Transcrição – HQ de bolso #02 – Bullying na Escola

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TRANSCRIÇÃO – HQ DE BOLSO #02 – Bullying na Escola

 

(FADE IN E FADE OUT DE TRILHA SONORA ALUSIVA A SUPER HERÓIS)

 

Dan: Olá, pessoal. Aqui é Dan Carreiro.

 

Sidney: E eu sou Sidney Andrade.

 

(FADE IN E FADE OUT DE TRILHA SONORA)

 

Dan: Então, pessoal, estamos com o nosso HQ de Bolso número 02. Como alguns já sabem, o HQ de Bolso tem a intenção de provocar discussões iniciais sobre temas que abrangem as vivências Queer. A gente quer começar o assunto para que você possa ter um ponto de partida com o qual poderá buscar mais informações. Lembrando que aqui a gente não pretende esgotar os assuntos. Muito pelo contrário, queremos iniciar conversas importantes que precisam ser debatidas sempre mais a fundo. Aqui é só o começo.E, Sidney, qual é o tema de hoje?

 

Sidney: Vamos lá, um tema espinhoso. Hoje, o tema é Bullying contra LGBTs na escola. O que entra em jogo quando as crianças não conseguem, não podem se sentir seguras nem mesmo no ambiente escolar? Não é mesmo?

 

Dan: É um tema bem espinhoso e que, inclusive, nós temos até vivência dentro desse tema, né, Sid?

 

Sidney: É engraçado que a gente, reouvindo os HQs antigos, a gente sempre pergunta sobre as descobertas, e não é incomum a gente encontrar relatos de bullying na escola por conta da diversidade sexual.

 

Dan: Justamente. Eu acho que a parte que todos LGBTs têm essa fase na escola, e alguns conseguem, ou não, superar essa fase. Ou, quando superam, sempre existe uma lembrança, assim, meio amarga desse período, né.

 

Sidney: Sim. Até porque também existem níveis, né. Tem alguns que sofrem mais, outros, menos. Mas enfim. E tem uns que sofrem até por… Mesmo sem serem LGBTs, né, porque, enfim, a cultura obriga, ou força, ou leva as crianças e as pessoas a lidarem com esse tipo de problema, esse tipo de temática, de modos hostis.

 

Dan: É no caso dos homens, né, que não têm uma passabilidade tão hétera, aqueles meninos que, talvez, eram mais delicados, que você quer dizer, né?

 

Sidney: Sim, também. Agora, eu queria, primeiro, Dan, que a gente desse a definição do que é Bullying, né, pra os nossos ouvintes e pra todo mundo entender, assim, que a gente não tá falando de… Porque, hoje, tem o uso corrente da palavra “bullying”, como se fosse só implicância, né…

 

Dan: Uhum.

 

Sidney: Ou, enfim, só essa coisinha inocente que é normal de ser criança, mas quando a gente tá falando de bullying, a gente tá falando de uma coisa muito mais séria, né. Tu pode ler essa definição aí pra gente?

 

Dan: Vamos lá. “Bullying é, por convenção, a realização de atitudes que envolvem agressão verbal ou física, feita de modo repetido e intencional, causando, assim, dor e angústia a quem sofre. O objetivo do agressor é, geralmente, intimidar, ofender e humilhar a outra pessoa, sem dar a ela a possibilidade, ou até mesmo a capacidade, de se defender.” Essa é a definição que encontramos na reportagem da Sapatômica, né.

 

Sidney: É. E é importante, pela definição, a gente perceber que, quando a gente tá falando de bullying, a gente não está falando só de LGBTs, né. Bullying é um fenômeno muito maior, que engloba todas as vivências infantis, né, escolares. Infantis e juvenis, né. Mas que fique claro aqui que o nosso escopo aqui é só tratar sobre como é que se manifesta o bullying contra LGBTs, e as manifestações LGBTs na escola.

 

Dan: Foi no último HQ de Bolso, ou foi na entrevista com uma outra convidada, que a gente falou que no ambiente escolar é o ambiente que essas opressões, elas podem ser mais externalizadas de forma mais intensificada do que no ambiente da sociedade. Na verdade, é uma representação da sociedade? É uma representação. Porém, essa opressão que as pessoas sofrem parece como se ela fosse multiplicada dentro desse ambiente escolar, tanto por quem a pratica, até mesmo por quem sofre, pela fase da adolescência ser uma fase muito espinhosa pras pessoas viverem esse tipo de ambiente meio hostil.

 

Sidney: Uhum. E é curioso como a escola, sendo essa representação do que é a vida social, né, é como se fosse um microcosmos, né. Você tem de tudo lá. Tudo que você vai enfrentar na sociedade, você acaba experimentando, entre aspas, na escola, né, na sua vivência escolar. E isso acaba repercutindo na sua vida depois que você sai dela, né, a vida inteira. E cria traumas, né… Bom, a depender do nível de bullying que você chega a sofrer, traumas que você leva pra vida inteira. E é triste perceber como a escola teria tudo pra ser o lugar onde você é acolhido, porque é o lugar de aprendizado, e o lugar de criar laços. E, para algumas pessoas, por elas serem ou aparentarem ser diferentes, elas acabam vendo na escola um lugar de verdadeira tortura. Pra mim, foi um pouco assim também. Às vezes eu não deixava de… Eu não queria ir pra escola, porque eu já sabia a barra que eu ia passar lá, de não me encaixar, né.

 

Dan: Você falando isso, pra mim, época da escola foi a época mais terrível. Tudo o que eu queria, eu acho, antes de ir pra a parte mais cientifica e séria, tudo o que eu queria na escola era ter alguém que me defendesse ou, no mínimo, um professor gay que me amparasse, e que me… Sei lá, que tivesse um discurso que poderia me ajudar…

 

Sidney: Acolhedor, né…

 

Dan: Inclusive… Acolhedor! Eu não te falei, mas onde eu trabalho, por exemplo, alunos que são gays, geralmente, falam comigo Inbox algumas coisas. Então, assim, o meu posicionamento em redes sociais, ou até mesmo através desse podcast, isso é… Eu não sabia, que eu tive um feedback de um aluno, eu esqueci de te falar isso. Quando eu fui afastado pro doutorado, ele me mandou um Inbox pra mim assim, “Volta, professor! Essa escola tá tão hétero!” (eles riem)

 

Sidney: Olha só. Mas ainda bem que, hoje em dia… bom, aparentemente, é mais fácil você encontrar esse tipo de postura em professores, né. Bom, eu não lembro, no meu tempo de escola, de nenhum que tivesse esse tipo de atitude, né. Eu não consegui encontrar em nenhum professor, pelo menos da minha memória, que eu pudesse ter esse nível de confiança.

 

Dan: Pois é. Eu acho que isso deve ser, assim, fundamental. Eu, apesar de poder dar aula pro ensino fundamen… Médio, eu nunca dei, mas agora vou começar a dar aula, provavelmente. Meu Facebook e meu trabalho com o podcast é um trabalho público, e esse é o objetivo, né. Então, talvez possa servir, de certa forma, pra quem ouvir e puder se empoderar nisso, que o ambiente escolar não precisa ser tão hostil, não precisa ser um ambiente tão ruim. Eu não sei, lá na escola onde eu trabalho, a sensação que eu tenho, que parece que as pessoas ouvem. Mas não sei se internalizam. Mas, aparentemente, é um ambiente que não tá tão…

 

Sidney: Bom, mas aí, a gente tá falando de ambientes escolares, assim, universos escolares bem diferentes. Você dá aula num Instituto Federal, eu sou técnico também de um Instituto Federal, a gente nota… Assim, é um ambiente escolar diferente, se a gente for pensar nas escolas públicas e municipais, assim, dos interiores, né, onde o nível de formação da própria cidade, por ser mais carente, também é mais precário. E aí, acaba que essas opressões se somam, né, a isso.

 

Dan: E falando nisso, eu vou ler uma estatística que você colou aí na nossa pauta. Teve um estudo que ocorreu aqui na América Latina, foi tanto na Argentina, Brasil, Peru, Colômbia, Uruguai e Chile. Aqui no Brasil, foram ouvidos 1016 estudantes, de 13 a 21 anos…

 

Sidney: E é importante ressaltar esse lado aí, a pesquisa foi feita perguntando aos próprios estudantes. Não foi uma pesquisa feita perguntando a professores, a pais de alunos, não. A pesquisa foi com os próprios estudantes.

 

Dan: Com os próprios. 60% disseram se sentir inseguros na escola. 73% foram agredidos verbalmente. 48% ouvem comentários homofóbicos. 27%… Olha só, gente, quase 30, né, já foram agredidos fisicamente. Já 36% acham a escola ineficaz para evitar agressões. Eu tô com esses 36%…

 

Sidney: Esse aí é o mais alarmante, né. O pior de tudo, além de você estar na escola, que é um ambiente hostil, você não acreditar que ela seja um lugar de mudança. Quando deveria ser o contrário. Que esperança que o aluno, o estudante tem, se ele não consegue enxergar na própria escola esse ambiente modificador? Porque, geralmente, as crianças LGBTs, elas não sofrem só com a descriminação na escola. Também em casa, com a família, com parentes também, na rua. E em casa ela não pode se abrir, porque… Enfim, né, a gente sabe de todo o peso do armário, né…

 

Dan: Justamente.

 

Sidney: Que pesa sobre os LGBTs. Aí, chega na escola, não consegue achar esse lugar… Esse lugar seguro. E, enfim, a pessoa fica sem lugar, né. É desesperador.

 

Dan: Eu li um livro, que já foi indicado no primeiro HQ da Vida, e a gente até entrevistou… Essa entrevista não foi ao ar ainda. Mas provavelmente ela deve ir… Ou deve ir antes desse HQ de Bolso, ou deve ir depois. Mas eu acho que vou ter que falar sobre ela, que é a entrevista com a Jaqueline de Jesus, que é a psicóloga lá do Instituto Federal… Lá do IFRJ. Eu indiquei o primeiro livro dela no HQ da Vida, e o livro dela é “Homofobia: Identificar e Prevenir”. E dentro desse livro tem uma seção que fala das questões do despreparo dos professores pra poder lidar com essas questões. Dos diretores pra poder lidar com essas questões. E isso até vai de encontro ao primeiro caso do HQ da Vida, que é o caso do Igor Meira. Quando a gente tava relatando, e as barras que ele viveu dentro do ambiente escolar, e como a escola lidou com aquilo. A escola acabou que não lidou, não tem solução.

 

Sidney: E esse ponto é importante da gente enfatizar, porque… bom, como a gente tá falando de crianças, de pré adolescentes, adolescentes, são menores de idade, não respondem por si, ainda não têm a sua autonomia, a sua… Enfim, a sua psique formada. No mais das vezes, eles estão apenas reproduzindo o que eles ouvem em casa, na TV, na rua, né… E caberia justamente aos adultos que os rodeiam que fizessem esse trabalho de esclarecer, de apontar para a tolerância pela diferença. Mas o que a gente vê é justamente o contrário. São adultos totalmente despreparados, porque esses adultos também vêm desses locais de desinformação e de preconceito, e eles acabam reproduzindo o preconceito também, fazendo com que a escola também se torne esse lugar de reforço negativo até entre adultos.

 

Dan: Eu fico pensando aqui, com esse indicador, 36% dos alunos acreditam que a escola é ineficaz para impedir as agressões. Partindo desse dado, que é apenas um número, mas esmiuçando pelas próprias vivências, e pelo que a gente pode debruçar sobre a sociedade, a estrutura social, ela é heteronormativa. Isso é ponto. É um fato.

 

Sidney: É bom só esclarecer, né. Quando a gente fala “heteronormativo”, quer dizer que a estrutura social é pautada na medida em que a normalidade são as relações heteroafetivas.

 

Dan: Isso!

 

Sidney: Então, relações homoafetivas e qualquer outras, né… Bi, enfim… Tudo que foge à norma da heterossexualidade é tido como anormal e como atípico, excluído, entendeu. E levado como errado. Em linhas gerais.

 

Dan: Basicamente, ser hétero tá de boa, é top(ele ri).

 

Sidney: É, tudo que foge disso tem que ser apagado, né.

 

Dan: Então, e eu fico pensando assim, partindo desse pressuposto, então, a estrutura, ela já é heteronormativa. Então, tudo que vai fugir disso é tido como excludente mesmo. E aí, a gente fica pensando assim, tá, mas aí a pessoa vai fazer o curso na área de Educação, ou a pessoa vai fazer um curso de Psicologia… Mas a Ciência, historicamente, também é excludente. Então, a gente tem que pensar assim, que não é que a pessoa fez um curso superior que ela já é desconstruidona também, porque não é assim. Esses movimentos que a gente vê muito, sobretudo hoje, nas mídias sociais, e muito se fala, não é uma coisa que se fala tanto dentro da Academia. E, às vezes, dependendo do curso, é até tido como um tabu, por exemplo.

 

Sidney: É, assim, porque são estruturas que transcendem as paredes da Academia e da Escola. São estruturas culturais muito impregnadas, né. E aí, você mexe com o quê? Você mexe com religião, você mexe com dogmas, e assim, são pontos sensíveis que as pessoas não gostam de mexer, né.

 

Dan: E aí, eu fico pensando assim, se a escola reproduz essa heteronormatividade, a Academia também reproduz. E dependendo do curso, mais ainda. Ou dependendo do curso, não. Às vezes, assim, por exemplo, a gente vê até, por exemplo, eu não sei se você já viu que até dentro de movimentos existe. Dentro do movimento LGBTs, existem gays que são transfóbicos. Dentro do movimento dos negros, existem negros que são homofóbicos ou transfóbicos. Dentro do movimento feminista, as feministas, as Rad, elas são transfóbicas. Então, a gente…

 

Sidney: Mas é que as pessoas não são iguais, né. Independente de se a gente se dividir em grupos, mesmo num grupo, os grupos não serão nunca homogêneos, porque as pessoas não são homogêneas, né. São indivíduos, né.

 

Dan: Se as opressões, elas são reproduzidas dentro dos grupos oprimidos, dentro da “normalidade”, e não estou concordando com esse termo “normalidade”, estou falando que a normalidade é tudo que…

 

Sidney: O que é imposto como normal, né.

 

Dan: O que é imposto como normal, até em termos de raça, cor, identidade de gênero e orientação sexual. É ser branco, hétero e, de preferência, rico. (ele ri) Tudo que foge disso vai ter problema. Então, tudo isso vai sofrer opressão. É lógico que, no início, você falou, né, Sid, que a gente não iria entrar dentro de outras opressões, mas às vezes a gente acaba até entendendo algumas. Eu, por exemplo, eu era gordo. Então, eu consigo até entender como que funciona essa… até, acho que existe até uma hierarquia de opressões, sabe. Mas eu não quero falar sobre isso (sidney ri)…

 

Sidney: Fica pra outra… Um HTreta, né…

 

Dan: Isso. Eu acho que isso é uma HTreta profunda, pra pensar em hierarquia de opressões.

 

Sidney: Mas aí, quando a gente para pra pensar em tudo isso, o que a gente gostaria, no mundo ideal, né, como cantaram Jasmim e Aladim (Dan ri)… No mundo ideal, a gente gostaria de achar que os encarregados de tomar conta e de dar as diretrizes pra as escolas, né, como é que elas vão lidar com esse assunto… A gente gostaria de pensar que elas estivessem lidando com isso de uma forma mais educativa. (ele ri) O que é muito irônico (Dan ri), porque quando a gente vê os esforços que alguns setores lá do Legislativo fazem pra deseducar, ou pra tirar de pauta as questões de educação sexual, e de diversidade sexual, e o esforço que é feito no sentido de apagar isso, como se… Como se você falar disso na escola, você estivesse estimulando um tipo de sexualidade. E a gente sabe que isso não acontece. Né, na prática. Isso é como se fosse uma neura, uma mania de perseguição de pessoas que não estão com a… Que não estão dispostas a dialogar sobre isso, porque já estão muito calcadas nos seus dogmas, nos seus tabus. Só que são essas pessoas, infelizmente, que estão fazendo as leis e botando elas em prática. E a gente, aí, tem uma escola que, além das pessoas dentro da escola não serem receptivas, a própria estrutura da Educação no Brasil, ela não é receptiva.

 

Dan: E você falando dessa questão de falar sobre um assunto, é como se isso transformasse as pessoas. Ou seja, é como se fosse uma varinha de condão que, ao tocar naquele tema específico, automaticamente o menino vai virar gay, ou o menino, ele vai se reconhecer numa identidade feminina, e vai se autodeclarar como uma mulher. Sendo que, na verdade, as pessoas internalizam, geralmente, aquelas angústias que já estão presentes dentro delas, e por pressão da sociedade, ela não se solta, entendeu. Ou se livra, né…

 

Sidney: É, bom, tem aquela máxima que diz que o maior medo de um ditador é os seus súditos. Porque se eles entenderem que estão sendo oprimidos, né… O maior medo dele é esse. E aí, a gente percebe a fragilidade que é esse padrão, né. Que a gente falou de heteronormatividade. Porque se você parar pra pensar que eles têm medo de falar sobre isso, a ponto de acharem que, falando sobre isso, as pessoas irão se transformar… Quando, na verdade, elas só estarão entendendo melhor a si mesmo e podendo se manifestar mais livremente. O que eles têm medo não é que as pessoas se transformem, na verdade, o que esse discurso nos mostra é que o medo não é da transformação das pessoas, e sim na revelação de pessoas que estão se escondendo por causa da opressão.

 

Dan: Eu fico pensando, assim, como que esses ambientes, até da Academia, ou da Escola, reproduzem isso. Eu, por exemplo, eu era mais contido nas minhas argumentações via redes sociais. A partir do momento que eu falei assim, não, eu tô me posicionando, e eu sou gay, e tudo mais, as pessoas até assustam. E falam que eu tenho que maneirar na forma de argumentar, na forma de chegar. Eu fui até indagado por uma pessoa, falando assim, que eu estava postando muita coisa de gay (Sidney ri).

 

Sidney: Ninguém reclama que o bolsomineon tá lá, postando muita coisa de hétero (Dan ri).

 

Dan: Não, e eu acho que, assim, é… Como assim eu tô postando muita coisa de gay? Mas eu sou gay. Eu não vou ter que postar coisa de gay mesmo? Afinal, eu entendo de gayzagem, bichice, viadice. Eu não vou entender tanto de heterossexualidade, apesar dela ter sido compulsória. E aí, eu fiquei assim, como que são… Esse tipo de estrutura que é tão opressora. Mas enfim, eu acho que incomoda, um profe… Incomoda um professor falar sobre isso. E eu acho que isso tem que ser discutido.

 

Sidney: É, deveria, né.

 

Dan: E, além do mais (ele ri), eu vou emendar o final, igual eu fiz no HQ de Bolso, Sid, mas é só pra finalizar com aquela reportagem que eu te falei. Que é o seguinte, em 2016, foi-se falado tanto, tretou-se tanto no Facebook sobre o termo “ideologia de gênero”, que deveria ou não estar dentro dos planos de educação. E a gente viu o esforço conjunto, tanto de Igreja Católica, como Igreja Evangélica, para que isso não fosse composto em nível estadual e em nível municipal. Isso deu muita confusão no país. E a gente percebeu o tanto que essa onda conservadora incutiu dentro desses planos nacionais de educação. É o Plano Nacional de Educação. E tem as… Como que fala? As derivações para os planos estaduais e municipais. E a gente viu que o tanto que não foi aceito. Só pra ilustrar pra vocês, eu vou ler uma reportagem aqui, da Folha. Que fala o seguinte, “Pressionado pelas bancadas religiosas e com respaldo das igrejas evangélicas e Católica, deputados de ao menos oito estados retiraram dos planos estaduais de educação referências a identidade de gênero, diversidade e orientação sexual. Esses planos traçam diretrizes para o ensino nos próximos dez anos. Entre os trechos vetados estão metas de combate à descriminação racial, orientação sexual ou identidade de gênero, censo sobre situação educacional de travestis e transgêneros, e incentivo a programas de formação sobre gênero, diversidade e orientação sexual. As bancadas religiosas afirmam que essas expressões valorizam uma ideologia de gênero…” Estou, neste momento, colocando aspas. “Corrente que deturparia os conceitos de homem e mulher, destruindo o modelo tradicional de família.”É uma notícia, assim, que a gente fica, assim, ES… Eu não vou nem ler a seção de comentários… (ele ri)

 

Sidney: Ah, não. Esquece isso. O que eu só acho lamentável é que, em nome da preservação de uma instituição, que eles acham que estão fazendo um bem maior, na verdade, eles estão silenciando muita gente, fazendo… Causando sofrimento a uma parcela gigante da população, inclusive a si próprios. Porque esse tipo de opressão… Não… bom, a maioria das opressões beneficiam os opressores, na superfície, mas debaixo, na profundidade, ninguém sai beneficiado. Porque uma sociedade doente não é boa pra ninguém. Entendeu? Enfim, é lamentável que em nome da defesa de uma instituição, as pessoas se sintam no direito de calar a maior parte da população,  causar sofrimento, inclusive, em quem eles tão tentando proteger, que são as crianças, os pré adolescentes na escola, que estão sendo privados de ter esse tipo de informação e se esclarecendo pra lidar melhor consigo mesmo, com os outros, na vida social.

 

Dan: E eu acho que, mais uma vez, é pertinente… Oh, gente, eu vou falar mais uma vez pra vocês, mas é porque a gente falou sobre isso, e talvez não saibamos a ordem em que pode aparecer no podcast. Mas temos que falar sobre o programa que foi ao ar no Fantástico, sobre crianças trans, aqui no mês de março de 2017. E eu vou lincar esse programa também, na postagem. Eu acho ele interessante. Existem… O pessoal do movimento critica alguns pontos que foram elencados, mas falar sobre isso em rede nacional, num horário que todo mundo…

 

Sidney: No horário nobre.

 

Dan: É, no horário nobre do domingo à noite, todo mundo assiste Fantástico. Então, isso é muito importante. Isso é essencial, deve ser discutido. Então, a gente percebe que existe um passo aí, pra poder as mudanças serem manifestadas, né, na população.

 

Sidney: É. Bom, o tema é extenso. É claro que a gente não vai esgotar aqui. Aqui é só o começo, como a gente diz sempre, no HQ de Bolso. E você aí… Aí nos comentários, nos feedbacks, contribui com a gente, diz o que você acha. Diz aí seus casos de bullying na escola, que… Bom, talvez a maioria dos nossos ouvintes sejam LGBTs, e tenham muita história pra contar sobre isso. A gente tá esperando o feedback de vocês.

 

Dan: É mesmo, pessoal, mande pra gente o seu feedback. A gente vai ler seu feedback aqui no ar. E isso é interessante, até mesmo se for um caso, uma barra, alguma coisa… Olha eu falando quase um termo de outro podcast… (eles riem) Um caso seu, específico, que você tenha pra relatar sobre o assunto, ou uma opinião. Ou alguma bola fora que a gente tenha dado. Ou algo que a gente tenha falado não tenha soado tão bem. E por falar nisso, né, Sid, fomos chamados à atenção…

 

Sidney: Ai, meu deus. Agora eu tenho que me retratar.(risos nervosos de ambos)

 

Dan: No último HQ de Bolso, a gente tava fazendo várias comparações sobre o assunto, e tudo o mais. E a gente falando que gosto não é gosto, que é construção social, e tudo o mais. Mas demos um exemplo infeliz, e qual foi o exemplo, Sid?

 

Sidney: Então, eu vou até me retratar, porque, realmente, depois que a gente recebeu esse feedback, que a gente não vai ler aqui porque… Por razoes de motivos (risos). Enfim, mas aí, a infelicidade do meu argumento, lá quando eu fiz a comparação com a cerveja. Que o perigo dessa metáfora é que eu acabei associando você experimentar… Bom, aquele argumento que todo mundo… Todo LGBT tá cansado de ouvir, né, de que “como você sabe se gosta, se nunca provou?” Né, e isso a gente tá cansado de saber que não é verdade. A gente não precisa experimentar nada pra saber que gosta ou que não gosta, quando o assunto são as nossas orientações sexuais. E eu fazendo aquela metáfora com o experimentar da cerveja, eu acabei associando uma coisa à outra. E aí, por isso eu peço desculpas, porque não era isso que eu queria dizer, mas acabei dizendo, né. O que eu queria dizer, na verdade, é que, como o tema era afeminação, né, afetação, e os héteros, os discretos, eles se esforçam muito em se afastar disso, eles acabam não entrando em contato. E a gente sabe que a maior origem dos preconceitos e das descriminações é justamente pela falta de contato, pela falta de proximidade, pela falta de informação sobre aquilo que você tem aversão. Na verdade, o que eu tava querendo dizer é que se você não se expõe às afeminadas, você realmente não vai ter oportunidade de desenvolver e de transformar esse valor negativo que você tem da afeminação em um valor positivo. Não quis dizer, em tempo algum, que você tem que transar com um gay afeminado pra saber se gosta ou não. Você sabe se gosta ou não. Transando ou não. O que você não pode é tratar mal e descriminar a pessoa somente por ela ser afeminada. E para isso, você teria que se aproximar.

 

Dan: E depois eu fiquei até pensando, quando a gente fez a comparação da cerveja, ficou até parecendo (ele ri) que a gente tava… Você lembra daquele… É… Hoverwel… Nem lembro do nome daquelas criaturas…

 

Sidney: Robert Horvel… Harvel…(Dan ri)

 

Dan: Robert Horvel! Que ficou parecendo que a gente queria obrigar ele, e aí, quando a gente falou de cerveja… (Dan ri alto)

 

Sidney: Exatamente, foi incoerente. Inclusive, teve até um comentário que você leu durante o programa, dizendo que esse tema, né, sempre soa como se tivesse fazendo com que… Tentando obrigar as pessoas a transarem com gays afeminados, assim como dizem pra uma mulher lésbica transar com um homem pra saber que gosta. Entendeu? Enfim, a gente acabou se aproximando disso, infelizmente. Porque o exemplo foi muito, muito infeliz. E por isso eu estou pedindo desculpas aqui. Gente, perdão pelo vacilo.

 

Dan: É isso aí, gente. E se quiser chamar a nossa atenção, podem chamar. Eu não sei se eu vou falar o nome de quem falou a… a… a…

 

Sidney: De quem deu esse feedback.

 

Dan: Quem deu esse feedback, porque, na verdade, veio no meu Inbox, veio de um amigo. E se Eli quiser se id… Eu falei que eu ia identificar, ele falou que sim, mas eu senti que não queria. Então, não vou identificá-lo. Se ele quiser, no próximo programa, eu falo quem é e tudo o mais. Mas enfim, fica aí o puxão de orelha. E que aprendamos, né, Sidney.

 

Sidney: Vamos aprendendo.

 

Dan: E, com certeza, a gente vai errar muito. E que erremos novos erros daqui pra frente.

 

Sidney: Então vamos lá. Se você quer puxar nossa orelha, sobre qualquer outro programa, ou quer dar o seu feedback, a gente vai dar as nossas redes agora. Que são… você pode chegar pra gente pelo email, no hqdavida@gmail.com; eu notei que, nos últimos, eu vinha esquecendo do email, viu, Dan. Pelo amor de deus, manda email pra nós!

 

Dan: Por favor!

 

Sidney: hqdavida@gmail.com; A gente tá no Facebook também, no HQ da Vida lá no Facebook. A gente tem o nosso Twitter, que é o @hqdavida; o nosso Sound Cloud é soundcloud.com/hqdavida; A gente também tem as nossas transcrições sempre, todo episódio, elas saem, são publicadas no nosso Medium, que é no @hqdavida lá no Medium também. E não esqueça de dar 5 estrelinhas, avaliar a gente lá na iTunes, pra ver se a gente sobe lá nesse pódio podcastal, não é mesmo?

 

Dan: E também, se você quiser indicar um amigo, se achar que tem dificuldade, manda digitar lá, “HQ da Vida Podcast” no Youtube, pra poder também nos encontrar lá.

 

Sidney: Ah! Tem o canal lá no Youtube também.

 

Dan: E lembrando, gente, as transcrições no Medium, elas são tão lindas. Eu acho tão bonitinho.(Sidney ri) Confesso, não sou eu quem faz, quem faz é o Sidney esse trabalho maravilhoso!

 

Sidney: Não tem nem que confessar… Ai, são seus olhos! Então, é isso, né, Dan?

 

Dan: É isso aí. Ficamos com mais um HQ de Bolso, número 02. Bullying na Escola. Tchau, tchau, pessoal!

 

Sidney: A gente se vê no próximo HQ. Xero!

 

(FADE IN E FADE OUT DE TRILHA SONORA)

 

FIM

 

Transcrito por Sidney Andrade.

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