2 horas e 30 minutos
6 porções
Médio
0 kcal
Ingredientes
- 250 g de fígado de porco
- 250 g de panceta de porco
- 350 g de carne de porco (magra ou costela desossada)
- 1 perdiz, 1/2 galinha, ou 500g de carne de caça (coelho/lebre) cozida
- 150 g de pão de forma velho (miga)
- 2 a 5 dentes de alho
- 1 colher de chá de pimentão doce (páprica)
- 1/2 colher de chá de canela em pó
- 1/2 colher de chá de cravo moído
- 1 colher de chá de cominho moído (opcional)
- Sementes de alcaravia (opcional)
- Sal e pimenta a gosto
- Azeite de oliva virgem extra
- Água ou caldo de cozimento das carnes
Modo de Preparo
- Cozinhe as carnes (exceto o fígado) em água com sal até que estejam bem macias. Reserve o caldo de cozimento e desfie ou pique as carnes finamente após esfriarem.
- Cozinhe o fígado de porco em água por cerca de 10 minutos, escorra bem e pique-o fino.
- Em uma panela grande, aqueça um bom fio de azeite e doure os dentes de alho (inteiros ou levemente picados). Retire os alhos e reserve.
- Em um pilão (mortero) grande ou processador, macere os alhos reservados, o fígado cozido e as carnes desfiadas até obter uma pasta espessa e o mais homogênea possível.
- Transfira a pasta para a panela onde fritou o alho (adicione mais azeite se necessário). Adicione o pão desmigalhado, o pimentão, a canela, o cravo, o cominho (se usar) e sal e pimenta a gosto.
- Misture vigorosamente e incorpore o caldo de cozimento quente, aos poucos, mexendo sempre, até atingir a consistência de um purê espesso, mas ainda cremoso.
- Cozinhe em fogo baixo por cerca de 15 a 20 minutos, mexendo constantemente para que não grude no fundo, até que o preparado engrosse e fique bem ligado.
- Retifique o tempero. Sirva o Morteruelo bem quente, tradicionalmente acompanhado de pão rústico para ser untado.
Dicas do Chef
- A autenticidade do prato reside na moagem. Se possível, utilize um pilão (mortero) para obter a textura mais rústica e tradicional.
- Se não encontrar carnes de caça como perdiz ou lebre, substitua por coelho de granja ou mais carne de porco/galinha, mas adicione mais temperos para compensar a intensidade.
- O pão deve ser do dia anterior ou torrado levemente para absorver melhor o caldo e dar liga sem desmanchar completamente.
- O prato deve ter uma textura firme quando quente, mas se tornar mais cremosa ao esfriar um pouco, não podendo ser um bloco duro.
Morteruelo: A Alma Rústica da Gastronomia de Cuenca
O Morteruelo é muito mais do que uma receita; é um testemunho da história e da engenhosidade da culinária da Espanha interior, especialmente da região de Castela-La Mancha. Este guisado, que se assemelha a um paté denso, mas que se distingue por ser servido quente, carrega em seus ingredientes a marca da vida pastoril e da necessidade de conservação de alimentos em épocas remotas.
História e Origem: Da Sobrevivência ao Sabor Intenso
As raízes do Morteruelo são profundas, remontando à Idade Média, com referências documentadas que datam do século XII no Fuero de Molina e, mais notavelmente, no influente livro de culinária catalão do século XV, o Libre del Coch, de Ruperto de Nola, onde aparece como um “potaje dicho morteruelo”. Originalmente, era um prato de aproveitamento, preparado pelos pastores que passavam longos e frios invernos nas serras de Cuenca e Albacete.
A base era composta pelo que estava disponível: carnes de caça (como lebre, perdiz ou codorna), vísceras como o fígado de porco, e pão duro para dar corpo. A técnica de preparo era rudimentar, mas eficaz: cozinhar tudo lentamente e, em seguida, triturar incessantemente em um mortero (daí o nome do prato) até se obter uma pasta homogênea e reconfortante. Este processo exigia paciência e força, sendo um verdadeiro trabalho de braço, mas o resultado era uma refeição calórica e nutritiva, essencial para enfrentar o rigor do clima.
Com o tempo, a receita evoluiu. Embora a essência permaneça, as versões modernas, encontradas em restaurantes de prestígio, tendem a refinar um pouco a textura e a equilibrar as especiarias, embora mantenham o caráter rústico que o define. O Morteruelo é frequentemente chamado de “paté dos montes”, uma alcunha que resume sua origem humilde e seu sabor potente.
Curiosidades e Tradições Culinárias
- O Utensílio é o Nome: O nome Morteruelo é o diminutivo de mortero, a ferramenta essencial para sua confecção, que garante a textura característica de pasta grossa.
- Contraste de Temperatura: Diferente da maioria dos patês europeus, que são servidos frios, o Morteruelo é tradicionalmente consumido quente, o que intensifica o aroma das especiarias.
- Acompanhamento Clássico: Este prato intenso pede acompanhamentos simples, mas robustos. A tradição manda servi-lo com fatias de pão rústico (hogaza) para untar, e um bom vinho tinto da terra, com corpo e acidez, para equilibrar a gordura e a intensidade do fígado e das especiarias.
- Variações Regionais: Embora Cuenca seja seu epicentro, a receita varia ligeiramente entre as províncias vizinhas. Algumas versões antigas até incluíam queijo de Aragão ou leite de cabra e amêndoas para diluir a mistura, mostrando a adaptação aos ingredientes locais.
Dicas Adicionais de Expert para um Morteruelo Perfeito
Para quem deseja recriar a autêntica experiência do Morteruelo, a qualidade dos temperos é crucial. A combinação de pimentão doce, canela e cravo é o que confere seu perfil agridoce e aromático único. Não hesite em usar um pouco de tomilho ou louro no cozimento das carnes para enriquecer o caldo que servirá de base para a liga.
A etapa de refogar o alho no azeite antes de usá-lo na mistura é fundamental; ele deve ficar dourado, mas não queimado, pois seu sabor será incorporado à pasta. Por fim, lembre-se: a paciência é o tempero final. O cozimento lento e a mexida constante na fase final garantem que o Morteruelo atinja aquela textura de purê denso que se mantém firme, mas derrete na boca, honrando a tradição de um dos pratos mais emblemáticos de Castela-La Mancha.









