Transcrição – #02 LGBTTs: Super Portuguesa

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TRANSCRIÇÃO – HQ DA VIDA #02 LGBTTs: Super Portuguesa

Vinheta de abertura: entre efeitos sonoros de impacto, uma voz com reverberação anuncia “HQ DA VIDA, o seu podcast sem quadrinhos.”

(Trilha sonora de Background alusiva a histórias em quadrinhos)

Dan: Olá, pessoal, aqui é Dan Carreiro. Estamos com nosso segundo HQ DA VIDA.  Este é um podcast que, como alguns já sabem, tem como objetivo contar histórias. Nessa primeira temporada, iremos mostrar pra vocês histórias de super heróis LGBTs. Espero que vocês curtam, compartilhem e nos deem críticas sobre o programa. O seu feedback é muito importante para nós. Vocês poderão entrar em contato conosco pela página “HQ da vida”, e também poderão enviar um email para o hqdavida@gmail.com; Como dito no primeiro episódio, nosso site está em construção, mas é sempre bom lembrar que o endereço nosso é WWW.hqdavida.com.br; Agora, vamos falar sobre a nossa convidada do dia? OU melhor, a nossa super heroína do dia. Pela capa do episódio, já dá pra saber que se trata de uma super portuguesa. Vocês entenderão o porquê ao longo deste programa. Então, vamos ouvir a apresentação da própria?

Dan: Alex, bom dia. Você pode se apresentar para o nosso público, por favor?

Alex: Bom dia, Brasil. Então, meu nome é Alex Goering. Hoje eu sou portuguesa. Nasci no Brasil, no Sul do Brasil, em Curitiba. Tenho 36 anos. Sou formada em Design Gráfico e Artes Multimídia, na Universidade de Lisboa. E moro no Algarve, no sul de Portugal.

(EFEITO SONORO DE APLAUSOS)

(FADE IN E FADE OUT DE TRILHA SONORA)

(Efeito sonoro, um tom de campainha curto)

(TRILHA SONORA ALUSIVA A PORTUGAL)

Dan: Parte 1. Nessa fase do programa, eu conversei com a Alex como que foi a infância dela como menina trans, as representatividades que ela via na TV, época escolar, bullying, a relação com professores, supervisores, as primeiras paixões ou crushes, aquele momento de transição e de se posicionar para a família e para os demais, a relação com pai, com mãe, com irmão, como foi a questão dos estudos no Brasil, o mercado de trabalho, enfim. Essa foi a primeira parte do programa.

Dan: Geralmente, quando a gente faz as entrevistas com as pessoas, com os LGBTs, tem uma parte da vida que é a parte que a gente não entende a nossa identidade de gênero ou a nossa orientação sexual. No seu caso, sobre a sua identidade de gênero. Eu queria que você contasse pra mim alguns episódios da sua infância, que você se via como menina, e aquele todo conflito que é comum existir com pessoas trans, com pessoas gays também, e lésbicas, mas com trans, eu acho, numa intensidade maior, por causa do conflito de não saber o que é identidade de gênero e não se entender. Você pode contar alguns episódios pra gente sobre a sua infância?

Alex: Então, no meu caso, Danilo, eu sempre soube que tinha alguma coisa que não estava batendo. Diferente do que eu já ouvi de outras meninas trans, que pensavam que eram gays ou qualquer coisa do gênero, eu, não. Eu sempre soube que alguma coisa não se encaixava, porque eu não me sentia menino, eu não queria estar no meio de meninos. Todo papel que eu tinha que representar como homem me incomodava. Então, quando as pessoas falam em socialização masculina, isso pra mim foi uma violência, porque eu sempre soube, desde o jardim de infância, muito cedo, quatro ou cinco anos, eu lembro que o papel masculino me incomodava muito, e eu estava lá porque eu era obrigada.

Dan: E, por exemplo, você fala que na questão das brincadeiras de criança, você sempre ia brincar com as meninas, ao invés de com os meninos, por questão de identificação, no caso, né?

Alex: Sim, sim. Completamente. Eu queria tá lá, eu queria brincar… Eu to falando quando eu tinha quatro, cinco, seis anos. Eu queria o rosa, eu queria a boneca, eu queria estar com elas. Aquele ambiente de meninos já era muito opressor pra mim, mesmo lá na mais tenra infância. Quatro anos, cinco anos, seis anos, ou na primeira série, sempre foi o horror pra mim a tal da socialização masculina. Eu nunca tive benefício nenhum disso.  O que tanto as pessoas, hoje em dia, falam que as pessoas trans se beneficiaram da socialização, pra mim foi apenas uma violência.

Dan: Inclusive, essa tal da socialização masculina é um discurso das feministas radicais, né?

Alex: Exatamente. Exatamente. Pessoas que não têm lugar de fala, não sabem, absolutamente, sobre o que uma pessoa trans passou, passa na vida, e querem dizer que a gente teve algum benefício diante da tal da socialização. Eu não tive benefício nenhum, eu fui jogada, eu fui obrigada e eu fui violentada pela socialização masculina, que o quanto mais cedo possível eu pude, eu reneguei. Reneguei. E foi muito cedo, muito cedo eu disse não, não é isso.

Dan: Hoje se fala muito em representatividade. NO seu caso, você já tem 36 anos, quando você era criança e assistia televisão, representatividade na TV era algo, talvez, até raro ou raríssimo. Mas existia alguma figura que você, por exemplo, quando criança, viu e existiu alguma figura que poderia falar “essa pessoa é parecida comigo” ou algo que você fala assim, “é isso que eu sou”?

Alex: Sim, sim, sim. Tinha, sim. Eram poucas, eram duas, mas eu acredito que todas as pessoas trans que tenham a minha idade ou a idade parecida… sempre foi a Roberta Close e a Rogéria, no caso, né.

Dan: Ah, tá. Inclusive, a Rogéria, eu não sei se ela se reivindica trans ou travesti?

Alex: Não, ela se diz travesti. Eu acho a Rogéria bem problemática, mas, enfim…

Dan: Era, talvez, quem representava você naquela época, né?

Alex: Não, no meu caso, era a Roberta Close.

Dan: Até mesmo por causa do glamour, né, que a televisão abordava a Roberta, no caso, naquela época.

Alex: Mas a Rogéria também é mais velha. A Rogéria deve ter, o quê, hoje? 80 anos.

Dan: Tem.

Alex: Então, eu me identificava com aquela mulher que gritava ao mundo que era mulher, e que estava sendo violentada, no caso, que era a Roberta Close. Aliás, a Roberta Close teve muitos problemas no Brasil, mais do que a maioria das mulheres transexuais, por ela ser famosa, por ela estar no mainstream, ela foi perseguida. Ela levou, sei lá, quase vinte anos pra conseguir alterar (ES de “what?”) os documentos dela, pra conseguir a retificação. Porque o Brasil foi transfóbico com ela. Dona Roberta Close, Suíça, bonita (ES de beijo).

Dan: Eu fico imaginando, assim, que a representatividade, na TV e na mídia, né, na grande mídia, é algo que nos faz sentir encaixado em algum lugar e nos faz ter alguma sensação de conforto em relação a isso. Por falar nisso, estamos gravando pós Olimpíadas, né, e quem lacrou a abertura foi a Lea, né (ES de aplausos). Então, isso pra qualquer pessoa, de qualquer sigla do LGBT, se tiver alguém que nos represente, eu acho que é muito grandioso. Hoje, nesse cenário, a gente tem bastante pessoas pra nos representar.

Alex: Sim, sim. E não teve só ela. Que eu saiba, foram três mulheres trans, ou travestis que estiveram lá na abertura, no mesmo lugar, na mesma bicicletinha, abrindo o desfile das delegações, tiveram três.

Dan: Ai, que bacana. Isso é importante. Continuando, ainda, conversando sobre sua época de infância, temos que falar da época escolar. A época escolar, pra muitos LGBTs, nós temos vários relatos na internet, em livros, em pesquisas, que é a época escolar é muito excludente, e isso pode criar direcionamentos que sejam excludentes no futuro, no mercado de trabalho, para os LGBTs. E pra você, como que você lidou, na época escolar? Como você conseguiu sobreviver naquele ambiente bem tóxico, né?

Alex: Foi um inferno, né, na verdade. Eu acho que foi um inferno como é pra todo mundo. Todo gay afeminado, toda bichinha, todo viadinho, toda sapatãozinha. Porque não existe, ainda, uma travestizinha, né. Todo mundo, aos seis, sete anos, é uma bichinha. Foi difícil, foi muito bullying, muita perseguição, foi muita humilhação, foi todo tipo de xingamento. Eu só não sofri violência física, mas o resto teve toda, toda, toda, toda perseguição e humilhação que pessoa passa, no Brasil, né, mesmo sendo nos anos 80 e 90, foi péssimo. E como eu resolvi? Resolvi me colocando de lado e sendo a melhor aluna, porque não me sobrava nada, a não ser estudar. Então, eu sempre fui a melhor aluna.

Dan: Você usou isso de forma positiva. E não que quem não use isso de forma positiva esteja errado. Cada um lida…

Alex: Não, cada um reage da sua maneira. E da maneira que pode. Eu reagi estudando.

Dan: Ai, que… é uma época… as pessoas acham que só violência física que culmina em casos de homofobia, transfobia. Mas, na verdade, acho que a violência psíquica que causam para os LGBTs, acho que é a maior, né?

Alex: Sim. Teve época que eu não queria ir pra escola, porque a perseguição era muita. Eu preferia ficar em casa, Eu gazeava… é gazeava, né, que falavam antes, naquela época, no Brasil? Tipo eu deixava de ir pra escola, eu dizia pra minha mãe que eu ia pra escola, mas eu ia pro shopping. Não porque eu era uma má aluna, não isso. Mas é porque eu não queria passar por aquilo.

Dan: Você fala da relação com os colegas. Mas e na questão dos professores, da direção? É igual, por exemplo, eu tava lendo, antes da gente gravar a entrevista, eu tava falando sobre o livro da Jaqueline Gomes, né. Eu tava lendo o livro da Jaque, ela fala assim, que às vezes nem as escolas estão preparadas pra receber os LGBTs, e quando vem aquela criança se queixando do bullying, e tudo o mais, a estrutura é tão homofóbica, transfóbica ali, que os professores, às vezes, ou os diretores, ou supervisores, tendem a nos fazer sentir culpados em relação ao que aconteceu.

Alex: Eles partem pra solução mais fácil. É muito mais fácil, pra eles, tentar mudar uma pessoa, que é aquela pessoa que tá gerando todo o incômodo, do que mudar 40. Então, eles partem para o mais fácil. E também tem o fato deles serem pessoas homofóbicas, transfóbicas, eles são o reflexo da sociedade, no geral, né, não mudam. E a homofobia é tão grave, é tão presente que, no caso, quando eu estava na quinta série, eu tive um professor de Português que era muito, muito, muito bicha. Mas ele era bicha demais, assim, sabe? Dali, no caso, eu vi a situação se inverter. Porque nesse período da quinta série, eu devia ter dez, onze anos, as atenções deixaram de ser um pouco pra mim pra ir pra esse professor de Português. Então, esse professor de Português, eu lembro que, uma vez, ele saiu chorando da sala porque era um coro de 40 crianças gritando “Bicha! Bicha! Bicha!” E era um professor. Então, é uma coisa tão já enraizada, tão maléfica, que afeta os dois lados. Se aparece um professor muito bicha lá, esse professor também vai sofrer. O que é horrível, né.

Dan: Olhando assim, como que o mundo mudou, né? Hoje, eu sou professor também. Então, se gritarem Bicha, sou mesmo (eles riem). Até mesmo pelo Facebook, os alunos já sabem, então, não tem…

Alex: Não, mas aquela época, eu to falando lá de 1990 e é num colégio evangélico.

Dan: Nossa, muito tenso, né. Então, saindo aqui dessa questão de escola, eu gostaria também de conversar com você, e saber um pouco, sobre suas primeiras paixões. Se você teve uma paixão de um menino que você viu e sabia que não seria correspondido, e teve aquele amor platônico, e como que foi lidar com esse amor platônico?

Alex: Bom, daí já estamos falando da adolescência. E na adolescência eu já tinha uma figura feminina, porque  eu tinha cabelos compridos, eu era toda menininha, rosinha, bonitinha. Todo mundo, aos 13 anos, tem um charme, né? (ela solta um riso) Então, ali já começou toda… Apesar de ser escondido, os meninos me procuravam, sim, e eu me apaixonava por todos (ES cômico de surpresa) que jogavam o biscoitinho, por exemplo (Dan ri alto).

Dan: E já chegou algum menino, assim, que você se apaixonou a ponto de ter uma decepção muito grande?

Alex: Todos! (ES cômico de surpresa) Todos até o meu marido, né. Porque todos não me assumiram, todos queriam fazer escondido. Eu acho que toda mulher trans passa por isso, tipo, é o sexo escondido, é o amor escondido. É bom, mas é proibido.

Dan: Você acha que a sociedade ainda verá um relacionamento entre uma mulher trans e um homem cis como um relacionamento heterossexual?

Alex: Difícil, mas já começa a mudar, né. Eu começo a perceber…

Dan: Existem os primeiros indícios, né…

Alex: Sim. Sim, sim.

Dan: Então, falando desses primeiros crushes, né, que é o termo moderno (ele ri)…

Alex: Adoro Crush!

Dan: Queria saber do seu primeiro namoro, assim, namoro sério que você teve…

Alex: Nunca namorei, Danilo (ES de “what?”). o primeiro namoro, eu casei.

Dan: Sério?

Alex: Sério. Meu primeiro namorado foi meu marido, foi aos 26 anos de idade. Então, antes, não. Não que eu tenha sido uma santa, porque eu fiz Curitiba tremer, meu bem (Dan ri). Mas não, não tive namorado. Porque nenhum teve a capacidade de falar “eu aceito você como minha namorada, me dá a mão e vamos”. Não, não. Só queriam sexo e tchau.

Dan: Você falando que eu fiz Curitiba tremer, eu acho até bom que a gente tem uma faze da vida que a gente faz tudo que a gente queria fazer, e sossegar, eu acho importante isso…

Alex: Ah, eu não me arrependo nem um pouco. Eu acho o máximo quando eu relembro minhas histórias. Tipo, e eu fiz mesmo, eu lembro. Nossa, nos anos 90, Curitiba tremeu comigo (ela ri). E não só… eu casei em 2006, então, até 2005 eu fui a capeta da cidade, né, então. Pegava mesmo. Peguei todos.

Dan: Alex, você falou pra mim que você sempre teve cabelo grande…

Alex: Deixa eu explicar porque eu tinha cabelo grande…

Dan: Ah, é. Explique.

Alex: Eu tinha cabelo grande porque meu pai era fã de Rock’n’Roll, meu pai tinha cabelo grande. Só por isso que eu tinha cabelo grande, não porque me permitiam ser feminina. Eu tinha cabelo grande porque meu pai também tinha, nessa época. Então, eu tinha oito, nove, dez anos e meu cabelo já era enorme. Então, eu era uma menina. Na minha família me tratavam como menino, mas na rua todo mundo, as pessoas que não me conheciam, eu era uma garota.

Dan: E deixa eu te falar, com qual idade você começou a usar o pronome feminino dentro de casa?

Alex: Nossa, dentro de casa demorou muito, Danilo. Foi só depois do meu pai ter falecido, e isso foi há pouco tempo.

Dan: Entendi.

Alex: Meu pai morreu, eu tinha 25 anos, eu vim embora pra Europa com 26. Então, até os 25, eu pouco falava com meu pai e, quando falava, eu evitava pronomes, pra falar a verdade. Mas, se eu fosse obrigada a usar um pronome, eu tinha que usar o masculino.

Dan: E sua mãe, hoje, te trata pelo pronome masculino ou feminino?

Alex: às vezes, ela se engana e eu não a corrijo. Eu não a corrijo porque minha mãe é uma pessoa que lutou muito por mim, me ajudou muito pra que eu não caísse na prostituição, quando eu estava desempregada, desamparada, sem dinheiro, foi minha mãe que me bancou todo o tempo e falou “não, você vai ficar ao meu lado, você vai estudar, você vai ser alguém”. Então, hoje em dia, quando ela se engana… ela se esforça muito pra não errar o pronome, mas, às vezes, ela fala “meu filho”, aí eu deixo quieto, não tenho mais paciência, também, pra ficar corrigindo e é a minha mãe, então…

Dan: Isso que eu ia te falar, é a sua mãe, né. Eu já vi casos de mães, na verdade, pais transexuais que deram à luz, né, e às vezes os próprios filhos tratam como mãe. E aí eles aceitam ser chamados de mãe, mesmo sendo um pai transexual.

Alex: Acho que daí cada pessoa escolhe, né. Porque eu tenho amigas transexuais que não permitem, que ficam loucas, inclusive, se a mãe e se o pai erram o pronome, e é uma guerra. Eu, não. Eu deixo quieto.

Dan: Falando nisso, a sua relação com seu irmão foi uma relação tranquila, de aceitação, teve algum  conflito inicial? Pode ter tido algum conflito inicial, mas esse conflito foi resolvido?

Alex: Não, não teve, pelo seguinte, o meu irmão é temporal, então quando meu irmão nasceu… Temporal, não, temporão. Desculpa, temporal é em Portugal. Temporão. Então, quando ele nasceu, eu tinha 18 anos. Quando eu vim embora pra Europa, ele tinha, sei lá, dez. Então, era uma criança que não entendia direito.

Dan: Talvez, uma criança, quando convive desde pequeno, esses preconceitos já vão…

Alex: Pra ele é natural, ele me via daquela forma. Ele sabia, na cabeça dele, que era o irmão, mas que era uma irmã e nunca teve algum problema. Hoje em dia, já é um rapaz, tem 20 anos de idade, que eu só vejo pelo Facebook. Tá lá, é um homem, e eu to lá também, e tudo certo.

Dan: Que bom. Você falou que sua mãe te deu muito apoio, pra você não ir pra prostituição. A gente sabe que 90%, se eu não me engano é essa a estatística, das travestis estão na prostituição e não porque gostam de prostituição, é porque isso é compulsório. Não existe outro caminho, por causa da exclusão, desde a época escolar. Então, nesse sentido, podemos dizer que você é uma transexual privilegiada por ter virado um ponto fora da curva?

Alex: Com certeza. Eu sou privilegiada em vários sentidos. Eu pude estudar, eu me formei. Eu sou branca. Nunca fui prostituta. Eu sou casada. Eu tenho dupla nacionalidade, que isso é, sim, um privilégio.

Dan: E falando desses privilégios, você saiu da escola com 17, 18 anos, e você foi pra Portugal com 26, né? Dos 18 aos 26, você chegou a tentar fazer faculdade no Brasil? Chegou a buscar essa qualificação?

Alex: Tentei e não consegui. Tentei fazer faculdade pública, porque eu não conseguia emprego. Então, não. Eu tentei só na Federal, não passei, desisti. Desisti e só fui fazer aqui em Portugal, eu tinha toda a possibilidade financeira de seguir.

Dan: E falando nessa possibilidade financeira, desses 18 aos 26 anos, você chegou a trabalhar em algum local?

Alex: No Brasil?

Dan: é. NO Brasil.

Alex: Então, no Brasil eu trabalhei poucos meses numa escola de uma prefeitura. Disseram que eu tinha que me adequar. O que era se adequar à escola? Era cortar meu cabelo, era mudar meu jeito, minhas roupas, e tal. Então, beijo, beijo (ES de beijo).

Dan: Beijo e tchau (ele ri).

Alex: Beijo e tchau. Beijo e não me liga.

Dan:Como você falou que tinha um pai, lá, que adorava o Rock, sempre teve o cabelo grande, e na rua todos te tratavam no pronome feminino, e aí, voltava pra casa e tinha esse universo, o momento de transição pra você mesma, assim, que você fala que foi aquele ponto de virada, sabe? Que você fala assim, não, em lugar algum eu vou aceitar me tratarem no masculino, eu sou uma mulher e quero respeito por isso. Isso começou, foi bem na adolescência mesmo?

Alex: Foi bem na adolescência. Porque, nesse meio tempo, eu comecei a fazer voleibol. Praticar voleibol na escola. E eu era uma atleta. Uma atleta muito boa. E teve um momento ali, que eu comecei… já tomava os hormônios da minha vida, com 15, 16 anos, e começaram as mudanças no meu corpo. E o meu técnico chegou, “olha, isso, isso e isso, e você vai ter que fazer uma escolha na sua vida, ou você quer seguir como um atleta de voleibol ou você vai pra tua vida”. E eu fui pra minha vida. Hoje eu podia estar aí, defendendo o Brasil no vôlei, mas não, eu sou uma MULHER Portuguesa.

Dan (entre risos): Já pensou uma mulher transexual  jogadora de vôlei, aqui, que legal e que representativo…

Alex: Ah, eu acho que não dava. Se nem hoje em dia permitem, imagina naquela época, Danilo.

Dan: é. Eu acho que hoje já tem atletas… Tem uma atleta transexual, não tem?Eu olhei, mas eu não lembro…

Alex: Nessa olimpíada, que eu saiba, não tem nenhuma. Tem alguma? Ai, ano passado, eu vi, inclusive, postado por uma radical feminista, que tem na Itália uma jogadora de vôlei que é transexual, mas ela joga num time qualquer. Tá bem longe da seleção italiana, e tal.

Dan: Ah, é. Se foi postado por uma radical, né, feminista, provavelmente falando a questão da…

Alex: Que elas vão ter que disputar com um homem.

Dan: Com homem (ele ri)… Você falando de esporte, e como eu acabei de ler o livro do João Nery, ele também se dedicou aos esportes, e era uma maneira, também, de fugir e o objetivo dele, no caso, era ficar mais forte e mais másculo. Então foi um lugar que ele se sentiu bem, e bem acolhido, inicialmente teve uma confusão, e tudo mais, por ele ser muito masculino, né. Quando todos o liam como mulher. Mas foi uma escapatória pra ele. Ele nadava muito, muito, até à exaustão.

Alex: Eu também treinava muito, muito, muito. Eu entrei no voleibol porque, aos 14 anos de idade, eu tinha 1,85m. Então, eu sempre fui muito alta e por isso eu entrei no vôlei. E eu era boa, era boa. E também foi uma forma de fugir ao preconceito porque, me integrando, aquela equipe acabou que me acolheu e me protegia, né, de toda violência que eu sofria. Por exemplo, uma vez eu lembro que eu viajei de Curitiba, fui pro interior do Paraná, jogar com esse time, contra a equipe evangélica da mesma escola, que era o colégio adventista. Era um torneio disputa entre os colégios adventistas do Paraná. Fomos pra cidade, pra Maringá e, chegando lá, eu sofri ataques homofóbicos das outras equipes, porque eu já era uma menina. E toda a equipe me protegeu, comprou briga. Então, era uma forma, também, de ter uma proteção desses outros rapazes, no caso, que eram meus colegas de voleibol.

Dan: O verdadeiro espírito de equipe, né?

Alex: Sim, sim. Porque as pessoas… Também tem isso, né, muita gente é transfóbica, homofóbica, mas depois que te conhece, vira tua amiga, e deixa de ser. Porque é o desconhecido, não é?

Dan: É. O preconceito é baseado em falta de conhecimento sobre aquilo. Sobre até a pessoa, sobre estereótipos, né, que toda trans e travesti faz programa, vive na noite, usa drogas… É todo o estereótipo que tem sobre LGBTs. Tem o estereótipo do gay, da bichinha, da lésbica… O do bissexual, que é indeciso, né?

Alex: Tem a travesti que sofre de todo mundo, até dos gays…

Dan: Isso que é a próxima pauta, que eu vou perguntar pra você. Que é o preconceito entre nós, LGBTs. Então, como que você vê as travestis e as transexuais, como que elas sofrem o preconceito, em relação aos LGBTs? Como que você lida com isso?

Alex: eu, como que eu lido? Hoje em dia, eu dou um murro na cara da bicha (Es de troca de socos) (Dan ri). Teve muito já. Já fui muito… até humilhada por bicha. Por gay, né, por viadinho, que  se achou superior pelo fato de eu ser travesti, transexual. Então, já me disseram que não me queriam numa festa, porque eu era travesti e queriam essa festa higienizada (ES de “what?”, queriam que essa festa só tivesse pessoas cis. “Então fala praquela não levar aquela traveca, não quero aquela traveca na minha festa”. Então, já me falaram, por exemplo, uma bicha já jogou na minha cara “ai você é uma travesti de rua, fica na rua bebendo cachaça”. Isso no tempo que eu morava em Curitiba, sabe? Essa mesma bicha, meses atrás chegou pra mim e falou “ah, você é uma bicha burguesa e europeia”. Eu falei pra ela, a senhora se decida, se eu sou pobre e cachaceira, ou se eu sou burguesa e europeia (Dan ri). Então, nunca tá bom, sabe? Elas sempre vão achar um motivo. Ou você é isso, ou você é aquilo. E elas sempre são superiores. Quando é uma bicha preconceituosa, ela sempre vem com esse papo de superioridade, eu acho. Acredita que, por ela ser cis, por ela passar mais despercebida na sociedade, ela é superior a uma travesti. O que é uma falácia.

Dan: Talvez, em teoria,né, ela esteja mais próxima do opressor,né, e aí reproduz a opressão e achando que ficará no lugar do opressor também. Ao passo que, na verdade, ela é só mais uma oprimida e,talvez, sem noção política, né, do seu papel na sociedade.

Alex: Pessoas LGBTs são pessoas. E, como toda pessoa, vai ter bicha erradíssima, vai ter travesti erradíssima, vai ter sapatão erradíssima, assim como terão as pessoas boas também, né.

Dan: Falando de travesti e transexual erradíssima, uma vez a gente já conversou, e você disse que, por exemplo, não é uma transexual dentro do padrão. Você não tem peitão, não tem bundão, tudo mais…

Alex: Sim, eu sou uma transexual que não sigo nem o estereótipo trans. Então, eu já fui até… não seria perseguida, mas eu já fui humilhada por travestis também, que se acham superiores nessa casta surreal (Dan ri)…

Dan: E imaginária, né?

Alex: É, imaginária. Porque ela tem peito, porque ela tem bunda, ela é mais travesti do que eu. Não, ela fala “ai, você é um viado de saia, você não tem peito, não tem bunda”. Eu falo e você, que não tem cérebro? (Dan ri)

(Efeito sonoro, um tom de campainha curto)

Dan: Parte 2. Nessa etapa do programa, a gente já conhece uma Alex mais madura. Então, a gente conversou um pouco sobre suas histórias, que ela viveu junto com o marido. Conversamos um pouco sobre política, a diferença entre a política aqui no Brasil e em Portugal. E também sobre ativismos e, enfim, representações políticas que temos aqui. Então, curtam aí essa última parte do programa.

Dan: Uma vez, você postou que geralmente nós, né, LGBTs, somos muito comunas, né, quase esquerdopatas (ele ri).

Alex: Sim, sim, sim. É quase patológico, né.

Dan: Eu sou meio comuna também, mas, eu gostaria de ouvir de você… você falou assim, “querido, eu tenho uma história pra te contar sobre Cuba. Cuba não é tão bonitinha assim”. Aí eu gostaria…

Alex: Não é e nunca foi. Apesar de estar mudando, hoje, também. Bom, pra que eu não seja mal entendida, eu não sou uma pessoa de direita.

Dan: Isso.

Alex: Eu sou uma pessoa casada com um homem de direita. Porém, eu tenho uma história pra contar. Então, eu sofri uma das transfobias mais surreais que aconteceram na minha vida. Foi em 2011, quando eu pensei em ir pra Cuba, porque eu tenho um marido que, apesar de direita, sempre foi muito estudioso em relação ao Comunismo, à União Soviética. Aqui em casa, por exemplo, tem vários livros sobre a história de Marx e Hengels. Ele coleciona revista comunistas, apesar dele ser um homem de direita. Então, eu tenho muita informação, e ele também me passou muita informação. E um dos sonhos da vida Dele era ir pra Cuba. Meu marido nunca tinha ido pra Cuba. E nunca foi, por causa desse episódio. Então, lá fomos nós pra Lisboa, pra embaixada de Cuba, pra pedir visto, porque ninguém entra em Cuba sem visto. Ninguém. Todo mundo precisa de um visto pra entrar em Cuba. Tá, deixei lá todo aquele caminhão de documentos que eles pedem pra fazer o visto. Dias depois, eu volto La e tenho o meu visto negado. Tipo, não tentaram nem esconder o fato do motivo de eu ter o visto negado. Tava lá, porque naquela época, em 2011, eu não tinha retificado os meus documentos ainda, então meus documentos estavam todos como sexo masculino. E me disseram assim, “olha, a sua imagem, o seu documento vai causar um caos social em público” (ES de “what?”). “Então, por isso, você terá o seu visto negado. A senhora não vai poder ir a Cuba”. Então, gente, eu não fui a Cuba por isso, por transfobia. Me disseram que a minha transexualidade causaria o caos social. O que é surreal. Então, eu peço às pessoas que, pelo menos, se informem. Tem no Google, tem livros. A perseguição que Fidel causou aos homossexuais. Homossexual em Cuba, nos anos 50, nos anos 40, nos anos 60, eram levados pra campos de trabalho forçado, pra tentar transformar aquela bicha num homem (ES cômico de surpresa). Então, gente, de onde essa história? Ai, porque tá na universidade, é bonito, tá no Facebook. Não. Vamos ler um bocadinho. Lembrando que eu contando essa história, ninguém vai mudar de ideia. Todo mundo vai continuar comunista. Porque eu já contei isso pros meus amigos, aqui em Portugal, que são comunistas, e quando eu contei isso pra ele… “ai, Alex, o que vai ter pro jantar?” ele mudam de assunto, como se não tivesse         acontecido nada. Porque não interessa. Não interessa. O fato de ter sido negada a minha entrada por ser transexual em Cuba? Não muda. Eles continuarão comunas.

Dan: Isso pode ser um pouco, também, por falta de empatia, né?

Alex: Falta de empatia. E não sei o que é. Talvez eles acham que foi só um caso isolado que aconteceu comigo. Eu vejo que, quando eu conto a história pra um comunista, ele faz cara de paisagem e não muda. Ninguém deixou de ser comunista porque eu contei essa história. E não é só minha história. Gente, pesquisem. Pesquisem. Se informe, o que o Socialismo e o Comunismo fez no século 20.

Dan: É um reflexo de movimentos sociais que não são interseccionais. Que, por exemplo, às vezes não contempla a mulher preta da favela, ou então a transexual preta favelada, sabe?

Alex: é só a pessoa cis, branco, universitária, que acha lindo ser de esquerda. Eu, por exemplo, casei com um homem de direita, abertamente de direita, mas foi esse homem que pegou na mão de uma travesti sul-americana e pobre e gritou ao mundo que essa travesti era a esposa dele. Nenhum esquerdomacho, no Brasil ou em qualquer lugar do mundo que seja, pegou na minha mão e gritou ao mundo “é o meu amor, é a minha mulher”. Nenhum fez isso. E continua sendo assim, porque eu vejo todas as minhas amigas, solteiras e que estão desesperadas por um amor, as minhas amigas trans, no Brasil, que falam a mesma coisa sobre os tais incríveis esquerdomachos. Comunismo de cu é rola, gente (Dan ri alto).

Dan: Adorei. Esses dias, eu li um texto da Maria Clara de Araújo, que ela fala da solidão da mulher trans e negra… E vamos pra um lugar que não é o local de fala seu…

Alex: E pobre, né…

Dan: E pobre. Mas que, quanto mais associa, né, a outras opressões, maior é a solidão. Eu acredito que a mulher trans deve ter a solidão inerente, né, assim, faz parte.

Alex: Todas. A todas. Mais uma razão de eu ser uma baita de uma privilegiada. Eu consegui um amor, eu consegui o amor da minha vida cedo, né? Aos 26 anos.

Dan: Você se considera uma pessoa ativista?

Alex: Não. Não me considero uma ativista. Primeiro porque eu acredito que existem outras que fazem um milhão de vezes melhor do que eu poderia fazer. Mas isso não significa que eu não seja uma pessoa política. Eu faço política a partir do momento que eu saio de casa. Eu faço política a partir do momento que eu ocupo esse espaço, como mulher latino-americana na Europa, que frequenta lugares que nenhuma travesti, eu tenho certeza, nenhuma travesti, algum dia, frequentou. Eu posso te contar um caso, de um dia que a gente estava em Tóquio, meu marido, o famoso homem de direita, coxinha, com a sua camisa polo, falou assim, “põe o vestido”. Eu não sabia pra onde a gente ia. Isso eu estava em Tóquio. Quando eu vejo, eu to dentro da embaixada de Portugal em Tóquio, jantando com embaixadores e políticos (ES de “uau!”). Se isso não é política, ter lá uma travesti brasileira… Eu acredito que eu fui a primeira travesti brasileira a frequentar um jantar com esse tipo de gente. Pra mim, isso é uma revolução. A Mel Gonçalves, a vocalista da banda Uó, disse, semana passada, em uma reportagem que eu li, que ela faz revolução por ela estar onde ela está. Ela é uma artista, ela tem muito mais relevância do que eu tenho, no que eu falo e faço. Mas eu acredito que minha vida é uma revolução, sim. Porque eu to lá, onde todo mundo disse que eu não era pra estar.

Dan: Ela ocupa um espaço, né?

Alex: Sim, sim. Então, eu não sou ativista, não, Danilo. Mas eu  faço política, sim.

Dan: Por falar em ativismo, nós tivemos a lei de identidade de gênero, em Portugal, em 2010. E aí, você fez as retificações dos seus documentos.

Alex: Sim, em 2011. Fiz.

Dan: você já me falou isso,né, outras vezes, mas eu gostaria que você contasse para os ouvintes como que foi essa treta de Brasil versus Portugal, e transfobia. Um a zero pra Brasil, né?

Alex: Pra Portugal, no caso.

Dan: é. Um a zero pra Portugal, que Brasil que deu bola fora.

Alex: Então, gente, eu nasci no Brasil. Eu fui brasileira até 2011. E eu vou contar pra vocês o porquê. Não porque eu quis. Então, quando eu comecei o processo de transição dos meus documentos, eu fui em todos os cartórios, que aqui em Portugal se chamam conservatórios, e eles falaram “olha, você precisa disso, disso e disso”. Documentos brasileiros, que me pediam pra que eu pudesse dar entrada no processo português, que é bem facilitado. Também era importante que as pessoas soubessem, que é bem diferente do Brasil. E lá fui eu, na embaixada do Brasil, olha, eu preciso disso, porque eu vou entrar com um processo de nacionalidade portuguesa e de retificação dos meus documentos. Simplesmente, esses documentos me foram negados, me dizendo que não, que não me investia nenhuma Alex Sousa, sexo feminino, brasileira “ES de “uau! Pasmo). Então, eles não poderiam me ajudar. Minha única solução era ir pro Brasil, entrar com um processo judicial, pra que eu pudesse alterar no Brasil, pra depois eu alterar em Portugal. O que me levaria anos e dinheiro, porque eu teria que ir ao Brasil, contratar advogado, etc., etc. Então, a minha única possibilidade, rápida, fácil, pra poder me livrar daqueles documentos, era eu abdicando da nacionalidade brasileira. Então, hoje em dia eu não sou mais brasileira. Eu fiquei seis meses apátrida. Até que o Estado Português me acolheu como uma mulher portuguesa que hoje eu sou de direito e fato.

Dan: Após essa lei de identidade de gênero, essa retificação é rápida, como que funciona aí em Portugal? Tirando a parte da apátrida, né, quando de fato começou a rolar o processo?

Alex: Então, a lei da nacionalidade demora seis meses para conseguir em Portugal. Então, eu fiquei seis meses apátrida. Sem nacionalidade. Como é que funciona em Portugal. Eu acho que Portugal tem uma das melhores leis de identidade do mundo. Não é a melhor, porque a melhor é a argentina. A Argentina é baseada na autodeclaração. Então, é só uma pessoa chegar no cartório da Argentina e falar, “sou uma mulher trans”, e consegue alterar na mesma hora. Portugal, não. Portugal tem um pequeno defeito, que eles já estão pensando em mudar, que é que em Portugal precisa de um relatório. De um relatório de um médico atestando que você tem disforia de gênero. Aí que eu acho que tá o problema da lei portuguesa. Porque é uma terceira pessoa que vai decidir por você. É como no Brasil. Só que no Brasil tem um processo muito demorado, que em Portugal é muito mais simplificado. NO meu caso, eu fui no médico. O médico me passou, na mesma hora, o atestado, e eu consegui mudar, na mesma semana, mediante o pagamento de $200  Euros.

Dan: É, entendi.

Alex: Muito rápido. Cheguei no cartório, falei, muda essa porra, e mudaram (Dan solta um riso).

Dan: Falar em questões governamentais e legislação, aqui no Brasil, você se sente representada por algum político ou algum governo que já tivemos, aí, historicamente, no seu tempo de…

Alex: Político, não. Não. Nenhum. Aliás, uma das razoes que eu admiro tanto a Daniela de Andrade é essa, porque ela não tem lado. Ela é do centro. Ela critica tanto a direita quanto a esquerda. Porque ela fala a verdade.

Dan: Eu gosto de acompanhá-la pra não pender  tanto pro lado esquerdo, se não a gente acaba que fica com uma viseira, a gente não enxerga as coisas com clareza.

Alex: Eu acho que ela fala a real, gente. Não teve ganho nenhum nesses doze anos.

Dan: Das pessoas que eu sigo no Facebook, você e ela são as que mais me voltam pro centro, apesar de que eu to lá na esquerda, sabe. Mas aí dá um choque de realidade, é bom ouvir e ler, no caso, essas situações.

Alex: Lembrando que a Daniela tem uma relevância muito maior do que a minha. O que ela tem pra dizer é muito mais importante do que eu tenho, porque ela vive no Brasil. Eu não vivo.

Dan: Isso. Sente, né, diariamente.

Alex: Sente na pele o que é ser a transfobia, o que é ser perseguida, e o benefício que ela teve do PT, que eu vi, foi nenhum, por isso que ela fala, fala, fala, e por isso que eu admiro tanto  o que ela fala, porque ela não é comprada por uma ideologia, ela fala a vivência dela.

Dan: Falando em representatividade aqui no Brasil, como que funciona aí em Portugal? Existe uma situação de que você se sinta representada? Como que é o balanço de direita e esquerda?

Alex: Então, em Portugal, eu fiz ativismo pela ILGA-Portugal, que não é uma ONG trans, mas é uma ONG LGBT. E essa ONG já teve uma presidente que é uma deputada chamada Isabel, e essa é uma deputada que grita e coloca todas as pautas de direitos humanos no parlamento português. Isabel Moreira, o nome dela.

Dan: Eu acho que já a vi falando sobre alguma coisa relacionado ao Brasil. Assim, em relação à época do golpe, eu não lembro…

Alex: Ah, não, essa é a Catarina. Essa é outra.

Dan: A Catarina, né?

Alex: A Catarina Martins, que é do bloco de esquerda. Extrema esquerda.

Dan: É tipo uma Luciana nossa (ele solta um riso)?

Alex: Acho que é mais radical, porque é tipo o (incompreensível) de Portugal, assim, sabe?

Dan: Entendi.

Alex: E a Luciana, coitada, apesar de ter boas ideias, ela dificilmente vai conseguir ser presidente do Brasil. A Catarina Martins é de extrema esquerda e, no momento, está como governo. Faz parte do governo.

Dan: Você sabe que existe a lei de feminicídio, no Brasil, né?

Alex: Uhum, sei. Que a Dilma retirou a pauta das mulheres trans dessa lei.

Dan: Isso.

Alex: Então, mais uma cagada do PT, né, gente. Mais uma cagada. Cagada feia, cagada brava de dona Dilma. Mas, enfim. Ela estava mancomunada com os evangélicos, os pastores e todos eles…

Dan: As más alianças, né. Então, falando ainda sobre legislação, né, nós temos a questão da ideologia de gênero discutida na escola. Imaginando, assim, se isso fosse, de fato, implementado, como você veria a sua vida, se você voltasse no tempo e houvesse isso? Eu queria que você explicasse pras pessoas, pra entender a importância, né, dessa discussão.

Alex: É fundamental. Num país que regride, como regride o Brasil, é fundamental que as pessoas tenham informação. Eu acho que os benefícios não seriam imediatos, mas seriam pras próximas gerações. As próximas gerações de gays e lésbicas e transexuais teriam um pouco mais de paz, porque as crianças cresceriam sabendo o que é, né? Então, eu acho que é fundamental, mas, infelizmente, o Brasil regride, regride, regride. O país do futuro tá cada vez pior.

Dan: Então, Alex, saindo dessa pauta mais de legislação. Agora vamos falar de coisas boas e coisas interessantes sobre você. Que é a sua história com seu marido, que é uma história bonita, e eu gostaria que você pudesse contar pra gente, aí, como foi esse processo, aí, desde o conhecimento e até chegarmos aqui em 2016.

Alex: Do meu PRÍNCIPE! Do meu COLONIZADOR! (Dan ri) Então, gente, eu conheço ele há dez anos. Conheci ele em 2006, pelo Orkut. Eu tinha fotos minhas num álbum de fotos de uma amiga também transexual e, por algum motivo que eu não sei até hoje, ele era amigo dela. E ele entrou em contato com ela, perguntou quem era aquela morena que estava vestida de “Mamãe Natal” (ela solta um riso). Que eu acho que era época do Natal e eu tinha lá uma toquinha da Mamãe Natal, e ele perguntou quem era. E ela passou meu email, ele me adicionou no MSN ainda, naquela época. E quando ele chegou, foi a coisa mais louca da minha vida. Hoje em dia, eu posso falar que foi louca, porque o negócio, né, deu certo. Ele chegou e falou “oi, eu me chamo Ricardo, qual é o seu nome, onde é que tu moras, e o que você faz da vida” e tal. Três minutos depois, ele disse “eu te amo” (Dan ri). Ele disse “eu amo-te, casa comigo e vem ver o mundo comigo”. Eu falei, como assim? Como assim, vem ver o mundo comigo? Enfim, resumindo, gente, dois anos depois, eu já morava em Portugal, eu já tava casada, eu já era uma mulher portuguesa, e ele realmente me apresentou o mundo.

Dan: Como eu já sei onde você passou a lua de mel, e como a gente tem uma situação atual sobre esse lugar, conte-nos um pouco sobre sua lua de mel…

Alex: Eu passei minha lua de mel na Turquia, E aí, em Istambul, na época que a Turquia era um lugar decente, era um país laico (eles soltam risos nervosos). Ainda era possível uma transexual andar pelas ruas, sem ser morta e atacada e presa. Então, isso foi em 2010, 2009, não me lembro… Sei que minha lua de mel foi lá… Você quer falar sobre isso mesmo? Então, vamos voltar a falar sobre isso (Dan ri). Vamos fazer um recorte aqui. Vendo esses meus amigos incríveis, que eu amo e admiro e sigo, de esquerda no Brasil, falando um monte de abobrinha em relação à Turquia, referente ao golpe, ou ao suposto golpe que a Turquia teve. Mas vamos deixar claro, mais uma vez, a falta de informação dessa gente, querendo fazer um parâmetro com o golpe sofrido no Brasil.

Dan: É uma simetria errada, né?

Alex: Não tem nada a ver. O que  as pessoas estavam tentando fazer, na Turquia, era acabar com aquele regime totalitário e islâmico, gente. O povo tava querendo voltar que a Turquia fosse o que ela era no passado. Laica. Que não deu certo. Infelizmente, a Turquia tá entrando numa época de trevas islâmicas, onde as minorias serão completamente perseguidas, aniquiladas, mortas e presas. As sortudas conseguirão fugir, porque tem lá um ditador islâmico, fundamentalista, xiita, que não tem conversa com LGBT. Então, quando eu vi gente, travesti, sapatão, bicha… que um país laico tá sendo tomado por um fundamentalismo islâmico, gente, então vamos pensar, vamos pesquisar. Não vamos falar um monte de abobrinha e passar vergonha na internet. Vamos escutar quem já esteve lá. Vamos ouvir, né, gente. Quem já foi sabe. Oh, lá, era minha lua de mel, mas acabou virando política, né (Dan ri).

Dan: Eu te perguntei, justamente, porque é um momento tão atual, e tem o golpe do…

Alex: Mas foi incrível. Foi incrível. A Turquia, naquela época, era um país maravilhoso. Estava no meu top 10 de cidades do mundo que eu mais amo. E, infelizmente, eu não vou poder voltar à Turquia, porque se eu voltar à Turquia, eu serei perseguida, presa. Eu corro todo tipo de risco por ser uma mulher trans. E na Turquia o negócio não é fácil, que os turcos são babado.

Dan: Era laico e o conservadorismo…

Alex: Deixou de ser laico, agora é islâmico. Antes, quando eu andava, as mulheres eram todas lindíssimas, maquiadas, andavam de minissaia. Se eu voltar hoje, na Turquia, eu vou ver todas de Niqab, ou de Burca. Então, isso é surreal. As pessoas tentando fazer parâmetro com o golpe do Temer, que eu realmente concordo que seja um golpe. O que fizeram com Dilma não é certo, apesar de eu achar que Dilma, também, é outra conversa muito louca. Mas eu acho que o que fizeram no Brasil é golpe, sim. Mas não dá pra dar parâmetro com o que aconteceu na Turquia, gente, não passem vergonha, pelo amor da deusa!

Dan: E falando ainda sobre seu casamento. Aqui no Brasil, a gente tem um estereótipo que português, sobretudo os portugueses mais idosos, né, são muito conservadores. Então, como que funciona sua relação com os parentes do seu marido? Que, no caso, é a mãe e o irmão, né?

Alex: Sim, sim. O pai já é falecido. O irmão não mora aqui na mesma cidade, então eu vejo ele uma vez por ano. E a mãe eu vejo muito pouco, porque é muito idosa, tem 80 anos… Eu chamo ela de Rainha da Inglaterra, né, porque ela é uma velhinha (ela solta um riso) muito bonitinha, toda arrumadinha, com seu chapeuzinho. Sempre me tratou com muito respeito. Eu nunca falei, olha, vamos sentar aqui e vamos conversar sobre transexualidade. Não. A relação é muito formal, porque os portugueses são formais mesmo. E eu vejo que, da mesma forma que ela  me trata, ela trata a outra nora, que é uma mulher cis. Então, é uma coisa muito formal, não tem aquela intimidade que a gente tá acostumada no Brasil, né, tipo, sentar no colo (Dan ri)… Não, aqui é completamente formal. Eu vou lá e sinto que to indo no palácio de Buckingham, tomar chá (ambos riem).

Dan: Alex, você já falou que gosta de usar o termo “travesti”, e que isso é uma posição política… E, até mesmo, a questão de ocupar espaços… Explica isso um pouco pra nossos ouvintes, como é que funciona?

Alex: Sim, sou uma mulher trans, mas não tenho problema nenhum de me reivindicar travesti,porque eu acho que empodera essa palavra. Eu acho que é importante pras travestis. Eu me toquei nisso quando eu ouvi a Márcia rocha. Márcia Rocha é uma ativista travesti e lésbica, acho que ela mora em São Paulo. Ela é a criadora do site “Trans Emprego”. Foi ela que criou o site “Trans Emprego”, junto com a Daniela Andrade. E, um dia, eu li isso. Ela é empresária, ela é rica. Antes dela completar a transição dela, era um homem de sucesso. Um homem de negócios e rico. Então, ela sempre falou “olha, eu sou uma travesti, e o Brasil tem que aceitar que vai ter travesti, vai ter travesti rica, vai ter travesti empresária, e vai ter travesti no Clube Paulistano”, que eu acho que ela faz parte do Clube Paulistano. Então, tem fotos dela lá, toda rica, toda fina, no meio da família tradicional paulistana. Eu acho que isso é importante. Então, eu aprendi com ela. Sou uma mulher trans, sim, mas eu uso como travesti, como política. Vai ter travesti nos meios que disseram que não teria.

Dan: A ocupação de espaços, né.

Alex: Ocupação de espaços, sim. E se disserem que não, a gente toma de assalto (Dan solta um riso).

Dan: E falar, agora, nessa questão de ocupar, essa questão política, nós temos também que deixar claro para os ouvintes que, no Brasil, nós somos o país que mais mata mulheres transexuais e travestis, e também tem a estatística dos homens transexuais que é subnotificada. Então, eu gostaria que você dissesse… fazer um paralelo, né, entre assassinatos de trans no Brasil versus assassinatos de trans em Portugal. E aí, nos explicar, um pouco, como que funciona, e como que você vê essa diferença.

Alex: O que a gente vive no Brasil, eu acho, é uma epidemia de violência. É horrível. Toda semana, todo dia. Hoje, por exemplo, eu vi duas pessoas, na minha timeline, duas travestis que, uma foi espancada com uma barra de ferro, na Bahia e, tipo, me chocou imenso. É uma coisa muito triste, ao mesmo tempo que rola essa violência toda, violência com requintes de crueldade, o Brasil também é o país que mais pesquisa transexuais no RedTube, o que é uma dicotomia dos infernos. Enfim, é uma tristeza, e eu espero que isso realmente mude, porque não dá. Não dá. Tá uma coisa horrorosa. Bom, em Portugal, o que eu posso falar é que Portugal é um dos países mais seguros no mundo. Saiu, essa semana, um relatório da ONU colocando Portugal como sendo o quinto país mais seguro do mundo. Significa o quê? Significa que em Portugal existem muito poucos assassinatos, em geral. E a última pessoa transexual assassinada, aliás, foi um caso que ficou bastante famoso porque chocou Portugal, foi o caso de uma travesti brasileira chamada Gisberta. Conhece, Danilo?

Dan: Conheço o caso da gisberta.

Alex: Eu acho que tem até uma peça, aí em São Paulo, com essa história dela. Uma peça de teatro, em São Paulo, chamada “Gisberta”, que conta a história dessa transexual que foi assassinada em Portugal, há dez anos atrás. O que é importante deixar claro é que esse assassinato também foi horrível, mas esse assassinato de UMA pessoa, que não era nem portuguesa, mudou a história de um país. Todos os anos, Portugal celebra, entre aspas, esse assassinato, pra relembrar, pra marcar. E esse assassinato mudou, mudou a história de um país. Virou filme, virou livro, virou teatro. Então, tudo isso marcou. Quando é que a gente vai ver isso no Brasil? Todo dia morre travesti e ninguém fala nada, ninguém se importa. Ainda matam a travesti uma segunda vez, quando enterram ela como homem, que é uma coisa horrível.

Dan: Ah, é. Tem essa questão, também, que geralmente a família nunca se importa em respeitar essa identidade de gênero. Algumas famílias, né, até na hora do enterro existe esse segundo assassinato, né.

Alex: Segundo assassinato. Essa segunda violência, porque, né, morrer como um homem ninguém merece, se ela passou a vida inteira se afirmando como mulher, no final da vida vão enterrá-la como homem, é surreal. Bom, posso falar mais que em Portugal eu me sinto milhões de vezes mais segura. Eu nunca sofri nenhum ataque transfóbico em Portugal. Nunca  ouvi nenhum grito em Portugal, e olha que eu já to aqui há quase dez anos. No Brasil, era só eu sair fora do portão, que já era um inferno. Vivia atravessando rua pra não ter que ouvir. Era insultada todos os dias. Era no ônibus, era no centro, era no bairro perto de casa, até de pessoas conhecidas que estavam em grupo eu era atacada. Essas mesmas pessoas que me atacava, depois, quando estavam bêbados, me procuravam pra sexo. É uma loucura. Surreal. Portugal, não. Portugal é um país calmo, um país tranquilo. Um país muito, muito, muito seguro. Por exemplo, eu viajei agora pro Porto, eu deixei a minha casa três dias aberta. Quando  que no Brasil a gente pode fazer isso?

Dan: Nunca. Nunquinha. Acho que em lugar algum do Brasil.

Alex: Então, isso não significa que não tenha transfobia em Portugal, porque eu sei de relatos de que meninas transexuais que não conseguem emprego. Também, na questão da empregabilidade, sim, existe. E elas também têm problemas de não conseguir empregos em Portugal. Mas a nível de violência, não.

Dan:E falando sobre transfobia, né, eu vi um vídeo da Leda Martins, acredito que você também tenha visto, no site do Neto Lucon, Né, que escreve muito sobre travestis e transexuais, sobre dez perguntas que toda mulher transexual está cansada de ouvir. Inclusive, eu vou colocar no áudio, para os ouvintes, né, o áudio do vídeo dela, mas eu também gostaria de discutir isso com você. Antes, deixa eu só colocar o áudio para os ouvintes, e depois a gente discute.

(INÍCIO DA INSERÇÃO DE ÁUDIO)

Voz de Leda Martins:

Olá, eu sou a Leda Martins, DJ, produtora e agitadora cultural aqui de São Paulo, tenho 26 anos, sou taurina, solteira e… bom, até aqui, estaria tudo dito normal, se eu não tivesse que dar explicações sobre a minha genitália numa apresentação simples e cotidiana dessas, simplesmente por ser uma mulher trans. Sério, você acha isso razoável? Eu venho tentando retribuir as mesmas perguntas,só que ao contrário, e tem sido bem interessante o espanto de algumas pessoas cis-gêneras, ao serem perguntadas sobre as suas partes íntimas. Aí eu resolvi listar as dez perguntas mais ridículas que as pessoas cis costumam fazer pra nós, pessoas trans. Até como #dica pra vocês, simplesmente, pararem.

Pergunta número 1, “Qual o seu nome?” Mas essa vem em combo, seguida de “mas e qual é o seu nome de verdade?” É, parece piada, mas gente, serião, é uma das mais corriqueiras.

“Vem cá, e você é operada?” Então, eu tive apendicite quando eu era adolescente. É… não, pera…

“Vem cá, como você faz pra esconder as suas coisas nesse biquíni tão pequeno?” Tem coisas que nem o Mister M. revela, meu amor.

“Mas, vem cá, e qual banheiro você usa?” bom, eu costumo usar o que tá livre. E você?

“Mas, vem cá, e que número você calça? Você realmente deve ter problema pra encontrar sapato, né?” Quando eu to bêbada e eu jogo um pé pra cada lado, é meio difícil de eu encontrar os meus sapatos. Mas, até onde eu me lembro, eu calço 38. Mas, sei lá, talvez se eu aproximar o meu pé do seu rosto, fica mais fácil de você perceber?

“E na balada, você aproveita pra fazer xixi em pé?” Claro, né, que eu faço xixi em pé. Até porque, se eu fizesse deitada, eu ia me mijar inteira.

“Meu amigo achou você linda, mesmo você não sendo mulher, ele tá muito a fim de te pegar. E aí, você topa?” Olha, então, eu também achei seu amigo muito lindo, mesmo ele não sendo homem. O problema é que eu não fico com babaca. Então, assim, voa!

“Nossa, te pegaria fácil, mas como eu sou hetero, teria que ser num lugar, assim, escondidinho…” Então, amor, deixa eu só te contar uma coisa, eu não sou discreta, eu gosto de arrasar. E eu não me produzi inteira pra sair escondidinho com ninguém.

“Nossa, você parece uma mulher perfeita, você fez alguma plástica?” Bom, então, na verdade, eu não pareço uma mulher, eu sou uma mulher. E, com relação à perfeição, me responde você, o que é perfeição? Vai refletindo aí, que eu vou procurar o cartão do meu cirurgião plástico, pra ver se ele diminui a sua língua.

“Mentira que você é DJ! Eu pensava que você era…” Puta? Cabeleireira? Maquiadora? Qual outro clichê que você tem aí pras mulheres trans?

Essas perguntas merecem o troféu dos três Is, Inconvenientes, Indelicadas e Insensíveis. Gente, fala sério, se coloquem no lugar do outro. Como você se sentiria recebendo esse tipo de pergunta?

(FIM DA INSERÇÃO DE ÁUDIO)

Alex: Beijo pra Leda! Leda, maravilhosa! DJ de São Paulo, arrasa, gata!

Dan: Lindíssima, né? Eu não a conhecia antes desse vídeo, sinceramente.

Alex: Ela é top, ela é top. Ela arrasa!

Dan: Eu gostaria de fazer um exercício contigo, lembrando a quem estiver ouvindo aí, eu não to perguntando a Alex, fazendo as perguntas. Eu quero que ela só diga qual é a reação dela para cada pergunta, pra vocês, pessoas cis-gêneras, entenderem o quão desagradável é isso. Então, a primeira pergunta que a Leda faz, e ela fala que vem como um combo, né. Primeira pergunta, “qual é o seu nome?” Aí, a pessoa, não satisfeita, ainda pergunta, “mas qual é o seu nome de verdade?” Vem em combo. NO caso, você ainda tem uma sorte, um privilégio, né, de ser ALEX.

Alex: Eu nasci Alex. Meu pai me deu o nome de Alex. Então, na minha retificação só mudou o gênero, porque o nome continua o mesmo do meu nome de nascimento, né.

Dan: E aí, a segunda pergunta que a Leda fala que incomoda, que a pessoa já chega e já pergunta, né, de cara, “você é operada?”

Alex: E tu, também és? (Dan ri)

Dan: “Como faz pra esconder essas coisas?”

Alex: Olá, bom dia, e sua boceta, vai bem? (Dan ri alto)

Dan: Outra pergunta, “qual o banheiro que você usa?”

Alex: O contrário do seu.

Dan: Qual o número que você calça?”

Alex: Eu acho que isso não importa.

Dan: Na balada, você aproveita pra fazer xixi em pé?” (segue o silêncio de Alex) No answers…  Tá na balada, aí chega alguém, assim e “nossa, tu é muito gata, acho que te pegaria escondidinho…”

Alex: Eu, não. Xô!

Dan: “Nossa, você parece uma mulher perfeita! Já fez alguma plástica?”

Alex: Eu sou uma mulher. Não, nunca fiz.

Dan: Aí, aquela máxima, né, que é sobre profissão. No caso, você é formada em Design, então eu vou te fazer como se você fosse de Design. “Mentira que você é Designer!”

Alex: Não, queridinha, eu sou a rainha… (ela ri, Dan ri depois)

Dan: você sabe que essa última pergunta é, na verdade, estereotipada, né, já acha que vai ser puta, cabeleireira, ou maquiadora, que é o que eles sempre esperam…

Alex: O que, graças a deus, está mudando, né, gente. Cada vez mais eu vejo travestis…

Dan: E não que fazer programa é ruim, né, assim, só que…

Alex: Não, não acho. Inclusive, tenho amigas travestis que adoram. Que adoram. Estão lá na Itália, fazendo seus bons Euros. Mas não é obrigatório que todas sejam, né.

Dan: Nós já falamos aqui sobre feminismo radical, nós já falamos de preconceito de trans pra trans. Como estamos, agora, com tempos políticos, né, não sei se você viu algumas candidaturas. Você até me falou de uma, mas agora apareceu mais duas. Que é o caso do Tammy, e é o caso da professora Luiza Copiters. Você chegou a ver? Você chegou a ver? (incompreensível) chegou a fazer uma postagem de vídeo e lançou um texto, ontem, que eu não li.

Alex: Eu não consegui ver o debate inteiro, mas sim, eu sigo a professora Luiza, sigo, sim. O Tammy, não, porque ninguém merece.

Dan (entre risos): Isso que eu ia te falar. Qual o impacto que você acha que uma pessoa transexual que, às vezes, não entende o seu papel político, pode causar, assim, de negativo para as políticas, em nível municipal?

Alex: Acho muito mau. Eu acho que o Tammy é reflexo de uma sociedade idiotizada, porque eu acho que ele é uma pessoa idiota. Que uma pessoa capaz de entrar naquele partido que oprime ele próprio. Eu não sei o que ele tá querendo. Mas, também, não dá pra cobrar muito, né, tipo, se a gente for perceber da onde ele vem… Nada contra dona Gretchen, mas a dona Gretchen não é um poço de sabedoria, né. Então, eu acho péssimo. Mas, tipo, acho que ficou claro o quão discrepante é e foi aquele debate, em relação à professora Luiza, que é uma filósofa. Colocam lá pra discutir com o Tammy, eu acho que o Tammy só passou vergonha. Eu acho que ele faz um desserviço brutal, ele é um desserviço. Nada contra a pessoa, mas o que ele tá tentando fazer, o que ele espera fazer… E eu acho que ele é bem capaz de ganhar isso, hein…

Dan: Eu fiquei pensando, será que ele consegue galgar umas escadinhas e aprender algumas coisas, se posicionar melhor politicamente no futuro, ou piora?

Alex: Eu espero que sim. Eu espero que sim. Eu espero que, durante esses debates, ali quando acaba, as pessoas, no caso, a professora Luiza poderia procurá-lo e poderia colocar alguma coisa na cabeça dele, poderia incentivá-lo a ler. Sei lá, dar algum conselho, porque não é possível que ele saiba… que ele tenha consciência do que tá fazendo. Eu não acho isso normal. Eu acho que ele é ignorante mesmo, porque entrar num partido desse, que é completamente homofóbico, transfóbico e declaradamente contra tudo o que a gente espera que evolua… Toda a pauta LGBT, aquele partido é contra, né. Então, como é que ele vai se meter lá? O que ele quer? Aparecer (eles soltam risos). Volta pra novela da Glória Perez, que daí ganha mais…

(VINHETA: efeitos sonoros de distorção do áudio, uma voz anuncia “Momento Super heroína do dia!”)

(FADE IN E FADE OUT DA TRILHA SONORA)

Dan: A gente chegou ao fim do programa, e eu sempre tenho uma pergunta padrão que, ao fim do programa,  eu gostaria de te falar. Então, se você fosse uma super heroína, com poderes, assim, além desses que a gente já tem de militância, qual seria o seu super poder e o porquê desse super poder seu?

Alex: Eu teria uma super união trans. Eu já disse isso, em algum lugar, mas eu vou repetir. Eu vejo dois lados desse movimento. NO caso, eu to falando pelas trans. Por um lado, eu vejo as travestis e transexuais militantes, super empoderadas, super inteligentes, mestres, doutoras, em suas faculdades da vida, super incrível. Eu acho que elas fazem um papel importante, mas também acho que elas se enganam e erram feio, quando elas falam somente pra elas. E eu vejo o outro lado, das travestis que não tiveram oportunidade, que não conseguem escrever duas linhas sequer do Português correto, que estão na bosta, são prostitutas, nunca estudaram, não tiveram a oportunidade. E eu acho que esses dois, tanto as travestis militantes, como as travestis de rua sem oportunidades, estão em dois mundos paralelos distantes. Eu acho que se pudesse unir um pouco de conhecimento dessas travestis militantes e transexuais militantes, que têm tanto conhecimento, mas eu acho que ainda não entenderam bem que o que elas falam não chega, não consegue chegar a essas travestis de rua, que ainda estão sendo massacradas, humilhadas, e o máximo que elas têm é a alegria, tirar fotos e dinheiro que elas conseguem na noite. Eu acho que isso tá errado. Eu acho que tanto umas precisam mais de empatia, como essas outras meninas que não têm nada, a não ser a violência. Enquanto eu acho que essas meninas trans de rua precisam de mais informação, eu acho que essa informação não chega. Tem alguma coisa que barra ali. Porque a gente vai ler… Eu não sei… Não sei se é porque as militantes escrevem PARA as militantes. A gente vai ler um texto, de uma militante qualquer que seja, com poucas, raríssimas exceções, são textos de três páginas com palavras que a gente precisa do dicionário pra saber o que significa. Aquilo nunca vai chegar na travesti de rua, semi analfabeta. Então, tem alguma coisa que precisa mudar. Precisamos unir toda essa camada trans e nos transformar em uma única força. Não a força das inteligentonas contra as burronas. Vamos juntar, gente, vamos juntar…

Dan: Seu super poder seria a interseccionalidade, então…

Alex: É… seria a união. A união trans. Porque eu vejo todo dia… Eu tenho lá nas minhas redes sociais as super inteligentes e as travestis analfabetas. E alguma coisa aí não consegue chegar, não consegue unir. Tá faltando. Que eu acho, assim,que as militantes não pensam e não falam pras que estão sofrendo, nas que não têm informação. Enquanto as que estão na rua, se prostituindo, são alienadíssimas, pensando em dinheiro e salto. O que realmente não importa, né, gente. O que importa é o empoderamento, uma palavra bem nova, né, que eu não usava há cinco anos atrás, mas tá super na moda (ela solta um riso, Dan também). Mas tem tanta coisa nova chegando. Não sei se eu que sou atrasada… Mas, antigamente, cinco anos atrás, não ouvia falar de feminismo radical e empoderamento… Ah! Eu queria falar outra coisa, eu queria dar uma dica, também, gente, de um canal de uma mina trans, negra, periférica, que está na universidade. Eu acho ela incrível, ela tem muito mais a falar do que eu. Ela tem uma outra vivência, ela tem 21 anos de idade, é negra, é pobre. Se chama “Barraco da Rosa”, joguem isso no Youtube. Ela se chama Rosa Luz. Ela é incrível, ela é incrível.

Dan: Eu vou colocar no link da postagem a…

Alex: Eu acho que ela é incrível. E tem também a professora Luiza, tem a Magô Tonhon. A Magô Tonhon também tem um canal no Youtube. Adoro elas, apesar de achar que, às vezes, elas erram na mão, com aqueles textos enormes que dificultam a vida de todos, né, porque quem vai seguir aquilo é só quem faz mestrado e doutorado na faculdade. Que não é o caso de 98% das travestis.

Dan: Eu gostaria, agora, de te agradecer, né, imensamente, pela oportunidade…

Alex: Imagina, foi um prazer.

Dan: … de bater esse papo, por me ensinar algumas coisas. Aprendi. Eu adoro fazer esse programa, porque a gente acaba aprendendo, também, muita coisa, e me dá umas dicas, e… Aprendi muito. E, assim, eu gostaria de te agradecer pela oportunidade, pela disposição, por compartilhar sua vida conosco.

Alex: Eu que agradeço. Então, gente, eu queria agradecer, porque eu acho super importante que a gente tenha espaço. Que mulheres trans tenham um espaço de fala, porque é tão raro, é tão difícil, são tão poucos os meios que a gente pode falar. A gente é negada de tudo. Mas eu queria agradecer e eu queria, também, pedir desculpa se eu parecer ser uma pessoa, sei lá… a gente também erra, né, e a gente pode acabar falando bobagem, pode acabar magoando algumas pessoas. E não foi o caso. Tudo o que eu falei foi referente à minha vivência, ao que eu passei, à minha vida, tendo noção dos meus privilégios. Foi isso. Um beijo!

Dan: Um beijo!

Alex: Ai, e venham me visitar em Portugal, gente, eu tenho espaço para todas.

Dan: Ah! Faça uma propaganda, aí, do seu negócio.

Alex; Então, gente, como eu já fiz no começo, eu sou empresária de um ramo de turismo. Eu tenho aqui várias, várias casas que eu coloco todo mundo pra molhar a bundinha na praia. Venham, que se for brazuca e se for travesti, ganha 20% (ela ri).

Dan: tá vendo, gente? Fica o jabá, aí, da Alex, pra todo mundo ficar sabendo. Ela mora em Algarve, né, e quem quiser molhar a bundinha na praia, tem a dica aí.

Dan: Então, finalizamos aqui mais um programa. Alex, novamente, muitíssimo obrigado, você foi uma fofa comigo. Eu aprendi muitas coisas contigo. E, falando aqui sobre a indicação do livro. Ao final do programa, eu sempre indico um livro, né. O livro de hoje é o “Viagem Solitária: Memórias de um Transexual 30 anos Depois”. Esse é um livro biográfico do João Nery, e o que eu tenho aqui é da 4ª edição, da Editora Leya. Esse livro você pode comprar nas principais lojas virtuais do Brasil, como eu fiz. Só pra ter ideia, em alguns sites, o livro já esgotou, o que eu acho muito bacana. Agora, sobre o livro que eu citei 15 dias atrás, da Jaqueline Gomes de Jesus, gostaria de fazer um adendo. Vale a pena ler mesmo. Além de tudo, esse livro trata sobre LGBTfobia em nível geral. Ele tem capítulos específicos para cada situação. Então, lesbofobia, bifobia, transfobia, e ele vai construir relatos de histórias e a Jaque faz um cruzamento com a teoria muito genial e, por possuir uma linguagem muito simples, clara e objetiva, ele é de fácil entendimento para qualquer pessoa e pode ser usado pra fins didáticos, também. Agora, voltando ao livro do João, eu queria dar um resumão rápido aqui, sem fazer spoiler, né. Mas o livro conta o percurso dele, né, e as relações… Desde como ele constrói essas relações dele, por exemplo, os primeiros amores, a primeira “monstruação”, que é o termo que ele dá. Enfim, eu não posso falar muito, porque eu vou acabar dando spoiler. Mas é um livro que tem uma narrativa gostosa, ela te prende. Você não consegue parar de ler. É um livro que se lê, ou em uma sentada, ou em duas sentadas, literalmente. E também vale ressaltar que o projeto de lei de identidade de gênero do Deputado Jean Willis leva o nome, né, do João Nery, que é chamado “Lei João Nery”. Esse projeto já foi muito atacado pela bancada evangélica e conservadora. Infelizmente, mas é a realidade que nós temos em nosso país, sobretudo no legislativo. Então, pessoal, por fim, não se esqueçam de curtir nossa página no Facebook, que é chamada “HQ da Vida” também. Estamos com uma novidade, fizemos um canal no Youtube, então corra lá e assine o nosso canal também. Nos deem essa força, apoiem nosso projeto. E, logicamente, também, o nome do canal é “HQ da Vida”. E, por falar em Youtube, estamos fazendo um novo projeto, nós estamos precisando de uma galera, um grupão mesmo, pra nos ajudar a transcrever os episódios. O interessante seria termos a iniciativa de várias pessoas, para transcrevermos pequenos trechos e não sobrecarregar ninguém. Essa ideia visa criar acessibilidade pra pessoas com deficiência auditiva. Então,se vocês souberem de alguém, ou tiverem interesse, compartilhem essa ideia, entrem em contato conosco. E todo mundo já sabe né, nosso email é hqdavida@gmail.com; a página, já disse pra vocês, é “HQ da Vida”, só pra reforçar. O nosso canal é o “HQ da Vida”. E se você quiser contar uma história, ou mandar uma cartinha, ou reclamar, ou puxar a minha orelha, dar dicas, ou criticar mesmo o programa, pode entrar em contato conosco. O seu feedback é muito importante pra nós. Ok? Um beijão e até a próxima. Bye-bye, pessoal.

(FADE IN E FADE OUT DA TRILHA SONORA)

FIM

 

(Transcrito por Sidney Andrade)

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