Transcrição – HQ de Bolso #01 – O Medo de dar Pinta

TRANSCRIÇÃO – HQ DE BOLSO #01 – O Medo de dar Pinta

 

(FADE IN E FADE OUT DE TRILHA SONORA ALUSIVA A SUPER HERÓIS)

 

(EFEITOS SONOROS DE APLAUSOS)

 

Dan: Olá, pessoal. Aqui é Dan Carreiro.

 

Sidney: E eu sou Sidney Andrade.

 

Dan: Então, estamos com o nosso primeiro HQ DE BOLSO.

 

Sidney: Menino, o que é isso? Que surpresa é essa nesse feed?

 

Dan: Então, gente, o HQ de Bolso, ele é… são… (ele hesita) Aí, tá vendo? A dificuldade de gravar o primeiro programa. Então, pessoal, o HQ de Bolso é o seguinte. A gente tem a intenção de provocar discussões iniciais sobre alguns temas que abrangem as vivências Queer, e a gente quer começar o assunto pra que você possa ter um ponto de partida com o qual poderá buscar mais informações. A intenção não é esgotar os assuntos aqui, pelo contrário. Até mesmo porque a gente não vai conseguir fazer uma discussão muito aprofundada, né, Sid?

 

Sidney: Exato. Tem toda uma questão de lugares de fala, né, nós… É bom a gente lembrar que nós somos dois gays cis-gênero, né. A gente tem um recorte muito específico, e é claro que a gente não dá conta de todos os temas. É por isso que o HQ é de bolso, é uma introdução. Aqui é só o começo, pra poder abrir espaço pra que os assuntos possam ser desenvolvidos mais a fundo aí pra você, do seu lado.

 

Dan: Uma coisa que eu acho que talvez funcionará bem bacana, nessa modalidade do HQ de Bolso, é se a gente tiver muito feedback, porque a gente pode até usar, por exemplo, um outro programa para ler os comentários, vivências, pessoas que, por exemplo, às vezes tem uma vivência do que foi comentado e tem algum relato que seria interessante. Então, a gente pode fazer essa costura nos próximos programas, a partir desses comentários e feedbacks que a gente vai ter com o HQ de Bolso, né. Lembrando ao ouvinte que a gente já tem o HQ DA VIDA, que é o programa com as histórias pessoais de cada um. Nós temos o HTRETA, quando a gente tá muito cismado com um tema e precisamos, e necessitamos de falar dele, ou quando alguém pede, sei lá; pode ser pela demanda ou pelo impulso pessoal nosso aqui também. E agora temos o HQ de Bolso.

 

Sidney: E o que foi natural do HQ de Bolso nascer é que a gente… Com as histórias de vida, a gente vai percebendo que toda história de vida suscita ou pode suscitar um tema específico que abrange essas discussões acerca das vivências LGBTs. E como nem sempre dá pra se aprofundar também na história de vida das pessoas, a gente traz o tema pra cá, pra começar uma discussão. Se você quiser, você aí, ouvinte, do outro lado, participar, vem, colabora com a gente, que de acordo com o feedback, como o Dan falou, a gente pode até desenvolver os assuntos.

 

Dan: Vai ficar bacana se houver essa interação do ouvinte com o assunto e com a história, com a vivência, ou com a opinião que às vezes a pessoa tem; e até muito mais elaborada e melhor do que a nossa sobre determinado assunto.

 

Sidney: E é de bolso porque a intenção é ser curtinho, até pra você apresentar pra alguém que pergunta, “Mas o que é isso?”

 

Dan: Justamente, serve até como um guia básico (ele ri).

 

Sidney: Um índice de temas…Vamos lá, Dan. E hoje, esse primeiro HQ de Bolso?

 

Dan: O tema de hoje é o medo de dar pinta. Por que gays afeminados e tudo que deriva disso assusta tanto pessoas dentro e fora do meio LGBT? O texto base que a gente teve, que foi um grande norteador, que inclusive foi indicado pelo Sid, é um texto de 14 de maio de 2015, da Revista Fórum. O título é “Dando Pinta e Enfrentando a Homofobia”. Aí, existem vários relatos, inclusive tem uma página que foi criada a partir de um movimento que aconteceu. Eu vou ler só um trechinho pra vocês, e o link estará na postagem. Está assim, “A homofobia é um problema que atinge todos os homens gays de diversas maneiras. No entanto, há gays que sofrem com ainda mais menosprezo. Os chamados afeminados, ou efeminados. Aqueles que dão pinta demais e não se encaixam em padrões de masculinidade. São marginalizados até mesmo por outros homossexuais e lidam com uma grande carga de preconceito e violência. Essa questão tem tudo a ver com misoginia, o ódio contra mulheres e contra o que se remete ao feminino. Conscientes das relações de poder exercidas por valores machistas e homofóbicos, os ativistas gays vêm criando ferramentas coletivas para auxiliar no combate à discriminação. É o caso da página “Sou/Curto Afeminados”, que não funciona apenas como facilitadora de debates e divulgadora de materiais relevantes para a compreensão do que é ser um gay afeminado. Mas também ajuda a promover encontros e eventos presenciais onde há troca de conhecimento e propostas de resistência.” Então, esse foi um texto que a gente pegou como base pra poder discutir e falar do que acontece com essas questões do ser afeminado, desse ódio à feminilidade que existe entre até o próprio meio gay, que é um tema de discussão muito grande, né, Sid?

 

Sidney: É, o primeiro ponto interessante que é apontado pra a gente entender essa aversão aos afeminados é a misoginia, como você mencionou aí no trechinho. É incrível como o machismo, que é filho da misoginia, né, surge do ódio ao feminino, ele vai também desaguar nas relações LGBTs, claro, né, permeia todas as relações sociais entre os gêneros, né, sejam quantos gêneros forem. E é justamente esse ódio, essa aversão ao feminino que vai… E essa… Como dizer? Essa ideia de que o feminino é inferior, esse valor negativo do feminino perante ao valor positivo do masculino, que vai fazer com que a afetação, o gay afeminado, seja visto como algo indesejado e até ridículo, ou odioso, porque… Talvez, a mentalidade seja essa, como é que uma pessoa que é homem, ou seja, veio ao mundo nessa posição de privilégio, se rebaixa ao nível de querer se parecer ou se portar com modos femininos, que são inferiores aos modos masculinos? É claro que isso tudo é dito de uma forma bem generalista, né, a gente tá falando aqui. Mas é partindo dessa ideia que nasce essa aversão, né.

 

Dan: Primeira coisa que a gente tem que pensar é o seguinte. Dentro do meio gay há esse preconceito, e eles pautam esse… (ele ri) O que eles falam que não é preconceito, como gosto. É questão de gosto. E que eles não são obrigados a nada!

 

Sidney: É aquele famoso “Sou gay, não sou nem curto afeminados, ativo, fora do meio…” Ah, o “fora do meio” eu fico… (Dan ri) Eu fico assim… Todo me tremendo.

 

Dan: Olha só, eu tenho… tem uma postagem também, da “Cartazes e Tirinhas LGBT”, de 06 de agosto de 2014. E aí, começam falando alguns trechos que tão no perfil das pessoas no Grinder, no Scruff e no Hornett. E começa assim, oh…

 

Sidney: Haja aplicativo, né…

 

Dan: é. (ele ri) Pegação é o que há.

 

Sidney: (rindo) Exato.

 

Dan: Tem vários, tem uma listinha aqui, eu vou ler só alguns pra poder elencar como que são esse tipo de gay, né. Um tá assim no perfil, “Afeminados serão bloqueados”. O outro coloca na descrição assim, “Um cara sussa, não afeminado e que curte homem. Menininha, não. Homem”. O outro coloca assim, “Odeio bichinha”. O outro coloca, “Se for afeminado, nem me chama”. No outro, coloca, “Não curto bichice”. Bichice! (ele ri) O outro colocou assim, “NÃO CURTO AFEMINADO” em caixa alta. O outro colocou assim, “Ativo, tô fora de miados”. Eu nem sabia, eu nem conhecia essa expressão…Miados.

 

Sidney:Miados? É, eu também não conhecia. Olha aí, sempre aprendendo um jeito novo de nos ofender, não é mesmo?

 

Dan: Esse eu acredito que deve ser o ativaço de academia, porque miado eu acho que deve ser a bicha magra, sei lá… Deve ser alguma coisa…

 

Sidney: A bicha pão-com-ovo, né, que chama?

 

Dan: Isso! A típica. E isso também, depois a gente pode fazer, que tem um recorte de classe, né, Sid?

 

Sidney: Sim, sim.

 

Dan: “Busco real, no sigilo, e sem afeminação”.

 

Sidney: NO SIGILO! Me mata! (Dan ri) Me dá um tiro agora, pelo amor de deus.

 

Dan: Aqui, “Muito boa pinta, descarto afeminados e assumidos, a fim de caras de vida social hétero”. (ele ri)

 

Sidney: Ai, Jesus! Como assim? Bom, a gente tá falando também de outra barra, que a gente sempre é permeado, que é a tal da heteronormatividade, que inclusive dá outro HQ de Bolso. Mas é essa necessidade de pautar a vida sobre diferenciar que o feminino é para o feminino e o masculino é para o masculino. Essa separaçãozinha, que não pode se misturar em nada. E o que a gente deve, assim, questionar, a pesar da sempre implacável… O sempre implacável argumento de que “É o meu gosto e não há o que fazer”, é se questionar por que é que essas pessoas fazem tanta questão de se distanciar desse meio, ou desse campo de feminilidades nos homens. É claro que a gente tá falando, aqui, só aparentemente de gays cis0gêneros, né, e gays homens, no caso. Esse caso é muito específico, né. Esse tema que a gente tá. A gente vai abranger outros temas mais tarde, vamos de pouquinho, né. Por que essa necessidade tão enorme de transparecer e de expressar verbalmente que você não está nesse meio? Que você não se mistura com essa gentalha?

 

Dan: Primeira coisa, né, você já falou, que é de cunho misógino, e isso já é bem claro. Uma coisa que eu não consigo entender é como essas pessoas tentam cunhar isso como gosto, e não sabe que o gosto é uma construção social. E aí que reside toda a história.

 

Sidney: E a grande dificuldade da gente desassociar isso na cabeça das pessoas, porque uma vez que você ataca o gosto pessoal delas, elas automaticamente vão pra defensiva e ficam blindadas de ouvir qualquer outro argumento que seja. Porque quando você fala que aquilo que aquela pessoa gosta não é algo espontâneo e natural, mas também… Pode ser também, mas além dessa espontaneidade natural, também existe um processo de valoração social que é imposto… Imposto também, mas assim, que a sociedade constrói os seus valores, e esses valores nos são passados, e a gente assimila, né. Então, o que a gente pode achar como gosto pessoal, na verdade, é hábito. Porque eu fico pensando assim, Dan. Olhe, eu sou uma pessoa que eu detesto cerveja. Porque cerveja não tem um gosto bom pra mim, entendeu? É amarga.

 

Dan: Uhum.

 

Sidney: Aí, eu posso dizer que eu não gosto de cerveja porque é meu gosto pessoal, e não tem nada a ver com isso. Como se fosse algo imutável, impenetrável e irreversível. Aí, quando eu converso com colegas que curtem cerveja, e que apreciam, aqueles somelier de cerveja (ele ri)… Enfim (Dan ri). Mas eu gosto de conversar porque o que todo mundo fala é que você precisa o quê? Acostumar o seu paladar. Porque uma vez que você acostuma o seu paladar, você começa a apreciar outras coisas. E o amargor… A cerveja não vai deixar de ser amarga, pra as cervejas que são amargas, no caso. Pelo menos a minha experiência, eu tenho aversão a cerveja justamente pela experiência dela ser sempre amarga. Eu não tenho o costume de experimentar outros sabores de cerveja. Mas, a partir do momento que você desenvolve e acostuma o seu paladar para uma coisa nova, você passa a reconhecer esse amargor como algo também de valor. Não é que o amargor vai virar doce, entendeu, na sua boca. Mas ele passa a ter outro valor, e você passa a deixar de rejeitar o sabor amargo da cerveja. E aí, pra eu apreciar, eu vou ter que entrar em contato, né. Claro que eu tomando só cerveja preta, que é o que eu gosto, que é docinha, né (ele ri)…

 

Dan: É aquela Malzbier, né?

 

Sidney: Exatamente, é a que eu tomo por gosto, né. Mas se eu nunca me expor aos sabores das cervejas, então é claro que eu vou sempre rejeitar, né.

 

Dan: Eu gostei da analogia que você fez porque eu achei ela interessante, porque, assim, é lógico que foge do escopo do que a gente quer dizer, mas ela acontece com muitas pessoas que falam que não gostam de determinados alimentos, ou de determinados vinhos, ou determinadas coisas e, ao provar, elas ficam, talvez, instantaneamente apaixonadas com determinadas situações.

 

Sidney: Não é tão simples como a gente tá dizendo, né. Mas…

 

Dan: É só uma analogia…

 

Sidney: … eu acho que é um processo semelhante, né. Se você se blinda pra o meio, você é fora do meio e você quer tanto não penetrar nesse meio, que você não quer nem que a pessoa se aproxime de você, as pessoas que estão nesse meio. E a gente se pergunta que meio é esse? Como é que… Existe essa separação?

 

Dan: Que mundo é esse que essas pessoas convivem, que não é esse outro mundo que elas não querem entrar. Tem um texto que eu achei na internet, esse texto não é muito bom, porque ele começa a trabalhar com a linha de construção social, falar que é preconceito, só que no final ele fala assim, que não gostar de pessoas negras, ou bichinhas, ou alguma coisa assim, é uma questão de gosto. Aí, no final, ele acaba falando que é de gosto, mas ele constrói toda uma narrativa falando que não era de gosto, que era de construção social. Mas ele fala assim, que deve ter o respeito e tudo mais. Enfim, quer fazer média, colocar ali no meio do muro. Então, não gostei, mas…

 

Sidney: “É preciso respeitar, mas eu que não vou pra lá”, né. “eu que não vou provar”, né.

 

Dan: Isso.

 

Sidney: “Eu respeito, mas também não sou obrigado! Se tem uma coisa que eu não sou é obrigado!” Fica essa história.

 

Dan: Aí, eu fui fazer um hábito, que às vezes eu tento evitar, tem hora que eu faço. É ler comentários de reportagens mais ou menos assim.

 

Sidney: PARA DE SER DOIDA!

 

Dan: Eu lembrei daquele… Qual programa? É no Mupoca, que os meninos ficam lendo… comentando os comentários. E eu falei assim, vou fazer uma sessão rápida, só pra elencar. Tem um cara que colocou assim, Robert Horvel, “Ah, deus! Mais um texto chato e politicamente correto querendo enfiar o ‘transe com um afeminado’ goela abaixo. Não gosto, não sinto tesão, não me atrai. Forçar um gay a transar com um outro que não o atraia não seria estupro? Estupro moral.”

 

Sidney: Gente! como assim?

 

Dan: “Não vejo a mínima diferença entre dizer para uma lésbica transar com um cara para ela ter certeza que não gosta, e dizer pra um cara macho e bem cuidado transar com uma afeminada periférica e degenerada pra ele ter certeza que não gosta. Nenhuma.”

 

Sidney: Periférica e degen… Ah, Jesus.

 

Dan: Olha que, sem querer, ele já colocou todo…

 

Sidney: Todo o preconceito pra fora. E é um preconceito que você vê que não é só de orientação sexual, um preconceito de classe, né…

 

Dan: Mas é um recorte de classe…”Aliás, o que mais me incomoda nos afeminados…” Você acabou de falar no quê? Moralismo, né. “O que mais me incomoda nos afeminados é a sua falta de caráter, de moral e de respeito”…

 

Sidney: Ai, gente.

 

Dan: “Isso brocha qualquer pessoa com o mínimo de decência”. Olha que loucura do cara. E lógico que é um perfil fake, né. Aí, tem outro, que ele fez um amiguinho nesse dia ainda, chama Malcom X (eles riem). Aí, eles vão dissertando e trocando amizade, e o trem vai desenvolvendo, eles tão super felizes um com o outro lá, Malcom X e Robert Harvel. Aí, ele coloca assim, depois deles conversarem várias coisas, e destilar mais ódio. Mas ele coloca assim, Malcom X, lá no final, “Robert Horvel, eu sou homossexual e não sou afeminado. Não sinto segurança para expressar o meu pensamento sobre os afeminados publicamente, seja na vida real ou online. Então, vim anonimamente por meio do Discuss, encontrei você e me identifiquei. Me sinto melhor agora. Valeu”. E aí, agora, a amizade…

 

Sidney: Olha, gente, é uma inversão, né. Tipo assim, a gente sabe que quem sofre mais violência, num dos textos que a gente vai linkar aqui… Inclusive, todos esses links que a gente tá mencionando vão estar na postagem do Sound Cloud, pra vocês lerem. Tinha um pedaço, justamente, que dizia desse aumento da opressão sobre a questão dos afeminados. Porque o movimento LGBT é predominantemente G, né. Só que é um G específico, que é o gay branco e discreto. Não é isso? Até porque na novela…

 

Dan: é Aquele que nem parece gay, né…

 

Sidney:Nem parece gay. Porque é o gay certo, né, o gay discreto, aquele gay que não desafia o status-quo, na verdade, a não ser pelo fato de ser gay assumidamente.

 

Dan: Justamente.

 

Sidney: Mas, aí, quando você vê nas novelas, o gay afeminado é o quê? É o alívio cômico.

 

Dan: Ah, é.

 

Sidney: Enquanto que o gay discreto, ele vai ser… Ai, vai ter a barra que é sempre só sobre a homossexualidade. As histórias de gays discretos não são sobre histórias, são só sobre serem gays. Tem esse estereótipo. Dois, né. E em outra parte de outro texto, eu não vou saber citar agora, mas menciona-se… Ah, não, não vai ter nem aí, porque esse texto tava péssimo, eu nem copiei. Era um texto que dizia, Dan, assim, a gente precisa respeitar a história de ser afeminado, afinal de contas, as pessoas são diferentes e têm o direito de ser diferentes. Mas ele ponderava o seguinte, que os afeminados teriam que repensar sua responsabilidade… Isso é bem delicado de pensar, né. Sua responsabilidade sobre a imagem que transmitem do movimento gay que, para o pessoal fora, que não conhece, e o pessoal que tá com a homofobia muito atrelada, a aversão ao gay, que fica a ideia de que todo gay é esse gay afeminado. Como se fosse assim, o estereótipo negativo que as pessoas geralmente pensam que ser gay é ser afeminado igual. Aí, nesse texto, ele falava que isso era um problema para os gays discretos. Assim, eu acho que deve ser um problema mesmo, você ser representado por uma coisa que você não é. Mas, não sei, até que ponto você acha que isso é mesmo um problema, os gays discretos terem essa “má fama” de achar que eles são afeminados quando não são, pra os héteros e pra quem tá de fora?

 

Dan: E o pior é que, na verdade, ele não é… Naquele mesmo texto da Cartazes e Tirinhas, que eu vou até citar o nome do autor, porque é interessante. O nome dele é Luiz Henrique Coletto. Não sei nem se ele faz parte ainda dessa página. Mas ele fala que existe uma hierarquização dessa heteronormatividade. Então, existe primeiro o homem hétero, o gay viril e o gay afeminado. Como que, na verdade, cada vez que você tá dentro de um padrão, quanto mais afeminado, mais você vai cair. Uma coisa que eu tentei fazer um link com misoginia, que eu fiquei aqui, me deu um tilt na hora que eu li, daqueles comentários dos amiguinhos, o Malcom X e o Robert Horvel, e é engraçado, que é o seguinte. Tem uma hora que eles colocam assim, que os gays afeminados, além deles não têm a moral e o caráter, né? Eles têm um enorme fetiche por heterossexuais, e ainda mais se tiver namorada, ou casado. Então, eu fiquei pensando assim, que como tem um link com misoginia, quando um homem casado trai uma mulher com outra mulher, a mulher é que foi… O homem nunca é o culpado. A culpa é da mulher. E eu fiquei pensando assim, e eles pegam os mesmos padrões de misoginia e jogam pro…

 

Sidney: E aplicam…

 

Dan: é que, por exemplo, se o casado ficar com uma bicha afeminada, ele não é culpado. Coitado.

 

Sidney: A culpa é do gay.

 

Dan: Ele é uma vítima, porque quem não tem moral é a bicha. Olha que louco.

 

Sidney: Exatamente. Pesa sobre o afeminado também essas cobranças do feminino, né. Esses dois pesos e duas medidas.

 

Dan: E outra coisa que eu fiquei, assim, também… como é que fala? Bestializado. Estupefato, sei lá. Todas as reportagens, todos os comentários sempre têm os gays falando assim, “Não sou obrigado a transar! Não sou obrigado a comer uma bichinha!” Eu fico pensando assim…

 

Sidney: Calma, gente…

 

Dan: Em que hora dos textos existe a passagem, “Come um viado”. Não existe. Eu não entendo isso.

 

Sidney:É. Oh, vai ficar o disclaimer aqui, inclusive, para os colegas gays discretos que estão ouvindo isso. Gente, a gente é amigo, a gente não tá obrigando vocês a nada. Inclusive, existem até espaços em que você pode ser mais ou menos afeminado. Por exemplo, aqui eu solto a franga, né, no podcast. (Dan ri) Mas no meu dia a dia, eu sou mais quietinho (ele ri).

 

Dan: “Sou mais discreto, fora do meio” (risos).

 

Sidney: Pois é. Porque tem espaços que você se solta mais do que em outros. Bom, é natural. Mas é claro que as pessoas têm as suas personalidades.

 

Dan: É uma questão que até dentro da heteronormatividade, o homem, às vezes, também, no meio da roda de amigos, ele é até mais ogro, depois ele é mais suave. Existe essas nuances do perfil do lugar que a gente frequenta.

 

Sidney: Pois é. E o que a gente quer propor aqui é você, amigo e amiga, LGBT ou hétero… Porque o preconceito tá dentro e fora do meio, infelizmente. Faça a Dora Aventureira, vamos parar e pensar. A gente não tá obrigando você a se relacionar, não tá dizendo que você é obrigado, pra que você seja uma pessoa decente ou uma pessoa sem preconceitos. O que a gente quer é que você pare pra pensar de onde vem essas questões e essas necessidades de diferenciação. Nem de diferenciação, que diferenciar é preciso, porque pessoas são diferentes. Mas de aversão, né. De onde vem essa aversão? Ela é justificável, será? Será que você ter aversão a um gay só porque ele é afeminado é um troço, assim, razoável? Do ponto de vista racional, né. Para e pensa. Então, por que essa necessidade de se por tão longe? De não se misturar? Até porque… Aí, a gente vem, no final, que esse é o ponto principal, assim, que eu acho, que quando eu li essa história de que o gay discreto é oprimido porque a imagem que os héteros têm é de que todo gay é afeminado, esquecendo do privilégio que é você ter a passabilidade hétero. Que é um grande privilégio na sociedade, você ser gay e ser passável. Você pode circular pelos lugares sem ser violentado, sem ser agredido fisicamente, inclusive…

 

Dan: Sem ser notado.

 

Sidney: Exatamente. Mas o grande mérito dos afeminados é que eles são os que tão dando a cara à tapa, todo dia, pra que você, gay discreto, possa se assumir sem ter medo de morrer. Entendeu? E tão dando a cara à tapa…

 

Dan: são os que apanham, na verdade…

 

Sidney: Literalmente. Dando a cara à tapa literalmente. Eles vão lá e mostram quem são, pra que as pessoas vejam que eles têm o direito de existir, pra que você, gay discreto, também tenha o direito de existir.

 

Dan: Inclusive, nessa mesma reportagem que a gente usou como base, uma das pessoas que deram entrevista, ele apanhou apenas por ser gay. Ele não mexeu com ninguém, não fez nada. Passou toda pintosa…

 

Sidney: Era o caso, ele tava com alguém, a outra pessoa que era gay também, mas era discreto…

 

Dan: Ele tava com o amigo gay, mas discreto, viril.

 

Sidney: E só quem apanhou foi ele, porque só ele que dava pinta. Então, as pessoas, além de apanharem por ser gays, elas não apanham só por ser gays, mas por parecerem mulheres. Estarem mais próximos. Porque se você passa por homem, por hétero, você nem corre o risco de apanhar, né.

 

Dan: Uma coisa que eu vou falar aqui, e como a gente vai gravando esse programa, a gente não sabe em que horário… Em que data, na verdade, ele vai ao ar, mas podemos falar do Carnaval, por exemplo. Então, eu tive uma experiência neste Carnaval que… Na minha cidade, tem um bloco chamado “Raparigas do Bonfim”. E era um bloco mais Cult, e tudo o mais, uma galerinha toda mais desconstruída. Mas o bloco ficou legal, todo mundo na cidade falou. E esse ano, teve ensaio do bloco. Tinha muita bicha pintosa, bicha drag, e tava tudo muito bonito. Tinha trans lá no meio também. Tava uma coisa legal. Só que aquela outra galera que não entende essa galera foi pro movimento. Um movimento que era tipo 500 a mil pessoas, ficou de 10 mil, 12 mil pessoas, não tinha nem estrutura policial. Começaram a bater nas bichas. Acabou com o Carnaval, porque na outra semana, que seria o Carnaval, o bloco…

 

Sidney: Isso foi aonde, em Montes Claros, é, Dan?

 

Dan: Montes Claros. O bloco foi cancelado. Cancelaram, mas, na verdade, eles cancelaram de mentirinha, pra essa galera dispersar e não ir mais. E contaram pra algumas pessoas que teria, de fato, o bloco, mas pra ser uma coisa pequena. Que o objetivo deles era ter algo que eles pudessem controlar, né, o montante de pessoas e tudo o mais. E essa galera ir pros carnavais mais… Igual minha amiga fala, ela brinca que é heterofóbica, “Pros carnavais mais topzera”. Sabe? (eles riem)

 

Sidney: sim.

 

Dan: E aí, foi. Foi bacana, mas eu mesmo, eu montei, e eu montei com medo de apanhar, sabe. Mas eu fui. Toda linda. Só não fui de salto porque de tênis dá pra correr mais.

 

Sidney: Olha só, tem que pensar até nisso.

 

Dan: Tem. E correr de salto é um horror. (ele ri)

 

Sidney: Bom, é uma barra, né. Eu acho assim, gente, se você acha que ser afeminado é muita vantagem, pensa na coragem que essas pessoas… Nós também, aqui, né. A gente não é assim lá poços de virilidade e macheza, aqui no HQ da Vida (Dan solta um riso). E assim, não dizendo que somos grandes coisas, mas assim, exige, né. É preciso um certo nível de coragem pra você desafiar as pessoas, quando o ódio é tão grande a ponto de você simplesmente apanhar porque você existe e tá ali fora se expressando. Como aí no Carnaval. Quando a existência do outro ofende você, eu acho que você devia pensar não por quê ele existe, mas por que aquilo te ofende.

 

Dan: E eu fico pensando, assim, como que eles delineiam o caráter de moralidade da pessoa. Por exemplo, a pessoa ser afeminada, automaticamente ela é mau caráter. Como que eles conseguem essa correlação?

 

Sidney: Qual é a relação, né?

 

Dan: Desse texto do Cartazes e Tirinhas LGBT, que tá na postagem, tem indicação de um artigo pra ler. Inclusive, eu vou ter… Eu quero estudar mais pra poder entender. Mas a gente já sabe, assim, basicamente, de forma rasa, né, Sid? A gente não é estudioso da área, que tudo opera dentro de três coisas. Misoginia. Do racismo, porque aquela bicha pão-com-ovo, a típica pão-com-ovo que todo mundo fala é a bicha negra periférica. E a gente sabe que existe muito preconceito contra a bicha periférica. E também, o terceiro ponto que eu ia falar é o quê? Falei racismo… Ah, e a questão de classe, no caso. Porque pra mim tá muito ligado àquela pessoa que não tem dinheiro e tudo o mais. Então, parece, assim, que o bom é aquela bicha bonita, barbada, forte, branca. E aí, assim, eu acho que deve ser complicado porque faz com que nós que não estejamos dentro desse padrão sintamos, todo momento, péssimos. Eu, por exemplo…

 

Sidney: Uma ameaça constante.

 

Dan: Isso afeta a autoestima da gente, por exemplo.

 

Sidney: Com certeza.

 

Dan: De nunca se sentir encaixado, de nunca se sentir bem com o corpo, bem consigo. Então, assim, gera uma falta de autoestima, às vezes, o que te mostra que você não está dentro do que é interessante, do que é importante, do que é legal. Você é algo que não presta.

 

Sidney: É, essa exclusão. Esse sentimento de exclusão, você não se encaixa e se isola, né.

 

Dan: Sim. E tem gente que tem dificuldade pra ter relacionamento, de… Sei lá, de até mesmo dar beijo na boca sem compromisso. Tem dificuldade pra tudo. Pra poder lidar com as pessoas.

 

Sidney: A mensagem que fica é, não tenha medo das gay, as gay é legal, as gay quer ser sua amiga, né. Não precisa pegar as gay, se você não quiser. Mas se quiser, pega sem medo. Fica sem culpa. Porque, gente, amar é bom demais, né? Amem sempre.

 

Dan: E você vai conhecer pessoas maravilhosas, pessoas…

 

Sidney: Exatamente.

 

Dan: Assim, boníssimas. E, engraçado, uma coisa que eu vou falar por mim. Quando a gente, eu por exemplo, a gente vive fora do padrão, e a gente conhece pessoas dentro do padrão, principalmente na adolescência, eu não sei… Eu não estou “padrãofóbico”, viu, gente. É porque o que acontece? Quando a gente vive muito fora do padrão, a gente sofre tanta opressão de várias coisas, que a gente, quando conhece aquelas pessoas dentro do padrão, a gente… Assim, muitas pessoas que eu conheci, eu vi que elas não tinham uma empatia, um carinho maior pelo ser humano, sabe? E assim, você conhece tantas pessoas fora do padrão que são tão legais, tão maravilhosas, e foram buscar outras coisas, um mundo de leitura, são pessoas que conhecem outras coisas. É uma pessoa que tem algo a oferecer…

 

Sidney: São vivências, né…

 

Dan: Já tomou tanta paulada nela, ela buscou outras coisas e ela tem até mais empatia contigo. Às vezes, você é gordo, mas você conhece alguém , por exemplo, que é mais afeminado…

 

Sidney: E não vai ligar de você ser gordo porque, né… já tá…

 

Dan: Isso, e ambos terão empatia, entendeu? E se houver um padrão que consegue sair do seu pedestal de privilégios, reconhecer que tem privilégios, e deixar bem claro que reconhece isso, e que isso dificulta ele entender essas questões, mas que ele está talvez interessado em sair desse pedestal, também é ok. Mas se a pessoa fala que é tudo frescura e é tudo mi-mi-mi, eu acho que é difícil.

 

Sidney: Já cria um distanciamento a mais.

 

Dan: Esse foi, então, o HQ de Bolso para vocês.

 

Sidney: Esperamos que tenham gostado. Olha só, opiniões aqui, né. Não precisam concordar, discordem com cordialidade, né verdade? E vamos debater, porque a gente também não sabe tudo.

 

Dan: Pois é, pessoal, Na postagem, a gente deixou os links pra vocês. Deixamos um vídeo do Canal Das Bee, um texto da página Cartazes e Tirinhas LGBT, página do Facebook do Sou/Curto Afeminados, a entrevista da Revista Fórum. E é isso. E vocês podem nos encontrar onde, né, Sid?

 

Sidney: Vamos lá, para as nossas redes sociais, pra vocês não esquecerem de nós nunca mais, né. Gruda ni nóis. A gente tá no Sound Cloud, no HQ da Vida, no soundcloud.com/hqdavida; Oh, faz tanto tempo que eu nem to lembrando (eles riem)…

 

Dan: WWW.soundcloud.com/hqdavida

 

Sidney: No Youtube, a gente tá no…

 

Dan: “HQ da Vida Podcast”. Tem que colocar o “podcast” pra nos achar.

 

Sidney: No Facebook é facebook.com/hqdavida; curte a nossa página lá, que a gente tá por lá também. Também tem o Twitter, que é o @hqdavida; não esqueçam que a gente disponibiliza sempre as transcrições dos episódios no nosso Medium, que é o @hqdavida lá no Medium também. Todos os links tão aqui em baixo. E, por fim, curte a gente, estrela a gente no iTunes. Nunca te pedi nada, sempre te peço!

 

Dan: É só fazer um… Não precisa também ter um aparelho da Apple pra poder nos estrelar lá no iTunes.

 

Sidney: Pra gente brilhar muito nessa podosfera de meu deus.

 

Dan: Ok. É isso aí, pessoal. Tchau, tchau.

 

Sidney: Nos vemos no próximo HQ. Até mais, gente.

 

Dan: HQ de Bolso (imitando sotaque nordestino). Beijão.

 

Sidney: Xero!

 

(FADE IN E FADE OUT DE TRILHA SONORA)

 

FIM

 

Transcrito por Sidney Andrade

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