Chanfana Tradicional: O Tesouro Cozido Lentamente em Vinho Tinto

Chanfana Tradicional: O Tesouro Cozido Lentamente em Vinho Tinto
Tempo de Preparo

4 horas e 5 minutos

Rendimento

6 porções

Dificuldade

Médio

Calorias

0 kcal

A Chanfana é um dos pratos mais emblemáticos e saborosos da gastronomia tradicional portuguesa, especialmente celebrada na região Centro. Este prato robusto é conhecido por exigir paciência, resultando em uma carne de cabrito ou borrego incrivelmente tenra e suculenta, cozida lentamente em vinho tinto e um bouquet de especiarias. A magia da Chanfana reside no seu método de confecção, tradicionalmente realizado em caçoilas de barro preto, que realçam os sabores rústicos e profundos do vinho. Embora a receita original utilize carne de cabra velha, as versões modernas frequentemente empregam borrego ou cabrito, garantindo uma maciez que derrete na boca. Prepare-se para uma jornada culinária que honra as tradições rurais de Portugal, onde a simplicidade dos ingredientes se transforma em complexidade de sabor após horas de cozimento lento, perfeito para aquecer as almas nos dias mais frios e celebrar momentos especiais à mesa.

Ingredientes

  • 1.5 kg de carne de cabra velha, carneiro ou borrego (cortada em pedaços médios)
  • 1 litro de vinho tinto seco de qualidade (preferencialmente da Bairrada ou Alentejano)
  • 1 cebola grande (cortada em rodelas ou meias-luas)
  • 2 a 6 dentes de alho (picados ou inteiros, dependendo da preferência)
  • 100 ml de azeite
  • 50 g de banha (opcional, mas tradicional)
  • 4 a 6 cravinhos
  • 1 a 3 folhas de louro
  • 1 colher de chá de colorau (pimentão doce)
  • 1 ramo de salsa
  • Sal a gosto
  • Pimenta preta moída a gosto
  • Batatas cozidas para acompanhar

Modo de Preparo

  1. Prepare o tempero: Numa tigela, misture o azeite, a banha (se usar), os alhos picados, os cravinhos, o colorau, o sal e a pimenta.
  2. Tempere a carne: Arrume a carne de cabra/borrego, retirando o excesso de gordura e sebo. Misture bem os pedaços de carne com o preparado de tempero, garantindo que fiquem bem envolvidos.
  3. Monte na caçoila: Coloque a carne temperada em um tacho de barro ou cerâmica, próprio para ir ao forno.
  4. Adicione os aromáticos e o vinho: Distribua as rodelas de cebola, as folhas de louro e o ramo de salsa por cima da carne.
  5. Regue com vinho: Cubra completamente a carne com o vinho tinto. É crucial que a carne fique submersa.
  6. Cozimento inicial (Opcional/Variação): Em algumas receitas, a carne é marinada no vinho e alho por 24 horas. Outras versões pedem para ferver a carne e o vinho no tacho no fogão antes de ir ao forno.
  7. Asse lentamente: Tape bem o tacho (com a sua tampa original ou papel alumínio bem vedado) e leve ao forno pré-aquecido a 180°C (ou 250°C com redução gradual, como no forno a lenha).
  8. Tempo de forno: Deixe cozinhar por, no mínimo, 3 a 4 horas. É fundamental não mexer na carne durante o cozimento para que ela cozinhe no seu próprio vapor e no vinho.
  9. Finalização e Serviço: Retire do forno. A carne deve estar extremamente tenra. Sirva a Chanfana com o seu rico molho, acompanhada tradicionalmente por batatas cozidas.

Dicas do Chef

  • Para um sabor mais autêntico e profundo, utilize um tacho de barro preto, que ajuda a reter e distribuir o calor de forma uniforme.
  • A Chanfana fica ainda mais saborosa se for preparada no dia anterior e reaquecida lentamente, permitindo que os sabores se aprofundem.
  • Se a carne começar a secar durante o cozimento, adicione um pouco mais de vinho tinto, mas evite mexer no conteúdo do tacho.
  • Tradicionalmente, a carne de cabra velha é a ideal, pois a sua maior dureza é quebrada pelo longo tempo de cozimento, liberando um sabor inconfundível.

A Chanfana: Uma Viagem Histórica no Tacho de Barro

A Chanfana é muito mais do que um simples prato de carne; é um testemunho vivo da culinária de subsistência e da tradição rural do Centro de Portugal. Sua história está intrinsecamente ligada às regiões montanhosas, onde a carne de cabra velha era o recurso mais acessível. Por ser uma carne mais rija, exigia um método de cocção longo e lento para atingir a desejada maciez, e foi assim que o cozimento em vinho tinto, dentro de um recipiente fechado, se tornou a técnica perfeita.

Origem e a Influência Conventual

Embora as raízes sejam rurais, há quem aponte para uma popularização da receita através das monjas de conventos na região, especialmente em torno de Coimbra e Miranda do Corvo, que é hoje aclamada como a capital da Chanfana. As freiras, mestras na arte de transformar ingredientes simples em iguarias, teriam aperfeiçoado a técnica, utilizando o vinho tinto não só para amaciar a carne, mas também como um conservante natural, permitindo que o prato fosse preparado com antecedência para festividades.

O nome do prato, Chanfana, tem uma origem menos clara, mas uma anedota popular sugere que ele deriva da palavra “chanfa”, que em certas regiões significava o trabalho árduo de moer ou desfazer. O cozimento lento e sem intervenção no forno assemelha-se a um trabalho de paciência que rende um fruto saboroso.

O Ritual da Caçoila de Barro

O recipiente é um personagem central na história da Chanfana. A receita tradicional exige o uso de uma caçoila de barro preto, um utensílio cerâmico típico da região de Molelos, no concelho de Tondela. Este barro especial, quando levado ao fogo, atinge uma temperatura que permite à carne cozinhar de forma uniforme e lenta. O segredo é que, após o cozimento, a gordura da carne sobe e sela o molho, conservando o prato por dias. A Chanfana é, portanto, um prato que melhora com o tempo, sendo reaquecida no seu próprio molho, o que intensifica ainda mais o sabor do vinho e das ervas.

Curiosidades e Celebrações Gastronômicas

  • A Carne Ideal: Embora hoje se use muito borrego, a versão mais tradicional e rústica é feita com cabra velha. A gordura da cabra velha é mais saborosa e confere uma textura única ao prato após o longo cozimento.
  • O Forno de Lenha: O método ancestral é assar a caçoila em forno de lenha, onde o calor é intenso no início e depois se deixa apagar lentamente, cozinhando a carne por várias horas sem intervenção direta. Imitar este efeito com um forno a gás requer um controle de temperatura gradual.
  • Acompanhamentos Clássicos: A riqueza e intensidade do molho da Chanfana pedem acompanhamentos simples que absorvam bem o líquido, sendo as batatas cozidas ou o pão caseiro as escolhas mais fiéis à tradição.
  • Patrimônio Cultural: A cidade de Miranda do Corvo realiza anualmente a Feira da Chanfana, um evento que celebra este prato como um verdadeiro ícone da identidade local e da gastronomia portuguesa.

Dominar a Chanfana é dominar a arte da paciência culinária. Ao seguir o ritual de temperar e deixar a carne “descansar” no vinho, você honra uma tradição centenária que transforma ingredientes humildes em uma experiência gastronômica inesquecível, um verdadeiro tesouro da cozinha portuguesa.

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