Morteruelo: O Patê Rústico e Quente da Espanha

Morteruelo: O Patê Rústico e Quente da Espanha
Tempo de Preparo

2 horas e 30 minutos

Rendimento

6 porções

Dificuldade

Médio

Calorias

0 kcal

O Morteruelo é uma joia da gastronomia rústica espanhola, originária principalmente das províncias de Cuenca e Albacete, na região de Castela-La Mancha. Longe de ser um patê frio comum, ele se destaca por ser servido quente, com uma textura densa e um sabor incrivelmente profundo e intenso. Nascido da necessidade de aproveitar carnes de caça e vísceras, como fígado de porco, este prato é o reflexo da cozinha de subsistência, transformando ingredientes modestos em uma iguaria rica e nutritiva. Sua preparação envolve cozinhar e desfiar carnes, que são então intensamente temperadas com especiarias como cominho, canela e cravo, e ligadas com pão. O nome, inclusive, remete ao utensílio tradicional usado para triturar os ingredientes até formar a pasta característica: o mortero. Preparar o Morteruelo é honrar uma tradição secular, perfeita para os dias frios e para acompanhar com um bom vinho tinto e pão rústico.

Ingredientes

  • 250 g de fígado de porco
  • 250 g de panceta de porco
  • 350 g de carne de porco (magra ou costela desossada)
  • 1 perdiz, 1/2 galinha, ou 500g de carne de caça (coelho/lebre) cozida
  • 150 g de pão de forma velho (miga)
  • 2 a 5 dentes de alho
  • 1 colher de chá de pimentão doce (páprica)
  • 1/2 colher de chá de canela em pó
  • 1/2 colher de chá de cravo moído
  • 1 colher de chá de cominho moído (opcional)
  • Sementes de alcaravia (opcional)
  • Sal e pimenta a gosto
  • Azeite de oliva virgem extra
  • Água ou caldo de cozimento das carnes

Modo de Preparo

  1. Cozinhe as carnes (exceto o fígado) em água com sal até que estejam bem macias. Reserve o caldo de cozimento e desfie ou pique as carnes finamente após esfriarem.
  2. Cozinhe o fígado de porco em água por cerca de 10 minutos, escorra bem e pique-o fino.
  3. Em uma panela grande, aqueça um bom fio de azeite e doure os dentes de alho (inteiros ou levemente picados). Retire os alhos e reserve.
  4. Em um pilão (mortero) grande ou processador, macere os alhos reservados, o fígado cozido e as carnes desfiadas até obter uma pasta espessa e o mais homogênea possível.
  5. Transfira a pasta para a panela onde fritou o alho (adicione mais azeite se necessário). Adicione o pão desmigalhado, o pimentão, a canela, o cravo, o cominho (se usar) e sal e pimenta a gosto.
  6. Misture vigorosamente e incorpore o caldo de cozimento quente, aos poucos, mexendo sempre, até atingir a consistência de um purê espesso, mas ainda cremoso.
  7. Cozinhe em fogo baixo por cerca de 15 a 20 minutos, mexendo constantemente para que não grude no fundo, até que o preparado engrosse e fique bem ligado.
  8. Retifique o tempero. Sirva o Morteruelo bem quente, tradicionalmente acompanhado de pão rústico para ser untado.

Dicas do Chef

  • A autenticidade do prato reside na moagem. Se possível, utilize um pilão (mortero) para obter a textura mais rústica e tradicional.
  • Se não encontrar carnes de caça como perdiz ou lebre, substitua por coelho de granja ou mais carne de porco/galinha, mas adicione mais temperos para compensar a intensidade.
  • O pão deve ser do dia anterior ou torrado levemente para absorver melhor o caldo e dar liga sem desmanchar completamente.
  • O prato deve ter uma textura firme quando quente, mas se tornar mais cremosa ao esfriar um pouco, não podendo ser um bloco duro.

Morteruelo: A Alma Rústica da Gastronomia de Cuenca

O Morteruelo é muito mais do que uma receita; é um testemunho da história e da engenhosidade da culinária da Espanha interior, especialmente da região de Castela-La Mancha. Este guisado, que se assemelha a um paté denso, mas que se distingue por ser servido quente, carrega em seus ingredientes a marca da vida pastoril e da necessidade de conservação de alimentos em épocas remotas.

História e Origem: Da Sobrevivência ao Sabor Intenso

As raízes do Morteruelo são profundas, remontando à Idade Média, com referências documentadas que datam do século XII no Fuero de Molina e, mais notavelmente, no influente livro de culinária catalão do século XV, o Libre del Coch, de Ruperto de Nola, onde aparece como um “potaje dicho morteruelo”. Originalmente, era um prato de aproveitamento, preparado pelos pastores que passavam longos e frios invernos nas serras de Cuenca e Albacete.

A base era composta pelo que estava disponível: carnes de caça (como lebre, perdiz ou codorna), vísceras como o fígado de porco, e pão duro para dar corpo. A técnica de preparo era rudimentar, mas eficaz: cozinhar tudo lentamente e, em seguida, triturar incessantemente em um mortero (daí o nome do prato) até se obter uma pasta homogênea e reconfortante. Este processo exigia paciência e força, sendo um verdadeiro trabalho de braço, mas o resultado era uma refeição calórica e nutritiva, essencial para enfrentar o rigor do clima.

Com o tempo, a receita evoluiu. Embora a essência permaneça, as versões modernas, encontradas em restaurantes de prestígio, tendem a refinar um pouco a textura e a equilibrar as especiarias, embora mantenham o caráter rústico que o define. O Morteruelo é frequentemente chamado de “paté dos montes”, uma alcunha que resume sua origem humilde e seu sabor potente.

Curiosidades e Tradições Culinárias

  • O Utensílio é o Nome: O nome Morteruelo é o diminutivo de mortero, a ferramenta essencial para sua confecção, que garante a textura característica de pasta grossa.
  • Contraste de Temperatura: Diferente da maioria dos patês europeus, que são servidos frios, o Morteruelo é tradicionalmente consumido quente, o que intensifica o aroma das especiarias.
  • Acompanhamento Clássico: Este prato intenso pede acompanhamentos simples, mas robustos. A tradição manda servi-lo com fatias de pão rústico (hogaza) para untar, e um bom vinho tinto da terra, com corpo e acidez, para equilibrar a gordura e a intensidade do fígado e das especiarias.
  • Variações Regionais: Embora Cuenca seja seu epicentro, a receita varia ligeiramente entre as províncias vizinhas. Algumas versões antigas até incluíam queijo de Aragão ou leite de cabra e amêndoas para diluir a mistura, mostrando a adaptação aos ingredientes locais.

Dicas Adicionais de Expert para um Morteruelo Perfeito

Para quem deseja recriar a autêntica experiência do Morteruelo, a qualidade dos temperos é crucial. A combinação de pimentão doce, canela e cravo é o que confere seu perfil agridoce e aromático único. Não hesite em usar um pouco de tomilho ou louro no cozimento das carnes para enriquecer o caldo que servirá de base para a liga.

A etapa de refogar o alho no azeite antes de usá-lo na mistura é fundamental; ele deve ficar dourado, mas não queimado, pois seu sabor será incorporado à pasta. Por fim, lembre-se: a paciência é o tempero final. O cozimento lento e a mexida constante na fase final garantem que o Morteruelo atinja aquela textura de purê denso que se mantém firme, mas derrete na boca, honrando a tradição de um dos pratos mais emblemáticos de Castela-La Mancha.

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