Transcrição – HQpedia #02 – The Hunting Season

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Transcrição – HQpedia #02 – The Hunting Season

 

(Nota: a transcrição é um recurso de acessibilidade que viabiliza o acesso para pessoas com alguma deficiência auditiva, além de ser um mecanismo eficiente de consulta para o conteúdo do podcast. Não pretende, portanto, substituir a audição do programa, mas, sim, complementá-la)

 

Vinheta de abertura: entre efeitos sonoros de impacto, uma voz com reverberação anuncia “HQ DA VIDA, o seu podcast sem quadrinhos.”

 

(Trilha sonora de Background alusiva a histórias em quadrinhos)

 

Dann: Olá, pessoal, aqui é Dann Carreiro.

 

Sidney: Eu sou Sidney Andrade e esse é mais um HQpedia.

 

Dann: O HQpedia é um programa ligeiro sobre filmes, livros, figuras públicas e tudo o que envolve o universo LGBTTQIPA na cultura pop. A intenção é trazer pra vocês dicas e curiosidades sobre os mais diversos assuntos, de maneira leve e descontraída.

 

Sidney: E pensando nisso, hoje falaremos sobre The unting Season, ou Temporada de Caça, um documentário produzido na década de 80, pela cineasta Rita Moreira. E, Danilo, pra falar desse assunto hoje, a gente trouxe um convidado pra nos ajudar aqui na pauta. A gente trouxe aqui, pra nos ajudar, o Igor Moretto. Olá, Igor Moretto.

 

Igor: Oi, meninas!

 

Dann: Oi!

 

Igor: Nossa, tô me sentindo um intruso, porque em todo podcast que o Sidney participa, agora eu tô também.

 

Sidney: Ah, eu adoro. Gruda em mim. Mas e você, Igor, quem é você, onde vive, do que se alimenta, como se reproduz? Diz pra a gente.

 

Igor: Eu não me reproduzo, né. Porque… Esse, inclusive, é um dos nossos problemas, né.

 

Sidney: Ai, meu deus, é.

 

Igor: Eu sou do WWW.animagos.com.br; que é um site da J. K. Rowling, fala sobre tudo que a J. K. Rowling faz na vida. Meio que não um tabloide, sobre a obra dela.

 

Sidney: A obra dela.

 

Igor: O Sidney, inclusive, já participou de um podcast nosso. A gente tem um podcast. Escutem todos.

 

Dann: Maratonem, gente, vale a pena.

 

Sidney: É ótimo. POtterheads de toda a LGBTesfera, uni-vos.

 

Igor: Sim, e eu moro no interior de São Paulo, numa cidade que chama Lençóis Paulistas… Mentira, não é paulistas, é Paulista mesmo.

 

Sidney: É vários lençóis para um só paulista. Então, gente, Igor tá aqui pra nos ajudar nessa pauta que é bem barra pesada. A gente não ia aguentar segurar essa barra sozinho. A gente chamou o Igor, que é nosso amigui já de podosfera. Então, vamos começar essa pauta, né, Dann. Primeiro, vamos falar um pouco quem foi, quem é Rita Moreira.

 

Dann: A cineasta Rita Moreira, você ainda pode encontrá-la no Facebook, ela faz poucas postagens. Pelo menos, postagens públicas. Ela nasceu em São Paulo, ela é cineasta, jornalista e escritora brasileira. Ela tem vários documentários famosos por sempre envolver questões sociais, geralmente dando ênfase a porções da sociedade colocadas à margem nos grandes centros urbanos. As temáticas que ela trabalhou englobavam desde crianças abandonadas, racismo, até questões de gênero e sexualidade. E os seus vídeos são considerados um marco da abordagem feminista da década de 70 e 80. Olha só, pessoal, nós já gravamos programas e falamos sobre gerações LGBT,  e falamos que existia uma mentalidade daquela época, da geração, a Rita já nos mostra o contrário, né, meninos?

 

Sidney: Uhum, é importante até pra rebater aquelas críticas, “ah, pessoas são produtos do seu tempo”, como se não existissem pessoas à frente do seu tempo. E a Rita, você vê pela própria filmografia dela, que ela sempre foi bem transgressora nas obras que ela produzia, pra a época que ela produzia.

 

Dann: E a gente também tem que parar com a ideia de achar que tudo que tá no passado é menos evoluído do que tá na frente.

 

Sidney: Nossa! E você falou… E não querendo adiantar muito, mas se você, ouvinte, já assistiu ou vai assistir depois desse programa, o documentário The Hunting Season, eu queria preparar seu coração, porque é de 87 o documentário, mas parece que foi feito ontem.

 

(VINHETA: “YES, BABY. BAM!”)

 

(INÍCIO DE CLIPE DE ÁUDIO: TRECHO DO DOCUMENTÁRIO)

 

Rita: Dá aqui uma entrevistinha pra a gente. Você tem ouvido falar em noticiários, jornais, TV, rádio, sobre assassinato de homossexuais?

 

Transeunte: Já. Já, sim.

 

Rita: E o que você pensa disso?

 

Transeunte: Eu acho que tem mais é que assassinar mesmo.

 

(FIM DO CLIPE DE ÁUDIO)

 

Igor: Eu gosto muito do episódio do HQ da Vida com o João W. Néry, porque é uma geração completamente diferente da nossa. Acho que ele viveu muito dessa discriminação que o documentário mostra. Mas, gente, vocês realmente acham que aquilo lá, hoje em dia, se reflete naquilo? Que eu acho que é tão absurdo aquilo. Eu não acho que a repórter encontraria gente falando tanto absurdo hoje em dia.

 

Sidney: Ah…

 

Dann: Mas não falaria por quê, por exemplo?

 

Igor: Não, acho que não falariam porque a homofobia é uma coisa muito mais velada, por trás da ideologia de gênero, a homofobia. Então, é uma coisa mais… Meio que uma burrice mais informada, eu acho, a homofobia existe mais por trás de uma lógica, que seria aquela ideologia de gênero, essas pessoas meio que burras e informadas ao mesmo tempo.

 

Sidney: Assim, eu acho que não seria tão fácil ela achar pessoas que falassem tão abertamente as atrocidades que elas falaram no documentário. Mas eu acho que as pessoas continuam pensando essas atrocidades mesmo hoje. Talvez o que tenha mudado seja só o peso de falar isso em público. Porque hoje as pessoas se escondem, inclusive, atrás do privilégio do anonimato nas redes sociais. Então, talvez o que tenha mudado seja que agora as pessoas falam atrocidades encobertas por essa proteção que as redes sociais, hoje em dia, dão, e o anonimato da internet que você pode ter ainda, de certa forma. Porque eu, assistindo o documentário, tive muito real comigo essa sensação de que, gente, ainda tem gente pensando isso. Não é que esse pensamento dessa pessoa que tá dizendo que acha que merece matar mesmo um homossexual, não é que isso acabou. É que as pessoas apenas não dizem, mas se puderem, fazem. Como acabam fazendo, que ainda hoje tem.

 

Dann: Justamente. Eu acredito que aquele pequeno comentário na mesa do café da manhã, do almoço, é um preconceito velado, é um racismo velado, também. LGBTfobia, tudo velado. Mas antes da gente…

 

Sidney: A gente já tá comentando o filme e não falou nem sobre o que é ainda, né, Dann…

 

Dann: Pois é. Acho que até hoje eu tô impactado com esse documentário. A gente tá processando ainda as informações.

 

(VINHETA: YES, BABY! BAM!”)

 

Dann: Antes da gente ir pra a sinopse do documentário em si, que a gente já começou aqui a conversar e falar sobre, porque estamos digerindo esse documentário. Eu já vi esse documentário duas vezes, num lapso de tempo, e ainda não consegui digeri-lo completamente. Mas vamos falar um pouco da filmografia lá da Rita Moreira. Olha só os temas que ela já trabalhou e reparem só a época que ela trabalhou esses temas. Mães lésbicas, em 1972, ela falou de mães em relacionamentos homossexuais. She hás a beard, em que aborda os pelos faciais em mulheres… Isso foram documentários que ela foi até premiada, inclusive, ela também até ganhou bolsa e foi morar em Nova Iorque. Talvez foi uma boa época de ela ter ido morar em Nova Iorque, por causa da Ditadura, então… Talvez foi uma salvação pra ela, de certa forma, por causa das temáticas que ela gosta de abordar. E ela também tem O Apartamento e Walking Around, que eram pra falar sobre a cidade de Nova Iorque. Aqui no Brasil ela tem A Dama do Pacaembu, que é dirigido em parceria com Maria Luíza Leal, e que mostra a vida de uma moradora de rua na área nobre do bairro Pacaembu. E tem A Temporada de Caça, que a gente vai falar hoje, de 1988, e fala sobre a homofobia no período pós redemocratização. Você pode encontrar ela com outras produções, ela também escreveu livros quando era adolescente. Ela escreveu Maria Morta em Mim, 1963; A Hora do Maior Amor, Perscrutando o Papaia, em 1999; e O Coração de Ontem, que é recente, é de 2015. E como eu falei no início desse programa, ela pode ser encontrada no Facebook, mas faz poucas postagens públicas. E agora, o Igor lerá pra a gente a sinopse deste documentário.

 

Igor: O mais premiado dos filmes da Rita Moreira, gravado com uma rudimentar câmera VHS e cuidadosamente editado, Temporada de Caça, trata da onda de assassinato de homossexuais que assolava São Paulo e o Rio de Janeiro nos anos 80. O filme ganhou 12 prêmios, inclusive Melhor Argumento, Melhor Filme, Melhor filme e grandes prêmios de júri popular. E ela fala sobre esse problema que, infelizmente, continua acontecendo. E o filme é muito pertinente até hoje em dia. No filme tem depoimentos de rua e de figuras  do meio cultural e artístico, como Zé Celso, Jorge Maltner, Roberto Piva e outros. Tem até o Gilberto Gil, achei legal, no final.

 

Dann: Sim, sim. No final, ele fala que eles que não são os viados, mas ele fala num termo não pejorativo, tem que ajudar e dar voz pra as pessoas falarem sobre os problemas que estão acontecendo.

 

Igor: É, isso me fez até pensar até que ponto que foi importante a ajuda dos héteros, ou sei lá, quem tem passabilidade, na nossa aceitação, hoje em dia.

 

Sidney: Ah, eu acho que, nessa época, uma época em que… Bom, a polícia saía à rua, à noite, pra matar gays… Então, obviamente, o pessoal não iria nos dar ouvidos. Então, era necessário que a voz fosse passada através da boca dessa população que… Era decente, né, não era imbecil, apesar de hétero.

 

Dann: Eu acho que o que mais acontece nessa época, que também tem uma confusão, que aqueles assassinatos da Operação Tarântula, são operações, na verdade, pra matar travestis. E á época, o entendimento é que travesti e gay era o mesmo…

 

Sidney: Tudo a mesma coisa…

 

Dann: A mesma coisa, identidade de gênero e sexualidade. Para a população em si, já era tudo misturado. E isso, até hoje, algumas pessoas não sabem separar o que é identidade de gênero de orientação sexual. Então, tem um primeiro recorte aí.

 

Igor: Eu até anotei aqui uma frase que um entrevistado de rua fala, que é “homem nasceu pra ser homem”. Essa ideia do homem nasceu pra ser homem, é engraçado como a discussão sobre a orientação sexual/identidade de gênero sempre teve relacionada com a conclusão da opinião pública. Tipo, a conclusão desinformada deles, baseada na confusão entre os conceitos de orientação e identidade é um sintoma da ignorância dos tempos mesmo.

 

Dann: Uma outra coisa que eu também percebi pelo documentário, sabe o que foi? Que existe um recorte. As travestis… E, por exemplo, um gay famoso, ele não sofria tanto as opressões e conseguia ainda viver sua vida de gay, apesar de ter toda uma pressão social ali no meio. Que é o caso da participação do Zé Celso.

 

Igor: É, o Zé Celso, que o nome dele é José Celso Martins Correia, ele nasceu em Araraquara, em 1937, é uma das pessoas mais importantes ligadas ao teatro brasileiro.

 

Sidney: Tem até um teatro que leva o nome dele. Teatro Zé Celso.

 

Igor: Ah, não sabia.

 

Dann: Ele é tão importante que ele tem um teatro com o nome dele.

 

Igor: Ele se destacou como um dos principais diretores, atores, dramaturgos e encenadores do Brasil. Ele participa do documentário contando a morte do irmão e o julgamento da pessoa que foi meio que ré no caso dele. O documentário, a gente não falou ainda, mas ele segue meio que a narrativa dessa morte. Falando como que essa morte foi importante praquela época, pra trazer essa discussão à tona na mídia. Que antes era mais periférica a discussão.

 

Sidney: Daí, a gente já vê uma problemática que é, bom, só começou a virar problema quando uma bicha rica morreu. Porque as pobres travestis, enquanto estavam morrendo, não era um problema. Mas aí morreu o cara do teatro, a bicha famosa…

 

Igor: A elite branca.

 

Sidney: A elite branca, e tal, aí começou a virar problema. Isso, por si só, já é sintomático. E depois, você ouvir falar que, enfim, não importa se é branco ou se é preto, se é rico ou se é pobre, você vê lá os depoimentos das pessoas que acham que tem que matar mesmo… Inclusive, um fala, “Ah, seria bom se tivesse a lei que a gente pudesse matar”.

 

Dann: “Se a lei ajudasse, seria legal”.

 

Sidney: Falou desse jeito.

 

Dann: como que é? Eu tô rindo, mas é de nervoso.

 

(EFEITO SONORO: SIRENES POLICIAIS. INÍCIO DE LEITURA DE TRECHO)

 

Dann (narração): “Tem um homicídio em Ipanema, acho que é bicha”; avisou o investigador na véspera do Natal de 1987. Delegados e investigadores seguiram para o edifício de quatro andares na Rua Maria Quitéria. Ao entrar na cena do crime, era uma sala, cozinha e banheiro atulhados de livros. A equipe reparou nos cartazes em que a vítima aparecia sorrindo na capa da revista dominical do Jornal do Brasil. Um olha para o outro e diz, “Ih, a bicha era importante”.  O assassinato com mais de 100 facadas do teatrólogo Luiz Antônio Martinez correia, irmão do diretor do Teatro Oficina, Zé Celso, alavancou uma onda de protestos liderados por artistas como Fernanda Montenegro e Grande Otelo, diante dos crimes cometidos contra gays na aurora da AIDS.

 

(FIM DA LEITURA DE TRECHO)

 

Sidney: 100 facadas, porque é muita vontade de matar. Você dar 100 facadas numa pessoa só porque ela é diferente de você. É muito brutal.

 

Igor: É quase um ritual, eles amarravam os braços, as pernas, pra fazer isso mesmo. E era comum que todos os assassinatos de homossexuais fossem dessa forma. Nus.

 

Sidney: Nossa, é pra humilhar também.

 

Dann: Na verdade, não é só a morte, não é só a vontade de matar. Isso, por exemplo, a pessoa que mata os gays, geralmente, antes de matar, tem a parte que se deitam com gays, e talvez tem até uma homofobia internalizada. Já pararam pra pensar nisso?

 

Sidney: Pode ser. É porque eu já ouvi esse comentário. E esse comentário também é problematizado, no sentido de que mesmo assim a gente tá culpando ainda os homossexuais pela própria violência que infligem entre si mesmos, porque são enrustidos.

 

Igor: é, eu não gosto também desse…

 

Sidney: Tem essa violência, como se fosse assim, a violência da homofobia entre os próprios homossexuais que não se aceitam. Mas eu já vi entrevistas com psicólogos falando que é possível que a maioria das motivações de crimes de ódio contra homossexuais seja, sim, por repressão sexual, mas não necessariamente por uma repressão homossexual. Porque a norma, como a gente já falou, inclusive, em alguns episódios do HQ da Vida, a norma heteronormativa é muito castradora, e ela é muito repressora da sexualidade, mesmo você sendo hétero. Porque o que diz a norma heteronormativa é que o sexo só serve pra a reprodução. Você não tem nem o direito de sentir prazer no sexo que você faz. E isso acaba, inclusive, essa repressão acaba gerando esse ódio. Que é como se um hétero, mesmo sendo hétero, ele se sente reprimido sexualmente, porque ele não pode manifestar sua sexualidade livremente. E aí, ele vê essa pessoa que é gay, ou seja, já se desprendeu dessa amarra de alguma forma, e sente algum ódio por conta da liberdade que ele não pode ter. E é interessante a gente analisar isso pelos dois lados. É possível, sim, que pessoas sejam violentas por homofobia internalizada, por serem homossexuais. Mas isso não quer dizer que é todo mundo. Heterossexuais também têm sua sexualidade reprimida e isso também pode causar violência contra essas pessoas que são livres sexualmente.

 

Dann: Sim, sim.Inclusive, quando eu assisti esse documentário, eu lembrei de um caso que aconteceu na minha cidade, eu tinha 15 anos, 14 anos… Inclusive, a vítima era um bailarino da cidade. E chama Caso Igor Xavier. É um caso muito emblemático, inclusive, existe a Semana Igor Xavier até, hoje, que a gente faz apresentações e performances. E a mãe dele é um amorzinho. Inclusive, seria um sonho, um dia, agilizar pra gravar um HQ da Vida com ela, não sei como daria pra fazer isso, mas seria um programa interessante. Sobre o Caso Igor Xavier, é um assassinato com esse modo padrão que ocorreu com o Luiz Antônio. Então, a gente vê que existe um padrão de comportamento em relação a esses tipos de crime. E o fato de colocar que a culpa é do gay também, de ter homofobia internalizada, acho que ficou bem esclarecido que, no fato, é a estrutura nossa que é heteronormativa e qualquer ocorrência disso, da sociedade que diz que a gente não é certo, não é correto, estamos errados, a todo momento.

 

Sidney: De um jeito ou de outro, essa violência é o sintoma de uma sociedade que está doente porque não se libera sexualmente. Seja de um lado ou seja do outro.

 

Dann: Justamente. Inclusive, o assassino do Luiz foi absolvido na primeira instância, ou seja, o juiz não condenou ele, mesmo com as provas. E só na segunda instância que ele foi condenado a 26 anos de prisão.

 

(FADE IN E FADE OUT DA TRILHA SONORA)

 

Dann: Pessoal, e além da participação do Zé Celso, que a gente citou e do caso do irmão dele, que ele relata no documentário pra vocês assistirem, existem outros participantes que falam sobre a construção desse pensamento de massa brasileiro que foi moldado pela mídia, sobretudo no período da Ditadura, porque esse é um documentário pós período de Ditadura, ou seja, primeiro ano, praticamente, de democratização. Aquele período de redemocratização, então tem figuras que são importantes e que são do meio artístico que também foram lá no documentário falar um pouco sobre isso.

 

Igor: Antes de você falar a lista, eu queria trazer mais uma coisa que o Zé Celso falou, lá no final do documentário, que eu achei interessante pros dias de hoje. Ele fala que, lá em 1988, eles tavam saindo da Ditadura, que o Brasil agora tinha uma liberdade de imprensa que eles não tiveram por muito tempo, mas que essa liberdade seguia presa aos anunciantes e ao mercado. Falando que nem tudo que vende é o que é. Por isso que, na TV, na mídia, não tinha retratação honesta de homossexuais e travestis, e tal. É porque não vendia, né. Eu acho que, hoje em dia, o apoio à causa LGBT é visto com tanta positividade, que acaba que deu uma virada nisso. O apoio aos homossexuais vende agora.

 

Sidney: É, pelo caminho do Capital, mas mudou. Esse panorama dos anos 80 pra cá foi o que mudou.  O que, talvez, tenha, inclusive, amplificado essa reação oposta que a gente tá sentindo. Antigamente, tudo era velado, seja o apoio ou seja a aversão. Hoje em dia, o apoio é escancarado, e ainda bem que é escancarado. Só que a aversão também acaba sendo… Ela vem de formas mais… como eu diria? Incisivas. E aí, a gente não vai ver ninguém falando que gay merece morrer na rua. Mas as políticas públicas das pessoas que são contra esse tipo de conduta, de comportamento, elas são todas feitas no sentido de nos tolher direitos, de não nos dar liberdades, de nos tratar ainda enquanto cidadãos de segunda categoria. E talvez seja essa a grande diferença, a disputa hoje em dia, que é mais política… NO campo político do que no campo da rua, do dia a dia. A gente tem que galgar espaços políticos, porque a gente tá na propaganda, a gente tá na capa da revista da Avon, a gente tá lá no… Enfim, em todo lugar. Mas a gente não tá lá onde as leis são feitas, que é onde as coisas acontecem socialmente também. Onde as políticas publicas são feitas. A gente ainda tem pouca representatividade nesses lugares que são majoritariamente homofóbicos, LGBTfóbicos. Enfim, eu acho que esse é o próximo passo que a gente tem que dar. Tá muito bonito, a gente ter uma novela lá na Globo. Mas a gente tinha que ter mais bicha, mais travesti, mais sapatão lá no Congresso. Não é lá na Globo.

 

Dann: Em espaços de poder, né.

 

Sidney: Aham.

 

Dann: Agora também tem outra coisa, né, Sid, a gente vê que hoje ninguém tá falando que um viado pode morrer e deveria morrer, ou então ter leis que deixariam que pudessem matar, mas a gente vê as pessoas com outro discurso, que vem aquela homofobia enrustida. Que o mundo está diferente, que tá tudo muito solto, que coitado das nossas crianças. Que tudo que tem ares LGBT estraga e corrompe as crianças. Então, ainda tem um quê que nós LGBTs somos tóxicos para a formação de uma identidade de uma criança, como se estivéssemos no fundo, fazendo alguma coisa errada, na verdade.

 

Sidney: é, no final das contas, as palavras mudaram, mas o ódio continua o mesmo. Infelizmente. Essa é a sensação que dá.

 

Dann: E aí, nós temos lá no documentário da Rita, tem o Jorge Maltner, que é, na verdade, Henrique Jorge Maltner, que ele é compositor, cantor, escritor brasileiro. Ele tem um histórico bem interessante da sua relação com seus pais e com a Ditadura, com certeza. Inclusive, ele também participou do Partido Comunista Brasileiro, e ele tem essa história aí de luta contra o Golpe Militar. O próximo convidado também que participou desse documentário é o Roberto Piva, ele é um poeta brasileiro e também deu seu pitaco lá no The Hunting Season, falando um pouco sobre essa onda que estava e continua a assolar a época. E temos uma maravilhosa participação, que é da Cláudia Wonder, e Igor vai falar um pouquinho sobre a Cláudia pra a gente.

 

(FADE IN E FADE OUT DA TRILHA SONORA)

 

Igor: A Cláudia Wonder é meio que… ela teve uma carreira meio parecida com a das Drag Queens americanas, sabe. Só que ela é uma travesti. Ela surgiu na cena underground em São Paulo, fazendo shows em boates, do jeito que a gente tá acostumado as Drag Queens do RuPaul. E logo ela passou a fazer peças de teatro, filmes e etc. Ela contracenou com gente bem grande, tipo Tarcísio Meira, Raul Cortez. E, nos anos 80, ela começou a seguir uma carreira musical. Como cantora, ela montou uma banda de roque que chama Jardim das Delícias. Inclusive, eu vi as músicas dela, tem disponível no Google Store, deve provavelmente ter no Spotify também. E ela também, depois, criou uma outra banda, que chamava Truque Sujo, que fez bastante sucesso entre a crítica e o público. Ela ficou bem conhecida no c=clube de São Paulo que chama Madame Satã, que… Eu não conheço, mas pelo visto, foi bem famoso na época dos anos 80. E no final dos anos 80, acho que logo depois dela ter participado do Hunting Season, ela foi pra a Europa, ficou lá 12 anos trabalhando como cabeleireira e maquiadora. Mas ela era empresária e trabalhava com pessoas grandes, então ela teve uma carreira boa como artista da estética. E quando ela voltou pro Brasil, ela voltou a cantar, participou de várias coletâneas musicais. Por exemplo, Sonetos do Poeta Glaucco Mattoso.

 

Sidney: Ai, Glaucco Mattoso, ótimo.

 

Igor: E entre os artistas, tá o Arnaldo Antunes, Itamar Assunção, pra a gente ter uma ideia do tamanho dela na cena musical. Ela participou também da primeira coletânea eletronacional, no CD Body Rapture, com a música Tonica do Religale. Em 2007, ela lançou o seu primeiro CD solo. Esse eu também vi que tem músicas dela no Spotify.

 

Dann: Olha só. E engraçado, né, Igor, se a gente falou da Rogéria, que conta toda sua trajetória, que não teve problemas, que sempre foi aceita, e quando não era aceita, ela se impunha; a história da Cláudia já é diferente, ela já foi detida, sexualmente molestada, enxotada de lugares. Então, ela também teve uma vida de cão, de certa forma, de passar por situações constrangedoras, na verdade.

 

Igor: E olha que coincidência, ela é negra e a Rogéria é branca…

 

Dann: Ó o recorte aí… E eu estava olhando, ela também foi colunista e repórter da G Magazine.

 

Sidney: Gente!

 

Dann: E do site G Online, até 2008. Infelizmente, pessoal, ela faleceu em 2010. Essa é a parte triste da história. E tem o documentário, né, Igor, que você nos indicou.

 

Igor: Eu ainda não assisti, mas eu fui pesquisar sobre o documentário, fiquei muito interessado depois de ver o Hunting Season. Se chama Meu Amigo, Cláudia. Ele estreou nos Estados Unidos, no Festival de filmes LGBT que, hoje em dia, chama Frameline Film Festival. Pelo jeito, a história dela é contada muito paralelamente à história do Brasil, então deve ser bem interessante.

 

Dann: Fica aí a indicação, Meu Amigo, Cláudia. Adorei essa indicação. Inclusive, quem sabe, mais pra frente… A gente tem uma lista de HQpedia, mas vale até um HQpedia aí.

 

Sidney: E no documentário ela tem frases, vozes, falas muito contundentes. Porque ela tava sofrendo na pele essa violência que o documentário denuncia.

 

Igor: Eu acho a fala dela uma das mais modernas.

 

Dann: Eu também tive a mesma… A fala dela, se tirasse aquela fala e trazer pra 2017, ou seja, 30 anos depois, não mudaria nada.

 

Igor: Pois é.

 

Dann: Ela fala de recorte de classe, de cor, e por ser LGBT. Inclusive, fala também sobre a AIDS, que era o fantasma da AIDS que perseguia.

 

Igor: é, a parte mais datada é essa parte da AIDS.Que ela acha que a AIDS foi criada em laboratório.

 

Sidney: é, tem essa teoria da conspiração…

 

Dann: Inclusive, ela fala que a AIDS, o que pregam é que a AIDS não veio do branco, do rico, a AIDS veio do negro da África e dos gays, ou seja, do que é não normativo na sociedade.

 

Sidney: não, e ela termina dizendo assim, não é possível um vírus moralista, só pode ser fabricado isso. Ela fala desse jeito, porque ainda não tava desmistificado. O estigma da praga gay, que a AIDS teve nos anos 80, o pessoal ainda… Inclusive, perdura até em redutos muitos machistas hoje em dia essa ideia deturpada e idiota de que o HIV, só é transmitido entre homossexuais. Como se o vírus tivesse essa condição de selecionar as pessoas que são homossexuais e não os héteros.

 

Igor: Eu acho engraçado como ela usa a palavra “moralista”, porque o que era considerado moralista naquele ano era você querer matar os gays.

 

Sidney: Pois é.

 

Igor: E aí, hoje em dia, nós, mais pra esquerda, mais pras ciências sociais, somos acusados de moralistas por querer que as coisas sejam politicamente corretas e tal…

 

Dann: Que não nos matem…

 

Sidney: Não querer morrer, né, quem já viu? Gente, esse absurdo de você pregar contra a violência por motivo nenhum, né? Quem sabe a gente não entrevista a Rita Moreira…Gente, vamo fazer acontecer?

 

Dann: Gente, eu mandei uma mensagem no Facebook dela…

 

Igor: Ah, tem que procurar email, essas pessoas importantes não veem o Facebook.

 

Dann: é, eu acho que foi pra a caixa de spam. Mas enfim, se alguém tiver o contato, a gente pode deixar aqui na chamada. Então, pessoal, este documentário vale a pena ser assistido várias e várias vezes. Ele é um retrato do que a sociedade brasileira era ali no período já de redemocratização. E aí, eu queria que o Sidney e o Igor também encerrassem e fizessem uma conclusão aí sobre este documentário maravilhoso que está no Youtube.

 

Sidney: Uhum. É, o Danilo falou aí, vale a pena assistir várias e várias vezes pra você pegar bem as frases, porque são muito fortes. E dá pra você assistir tranquilo porque só tem 25 minutos, é rapidinho, menos de 25, inclusive. É o retrato avassalador de uma realidade com a qual a gente, mesmo 30 anos depois, ainda tem que conviver. Porque, inclusive, no começo ela mostra aquelas pessoas que falam sem pudor ou sem vergonha nenhuma que gostariam que essas pessoas fossem mortas; e no final ela mostra que ela também conseguiu, nas ruas, pessoas que diziam que não, que isso é um absurdo. Daí a gente vê que não é por causa do tempo. Todo o tempo existiram pessoas cruéis e também existiram pessoas humanas. Humanas no sentido utópico do termo “humano”. Enfim, gente, vale a pena, você que é hétero, inclusive, assistir, pra ter uma noção de como é você sair de casa, sendo LGBT, tendo esse fantasma sobre a sua cabeça, de haver pessoas que, provavelmente, estão te olhando do outro lado da rua pensando que você merecia morrer por razão nenhuma.

 

Igor: Eu achei bem chocante as entrevistas de rua do documentário, e acho que hoje em dia o que mais vale nesse documentário é isso, o retrato da sociedade nos anos 80, querendo matar as gay, querendo que tivesse lei que deixasse matar, como se ninguém fosse ficar traumatizado com matar um ser humano. Gente, essa parte é a mais bizarra pra mim. O documentário é sobre a morte do Luiz, só que a importância dele, hoje em dia, justamente é por causa dessas entrevistas. Eu até me sinto feliz de ver que essa parte da sociedade, a parte mais moralista, como diria a Cláudia Wonder, meio que deu uma evoluída, mesmo que tenha sido bem devagar e bem pequena. E é legal também enxergar que a gente tá nesse mesmo assunto, com esses mesmos argumentos, desde os anos 80. E as pessoas não querem escutar até hoje.

 

Sidney: Não é possível… Olha, é de cair o cu da bunda.

 

Dann: Eu acho que seria legal, por exemplo, imagina a Cláudia viva hoje, nos tempos atuais. E ela também era considerada militante. Para a militância, o que ela estaria hoje lacrando, não no termo pejorativo que as pessoas usam, fazendo uns textos legais, refletindo, dando palestra, porque é o modus operandi que existe hoje.

 

Igor: Eu acho que ela estaria feliz com os passos da humanidade.

 

Dann: Sim, pelo menos, tem espaço pra falar. Não tá fácil ainda, mas é possível haver melhoras.

 

Sidney: Sim. Gente, olha só, esse é mais um HQpedia. A gente vai ficando por aqui. Pedindo pra que você, se quiser conversar com a gente sobre este tema e sobre o documentário, entra em contato com a gente, a gente tá lá no hqdavida@gmail.com; você pode mandar email. Ou você pode comentar lá no nosso site, no WWW.hqdavida.com.br ; a gente também tá no WWW.facebook.com/hqdavida; WWW.twitter.com/hqdavida; nós também publicamos o nosso podcast no Medium, no @hqdavida; e no Youtube, onde você procura por “HQ da Vida Podcast”. A gente termina sempre pedindo pra você nos dar 5 estrelinhas lá no iTunes, você que tem conta, pra ver se a gente brilha nessa podosfera e começa a galgar mais caminhos por essas vias heteronormativas. Não é mesmo?

 

Dann: É isso aí. E se você quiser ajudar essas vinhadas, participe, entre lá no WWW.padrim.com.br/hqdavida ou no www.patreon.com/hqdavida

 

Sidney: E, gente, se você não quer ou não pode contribuir com dinheiro, você pode contribuir sem pagar nada. Sabe como? Divulgando a gente, indicando o HQ da Vida pra seus amigos, pras pessoas que vocês acham que vão se beneficiar dessas discussões que a gente tem aqui. Então, espalhe a palavra do HQ da Vida pra os seus amigos e, desse modo, você vai tá ajudando a gente também. A gente vai agradecer de coração, tanto quanto a gente agradece aos nossos padrinhos.

 

Dann: É isso aí. Ah, e lembrem, tem outro recado, Sidney, que a gente não deu. Promoção HQ da Vida, gente. Entra no site. A gente está sorteando 8 livros. São 5 livros para não padrinhos e 3 livros exclusivos para padrinhos. Entre no nosso site, WWW.hqdavida.com.br e veja a postagem fixada da nossa promoção lá. Preencha o formulário e participe. E ganhe o seu livro, ok. Os seus livros, na verdade. São 5 livros de uma vez.

 

Sidney: De uma vez, gente. Vem com a gente. E a gente quer agradecer imensamente o carinho e a participação de Igor, nossa amgui aqui, já é íntima do HQ da Vida. Igor, muito obrigado por ajudar a gente a segurar essa barra que foi esse documentário. Foi muito legal.

 

Igor: Ai, gente, tô muito emocionado.

 

Dann: Olha, Igor, a gente não é famoso pra poder ter gente no Facebook e escrever #TeamIgorMoretto, mas eu já levanto essa hashtag, aqui no HQpedia ajudando a gente, viu.

 

Igor: Então, gente, entrem lá no WWW.animagos.com.br e vejam o nosso trabalho. Só isso mesmo.

 

Sidney: Exatamente. Vai lá que é ótimo, gente. Eu sou potterhead, eu sou fã. Inclusive, tem podcast comigo lá no Animagos também. Se não for pelo Igor, vai por mim, gente!

 

Dann: Vai pelo Renato, vai pelo Vinicius…

 

Igor: Não, se não for pelo Igor, não vai.

 

Sidney: Ai, ai. Gente…

 

Dann: Mas, de coração, muito obrigado pela participação, pela ajuda aqui na gravação do podcast, viu.

 

Igor: Obrigado vocês. Gente, eu sou fã de verdade. Eu não tô fazendo a humilde.

 

Sidney: Ai, foi ótimo. Vem mais vezes. Então, a gente fica por aqui, Dann, Igor. Um xero pra todo mundo e até o próximo HQ.

 

Dann: Até, beijo!

 

Igor: Até!

 

(INICIO DE CLIPE DE ÁUDIO: TRECHO DO DOCUMENTÁRIO)

 

Guarda metropolitano: Pra quem não me conhece, eu sou ex guarda metropolitano. Fui exonerado sexta-feira passada por fazer sérias declarações à imprensa. Uma, por ter a guarda Civil Metropolitana trocado as armas do crime no dia da morte do (incompreensível) Polícia Judiciária. Outra, por ele ter procurado, caçado homossexuais na própria cidade de São Paulo, sendo que dentro da prefeitura existe, em todos os lugares existe! Ele não tem o direito de fazer o que está fazendo! Ele não é o segundo Hitler! Não podemos deixar acontecer isso! E outra, tô sendo procurado 24 horas por dia. Eles querem dar um fim em mim.

 

(FIM DO CLIPE DE ÁUDIO)

 

(BLOOPERS)

 

FIM

 

Transcrito por Sidney Andrade

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