a gente tá falando só do que a gente leu. E eu acho que, inclusive, no feed do HQ da vida vai aparecer uma surpresa aí nos próximos episódios, não é mesmo, Danilo?

 

Dann: com certeza.

 

Sidney: A nossa preocupação é sempre de dar os conceitos, mas também de dar a voz pra quem vive as situações na pele. Então, não se preocupem, que teremos episódios com pessoas não binárias também, gente.

 

Dann: Quem ouvir, ouvirá. E, Sidney, se a gente falou alguma coisa errada, se a gente tá passando vergonha, menino, aqui nesse áudio, no ouvido dessas pessoas, como que elas podem ir lá e nos chamar a atenção?

 

Sidney: Gente, pelo amor de deus, pode nos dar bronca, que a gente aqui aceita e vem, corrige no próximo, tá. Se a gente falou bobagem, ou se você quer mandar sua cartinha de amor pra nós também, mandar sugestões de temas ou de pessoas que você gostaria que o HQ da Vida entrevistasse, você fala com a gente lá pelo hqdavida@gmail.com; ou você nos segue lá no facebook.com/hqdavida; ou no twitter.com/hqdavida; a gente publica também os nossos episódios no Medium, no @hqdavida; e também no Youtube, você procura lá por “HQ da Vida Podcast”. E por último, a gente sempre pede, gente, vai lá no iTunes, você que tem conta e dá 5 estrelinhas pra a gente brilhar muito e colorir toda essa podosfera com vários tons de cores não binárias.

 

Dann: É isso aí. Olha, se vocês gostam desses viados que vos falam, vocês também podem nos apoiar lá no Padrim, que é WWW.padrim.com.br/hqdavida; ou Patreon, que é WWW.patreon.com/hqdavida; e antes da gente finalizar, eu queria dar dois recadinhos pra vocês. Recadinho 1 é que vou colocar outro link também na postagem, que é de uma postagem da Jaqueline Moraes Teixeira, que na semana próximo do dia 10, a Judith Butler veio ao Brasil e teve todo um furdunço sobre a vinda dela. E é um texto chamado “Quem tem medo de Judith Butler?” Junto com o texto, muito legal porque tem tudo a ver com a temática, a gente também tem umas aulas de um curso de extensão da USP que estão no Youtube. Vocês têm os links também nesta mesma reportagem que eu vou colocar pra vocês. Tá bom? E qual o próximo recado, Sidney?

 

Sidney: O próximo recado é lembrar pra vocês, gente, que a grande promoção do HQ da Vida ainda está rolando. Então, se você quer concorrer a oito livros bem vinhados, se você quer ficar todo bem informado lá na temática, você vai lá no nosso site e vê a postagem. A gente vai deixar o link da postagem da promoção aqui também. Ainda está de pé, você pode concorrer a 5 livros, você sendo ouvinte; ou você pode ser patrão e concorrer a três livros, num sorteio separado que faremos. Nossos sorteios têm metas sociais e eles só serão feitos quando essas metas sociais forem atingidas. Então, vai lá que ainda dá tempo de você concorrer a esse balaio de cultura LGBT pra você, lá na sua estante. Corre lá.

 

Dann: É isso aí. Agora é a hora de dar tchau, né, Sid?

 

Sidney: Um xero para todo mundo e tchau, tchau.

 

Dann: Até o próximo HQ! Beijo!

 

(FADE IN E FADE OUT DA TRILHA SONORA)

 

FIM

 

Transcrito por Sidney Andrade.

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