Transcrição – #10 LGBTTs: Mrs Universe

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TRANSCRIÇÃO – HQ da Vida #10 LGBTTs: Mrs Universe

 

Vinheta de abertura: entre efeitos sonoros de impacto, uma voz com reverberação anuncia “HQ DA VIDA, o seu podcast sem quadrinhos.”

(Trilha sonora de Background alusiva a histórias em quadrinhos)

 

Dan: Olá, pessoal. Aqui é o Dan Carreiro.

 

Sidney: E eu sou Sidney Andrade. Eu fico pensando em maneiras de dizer o meu nome, assim, pra não soar cafona, mas eu não… Eu sempre fico meio envergonhado (eles riem).

 

Dan: Por que você não fala “Sid”?

 

Sidney: Tudo bom, Dan?

 

Dan: Tudo ótimo. Então, pessoal, estamos com o nosso décimo HQ da Vida.

 

Sidney: Ai, Jesus, quem diria que chegaria este dia desta marca histórica de 10 HQs…

 

Dan: E no nosso décimo HQ da Vida, estamos com uma pessoa muito especial. Vamos falar logo, logo mais. Mas antes disso, temos que falar que esse é um podcast que, como alguns já sabem, tem como objetivo contar histórias. E estamos aí já no nosso segundo ano, e estamos falando de histórias de super LGBTs. Espero que vocês curtam, compartilhem e nos deem críticas sobre o programa. O seu feedback é muito importante pra nós. Então, Sid, diga aí pra nós quem é nossa convidada, e chame-a, por favor.

 

Sidney: Com muito cuidado para não errar o nome… (Dan ri) Eu gostaria de chamar a queridíssima Suzane Jardim! (Dan comemora)

 

(EFEITOS SONOROS: APLAUSOS SEGUIDOS DE VOZERIO DE CRIANÇAS COMEMORANDO)

 

Sidney: Não errei.

 

Dan: Amém.

 

Sidney: Ai, desculpa, Suzane.

 

Dan: Então, vamos lá, Suzane.

 

(FADE IN E FADE OUT DE TRILHA SONORA)

 

Suzane: Então, meu nome é Suzane. Eu sou mais conhecida aí nas redes sociais como Suzane Jardim. Já virou um nome artístico, uma piada interna da minha família. Eu tenho 26 anos. Eu sou historiadora, formada pela USP. E geralmente eu encaminho os meus estudos mais pros estudos de questões raciais e questões de gênero, tanto aqui no Brasil quanto nos Estados Unidos. Minha área é mais limitada assim, né. Eu sou mãe de um garotinho de 8 anos, que é, assim, a razão do meu viver, a melhor coisa da minha vida, não é mesmo? Quê mais? Eu escrevo nas redes sociais, eu faço pesquisa na área e, atualmente, estou procurando emprego, caso alguém aí tenha uma vaga de historiadora, né, pode mandar aí pro pessoal.

 

Dan: Fica a dica.

 

Sidney: Gente, essa mulher no mercado, disponível, vocês perdendo tempo, gente.

 

Suzane: Um absurdo, não é, gente?

 

Sidney: Eu acho.

 

Suzane: Esse é o retrato da crise, entendeu. Se eu estou disponível, o resto então, não tem chance (risos). Não, é brincadeira, né. Eu sou super humilde. Mas, continuando…

 

Sidney: “Só estou sendo realista, não é mesmo?” (risos)

 

Suzane: Exato. Então, em linhas gerais, é isso, né mesmo. Eu sou bissexual, né. Atualmente, eu tenho uma militância, assim, que é muito mais voltada pros estudos mesmo, né, nessas questões tanto de gênero, de sexualidade, de raça. E eu tô aqui pra a gente conversar um pouquinho, vamos ver no que vai dar. Espero que seja legal. É isso.

 

Dan: Boa apresentação. Primeiramente, eu gostaria de te agradecer por aceitar esse convite, que eu sei que foi difícil a gente bater a agenda, né (ele ri).

 

Suzane: É, doeu bastante, foram muitos meses de luta, mas finalmente saiu, e estou muito feliz e realizada por isso (risos).

 

Sidney: Estamos todos.

 

Dan: Eu estou amando. Na verdade, é o seguinte, a gente… Tem hora que eu chamo umas pessoas pra participar do programa, no Inbox, e eu tenho essa seguinte mentalidade, ninguém é o brigado a responder as coisas no prazo que a gente quer, ou até mesmo responder. Porque a gente, às vezes, visualiza, e tudo mais… igual aquele dia, você falou que visualizou a mensagem, e que não tinha visto, e pediu perdão. Eu falei, não. Eu imaginei que você viu, correu e passou. Ainda mais, eu imagino como seja seu Inbox, né. Deve ser bem lotado. Então, eu falei assim, pronto, já era. Mas eu fico, assim, guardando, daqui a uns três meses eu mando de novo. “Oi, sumida?” (Suzane ri)

 

Suzane: Bom, você viu, né? Então, funcionou, deu tudo certo, tamo aqui, sem problema. É isso.

 

Dan: Então, gente. Hoje, a gente tá aqui pra falar sobre bissexualidade e, também, usar aí um recorte, né. Essa bissexualidade com maternidade. Como que funciona, como que é. Como que é esse desenvolvimento desse “se conhecer”. Então, Suzane, primeira pergunta que a gente faz do programa é a mais clichê assim, que é quando você começou a perceber que tinha, por exemplo, atração tanto por meninos quanto por meninas, assim? Quando foi o seu primeiro insight?

 

Suzane: Então, o meu primeiro do primeiro insight foi a primeira vez que eu ouvi falar de sexualidade na minha vida, sabe, quando criança mesmo? Que vieram me explicar que menininhas ficavam com menininhas, e aquela coisa toda que, às vezes, as professorinhas fazem, e tal. E assim, eu ouvi aquilo e não entendi nada, porque pra mim não fez o menor sentido. Entende? “Ah, claro! Ok. Ok. Anotei aqui no papel, não é mesmo”. Só que, assim, quando você é criança, obviamente, isso é menos aflorado, né. São outras relações. Aí, eu lembro que, sei lá, aos onze anos de idade, foi a primeira paixonite de escola, né. E aí, foi uma menina. E foi aquele drama enorme, tipo, eu conto, eu não conto. Porque minha mãe, ela nunca foi assim tão legal quanto eu sou, se é que vocês me entendem… (risos) Não, minha mãe é bem conservadora, bem rígida. Meu pai é um português católico, daquele tradicional, sabe. Então, assim…

 

Dan: Nossa.

 

Suzane: É, pois é. Ninguém entende como saiu isso aqui que eu sou. Nem eu…

 

Dan: Meu marido é metade português.

 

Suzane: Olha só! Pois é. Meu pai é inteiro, você imagina a minha dor. Mas, enfim (risos). É que de verdade, o povo português, assim, pelo menos o das décadas mais antigas… Meu pai nasceu na década de 50, eles são bem conservadores, bem tradicionais, são muito católicos, né. Então, por muito tempo, foi uma convivência pesada, né. Então, por exemplo, essa primeira paixão eu obviamente não contei. Obviamente, não externalizei de modo algum. E aí, foi aquela coisa de se forçar sempre a gostar de algum menino porque, obviamente, eu não podia ser lésbica. Minha mãe ia me matar, sabe, assim. Aquele tipo de relação…

 

Sidney: E foi a primeira coisa que você pensou, Suzane, que você era lésbica?

 

Suzane: Foi. Eu nunca tinha gostado de menino nenhum (risos). É meio óbvio, né. Eu falei, meu deus, olha que delícia de menina. E, tipo, era uma menina dois anos mais velha, que não tinha nada a ver comigo. Ela era super popular, eu comia cola. Sabe, aquele tipo de coisa… (eles riem alto)Exato. Mas a gente sonha, né.

 

Dan: Olha, só dando um adendo aqui, que eu tô meio… Hoje eu tô mais aéreo, mas eu vou só falar que você falou que comia cola, eu comia cola com borracha. Só pra… (ele ri)

 

Sidney: Era o recheio e a massa…

 

Suzane: Menino, tipo gourmet, gostei. Incrementando.

 

Sidney: Fica a receita.

 

Dan: (rindo) Fica a dica pra as crianças do futuro.

 

Suzane: (rindo) Ok. Vou falar pro meu filho. Vai que… Né…

 

Dan: Oh, não, o Theo tem a imaginação fértil demais, eu acho (ele ri).

 

Suzane: É, exatamente. Melhor não dizer, né, porque ele testa. Eu sei. Então, não. Mas, continuando. E nos meus primeiros interesses, assim, amorosos, eu sempre tive esse receio. Porque, realmente, na minha família a gente tem uma… Eu tenho, né, uma prima, ainda hoje, obviamente, a gente tem, todos temos, uma prima que é lésbica. E eu vi o processo dela se assumir, né, e tal. E eu ouvi os comentários dentro de casa. E aquilo era extremamente dolorido, sabe, assim. Então, assim, por muitos anos, não se falou nesse assunto. E eu tinha o costume de inventar menino na escola. Sabe aquela coisa? Eu inventava. “Mãe, tem um menino lindo que se chama Daniel!” Eu não tinha nenhum Daniel na minha sala. Sabe, porque eu tinha pânico, sabe. Eu tinha pânico. Até que, finalmente, aconteceu de eu me apaixonar por um cara.

 

Dan: Hum…

 

Suzane: Sabe, por um garoto, por um menino, coisa de uns dois anos depois. E aí, eu não entendi foi nada.

 

Sidney: Eita. TOU CONFULSER!

 

Suzane: Exato. O que é muito normal, né, eu acho. Não sei exatamente, né. Só que foi uma idade onde, realmente, contato amoroso, contato sexual não tinha. Até porque eu era aquela criança gorda, sabe, assim, da escola? Que ninguém quer nem ter amizade. Imagina algo a mais, né. Então…

 

Sidney: Mas gente! Como é que essa pessoa tá contando a minha história na boca dela?

 

Dan: Sei como é.

 

Sidney: Estou ouvindo tudo.

 

Suzane: Ah, me abraça! (todos riem)

 

Dan: Eu era o gordo que comia cola com borracha.

 

Suzane: (incompreensível) No fundo, é tudo uma história só. Não é lindo isso?

 

Sidney: Verdade. Sim, sim.

 

Suzane: E aí, foi basicamente assim. Aí, eu lembro que teve uma vez que a Shakira lançou um dos primeiros clipes dela… (ela ri)

 

Sidney: (rindo) Ai, que maravilhoso! Uma história que entra a Shakira, eu só quero ouvir.

 

Suzane: A Shakira lançou um dos primeiros clipes dela, assim, era uma coisa que tava estourando no Brasil. Nem lembro mais qual era o clipe. E eu lembro que eu tava vendo o clipe, minha mãe entrou. E aí, ela me deu aquele sermão absurdo, porque ela achou que eu não estava vendo o clipe como uma moça direita. E eu fico pensando o que eu estava fazendo (ela ri).

 

Sidney: como assim? (risos)

 

Suzane: Eu acho que era aquele “Wherever, Whenever”. Sabe, na época d’O Clone? Eu era jovem ainda. Eu era muito menininha.

 

Sidney: Ah, e nunca descobriu o que tava fazendo de errado?

 

Suzane: Não! Na minha visão, eu não tava fazendo nada de errado. Eu estava admirando uma mulher maravilhosa. (risos) Entende? Mas mamãe não entendeu desse jeito. E aí, começou uma série de provocações lá em casa, sabe assim? “Nunca te vi com um homem, o que tá acontecendo?” E tal. E assim, quando veio o meu primeiro beijo, por exemplo, foi com um cara que eu não tinha a menor atração, sabe. A menor atração. Mas, basicamente, foi um cara que foi na minha casa, falou que gostou de mim, queria me beijar. Eu pensei, meu deus, ele vai me beijar na minha casa? Minha mãe pode  ver? É minha chance! (eles riem alto)

 

Sidney: Não vai desperdiçar, né?

 

Dan: “vou resolver isso aqui, agora!”

 

Suzane: Exato. Entende? Então, assim, geralmente, na minha pré adolescência, adolescência, essa relação era bem complicada. Até que, finalmente, realmente, eu conheci o pai do Theo. O pai do Theo foi o primeiro cara com quem eu realmente me apaixonei. E aí, foi engraçado porque a gente foi se gostando pelo contato na internet. A gente, antes de, tipo, falar sobre questões sexuais ou qualquer coisa do tipo, a gente falava muito sobre depressão. Sabe, sobre depressão, sobre abandono e sobre se esconder, porque ele também é bissexual.

 

Sidney: Hum, olha só! Se encontraram.

 

Suzane: É, então. Pois é, a gente se conheceu no Orkut, essa plataforma maravilhosa do amor, não é mesmo?

 

Sidney: Sim, nunca morrerá em nossos corações.

 

Suzane: (incompreensível) E aí, assim, a gente teve um contato de muito conversar mesmo, de se abrir um pro outro, não é? E aí, foi um processo muito natural, quando a gente finalmente se encontrou pessoalmente, a gente engatou um namoro. Foi polêmico lá em casa, porque eu era jovem demais pra namorar, eu tinha 15 anos, sabe. Família super conservadorazinha. Primeira filha, 15 anos, não. Não está na idade. E aquele tipo de coisa, não julgo também. Eu acho que meu filho, com 15 anos, eu vou falar, “Não! Não vai namorar de jeito nenhum!” Mas eu sei que eu to errada. E aí, foi. E eu acho que, assim, com essa relação eu descobri a minha bissexualidade definitivamente, porque eu percebi que eu realmente amava ele, sabe. Não era uma relação forçada do tipo “eu estou fazendo isso pra provar pra alguém”. E assim…

 

Dan: Pra cumprir tabela.

 

Suzane: Exato. É, foi a primeira vez. Muito pelo contrário, minha mãe odiava ele, porque achava ele feio e pobre, sabe. Então, não. Eu ia ter que lutar pra caramba pra conseguir ficar com ele também. Então, não fazia mais sentido. E foi aí que eu percebi. E também, eu conheci outra pessoa que tinha as mesmas questões, né. Que ele também tinha família religiosa, morador na periferia, um local com muito preconceito. E ele saía com alguns caras, e ele tinha certo receio das pessoas descobrirem isso. Foi uma coisa que ele sempre escondeu. E eu nunca tinha conhecido ninguém assim na minha vida, sabe. Às vezes, lia alguma coisa ou outra. Então, foi assim, foi esse processo de me descobrir. Em linhas gerais, foi isso. Eu falei demais, né, pra a primeira pergunta.

 

Sidney: Nossa, maravilhoso! Mas eu fiquei com uma questão. Antes de conhecer o pai do Theo, você chegou a ter alguma relação, algum relacionamento com outras meninas, ou ficou só nas paixões?

 

Suzane: Não, antes de conhecer o pai do Theo, eu beijei três bocas (ela ri). Eu realmente não era uma pessoa, assim, muito querida e muito favorecida fisicamente, se é que vocês me entendem, não é mesmo.

 

Sidney: Mas gente!

 

Suzane: Então, assim, um processo complicado. Antes de conhecer o pai do Theo, eu tinha ficado com três pessoas, três caras, no contexto de… Esse que foi na minha casa, ou estou bêbada. Porque, né, gente de 14 anos fica bêbada, essa é uma realidade que a gente tem que tratar no Brasil, é um problema social gravíssimo…

 

Sidney: Ai, sim.

 

Dan: Sim, meus 14 anos…

 

Sidney: Mas é mesmo.

 

Suzane: É amigo, muita Cantina da Serra… Muito vinho barato, não é mesmo?

 

Dan: Cantina das Trevas! Você tá definindo minha vida. Você tá contando minha vida aqui nesse podcast. (Suzane ri) E olha que eu nunca contei a minha, viu.

 

Suzane: Pois é, pois é. E aí, foi isso, entendeu. Então, eu nunca tive, por exemplo, uma relação de verdade com ninguém. Ou aquele processo de flerte, sabe. Muito pelo contrário, eu ficava vendo as outras garotas, eu falava, gente! O que eu tenho? Qual é o meu problema? Eu me sentia, assim, uma trevosa, a pior ser humano do mundo. Porque quando você tem essa idade, as relações afetivas, elas vão meio que condicionando, né, a sua visão de si. Se você não tem um monte de gente falando que você é linda, então obviamente você não é. Hoje a gente, né, trabalha isso, vai na terapia, chora… (risos)

 

Dan: Sim, sim.

 

Suzane: Mas na época, era complicado. Então, assim, o pai do Theo foi a minha primeira relação de verdade, digamos assim, né. Ai, mentira, teve uns dois beijos também, afora…

 

Sidney: Olha aí!

 

Suzane: Não, mas aí, eu que fui cuzona, sabe. Assim, menininha da escola, “Ai, você já teve curiosidade de beijar menina?” “Ai, já, você tem coragem?” “Não.” “Pô,mas eu sou tão sua amiga!” Sabe, assim? Mas eu fui pilantra. (risos)

 

Dan: “Beija aqui, fica só entre nós.” (ele ri)

 

Suzane: Exato. É, não, aí eu acho pilantragem. Não conta, né. Fora que são tudo hétera evangélica hoje, então, leva até isso na lista… (mais risos)Não funcionou.

 

Dan: Agora, essa fase escolar, ela é uma fase, assim, muito tensa. Eu, por exemplo, não lembro com amores da fase de escola. Assim, escola pra mim não foi um ambiente muito saudável. É um lugar que as opressões são muito mais fortes, eu acho que elas são extremas.

 

Suzane: Ai, nem me fala…

 

Dan: A opressão por ser gordo, por ser gay, por ser negro, por ser qualquer coisa assim. O que destoa do que é padrão da sociedade, ali a gente sofre com muito mais intensidade, ou então até apanha, né, no caso.

 

Suzane: Exato. Eu que sou mãe, tô sofrendo duas vezes, né.

 

Dan: Sim, imagino.

 

Suzane: Com meu filho, eu também tô passando por isso. Então, não é agradável, não. Mas a gente vai tentando. Eu acho que um diferencial, por exemplo, é… Eu ser o tipo de mãe que preza muito pelo diálogo e pela abertura, né. Então, assim, a certeza que eu tenho é que meu filho vai sofrer menos do que eu sofri. Já dá pra ver no que anda acontecendo, assim, nos últimos dias… Mas é uma história à parte, vale outro podcast, né, mas enfim.

 

Dan: Mas eu imagino que o ambiente escolar é um ambiente, assim, é um ambiente… Eu não sei, a gente pega as opressões e multiplica por dez.

 

Suzane: É, sim. É, provavelmente. Provavelmente, porque a criança tem essa tendência de fazer uma reprodução sem reflexão. Sabe assim, ela ouve na rua, ela ouve em casa…

 

Sidney: Ai, quem me dera fosse só as crianças, viu, Suzane…

 

Suzane: Exatamente. Exatamente. Só que, assim, essa reprodução é sem uma grande reflexão, porém, o receber isso traz uma reflexão, né. A gente guarda. Então, é bem complicado.

 

Sidney: E na infância, quando é tudo muito intenso, também, né, aí todas as verdades são muito absolutas.

 

Dan: Muito.

 

Suzane: Exatamente.

 

Dan: Agora, um recorte que eu acho interessante a gente fazer nessa conversa, Suzane, é a questão da periferia. Por exemplo, a minha vida, ela é mesclada em Parte 1, Parte 2, sabe.

 

Suzane: Aham, sei.

 

Dan: A Parte 1 é escola de periferia, e eu sofri algumas opressões. E a Parte 2, que foi quase indo pro Ensino Médio, deu uma reviravolta na vida da minha mãe, e ela conseguiu pagar uma escola boa pra mim, e eu saí da periferia. E aí, foi Parte 2. E assim, são opressões diferentes que a gente sente.

 

Suzane: Claro, com certeza.

 

Sidney: São violências diferentes.

 

Dan: Violências diferentes. Mas dói do mesmo jeito, assim. Dói, só que dói mais na Parte 1. Entendeu? Assim, pelo fato de entendimento…

 

Suzane: Que é o que te forma.

 

Dan: É o que me formou. As mães da escola, assim… Eu lembro que era um ambiente bem complicado. Por exemplo, você chegou a observar… Na escola, pelo que eu entendi, você passou batido de lésbica. Não pegou sua carteirinha… E nem de bissexual, naquela época, né… Então…

 

Suzane: Nem de nada. Uma pedra.

 

Dan: Guardou a carteirinha… E era roqueira, que eu já vi no seu Facebook, né?

 

Suzane: Eu era punk, amigo. Nossa, altas histórias. Altos rolê errado (risos).

 

Dan: Então, mas você já presenciou, por exemplo, meninas que se assumiam lésbicas ou bissexuais, ou então até os meninos, e como que funcionava aquele rolê ali, aquela loucura?

 

Suzane: Então, curiosamente… Curiosamente, não. Eu acho que é, de certo modo, uma tendência. Jamais dizendo que lésbicas sofrem menos. E não, não é essa a questão. Longe de mim. Mas o que eu via, assim, na dinâmica escolar, é que os meninos sofriam muito mais, não necessariamente por serem gays, sabe, muitos deles, que eram os que apanhavam, e tal, eles cresceram e não são gays. Pelo menos, nunca se assumiram gays, né. Alguns, eu desconfio. Mas aí, eu guardo pra mim, não é mesmo? (risos) Mas enfim… Eu percebia que esses meninos, era um embate direto. Entendeu. Tipo, os outros garotos, eles literalmente batiam, eles não tinham nenhum receio em ofender, esse tipo de coisa. Agora, por exemplo, na minha vida escolar, eu lembro de duas garotas lésbicas. E elas eram… Por exemplo, eu tinha… Vamos supor, doze anos, elas tinham 15. E elas mandavam na escola, sabe. Elas mandavam na escola porque elas… Era muito engraçado, elas eram super populares, elas não eram um casal, sabe. Cada uma era de um espaço diferente. Elas se comportavam de modos diferentes, aliás. Mas elas tinham uma postura de… Como eu posso dizer… “Eu sou a garota legal”, sabe? Eu sou o contrário daquela menininha que usa rosa e que vai ficar com nojinho. Eu vou jogar bola com vocês. Eu vou, sabe, falar de sexo com vocês. É aquela dinâmica que eu vejo muito como proteção até, sabe, assim? É uma proteção, de certo modo. Então, assim, as referências lésbicas que eu tive na escola, elas eram uma referência que sempre estavam no mundo masculino. Elas não dialogavam muito com quem tava no grupo das menininhas, entende. Mas eu entendo muito bem isso, sabe. Você cunha mecanismos, aí, pra tentar evitar… Por exemplo, a violência que os meninos passavam. Porque, realmente, quando você tenta furar… Ou não precisa nem tentar, é uma coisa espontânea, né, que você quebra aquele muro da masculinidade, aquela coisa de ser moleque, de ser machão, você é muito cobrado pelos outros garotos da escola. E aí, assim, entre as meninas, a gente… A gente, não. Eu era muito de boa, tal. Minha irmã, aliás, beijou as duas (risos). É, a minha irmã era mais nova do que eu, e ela o total ao contrário. Sabe, assim? Gente, eu não sei o que aconteceu na minha vida. Enfim, e eu reparava que as meninas evitavam, sabe. As meninas que se assumiam como lésbicas, na escola. A gente não via elas juntas, a gente não via elas fazendo trabalho juntas, conversando era uma coisa mais rara. Então, elas iam e acabavam tomando o lado dos garotos, né, pra poder viver num ambiente melhor. Nós, menininhas, não viam elas como referência. Até pela aquela coisa preconceituosa que, talvez, dentro de casa, de “Não quero você falando com aquela menininha, né, que é meio macho”, e tal. Então, as meninas evitavam. Obviamente, isso também causa uma dor, né. Também tem as suas consequências, principalmente na vida adulta. Você sai com umas referências totalmente misturadas, né.

 

Dan: Sim.

 

Suzane: É, enfim. Mas era mais ou menos assim a dinâmica que eu via. Eu tava falando aqui do meu filho, porque meu filho tá passando exatamente por isso. Meu filho não cumpre muito bem o papel do que é ser um menininho, se é que vocês me entendem. Tipo, ele não é agressivo, de modo algum, muito pelo contrário, ele é extremamente fofo, criativo, ele fala baixo, sabe. Aquela coisa. E já aconteceu mais de uma vez, ele voltar machucado porque ele apanhou por isso. De ele vir me perguntar o que ele tem que fazer, porque os meninos não param de mexer com ele. Ele foi com uma blusa do Harry Potter, os moleques falaram que era coisa de gay. Eu falei, gente! como assim, Harry Potter, coisa de gay?

 

Sidney: Mas gente, NAONDE?

 

Dan: Quer dizer que as crianças da idade do Theo acham que Harry Potter é coisa de gay?

 

Suzane: É. Desculpa, faz sentido pra vocês? Pra mim, não. Pois é.

 

Dan: Não. É coisa de nerd. É porque, talvez, ele é o típico nerd. Eu já vi que ele gosta das mesmas coisas que eu gosto.

 

Suzane: Exato, talvez, entendeu. Então, assim, ele não tá lá cumprindo o papel que é zoar as meninas, que é ficar fazendo… Sabe? É aquela coisa que criança faz. E aí, eu tenho que lidar com isso. Eu tenho que falar com ele, explicar pra ele que o problema não é ele, que o problema são os outros. E assim, o meu filho assiste muito Steven Universe, sabe, o desenho.

 

Sidney: Mara… Ai, Jesus. Estou todo arrepiado agora. Esta criança maravilhosa.

 

Suzane: Exato. E ele assiste muito por vontade própria. Nem sou eu que chego aqui e falo, olha, toma, assiste, estou te doutrinando. Não.

 

Sidney: Ai, eu tô imaginando o Theo a carinha do Steven.

 

Suzane: É, quase isso, quase isso. Eu também penso nele assim. Mas é muito legal porque ele aprende coisas com o desenho, e ele reproduz. Sabe, assim? E é aprender mesmo. Eu lembro que quando eu fui na última reunião dele, a professora me chamou de canto e veio falar pra mim, mas em tom de piada, contando uma anedota, sabe. Que meu filho ensinou parte da classe que existiam mulheres que casavam com mulheres e homens que casavam com homens. Porque ninguém…

 

Dan: Já tá doutrinando o pessoal! (risos)

 

Suzane: Ai, eu digo, gente! Olha que…

 

Sidney: Eu quero esta criança!

 

Suzane: A sorte que eu tive de pegar uma professora legal, porque as minhas professoras talvez não gostassem disso, entende. E ela achou curioso. Perguntou, né, se alguém na família era casado. Eu falei, não, eu tenho muitos amigos que são gays, eu tenho muitas amigas que são lésbicas, eu prefiro falar sobre isso com meu filho do que ficar, sabe, fingindo que isso não existe, né. E aí, ele me falou, “Não, mãe, mas eu não falei por causa disso. Eu falei por causa do Steven, sabe, porque a Pérola é apaixonada pela Rose.” (risos)

 

Sidney: MARAVILHOSO! Ai, meu deus. Estou todo me tremendo com essa criança.

 

Suzane: Pois é, então. E aí, assim, a gente… E é como se você vivesse o seu período escolar de novo, sabe. Você vê os mesmos conflitos que você observava nos outros. Você tenta pegar o que você aprendeu na época, o que você observou, o que você achava horrível, pra trabalhar seu filho, pra ele não se sentir mal com quem ele é, sabe, assim. Não que… Eu não sei, não faço a mínima ideia, ele nunca falou sobre o assunto comigo, né. Eu não sei a sexualidade dele. Ele tem oito anos, né. Enfim…

 

Dan: Não é hora nem de saber sexualidade…

 

Sidney: Ele não pensa nisso, né.

 

Suzane: É, e tem muita gente que já… Quando você é mãe, é um saco, sabe. É um saco. Porque, assim, qualquer coisinha, eles já vêm te cobrar. “Ai, não, olha esse short, tá apertadinho demais. Vai virar viado!” Ou então, “E aí, já tá pegando as menininhas?” Pô! Com oito anos, sabe. É bem, é bem desagradável. Então, você tem uma cobrança pra que você estimule a sexualidade da criança cada vez mais cedo. Isso é reflexo da sociedade doentia que a gente vive, né. Loucura, mas enfim. Nossa, que digressão enorme, não é possível…

 

Sidney: Não… Tô adorando… E ao mesmo tempo que a gente… Bom, quem vê a diversidade sexual enquanto um problema sempre fala da ameaça sobre as crianças, como se falar sobre sexualidade fosse um problema porque estivéssemos estimulando uma sexualidade precoce. Quando, na verdade, o que acontece já… Isso já acontece de forma doentia mesmo, como você falou aí, né. A gente estimula uma sexualidade não saudável, não esclarece as crianças. E aí, acabamos criando esses monstros mentais, né…

 

Suzane: Perfeito. Ótimo. Perfeito, você definiu maravilhosamente a questão. Pra mim, é isso. Pronto.

 

Dan: Existe uma frase que as pessoas usam, e queria saber se você concorda. Que, por exemplo, a segunda vítima do machismo é o próprio homem? Eu sempre fiquei pensando sobre ela, porque talvez ela seja verdade, talvez ela seja polêmica, não sei. Que, por exemplo, a primeira vítima, obviamente, é a mulher, mas e a segunda vítima é o próprio homem?

 

Suzane: Então…

 

Dan: Tipo assim, no caso do Theo. Uma criança que não tem…

 

Suzane: Sim, eu entendi. Eu entendi, com certeza. Então, aí, eu corro o risco de ser polêmica também. Porque, obviamente, nada do que eu falo aqui é consenso, eu só estou respondendo por mim mesma, não é mesmo? Mas eu tenho tendência a concordar. Principalmente como mãe de menina… De menino. Né, assim, nossa, de menina, nem me fale, ia ser horrível, imagina o tanto de coisa que… Enfim, principalmente como mãe de menino, a gente vê, assim, no dia a dia, o quanto cobram posturas machistas de crianças. Entende? Cobram, eles cobram. Eles acham estranho o fato do meu filho não bater na coleguinha. Eles acham o fato do meu filho não chamar a amiguinha de gostosa. Eles acham estranho o fato… É, e assim, são coisas que me chocam, porque pra mim não faz o menor sentido. Mas elas são feitas com muita naturalidade, entende. E eu vejo que essa relação do machismo atingindo o homem, ela tem muita ligação com a homofobia também, entende. Ela tem uma ligação muito grande. Enorme. Eu acho que é um misto dos dois. Porque você cobra que essa criança, que esse adulto, ele se afaste ao máximo das posturas que são lidas como femininas. Porque, no fundo, não são femininas, não são masculinas, são posturas do ser, da pessoa, como ele se desenvolve.

 

Sidney: Essa divisão é criada, né. Inventada.

 

Suzane: Exato. Exatamente. Então, assim, obviamente, eu não acho comparável. Às vezes, você vê, assim, uns textões incríveis, assim, daquele jovem homem, muito solidário à causa, que diz, “Olha, eu sou muito solidário às feministas, mas a gente tem que parar para pensar no sofrimento do homem!”

 

Dan: Ah!

 

Suzane: Posso falar, vai se foder. Entende? Não, não é por aí.

 

Dan: Entendi. Por essa curva aí, essa curva é errada. Entendi mesmo.

 

Suzane: Exato. É, entendeu? Poxa, não. Eu acho que dá muito bem pra a gente fazer uma reflexão, trabalhando como o machismo e a homofobia, essa cobrança pra que você se afaste sempre de qualquer traço de feminilidade quando você é homem, ele também acaba refletindo no que as mulheres sofrem. Entendeu? Por exemplo, se um homem é criado sendo estimulado sempre a ser o mais machista, o mais misógino, o mais abusivo possível, ele cresce como um rapaz que, obviamente, não vai ter o mínimo respeito pelas mulheres. Então, é um ciclo, sabe. Exato, então, atinge, eu acho que… A base que atinge isso é principalmente nessa idade. Na infância e no começo da adolescência. Que é o trabalho que você faz, principalmente, com a educação. E não é uma educação, por exemplo, educação de pai, educação de mãe. Não. É uma educação coletiva. A gente tá inserido numa sociedade, uma criança, ela cresce dentro dessa sociedade, e ela, obviamente, tudo que ela sabe, tudo que aprende não é dentro de casa, sabe. Não é só dentro de casa.

 

Dan: É uma mistura, né.

 

Suzane: Exato. Tudo que a mãe me ensinou lá, sendo conservadora, rígida, caguei pra tudo, sabe. Entende? Então, o meio social vai ensinando os elementos que vão formar a pessoa adulta. Então, assim, o projeto de educação que a gente tem que ter pra criar crianças, entendeu, homens que não reproduzam isso, tem que ser totalmente diferente do que a gente vive atualmente, sabe. Enfim, deu pra entender?

 

Dan: Deu.

 

Sidney: Sim, ótimo.

 

Dan: Oh, Suzane, tem tantas perguntas que eu quero te fazer, que eu tenho que me policiar pelo timming. Mas eu to adorando…

 

Sidney: Deixa eu fazer uma, Dan?

 

Dan: Pode, pode fazer.

 

Sidney: É uma questão que sempre é batida e sempre é falada, que é a questão do apagamento bissexual. E eu queria saber o teu posicionamento sobre isso. Porque… bom, a gente tem a sigla, tem o B lá, mas o B quase nunca aparece, tem a questão de que os bissexuais não são levados a sério na sua sexualidade, porque são vistos como confusos, como indecisos. Alguns LGBTs consideram a bissexualidade como um disfarce pra não assumir as sexualidades opostas. E até eu já ouvi, inclusive, discussões sob… Eu queria a tua opinião sobre isso, discussões sobre o privilégio da bissexualidade, por causa da passabilidade hétero. (Suzane ri). Bom, é apontado por alguns homossexuais…

 

Suzane: Sim, sim. Eu sei.

 

Sidney: Como um privilégio, né. Eu queria entender isso. Como é que é isso pra tu?

 

Suzane: É uma questão muito polêmica, e que levanta muitos sentimentos, né, de todos os LGBTs em si. Mas, assim, voltando a dizer, falando só a minha opinião. Esse apagamento, obviamente, existe. A gente vê. Você não vê, sabe… Agora até que tá surgindo, tipo, sei lá… Black Mirror colocou uma mulher, né, que era bissexual lá, e tal. Que ela parecia que tava feliz, que amava o marido, mas tinha a outra que ela se apaixonou, enfim. Então, pareceu uma relação bissexual, né mesmo. Mas, enfim. Você não vê a bissexualidade sendo conversada, nem sendo representada. E isso é uma crítica que se faz com a qual eu concordo. Porém, por exemplo, eu vejo a coisa por dois lados. Tem essa questão de se dizer bissexual é um privilégio, e tal. E tem a questão contrário, de dizer que não ser bissexual é um privilégio. Eu já vi essas discussões acontecendo, sabe. Dizer que, por exemplo, existe um privilégio monossexual, e tal. E assim… Nossa, isso vai ser muito polêmico. Mas, pra mim, isso não faz nenhum sentido, sabe. Porque, principalmente quando você é mulher, sabe. É a minha imagem, é a imagem que eu tenho das coisas. Por exemplo, se você é uma mulher hétero, desculpa, você não tem nenhum privilégio, entendeu, em tá se relacionando com… Sabe, alguém que pode te matar de um dia pro outro, porque o mundo ainda não é desconstruído. O mundo não é a nossa bolha da internet, entende. Então, assim, na maioria enorme das relações entre homens e mulheres heterossexuais rolam abusos, rola estupro conjugal, rola uma questão de coisas. Você pensar isso como um privilégio só funciona se você pensar em leitura social e aceitação. E aí, eu concordo, a gente pode olhar por esse viés. Isso é verdade, nenhum casal hétero nunca vai receber uma pedrada, certo, por ser hétero. Porém, a mulher naquele relacionamento hétero, ela pode sofrer um monte de privações da sua sexualidade, como mulher hétero mesmo, entendeu. Aquela coisa, tipo, não… Vadia na cama, mulher em p… Sabe, aquela coisinha toda assim? Então, há de se fazer recorte sobre como esse privilégio funciona dentro de uma relação heterossexual pra a mulher. Certo? Então, eu acho complicado. É… Pera, deixa eu voltar… Deixa… É que quando o assunto é polêmico, eu fico, sabe, assim… do mesmo modo, tipo assim, o que é passabilidade hétero? (ela solta um riso) Vocês entendem? Não é assim, de certo modo, um reforço do que a gente tá tentando lutar contra? Entende? O que é exatamente isso? Existe um visual hétero, um visual gay. Então, se você não cumpre com o visual gay, você não é um gay de verdade. Se você não cumpre com o visual hétero, você tem mais é que apanhar? Eu não entendo muito essa relação. Então, eu acho que assim, as pessoas têm a tendência de querer analisar as coisas e colocar todas elas em caixinhas, entendeu, pra você conseguir explicar as relações humanas. Eu acho que isso é impossível. Isso falando como pessoa pesquisadora, formada em humanas, formada em História, que tem que ter o mínimo de Sociologia, Antropologia. Você não consegue explicar a diversidade, sabe, colocando nesses modos. Às vezes, sei lá, pode existir um cara bissexual que tem uma vida incrível e que nunca sofreu por isso, por ser bissexual. Assim como pode ter um cara que tem uma vida de merda, exatamente por ser bissexual. Porque as questões são flutuantes, entendeu. Tudo depende das pessoas com quem você se relaciona, com quem você se relaciona. Então, eu acho que, assim, até pelo fato de você nunca ouvir muitos bissexuais falando, de você nunca ver pessoas bissexuais no espaço, falando sobre suas vivências, é muito mais fácil trabalhar na onda dos achismos. E tentar…

 

Sidney: É que elas… Não há um espaço, né, onde elas… A voz delas seja relevante.

 

Suzane: Exato.

 

Sidney: Porque tá muito mais polarizado a discussão, então quem tá no entremeio… É que eu não sei, também, se eu falando que está no meio da polaridade a bissexualidade, eu também não to sendo um pouco bifóbico.

 

Suzane: (ela ri) Sim, sim. Não, fica tranquilo, comigo você pode falar como quiser. Depois você resolve aí com seus ouvintes. (Dan ri)

 

Sidney: Mas tu acha que considerar a bissexualidade no centro desses dois opostos, que é a homossexualidade e a heterossexualidade; ou mesmo no centro da relação homem e mulher, né, dos dois opostos, seria um tipo, também, de… Eu não digo de fobia, porque… Não sei, no discurso não parece ser uma rejeição. Mas como um modo de apagar também, né, como se não tivesse um lugar reservado…

 

Dan: Uma coisa neutra, zerada. Não é mais e nem menos.

 

Suzane: Então, aí que tá. Se você for parar pra pensar cientificamente, no sentido de plano cartesiano, colocar no centro, sabe, como organização, faz sentido. Sabe, assim? Faz certo sentido. Só que também essa questão de ser colocado no centro, ser colocado em posição neutra, ela também tem uma questão de discurso, sabe. Porque é como se as relações com essa pessoa bissexual fossem sempre pela metade, entende. Ela não é uma pessoa por inteiro. E isso é um discurso que você sempre ouve muito falar, entendeu. Tipo, eu não quero ficar com esse cara bissexual porque eu sempre acho que ele vai me trocar por uma mulher. OU vice-versa.

 

Sidney: Esse é o perigo de neutralizar, no caso, né, a bifobia…

 

Suzane: Exato, exato.

 

Sidney: A bifobia, não. A bissexualidade.

 

Suzane: Exato, exato. Porque aí você coloca como se realmente fosse essa pessoa tão maleável assim. Não é assim que funciona, entendeu. É uma pessoa completamente normal, sabe, que sente as paixões como qualquer outra. A diferença é que ela pode se apaixonar tanto por um sexo quanto pelo outro. E isso depende de relações, isso depende de conhecer, de ter contato. Não é essa questão do tipo, “Ai, hoje eu só vou pegar mulher! Mês que vem, só vou me relacionar com homens!” Não. Isso é um ser humano lidando com a vida, lidando com o mundo.

 

Sidney: Até porque, também, cai na falácia da escolha,né.

 

Suzane: Exato.

 

Sidney: Porque as sexualidades não são escolhas, são orientações, né, são direcionamentos.

 

Suzane: Exatamente.

 

Dan: Não é o velho e bom “opção sexual”, né.

 

Suzane: Exato. Aí, acaba reforçando um monte de preconceitos que são sociais e tão aí na sociedade, e que acabam prejudicando tanto a causa gay, quanto a causa lésbica, quanto… Sabe? Acaba todo mundo ferrado nessa panela. Então, esse que eu acho o problema principal. Prossiga.

 

Dan: Oh, Suzane, tem uma pergunta também, que eu fiquei pensando durante o seu relato, que é o seguinte. Você conheceu um rapaz também bissexual. E eu fico pensando assim, mulheres heterossexuais, quando pensam que um cara se diz bissexual…

 

Suzane: É gay! É gay…

 

Dan: (risos) Ela nunca vai conseguir imaginar ele como bi. Ele sempre vai ser gay. Nunca nem “semi-hétero”, né.

 

Suzane: Pois é. Exato, exato. Não, não, não. É aquela coisa, né. Homem bissexual é gay. Mulher bissexual é safada. Sabe, assim? É só isso.

 

Dan: Hum. É estereótipo, né.Típico, né.

 

Suzane: É.

 

Sidney: E também se o campo da diversidade sexual, das sexualidades divergentes da heterossexualidade, eles já são vistos como vulgares e…

 

Suzane: Sim.

 

Sidney: Ai, como é a palavra, gente? Esqueci. Mas, sinônimo de vulgar, né.

 

Suzane: Promíscuos?

 

Sidney: Promíscuos! Isso.

 

Suzane: Ai, obrigada.

 

Sidney: Ah, sintonia! Se já somos vistos como promíscuos, eu acho que a bissexualidade cai, ainda por cima, mais ainda nisso, né, que além de tudo tem o estigma da pessoa que não quer escolher. Tem a promiscuidade de ser divergente, e a promiscuidade de não querer ou não saber fazer escolhas. Como se a gente precisasse também fazer escolhas, né…

 

Suzane: Exato. É, então, e aquelas falácias, né, por exemplo, agora você tem mais opções. Pô, mais opções o quê, cara? Não é bem assim que funciona. “Ah, você deve transar muito mais”. Nossa, quem me dera, sabe (risos). Seria lindo. Não, entende. Eu acho que tem muito essa dificuldade de ver pessoas bissexuais como humanas. NO sentido de que se relacionam. E gostam das pessoas conforme as relações vão caminhando, sabe.

 

Dan: E ponto, né.

 

Suzane: Aham, exatamente. É muito complicado, porque você tem que colocar na caixinha. Obviamente, a gente vive numa sociedade que é homofóbica, que é machista, que é lesbofóbica, e todo mundo sabe disso. Então, é muito complicado pra as mulheres, por exemplo, se assumirem bissexuais e se assumirem lésbicas. Por isso mesmo a gente tem, sabe, a heterossexualidade compulsória, que funciona pra todo o aspecto LGBT. Você se força a gostar do outro sexo, você se força a tá numa relação que você não gosta. Meio eu, lá, inventando namoradinho, na infância, entendeu. Isso existe, a gente sabe. Então, realmente, acontece muito de mulheres bissexuais acabarem largando relacionamentos com outras mulheres pra, sei lá, voltar pra um relacionamento hétero, se prender nesse relacionamento, casar, ter filhos, bonitinho. Só que, assim, as pessoas costumam ler isso como uma prova de que mulheres bissexuais são sempre essas héteras enrustidas, são enganadoras de mulheres, e tal. Só que aí a gente esquece do contexto que a gente vive, sabe. A gente simplesmente parece que apaga tudo ao redor. Não é fácil. Não é fácil pra uma lésbica, não é fácil pra uma bissexual. Então, a lésbica, obviamente, ela tem essa opção… Não é opção, né, mas vocês entenderam. Ela não tem isso, tipo…

 

Sidney: Alternativa.

 

Suzane: Alternativa! Isso. Elas não têm a alternativa de falar, “Ok, não aguento mais sofrer preconceito nesse meio, agora eu vou me relacionar com homem.” Entendeu? Pra ela, o processo é muito mais doloroso, entende? Pra uma bissexual, o processo é doloroso, mas tipo, “Ah, ok”. Vocês entendem?

 

Dan: Entendi.

 

Suzane: … como é que funciona…

 

Dan: Um recorte… (instantes de silêncio, por conta da interrupção um do outro) Desculpe, Suzane.

 

Suzane: Não, imagina. Manda brasa aí.

 

Dan: É porque eu to pensando, com essa fala sua, eu to linkando, que uma vez você fez um desabafo no Facebook, o seguinte.   Eu acho que alguém… Alguma treta aí, que eu não sei o que aconteceu, que gerou o desabafo.

 

Suzane: Sim, eu lembro bem.

 

Dan: Você já sabe o que é, né?

 

Suzane: Já.

 

Dan: Que, assim, “você fala que é bi, mas…” Mas… Aí, colocaram assim, “Não assume um namoro com uma mulher”, e eu acho que aí você vai falando do recorte da maternidade, né. Mete brasa aí, e faz um textão vocal, agora (ele ri).

 

Suzane: Ai, gente. Nossa, sempre sonhei com isso. Chegou meu momento. (risos) Não, mas vamos lá, vamos voltar à seriedade, chega das risadas. Não, a questão da maternidade é bem complicada, principalmente quando você é uma mãe solo. Eu tenho meu filho, eu crio ele, o pai dele ajuda, ele participa da criação como pode, ele vai em casa algumas vezes por semana ver o menino, né, colabora estando junto, e tal. Mas eu crio ele sozinha. Então, por exemplo, pra eu ir pra faculdade, eu preciso de alguém que me cubra pra ficar com o menino. Pra eu ir tomar uma cerveja, eu preciso de alguém que me cubra pra ficar co o menino. Isso é uma realidade, e qualquer pessoa que se relaciona comigo tem que saber que a realidade é essa. E aí, a gente já vê dois problemas. Um no campo de se relacionar com homens. Eu acho que… Eu não sei se vocês acompanham, e tal, mas é uma coisa já falada, que a sociedade tem o estereótipo do que seria a mãe solteira. “Solteira”, estou colocando aspas, ta. Porque, né, mãe não é estado civil, e tal. Vocês tão ouvindo?

 

Dan: Sim, eu fui criado por esse estereótipo…

 

Sidney: Sim, to ouvindo.

 

Suzane: Tá. Ah, não, tudo bem, é que às vezes fica aquele silêncio, aí eu não sei. Mas tudo bem, continuando. Então, assim, quando você tá num ambiente onde a aproximação masculina é mais propícia… Isso eu falo, por exemplo, como se diz… Eu, por exemplo, tenho uma imensa dificuldade de me aproximar de mulheres, porque eu tenho aquela dúvida eterna, “Meu deus, e se ela for hétero e, sei lá, me dar um tapa na cara, fazer um escândalo”, eu perder a amizade, sabe. É uma dúvida que tem, né. Relacionamentos gays também têm isso, “Ai, meu deus, se esse homem for hétero…” É uma coisa natural. Certo? A gente fica na dúvida. Então, assim, muitas preferem colocar signos. Por exemplo, eu nunca deixo minha unha comprida, desde criança (ela ri), assim, né. Porque as pessoas meio que… É costume, já virou. Só que, assim, quando você não tem signos que são lidos como signos lésbicos, né, que a sociedade lê assim, e tá num ambiente misto, a probabilidade de ser um cara que chega pra te cantar, que chega pra se aproximar de você é muito maior do que vir uma mulher, porque, obviamente, ela vai ficar insegura quanto a se você realmente vai cumprir… Aí, pra você se livrar dessa questão estatística, você tem que ir em espaços que sejam lésbicos, ou espaços LGBTs. Aí, você já sabe que, né, ali as pessoas são mais propícias, você pode se sentir mais livre quanto a isso. Porém, nem sempre, não é 24 horas que você pode estar em espaços LGBT, necessariamente. Ainda mais em Diadema, onde a gente não tem nenhum barzinho, nenhuma balada, nada do tipo LGBT lá. Não é mesmo? Enfim, então, assim, na relação com o sexo masculino, a gente repara que a aproximação é maior, certo. A aproximação é muito maior, não adianta nem colocar… Tentar comparar. Mas, ao mesmo tempo, o preconceito quanto a você ser mãe é grande também. Imenso, né. Eu já vi… Ou já ouvi imensas vezes conversas, assim, só de se conhecer melhor, “Ah, filho, Argh…” “Nossa, hum…” (ela faz expressões de nojo e desprezo). Né, aquela coisa toda. Ou então, caras que se envolvem com você uma semana, mas assim que tem alguma situação de ficar muito óbvio que você é mãe, eles já se afastam. Sabe, meu filho ficou doente, eu não posso sair hoje. “Poxa, como assim, você não pode estar disponível 24 horas pra mim?” Sabe, esse tipo de coisa? Enfim, então, isso já dificulta muito a relação masculina. Fora que homem é machista, a gente sabe disso. Tudo tem aquela questão, “Ah, eu nunca que vou cuidar de um filho que não é meu”, “Essa não sei o quê…” É muito complicado se relacionar com homens, quando você é uma mãe, certo?

 

Dan: Sim.

 

Suzane: ok, isso todo mundo já sabe. É um consenso. Agora, por exemplo, a gente pensa nas questões com as mulheres. Primeiro, pra você ter alguma garantia de que vai poder trocar essa ideia sem ser mal interpretada, você tem que estar em espaços LGBTs, ou estar em grupos de amigas onde vocês já se conhecem, e tal. Ou seja, a probabilidade já é menor de você conhecer um cara. Certo? Segundo, você tem que ter disponibilidade. E, desculpa, eu sou mãe, eu não consigo ficar indo em barzinho, balada… Não, eu tenho que trabalhar, eu tenho que estudar, eu tenho que pesquisar, eu tenho que fazer comida, eu tenho que lavar a roupa do menino, eu tenho que ajudar a fazer lição de casa. Então, sua rotina já é diferente. Extremamente diferente. E aí, quando você tem um tempo pra tá nesses espaços, você acaba encontrando muitas reproduções do machismo dentro dos espaços lésbicos também. Por exemplo, eu já cansei de ouvir, foi mais de uma vez, coisas do tipo, “Nossa, você tem um filho, que coragem. Eu já sou lésbica porque eu não quero nem chegar perto de criança.” (ela solta uma imitação de riso amarelo) Ah, que bom…

 

Sidney: E… Bom, você falou isso, agora eu lembrei de um… Eu acho que é como se fosse, assim, um consenso na comunidade gay… Eu falo gay por causa do meu lugar, né. De maternidade e paternidade, filhos em geral, como um fardo, né. Como a renúncia dessa vida hedonista que é possível, né, dentro dessa liberdade sexual.

 

Suzane: Exato. Exatamente. A gente vê muito dessas coisas, essas concepções. Primeiro que, entre as mulheres, obviamente, jamais, eu não tô generalizando aqui, não é minha intenção, nunca, entende? Mas você ouve, sabe. Por exemplo, você se aproximar e se colocar como alguém mãe num espaço bissexual, num espaço lésbico, você obviamente é mais confusa do que as confusas. Se é que vocês me entendem. Porque você vai ter aquela marca ali, que é seu filho, como se fosse um fardo pra estar num relacionamento lésbico por inteiro, um relacionamento com uma mulher por inteiro, né. Então, isso são pré concepções que a gente vê sendo reproduzidas o tempo todo. Fora que, assim, já me aconteceu muitas vezes de ter a mesma relação, você quer a pessoa disponível e a pessoa não tá disponível, porque tem um filho pra criar. E aí, nessas, você é dispensado, porque, “Nossa, eu queria tanto uma garota pra tá comigo, pra me dar atenção, e você não liga pra mim”… Amor! Não é que eu não ligo pra você, querida! Você mora em Moema, eu moro em Diadema, agora são 10h da noite, não tem como eu deixar meu filho na vizinha, essa hora, e ir te ver! Entende? E isso reforça o que eu já disse, são nuances, entendeu, são sujeitos que você vai encontrando. E você vai lidando com o caráter, com as pré concepções que eles reproduzem, com as coisas que eles sabem do mundo e que eles jogam pra você, entende. Não é necessariamente que ou com homem ou com mulher é mais fácil, quando você é mãe. Mas quando você é mãe, você tem um elemento a mais pra juntar nisso. Entende?

 

Dan: Entendi.

 

Suzane: Então, assim, por exemplo, agora eu tô namorando um cara, né. A gente já tá junto já faz uns dois anos, depois de um período que eu tava sozinha, eu tive alguns lances, tanto com mulheres como com homens, mas foram coisas curtas que, inclusive, todas elas terminaram por causa do meu filho. Porque eu era uma pessoa ausente, porque eu não tava lá à disposição, e porque eu sou jovem, né. Vamos combinar que eu tenho 26 anos. As pessoas de 26 anos solteiras, elas não costumam ter um filho. Entende? Então, não é como se elas entendessem exatamente o que eu passo. E aí, nessas idas e vindas, eu encontrei uma pessoa que, de certo modo, entendeu e se dispôs a entrar nessa comigo. Entende? E assim, quando você tá nesse processo de que você, realmente, precisa dividir cuidados, você precisa dividir preocupações, e tal, isso é extremamente importante, isso é extremamente importante. Eu falo, talvez se, nesses meus lances, uma das garotas tivesse topado assumir isso comigo e, tipo, “Pô, vamos junto, eu te ajudo. Você vai trabalhar? Eu olho o moleque pra você.” Conversa com meu filho. Meu filho adora meu namorado. É uma coisa que você não vê. Filhos odeiam namorados de mães, sabe. É coisa básica. Mas ele gosta porque eles tentam se entender, a gente conversa, a gente discute os problemas da criança, entendeu. E assim, talvez, se esse tipo de conduta tivesse vindo de uma mulher, hoje eu estaria com uma. Só que não aconteceu. Só que as pessoas não entendem isso. As pessoas entendem, “Não, a Suzane começou a namorar outro macho! Quer dizer o quê? Uma fingida! Uma enganadora!”

 

Dan: Largou a causa.

 

Suzane: Exato, largou a causa. Antes, vivia na boate, pegando todas. Agora se aquietou com um homem. Eu falei, claro. Porque quando você se aquieta com alguém, você precisa de um conjunto de fatores pra você realmente querer ta com aquela pessoa. Entende? E assim, às vezes calha de você não encontrar. É só isso. Então, eu acho que é muito importante pensar, fazendo esses recortes, que quando você é uma mãe, você tem algumas necessidades. E que o mais importante, no caso de uma bissexual, em vez de olhar se é um homem ou uma mulher, né, se você não tem rabo preso com ninguém, se você é muito bem resolvida, é ver como é a relação dessa pessoa com seu filho. Entende? Isso é uma coisa que é muito difícil de entenderem. É bem complicado.

 

Dan: É o melhor termômetro, né…

 

Sidney: ai, que vida difícil, miga.

 

Suzane: Hã?

 

Dan: O melhor termômetro é olhar a relação com o filho.

 

Suzane: Exato, eu sempre fazia o teste. Sabe, eu falo, “Pô, vamos um dia sair com meu filho?” “Ah, não, mas eu quero…” Ah, sério…

 

Sidney: Mas gente! Como que a pessoa se recusa a sair com a própria encarnação do Steven Universe? (todos riem)

 

Suzane: Pois é. Pois é. E eu acho que isso tem muito a ver, sei lá, com juventude, e tal. Talvez, assim, a relação seja mais fácil depois dos 30, não sei. Que é quando as pessoas costumam ficar mais suaves, e tal. Mas, assim, na faixa dos 20 anos, eu sempre tive essa dificuldade. Porque as pessoas, elas não querem sair pra passear num parque. Elas querem sair pra uma balada, querem dar um rolê, querem tomar cerveja. E eu, assim, eu tenho muito isso, eu não quero levar o meu filho pro bar, sabe. Eu sou uma mãe liberalzona, uma mãe moderna, mas eu tenho meus limites também, sabe. Eu acho muito desconfortável falar bêbada com um menino, sabe, com um monte de adulto, não gosto. Então, assim, são essas nuances, entendeu. São nuances que afetam em relação tanto com homens quanto com mulheres. E aí, a gente tem que fazer escolha pra ver o que mais se enquadra no que a gente procura, né, no que a gente sonha. Sou uma pessoa muito sonhadora… né… Enfim, quero adotar umas três crianças, se tudo der certo. Mas só vai dar certo se eu arrumar emprego, né. Lembrando, de novo. Emprego, preciso.

 

Sidney: Gente, contrata, gente! (risos) Suzane, eu tenho uma questão….

 

Dan: Oh, oh, antes de fazer… Só uma pergunta… Eu sei que você tem uma pergunta, eu sei que você já me falou antes, no Inbox, desculpa, Sid.

 

Sidney: Fárias perguntas.  (Suzane ri)

 

Dan: É porque é o seguinte, esse negócio de sair pra balada e com filho é uma questão complicada. E assim, eu não sou pai de gerar, nem de fazer nada, mas eu tenho uma irmã mais nova que é considerada minha filha. Cuido dela há 11 anos. Minha mãe morreu, eu tinha 18, ficamos nós dois no mundo, aí, com dois pais que juntando… Se um dia eles ouvirem isso… Eles tão vivos ainda. Vocês sabem que, juntando vocês dois, não dá nem 25% De um pai, nem financeiramente, porque não pagou pensão, nem… E nem emocionalmente…

 

Sidney: Moralmente.

 

Dan: Moralmente.

 

Suzane: É, fala as verdade!!

 

Dan: É, é complicado.

 

Sidney: PÁ! Na cara!

 

Dan: Um dia, eu falei com o Sidney, que eu vou fazer um programa comigo, pra poder explicar tudo que eu tenho vontade de explicar, quando vai cortando as histórias. Mas esse negócio de sair com criança pra balada é muito complicado. Eu, por exemplo, eu tinha, tipo, dois Danilos. O Danilo da balada e o Danilo da casa, porque não dá pra misturar também essas…

 

Suzane: Não, não dá…

 

Dan: Tem certas idades que não dá pra misturar o rolê, né, na verdade. Mas chega uma hora, também, que o Theo vai participar do rolê, e aí, vai ser muito gostoso.

 

Suzane: Não, aí é diferente. Outra coisa, sabe. Se for, nós vai dançar Lady Gaga junto… Lady Gaga vai ser super retrô…Né, daqui a uns dez anos…

 

Sidney: Vai mesmo! No revival dos anos 2000.

 

Suzane: Exato, vamos estar lá juntos.

 

Dan: Minha irmã fez 18 anos agora. E ela fazer 18 anos é muito gostoso, porque agora eu posso falar com ela umas coisas mais pesadas (risos). E ela convive. Aí, é gostoso. Eu falei assim, “Esperei tanto tempo por isso. Te guardei tanto tempo!” (Suzane ri)Pra chegar este momento. E ela é uma menina maravilhosa.

 

Suzane: É, eu tenho duas irmãs,  a mais nova acabou de fazer 19, eu lido, meu deus! Apesar de que quando ela tinha 16, eu já levava pros barzinho, pras balada, porque eu não prestava muito, né. Mas, assim… Mas, aí, né, coisa à parte, enfim… (risos)

 

Dan: Mas, enfim, vamos lá, Sid, tem uma pergunta aí…

 

Sidney: Agora… Ai, é meio grande, essa pergunta, Suzane.

 

Suzane: Tá, vamos lá.

 

Sidney: Segura na minha mão.

 

Suzane: Tá.

 

Sidney: Eu tô passando por uma barra ultimamente, eu to com um questionamento sobre bissexualidade e representatividade. Na ficção, nas mídias, e tal. Essas histórias. Que a gente vê que tá rolando um crescimento, muito ainda aquém do que a gente gostaria, e do jeito que a gente gostaria que fosse, mas tá rolando. Mas aí, tem uma barra que eu sempre tenho comigo mesmo, e eu sempre… Queria perguntar isso para uma mulher bissexual. Que é assim, a gente vê… Eu tô vendo, inclusive, particularmente… Até apareceu uma série ultimamente, com esse plot, de um casal hétero, né, que tá passando por uma crise no relacionamento e chega… E conhecem outra mulher. Aí, de repente, a esposa desse casal se revela bissexual. Aí, o plot da série é que eles vão tentar uma coisa com essa terceira pessoa que é, obviamente, uma mulher. Isso num canal de TV aberta, num canal de grande circulação…

 

Suzane: Gente, sério! Tá passando isso?

 

Sidney: É. Mas aí, qual é a minha barra, qual é o meu problema com esse plot. Que aí, eu to falando do meu problema com esse plot por causa do meu lugar de fala, né, eu sou um homem cis, sou gay, né, e tal. Aí, eu sei, ah, eu acho ótimo que a bissexualidade esteja sendo divulgada em TV aberta dessa forma. É bastante legal. Mas, ao mesmo tempo, eu fico pensando em todo o histórico da bissexualidade na ficção, e vejo que a bissexualidade é sempre tratada como esse escapismo para esse casal que tá em crise, e sempre com uma mulher a mais, né… Eu não sei. Eu fico pensando assim, por um lado, eu penso, é legal pra a visibilidade bi. Mas por outro lado, eu penso, mas será que não é prejudicial pra a visão da… Pra a sexualização da mulher, e da mulher bi, ou até mesmo um fortalecimento do machismo, como se fosse… Porque eu nunca vi um plot desse, até hoje, inclusive, nem TV fechada, de chegarem com um outro cara, entendeu? Um segundo homem na relação. Só mulher. Só mulher. Aí, eu queria saber tua opinião sobre isso. Eu falei muito. Não sei se tu entendeu a pergunta.

 

Suzane: Não, não, imagina. Perfeito. Não, perfeito. Então, eu sempre costumo falar que representatividade sem qualidade não faz sentido algum. Certo? Não faz sentido algum. Por exemplo, esse plot que você falou, você diz que tá passando agora, mas, assim, poderia ser qualquer filme de comédia que eu já vi na minha vida. Um monte deles têm isso. Um monte de filme de terror, um monte de… Sabe, um plot comum. É aquele casal que ta entediado, blá-blá-blá,  e, assim, a mulher mostra estar interessada em outra mulher, e querem chamar a outra pra apimentar a relação, e isso dá o quê? Dá um tom de fetiche. Certo? Dá um tom de fetiche. A bissexualidade serve como um fetiche já pra um casal formado. E isso é o que constrói a narrativa básica da mulher bissexual. Entende? Principalmente uma mulher bissexual que tá numa relação com um homem. Tipo, toda menina bissexual, que diz que é bissexual pela primeira vez, vai ouvir dos caras, “Nossa, que legal, então a gente pode fazer um ménage?” Sabe, é a coisa mais básica. Eu acho assim, todo cara que nunca me falou isso é gay, sabe, assim? (ela ri) E não foram muitos, logo… Não foram muitos. Então, é uma coisa comum. E aí, eu fico pensando, por exemplo, essa questão de colocar o casal desse modo é… Não… Não sei até que ponto, realmente, é extremamente positivo. Eu fico pensando, seria positivo, por exemplo, a mulher, num relacionamento hétero, se descobrindo, conversando isso com o marido, sabe, essa coisa? Sem ter essa coisa de “Olha, como o meu casamento está ruim, vamos fazer algo por ele”, entende? Fica muito aquele tom de fetichização que já é ocorrente, sabe. Já é ocorrente. A gente sabe, né, por exemplo, pornô lésbico é uma das categorias mais pesquisadas , assim, em todos os sites, e é pesquisada por homens, feita pra um olhar totalmente masculino, exatamente pra alimentar esse fetiche do qual as bissexuais também fazem parte. Então, a maioria dos homens, também, fia… Eu sou bem relacionada, eu não ando com esses (risos). Mas, assim… É, enfim… A maioria dos homens tem esse fetiche. E aí, a gente fica pensando que esse tipo de representação, primeiro, que ela não é nova, né. Ela não é nova, ela não traz nada de novo pro debate. É mais do mesmo. E até onde vai? Tem algumas dessas representações do mesmo tipo onde a gente vê que, por exemplo, o final sempre pode ser dois. Ou a mulher vai, passa pela experiência, dá tudo errado e ela percebe que o casamento dela, na verdade, era maravilhoso e, no final, termina com aquele efeito cômico de “Olha, como nos amamos e isso nunca devia ter acontecido”. Ou o final é meio que a mulher fica com outra mulher e gosta. E aí, ela gosta e o cara se sente horrível e é zoado pelos amigos. Sabe, aquele tipo de coisa? São só reforço de colocação da mulher ainda como fetiche, ainda como objeto. Sabe, mesmo quando ela escolhe outra mulher, o protagonista, o principal, que se comove, o que é interessante nessa narrativa é o homem. E as mulheres são só usadas pra avançar a história dele. Entende?

 

Sidney: Sim, a maioria das vezes.

 

Suzane: É, então, a grande maioria das vezes. Ou é a história dele, ou é a história do relacionamento dele, ou é a história sobre como a mulher dele está muito chateada com o relacionamento… Você não vê a mulher como protagonista das coisas. E, assim, numa perspectiva que só coloca a visão masculina como hegemônica, que é feita pra visão masculina, obviamente colocar dois homens não faz nenhum sentido. Não faz nenhum sentido. Então, não se quer, nem na pornografia, nem no filme, nem em lugar nenhum colocar isso, né… No filme popular, se você vai nos alternativão, você ainda encontra, né mesmo? Tenho dicas. (risos) Né, mas, enfim. Brincadeira.

 

Dan: Oh, Suzane, você viu que, na hora que a gente conversa, conversa, conversa, a hora que a gente bate o martelo, o martelo chama-se “machismo”?

 

Suzane: Exato. É, exato.

 

Sidney: É a raiz de tudo, né… bom, pra efeito de esclarecimento, o nome da série que estreou recentemente que eu falei é “You, Me, Her”. Eu não lembro, agora, a emissora, é uma emissora americana, e uma emissora de TV aberta. Não é TV fechada, né. E eu fiquei impressionado com esse plot. Mas, ao mesmo tempo, fiquei encucado, né, com isso. Eu não assisti. Só li sobre e ouvi sobre a série. Parece que até tá indo bem, mas também não sei que caminho vai levar, porque o que me impressionou é que isso não é uma subtrama, não é algo que acontece durante um arco, né. É o plot, é a trama central da série. Que é uma inovação, mas, ao mesmo tempo, eu fiquei com essa pulga atrás da orelha, até que ponto é saudável, assim? É bom representar a bissexualidade enquanto uma possibilidade pra um casal também, ou até pra a própria pessoa bissexual. Mas até que ponto só esse viés, só esse ponto de vista que tá sendo reproduzido, que vantagem que ele traz?

 

Suzane: Exato. Eu fico muito pensando, por exemplo, o que essa imagem, né, que é a mais reproduzida sobre a bissexualidade é danosa, por exemplo, nas relações. Tanto de relações bissexuais com homens quanto com mulheres. Porque, pros homens, ela sempre vai ser aquela mulher que, se você convencer, se você ir com jeitinho, ela tá disponível pro ménage, sabe, vai rolar, é só você ser perseverante. Entende? Então, invista nessa mulher, porque você pode realizar seus fetiches com ela. E pra mulher, ela pensa, “Não sei, porque eu não quero ser um objeto na trama de outra pessoa”, eu não sei se essa outra bissexual tá querendo mesmo construir uma coisa comigo, um relacionamento entre nós duas, ou se eu posso acabar servindo pra um papel desses, entende? E são coisas que ficam…

 

Sidney: Aí, a gente… Ahm… Você tá falando, e eu to analisando (ele solta um riso) a semiótica da série, sem nem ter assistido. Mas aí, a gente já tira pelo título, né. “Você, eu, ela”. Ela é a terceira, o ponto de vista… A externa. Ela não é a protagonista da história, né. Ela é a que entra depois.

 

Suzane: Exato.

 

Sidney: Não é uma história sobre uma pessoa bissexual, é sobre um casal que… enfim…

 

Suzane: É sobre o Tinder! Porque o Tinder, o que mais tem é esses casais (risos).

 

Sidney: Ah, é mesmo. Tem todo um ramo, né, no Tinder, de perfis de casais que procuram uma terceira pessoa.

 

Suzane: É. Nossa, é assustador, viu. Porque, às vezes, eles fazem pegadinha. Vem aquela moça linda, você dá o coração, aí você vê, “Ah, meu deus, eu não acredito que deu match”.

 

Sidney: Ah, vem um anexo…

 

Suzane: Aí, vem a mensagem, “Olá, sou casada”. Eu, “Ah, jura?”(Dan ri)

 

Sidney: Deve ser broxante.

 

Suzane: Eu acho tão broxante, gente. Eu não tô pra isso, não. Eu sou velha, eu tive filho cedo, sabe. Eu já… Não, cansei dessa vida (risos). Mas enfim…

 

Dan: É tipo um combo, né. Compre 1, leve 2.

 

Suzane: É, não, não, não. Não topo, tô de boa já. Essa coisa tão 17, 19 anos… Passei (risos). Mas enfim…

 

Dan: Ai, tem tanta coisa pra te perguntar, mas eu acho que eu vou direcionar, que a gente já tá aqui com 1h de gravação. Então, temos que dar uma adiantada.

 

Suzane: Tá bom.

 

Dan: Duas coisas que eu queria te perguntar. Eu acho que a primeira vez que eu vi a Suzane Jardim… (Suzane ri)

 

Suzane: Eu acho muito engraçado quando as pessoas me chama assim… (ela ri)

 

Sidney: Mas por quê? Não é seu nome? Eu pensava que esse era o seu nome…

 

Suzane: Não, então, deixa eu te falar. Lembra que eu te falei que eu era a menina gorda que comia cola? É verdade. Então, assim, ninguém sabia meu nome (risos). Então, eu cresci sendo chamada, “Oh, fia da Tânia”, ou “Oh, irmã da Suzi”, aí, depois que eu fiquei mãe, eu era a mãe do Theo, entendeu? Eu nunca fui a Suzane Jardim. Aí, agora as pessoas falam meu nome, eu falo, “Mas gente!”

 

Dan: “Sou eu!”

 

Sidney: Ah, entendi.

 

Suzane: É muito engraçado. Eu não tô acostumada, mas manda.

 

Dan: A primeira vez que eu vi você, e eu acho que foi você… Ou se eu associei a treta, você desassocia. Aí, pronto…

 

Suzane: (rindo) Tá. Vai ver era outra que eu odeio, brigamos. E a vida, prossiga.

 

Dan: É o seguinte. Teve uma discussão dentro da USP, e aí, tinha uma galerinha branca lá, falando sobre cotas, tudo mais. E a senhora levantou a mão e foi falando, e foi falando, e foi falando. E isso viralizou no país.

 

Suzane: Uhum.

 

Dan: E assim, todo mundo às vezes, não sabe quem é a Suzane, mas sabe quem é aquela menina que foi lá falar umas verdades. Essa pessoa é você, né?

 

Suzane: Então, exato. Eu era aluna na USP, né mesmo. E eu era uma das pouquíssimas alunas negras da USP, como sempre. E aí, os poucos alunos negros que tinham dentro da USP, eles iam conversando entre si. Eles já tinham uma visão de raça mais apurada, né. Eles tinham uma preocupação com essa questão e iam conversando. E aí, entre outras coisas, a gente sabia que tinha marcada uma reunião, a portas fechadas, pra se discutir cotas raciais dentro da USP, mas só entre o alto escalão da universidade, não foi uma discussão que foi passada nem pros alunos, nem pros professores, nem pra ninguém. Então, basicamente, quem ia ter direito a votação iam ser os mesmos professores homens, brancos, classe média-alta, acima dos 50 anos. E a gente achou aquilo um absurdo, como sempre, né. Porque já era 2014, um monte de universidade já tava aplicando as suas ações afirmativas com relações às cotas raciais, e a USP ainda nada. A discussão tava muito preliminar. Então, eu e um outro amigo, na verdade, a gente resolveu tentar em alguma coisa pra fazer dentro da USP, na semana… No mês… Nas proximidades dessa reunião, exatamente pra chamar a atenção pro fato dessa reunião ia acontecer, ninguém sabia de nada, se ia ser decidido ou não, ninguém tava falando nada sobre isso lá dentro, né. Então, a gente confabulou e pensou no que a gente poderia fazer. E a gente pensou em fazer uma performance artística, porque na época, eu era dessas, sabe, eu era Namaste, e tal… Eu acho que essa experiência foi linda pra me provar que eu tava errada, né mesmo. Que tem que chegar chutando. Mas enfim… E aí, a gente propôs de fazer uma intervenção artística dentro da USP, que seria, a gente teria que juntar as pessoas negras, tanto da USP quanto de fora, a gente entraria num grupo de 25, 30, dentro de salas de aula aleatórias da USP, antes do professor entrar. Quando o professor entrasse pra dar aula, todos iam se levantar de uma vês e, aí, alguém que ia ser sorteado ali na hora, faria uma fala sobre qual a importância de discutir isso e como, numa sala ideal, aquele seria o número ideal de alunos se pensasse a população brasileira, e tal… E aí, a gente, depois de fazer essa fala, todos sairiam da sala em silêncio pra deixar o espaço vazio. Sabe, assim?

 

Dan: Caraca!

 

Suzane: A ideia era essa. Para e pensa. Bonito, forte, legal.

 

Dan: Nunca soube disso.

 

Suzane: Não. Não foi. Pois é, essa era a ideia. Aí, o que aconteceu? Primeiro que foi a dificuldade de reunir 30 pessoas negras dentro da USP. Foi extremamente difícil. A gente demorou dias. A gente teve que chamar gente de fora pra participar, pra conseguir fazer intervenção de um modo efetivo, né. Porque na USP a gente conseguiu 10. Sabe, assim? Porque lá, realmente, tava difícil, a época, né. Agora já deu uma melhorada, mas não foi tudo isso, não. Mas enfim… Então, a gente foi, juntou essas pessoas negras, entre alunos e não alunos, e a gente marcou alguns locais pra a gente entrar. Mas foi assim, marcações totalmente aleatórias, e era só pra diversificar. Então, a gente marcou que a gente ia entrar na Faculdade Politécnica, na Faculdade de História, que é onde eu estudo, e no Curso de Administração, na FEA, né, Economia, Administração. (Dan ri) E assim…

 

Dan: Eu sou administrador, e assim, a alma da Administração é coxinha…Mas vamos lá…

 

Suzane: Exato, exato. Você já sabe como vai acabar, né. Porque aquele vídeo que você viu é na FEA. (Dan ri alto)

 

Dan: Agora tá explicado.

 

Suzane: Isso explica muita coisa. E aí, o que aconteceu? A primeira intervenção foi na Faculdade de Engenharia, de manhã. E o curioso é que a gente entrou na sala, a gente sentou na sala, com nosso grupo, e aí os outros alunos iam entrando. E assim, a USP, pra quem não sabe, é uma faculdade sem catraca, sabe.

 

Dan: Sim, aberta.

 

Suzane: Exceto pelo curso de Medicina… Hã?

 

Dan: É bem aberta, eu já estive lá.

 

Suzane: Exato, exato. É totalmente aberto. Então, assim, a não ser pelo curso de, sei lá, Medicina, que nem fica na cidade universitária, qualquer pessoa pode entrar em qualquer sala de aula e assistir qualquer aula. Então, assim, em tese, os alunos não tinham que estranhar a gente lá, porque a gente tava numa sala de aula aberta vendo uma aula. Certo? Não, errado. Então, o que aconteceu? A gente foi entrando e sentando, pra esperar o professor chegar. E antes do professor chegar, os alunos começaram a intimidar a gente. Aí, eles começaram perguntar, “O que vocês tão fazendo aqui?”, “Qual é? Isso daqui…” Sabe, assim? Uma coisa meio invasiva? E aí, começou a ficar chato, a gente já não tava mais conseguindo se concentrar, a primeira pessoa ficou puta, que era um colega meu. Já levantou, “Qual é o problema, filho de uma puta? Tu nunca viu um preto na tua sala, não, mano?” Aí, pronto, já era. Virou um escarcéu, chamaram segurança. Em vez da gente fazer a nossa intervenção, virou uma discussão de 1 hora, e a gente só saiu depois que o segurança tirou, e tal. Nisso, nessa, eu falei pra caramba, eu tava toda suada. Porque o que acontecia, era uma sala com 40, 50 estudantes brancos enfrentando a gente e a gente tentando, lá, se colocar. Então, foi desgastante, foi difícil. Assim, foi difícil, mas a gente saiu, e tal, limpou o suor, ok. Próxima. Quando a gente foi pro curso de História, o professor descobriu que a gente ia fazer algo similar e cancelou a aula pra a gente não entrar. Aí, eu, tipo, “Velho, era só uma intervençãozinha, meu! Sério, precisava, meu?” Aí, isso vai demonstrando, né, qual é o tratamento, qual é o espaço pra discussão, como é que eles lidam com a questão dentro da USP. E, por fim, a gente foi na FEA, que foi a intervenção da noite. Na Faculdade de Economia e Administração da USP. E aí, assim, nessa, combinaram de que eu não iria falar, porque eu já tinha falado tanto no da Politécnica, quanto no da História. A gente acabou não fazendo na aula que desmarcaram, mas a gente entrou na aula do lado e fez do mesmo jeito. Né, enfim. Então, a gente resolveu que, no último, quem iria falar era preferencialmente quem não tinha falado ainda. E quem não tinha falado ainda eram aquelas garotas que você viu. São todas minhas amigas, duas delas não são da USP, uma delas é. A que mais falou. Teve também um rapaz que falou no começo, ele era da USP, faz História comigo. E a questão é, eu apareço no vídeo, apesar de eu não falar, eu apareço no vídeo. E lá foi extremamente violento, porque os alunos e a professora… A gente conseguiu ficar na sala até a professora chegar. A gente levantou, fez a fala, propôs a reflexão, e a professora ficou dizendo, “Olha, então, se eles não saírem daqui, eu vou cancelar a aula e vocês vão ter prova”. Sabe esse tipo de coisa?

 

Sidney: Nossa! Que horror.

 

Suzane: Aí, os alunos se sentiram à vontade pra querer expulsar a gente, pra começar com todo tipo de…

 

Sidney: Óbvio, foram validados ali, né.

 

Suzane: Exatamente. Então, naquele momento que viralizou o vídeo, foi quando um aluno que tava discutindo com a gente resolveu gravar pra mostrar como o movimento negro da USP era tolerante… Aí, a gente achou muito engraçado. Primeiro, não era como se fosse um movimento negro da USP, sabe? Foi eu e o meu colega que chamou os brother. Mas, assim, ok, né. Quer ler assim, que seja. Foi legal, eu acho que deu… quando viralizou, a gente recebeu muitos ataques, assim. Muitos. E as meninas que aparec…

 

Dan: Sério?

 

Suzane: Nossa, nossa, foi horrível! As meninas que mais apareceram no vídeo, não vou falar o nome delas, tá, porque, enfim, questão de segurança, ainda tem umas implicações quanto a isso, elas foram, assim… Buscaram o perfil delas, buscaram redes sociais, fizeram memes, mandaram mensagens invasivas, ameaça de morte. A professora mandou ameaças de processo pra a gente, dizendo que ia processar a gente por desacato a funcionário público, por agressão. A gente, “Agressão, minha filha? Q Ninguém tocou em tu, não!” Sabe, assim? Mas enfim… Então, foi um inferno. Ao mesmo tempo que foi extremamente positivo. Porque, no momento que o rapaz gravou aquele vídeo pra mostrar como o movimento Da USP era intolerante, ele acabou mostrando uma das facetas do racismo daquela universidade. Que é a falta de diálogo, a falta de disposição do pessoal que é hegemônico dentro da USP, que são as pessoas brancas, em ouvir a narrativa negra, de se propor a discutir uma questão. Então, aquilo virou uma questão… Eu acho que é o vídeo mais caricato, entendeu, do que acontece lá dentro. Eu achei muito importante, sabe. Viralizou sem ninguém saber. Dois dias depois, a gente soube que tava no Youtube, e começamos a receber mensagem. A Veja entrou em contato comigo. Eu falei, meu deus, eu não acredito, o que eu fiz? (risos) Foi muito engraçado, porque a Veja fez uma matéria sobre o vídeo. E aí, na época, eu fiquei louca. Eu falei, meu deus, olha… Só que eles não citam o nome de nenhum participante, né. Falei, meu deus, eu apareci na Veja indiretamente, eu tô muito feliz, zerei a vida, sabe, olha só (risos). E então, foi isso. Aquela menina lá, ela ainda participa de muitas ações, participa comigo de algumas coisas. Ela é lésbica, aliás. Duas que tavam no vídeo são lésbicas, são mulheres negras lésbicas. A outra é bissexual. Ali é tudo as bi, colega, a gente foi chamando as amiga (risos), e foi fazendo, sabe.

 

Dan: Nossa…

 

Suzane: Então, foi uma experiência traumática, assim, em algum campo. Mas, assim, cresceu demais, sabe. Eu acho que, assim, uma das coisas que a gente conseguiu com isso foi trazer a discussão pra dentro da USP, no mesmo mês se formou o Coletivo Negro da FEA, que tinha quatro membras, pois esse era o número de negros que estudavam na FEA, no momento.

 

Sidney: Mas gente!

 

Suzane: Foram se formando outros coletivos negros em outros cursos, eu fui chamada… Eu e as meninas fomos chamadas pra várias mesas, pra discutir cotas raciais, vários veículos de mídia entraram em contato com a gente. E aí, o assunto cotas na USP virou um assunto de verdade, sabe. Começaram a realmente ir atrás. Apesar de que a gente não conseguiu muito com isso. Ainda falta muito ali pra avançar essa questão. Mas, enfim, essa é minha participação no assunto, contei minha história, espero que vocês tenham gostado. É isso.

 

Sidney: Quando foi que isso aconteceu, Suzane?

 

Suzane: Foi em 2014 ou 2015, Danilo?

 

Dan: Ah, eu acho que foi 2014.

 

Suzane: É, eu acho que foi 2014. Eu ainda tinha amizades, os professores ainda gostavam de mim. Depois disso, nunca mais (risos).

 

Sidney: Nossa…

 

Suzane: Depois disso, nunca mais. Mas é, eu acho que foi em 2014. Se você procurar, você consegue achar várias referências na internet, discussões sobre cotas na Faculdade de… Eu não lembro se era… Eu acho que era Economia, porque tinha um lek muito caricato no vídeo, que ele ficava gritando, “Eu não quero nem saber, eu só quero ter aulas de microeconomia, meu! Sai daqui, meu!” (risos)

 

Dan: É desse jeito.

 

Sidney: O estereótipo.

 

Suzane: É um vídeo muito engraçado. É o estereótipo. E aí, uma dessas minhas colegas, ela falou que é foda você querer falar de qualidade da educação, de falar em condições iguais, quando você passou a vida tendo todos os melhores cursinhos pagos pelo papai. Aí, esse mesmo cara falou, “Pô, meu pai pagou minha escola com muito orgulho mesmo, meu! Qual o problema? Estudei no Vértice, melhor escola, meu!”

 

Dan: É bem caricato, né.

 

Suzane: É ridículo, mas é uma alegoria perfeita, sabe. E eu acho que foi importante pro que veio. Eu falo, olha, um dia, daqui a 15, 20 anos, alguém da História vai entrar e vai querer estudar isso que aconteceu. E aí, eu vou tá com cabelos brancos, e eles vão falar, “Meu deus, eu preciso achar os responsáveis por isso”. E vão entrar em contato comigo, e eu vou chorar de emoção e vai ser lindo (risos).

 

Sidney: Vai dizer, “Eu estava lá”.

 

Suzane: Exato. “Ai, vou te contar, senta aqui, meu filho”. (risos)Sabe… É meu sonho.

 

Dan: Mas isso é importante, e é engraçado que essas coisas, assim, a gente… O mundo da internet, do Facebook, do Youtube sai muita coisa ruim. Mas a gente guarda muitas coisas lá pra posteridade, né. E isso eu acho que vai ser legal. Inclusive, isso de 2014, já transpondo pra 2017, um cara já não seria tão bosta assim, se talvez ele achasse que seria um movimento de um coletivo e tudo o mais. Ele não ia pagar tanto… Não que ele desconstruiu-se. É pelo medo da exposição, ele não iria falar tanta coisa…

 

Suzane: É. A gente reparou isso principalmente dos professores. Porque, assim, a grande maioria dos professores da USP são, né, da classe média, blá-blá-blá, né. Aquela série de predicados que a gente já sabe, que por mais que tenham visões progressistas, ainda pecam muito na questão racial e na questão de classe, no sentido de ter vários preconceitos contra estudantes pobres, e assim por diante. Então, era muito comum, na USP, a gente ter declarações públicas de professores lá dizendo que é contra cotas, falando que ia cair a qualidade do ensino, que a USP é uma universidade referência internacional, ela não pode se dar esse tipo de luxo. Sabe, tratando como luxo ou como se o negro realmente fosse numa qualidade menor de intelecto, né mesmo. Isso era extremamente comum. Depois que o vídeo saiu  e essas discussões começaram, a gente reparou que as coisas mudaram. Assim, no departamento de História, eu reparei. Eu lembro que, na História, a gente é obrigado a ter um semestre de História da África. Tipo, sabe a África, aquele continente que tem milhares de anos? A gente tem um semestre pra estudar toda a história da África. Funciona! É muito bom! É ótimo, viu! É um curso dez! Não, não é. Mas enfim. Mas é o que colocaram obrigatório e acharam que tavam cumprindo super o papel deles de estudar história negra lá dentro. O que é um absurdo. E depois dessa discussão…

 

Dan: É bem eurocêntrico, então, o curso, né?

 

Suzane: Não, totalmente. A gente estuda autores europeus numa perspectiva europeia, usando uma temporalidade europeia, sabe. Idade Antiga, Idade Média, Idade Moderna. Isso é a divisão da história europeia, não tem nada a ver com a gente, mas a gente usa porque, né, somos todos europeus, de certo modo, é isso que eles querem dizer pra nós. E uma das coisas que eu reparei, por exemplo, é que os professores começaram a colocar recorte de raça dentro dos seus cursos. Eu lembro que, quando eu decidi estudar mais História dos Estados Unidos, história negra norte-americana, foi exatamente no semestre seguinte que isso aconteceu, quando eu fui fazer um curso de História dos Estados Unidos lá, né, que era uma matéria optativa, e eu tinha o programa do curso e ele ia ser todo pautado em história política, sabe. New Deal, queda da bolsa, aquela coisa, História dos Estados Unidos básica. A professora, na primeira aula, ela falou que diante dos acontecimentos que ocorreram na USP no último semestre, ela tinha reformulado o programa, porque ela achava que era impossível entender os Estados Unidos se você não estudasse história negra lá dentro. Aí, na hora, minha mente fez um boom. Caralho, meu! De certo modo, eu sou culpada por isso. Que foda! E aí…

 

Dan: Olha!

 

Suzane: E ela deu um curso incrível, pautando, sim, todas asquestões dos Estados Unidos, mas pontuando sempre a população negra dentro disso, o que ela tava fazendo, sabe. E ali eu aprendi coisas básicas que serviram pras minhas pesquisas, que tão no meu texto do O.J., que tão no artigo dos estereótipos raciais, entendeu. E aí que eu falo, se você não puxa o mínimo debate dentro da USP sobre isso, a história negra, as questões negras não vão ser debatidas, elas não vão ser estudadas. A gente vai continuar formando cada vez mais profissionais que só tão preocupados com aquela forma. Foi importante. Eu sou bem orgulhosa disso aí. Fiquei bem feliz que você perguntou, na verdade (risos). Bem feliz.

 

Dan: Uma coisa que eu acho interessante, depois eu vou até colocar no perfil da postagem, o seu link do Medium, aquele texto sobre o Jim Crow que, assim, ele é bem didático, e dá pra entender, por exemplo, o que é Black face, por que isso não é correto. E aí, não tem mais discussão depois de ler aqueles textos lá, e eu acho que fica bem… É bem didático, também, eu acho. Assim, enfim, eu acho que você se enveredou pra uma área bacana de se estudar, e seu Medium…

 

Suzane: Ah, não é muito bacana, não, viu. É bem dolorido estudar essas coisas. É bacana porque… Eu sei que é dolorido, eu sei como é…

 

Dan: Trazer a informação à tona, né.

 

Suzane: Exato, exato. Isso, sim. Concordamos. Perfeito.

 

Dan: E uma outra coisa, que eu acho que a gente já tá chegando ao fim, deixa eu olhar aqui quanto tempo a gente já tem de entrevista…

 

Suzane: Eita! Meu deus, eu acho que esse é o meu recorde de tempo sem fumar. Eu nunca fiquei tanto tempo sem fumar na minha vida (risos). Prossiga.

 

Dan: Eu tenho duas perguntas. A pergunta padrão do programa, de finalização, que eu não vou te contar agora. E eu tenho uma pergunta que eu quero saber, assim, ou eu edito ou eu não edito, conforme a sua resposta. Ou então você não me fala. Uma coisa que eu queria saber, a gente falou sobre machismo aqui várias vezes. E existe história sua do ocorrido, acho que foi em 2009, né?Que…

 

Suzane: Não, foi em 2013, menino, foi super recente.

 

Dan: 2013? É que eu tô colocando o recorte de oito anos…

 

Suzane: Nossa! Realmente, olha, agora eu to pensando aqui, se foi em 2013, então o negócio lá da USP foi em 2015, sim. Em 2014 eu não tava nem andando.

 

Dan: Ah, então. Você gostaria de contar para os nossos ouvintes? Algumas pessoas que fazem parte dessa podosfera te conhecem, e conhecem mais ou menos essa história. Quando eu falo “fazem parte dessa podosfera”, é que a gente faz parte de um grupo chamado Cracóvia… Chamado Cracóvia do Anticast, e é uma galerinha que segue um podcast bacana, e tudo mais, e algumas pessoas até conhecem a sua história. Se você puder explicar pras pessoas o que aconteceu. Ou se for uma coisa que você não queira contar, deixa as notícias que tem por aí falarem por elas mesmas.

 

Suzane: É, então, eu fico pensando, assim, que modo eu posso contar pra acrescentar, sabe. Porque é bem… Porque, assim, eu consigo falar… Aconteceu, uma vez, assim, desculpa a digressão. Mas é só um parêntese. Aconteceu uma vez, de eu tá dando uma aula, e o professor conhecia a minha história e contou a minha história pros alunos antes de eu ir dar aula, sabe. E aí, quando eu já tava nos encaminhamentos finais da aula, os alunos começaram a perguntar sobre. E eu falei, ok, o que eu faço agora? Então, eu fiz, literalmente, uma contação de histórias. Eram alunos de 17 anos, meninos e meninas, eu fui… fiz, tentando fazer eles se colocarem no meu lugar, como mulher, saindo com um cara solteiro, esse tipo de coisa. Super funcionou, a gente puxou uma discussão de gênero incrível aí. Só que, aí eu fico muito pensando, por exemplo. Por que pra mim é um assunto que não é que já esteja batido, até porque não tá terminado, né. Mas uma das coisas que eu gosto muito, que eu me orgulho muito, é que hoje eu consigo ser reconhecida, ser convidada pras coisas para além disso.

 

Dan: Sim, isso não é A Suzane, né.

 

Suzane: É, então, isso eu acho fundamental. Porque a gente acaba rotulando, né. Por exemplo, os assassinos, os agressores, eles continuam com as suas vidas, né. Passa um tempo, todo mundo esqueceu. Mas a vítima sempre é a vítima. Então…

 

Sidney: Porra, a gente tá vendo o exemplo aí do Bruno, o goleiro…

 

Suzane: Exatamente.

 

Sidney: Nossa, chega dá um arrepio.

 

Suzane: É, exato, né. Aquela coisa, né, que às vezes nem fala, que é pra não sair na facada com as pessoas, mas enfim.

 

Sidney: E também… Eu fico pensando no adiantado do episódio. Talvez fosse legal a gente fazer um outro episódio com você sobre violência, e sobre seu caso…

 

Suzane: Seria ótimo.

 

Sidney: Se você tiver um link… Porque eu realmente acho que esse assunto merece… Ele merece a gente se dedicar a ele, entendeu.

 

Dan: Sim.

 

Suzane: Exatamente.

 

Sidney: Não uma resposta assim, simples, sobre o que aconteceu. Aí, no caso, se você tem algum link que a gente pode lincar sobre isso, ou até que você mesma tenha escrito. Pra a gente deixar só disponível na postagem, no caso.

 

Suzane: Eu acho que tem um link sim, que não é meu, entendeu. É uma entrevista que eu concedi, né, eles têm áudio e tudo. Que é pro site feminicidionobrasil.com.br; eu acho que foi um trabalho incrível que fizeram. E assim, (incompreensível) corrido, com imagem, com vídeo, com entrevistas, é um trabalho incrível. E lá eles falam, assim, desde o bê-á-bá, do que é feminicídio, eles pontuam casos, eles falam de sobreviventes, eles dão dados e eles dão estatísticas. E é um site muito legal onde eles contam a minha história. Então, assim, se vocês quiserem colocar o link pra o pessoal conhecer melhor, manda brasa, assim. Eu acho que é o melhor que eu posso indicar.

 

Dan: Já anotei aqui. Você falando, só pra finalizar e já fazer a pergunta… você falando que fica feliz de saber que não é só conhecida por isso. Eu não te conheci por isso. Você acredita? Eu te conheci pelos textos. Depois eu te conheci pela…

 

Suzane: Né legal?!

 

Dan: Com a treta do Youtube, e depois que me falaram isso, como se fosse uma consequência de te conhecer, que fui conhecer essa situação. E isso deve ser muito legal, eu acredito que  pra você seja uma vitória…

 

Sidney: Eu também não sabia, não, Suzane. Quem me contou foi Danilo, se não, não teria tido ciência também (Suzane ri).

 

Suzane: Eu acho isso ótimo. No começo, obviamente, não era assim, era um inferno, né. Até a porra da Sonia Abrão, o tempo todo lá, me enchendo o saco. Sabe, pra fazer aquelas matérias que sai sangue, e tal?

 

Sidney: Nossa! Ai, Jesus. Deus me livre.

 

Suzane: É, no começo, foi um inferno. E eu não sei muito bem como é que foi esse processo, né, da gente chegar até aqui, de vocês terem me conhecido por outros modos, e tal. Mas é uma coisa que me alegra muito, entendeu. E é uma coisa que eu gosto de passar pra as pessoas. Que você não precisa, sabe, viver presa ao que aconteceu com a sua tragédia, sabe. Não que isso não possa ser sua luta. Tem que ser sua luta, sabe. Você pode usar isso, isso vai te marcar pra sempre, é óbvio. Mas você é capaz de muito mais coisas, entende. Eu sempre falo, um homem não pode condicionar sua existência, nem na hora da felicidade nem na hora da desgraça, entende. E eu acho que isso é uma prova de que isso tá acontecendo. Eu fico muito contente, eu fico toda sorrindo, aqui. Nossa, que legal.

 

(VINHETA: efeitos sonoros de distorção do áudio, uma voz anuncia “Momento Super heroína do dia!”)

 

(FADE IN E FADE OUT DA TRILHA SONORA)

 

Dan: Estamos chegando agora ao final do programa. Tem até que mudar o tom de voz. Estamos chegando ao final do programa, e tem uma pergunta que a gente sempre faz aos nossos convidados, que é a pergunta final.

 

Suzane: Certo.

 

Dan: Que é o seguinte. Suzane, se você… Lembrando que nosso nome do nosso podcast é HQ da Vida, então, é lógico…

 

Suzane: Ah, tá (ela ri).

 

Dan: super heróis. Se você tivesse um super poder, para poder combater todos os tipos de preconceito que fazem parte da sua luta, desde a relação contra o machismo, contra o racismo, contra a homofobia, contra todos esses preconceitos que existem, qual seria o seu super poder?

 

Suzane: Amiga! Nossa! Essa é profunda, hein…

 

Sidney: Sempre…

 

Suzane: Vocês tinham que ter me dado dois dias antes, pra eu pensar (ela ri).

 

Dan: A gente faz uma surpresa.

 

Suzane: Nossa, eu não sei, eu sou uma pessoa muito violenta, rancorosa. Mas deixa eu pensar em algo bonito pra mandar uma boa mensagem pras pessoas, né. (risos) Pra elas acharem que eu sou fofa e estratégica.

 

Sidney: (rindo) Que maravilhosa, Suzane!

 

Suzane: É, então, deixa eu ver… Menino! Nossa! E assim, as pessoas respondem assim, de boa? Sem ficar… (risos)

 

Sidney: Não, geralmente, a gente fica uns minutinhos assim mesmo…

 

Dan: A gente dá uma editada, a gente coloca um tique-taque…

 

Suzane: oi, André, a gente adora você, André. Não fica bravo com a gente! (risos) Deixa eu pensar, eu acho que se eu tivesse um super poder, eu ia gostar de  me multiplicar. Sabe assim? De ter o poder de Me multiplicar, porque… Não que eu acho que eu, pessoalmente, seja a salvação das coisas. Não. Não é essa a questão. É que eu vejo muito que o meu trabalho como educadora, como pesquisadora, as coisas boas, os retornos bons que eu tenho são muito limitados pela minha condição de mãe, mulher, pobre, blá-blá-blá. Então, muitas vezes, eu deixo de ir numa escola onde os alunos tão totalmente a fim de ter um debate legal sobre gênero, sobre raça, porque eu não tenho dinheiro pra condução, porque é uma escola pública, eles obviamente não vão pagar. E aí, assim, não é que eu não queira ir. Eu quero, eu preparo a aula com todo amor. Mas eu também preciso trabalhar, eu também… Entende. E aí, eu vejo que essa é uma tendência não só minha, mas de grande maioria das pessoas que faz esse tipo de trabalho. Porque a gente tem uma dificuldade muito grande de fazer as pessoas entenderem que isso também é trabalho. A gente sempre pega como militância é uma questão pessoal, é não sei o quê… Só que, assim, a gente tá fazendo um trabalho educativo que tem um retorno social, sabe. Isso, 100% dos casos, o retorno é ótimo. Entende, o retorno social é ótimo. Não tem como a gente criar uma sociedade degenerada, conforme diziam os discursos, esse tipo de coisa, com pessoas que se respeitam, sabe, com pessoas que se entendem. Com pessoas que buscam ouvir o outro. Então, assim, se eu pudesse me multiplicar, deixar uma Suzane trabalhando, uma Suzane fazendo a comida do Theo, uma Suzane… entende? Pra ter uma Suzane disponível pra tá nesses espaços, sabe, mostrar que é possível. Porque cada espaço desse que eu vou, não só eu, né, que uma pessoa vai, talvez até que vocês, a gente consegue conquistar pelo menos mais duas pessoas que vão se sentir a vontade pra falar com alguém sobre. Eu acho que isso gera uma corrente extremamente interessante. Eu acho que desde que aconteceu aquilo na USP, que a gente mencionou, depois daquilo, o perfil de mensagens que eu recebo no Facebook hoje é totalmente diferente. O Danilo falou, né, nossa, você recebe muitas mensagens, é difícil entrar em contato, a gente demorou pra marcar. E sim, hoje eu recebo muitas mensagens, mas eu posso dizer que 98% das mensagens que eu recebo são de pessoas trocando informação, são pessoas agradecendo, são pessoas que já viram uma palestra, já viram uma aula, são pessoas dando um relato do tipo, “Olha, Suzane, eu falei disso que você falou pra mim com a minha mãe, e foi incrível”, sabe. Então, sim, eu tenho um retorno muito positivo. Assim como isso faz muito bem pra minha vida individual e faz muito bem pra a vida dessas pessoas que entram em contato, eu acho que, sabe, mais ações como essa fariam bem pra a comunidade como um todo. Eu acho que é isso.

 

Dan: Ai, eu adorei o seu super poder.

 

Sidney: Ai, eu fico besta, Dan, como a gente consegue, aqui, achar as aplicabilidades totalmente ótimas para os super poderes, né. (eles riem alto)

 

Dan: Sim.

 

Suzane: Pois é.

 

Dan: E você falando do seu Inbox, engraçado, você até já compartilhou alguma coisa minha, que eu já compartilhei com você. Eu me senti muito… Mais do que… Como que fala? Alguém televisivo, artístico… (Suzane ri alto).

 

Sidney: Muito prestigiado.

 

Dan: Ela falou, “O Danilo indicou isso para mim”. Eu falei, “Ah, meu deus!”

 

Suzane: (rindo) Ai, que vergonha, Danilo. Não faça isso.

 

Dan: Enfim, eu tentei segurar a tietagem durante todo o programa…

 

Sidney: Não conseguimos.

 

Dan: Não consegui. Não dá.

 

Suzane: (rindo) Ai, gente, morro de vergonha. A filha da Tânia, a mãe do Theo, morre de vergonha quando vocês faz isso. Não to acostumada, mas enfim…

 

Sidney: Suzane, querida, olha só, eu estou extasiado aqui, com este programa. Foi maravilhoso, muito obrigado pela disponibilidade, pela alegria de viv… Pela cremosidade de sua voz e… Olha, foi ótimo (Suzane ri).

 

Suzane: Poxa, eu agradeço.

 

Dan: Vamos dar um… Ah, pera aí. Antes de… Acho que é isso, né… Ela já falou o super poder, ah, tá…

 

Sidney: Dar tchau.

 

Dan: É, dar tchau mesmo, e a gente vai colocar o seu perfil no link da postagem, pras pessoas que quiserem, lá, ver você trocando ideia com a galera…

 

Suzane: Coloca o Medium, coloca lá, pra eles dar palpite, gosto. Sem problema.

 

Sidney: Certo.

 

Dan: E com respeito, viu, pessoal?

 

Suzane: É, por favor. Sou legal, mas não abusa.

 

Sidney: Ai, ai, ai…

 

Dan: O ouvinte do HQ é um ouvinte educado.

 

Sidney: Não me faz passar vergonha, ouvinte, pelo amor de deus (risos).

 

Dan: Bora dar tchau coletivo, galera.

 

Sidney: Tchau, tchau.

 

Dan: Tchau.

 

Suzane: Tchau!

 

(FADE IN E FADE OUT DA TRILHA SONORA)

 

Dan: E aí, Sid, temos um HQ sem Quadrinhos?

 

Sidney: Gente, eu estou até emocionado, porque Suzane mexeu com as minhas estruturas, né, abalou, sacudiu, balançou. E sem falar em menino Theo, né, que é essa criança maravilhosa, melhor criança.

 

Dan: Menino, se você está impressionado com essa moça, imagina eu, que venho acompanhando ela há um certo tempo, meu sonho de consumo. Tentei não ser tiete durante essa reportagem, mas…

 

Sidney: Tentamos.

 

Dan: Essa barra eu não consegui segurar.

 

Sidney: Foi difícil.

 

Dan: Ai, mas enfim. Temos aí uma HQ. E, Sid, qual é a indicação pra hoje?

 

Sidney: Então, menino! Prometi, e voltei, né.

 

Dan: Êba!

 

Sidney: Pra indicar, finalmente. Tem a ver com alguns pontos que a Suzane mencionou aí, durante a nossa conversa, que é o documentário… Bom, o nome tá em inglês, é “A máscara em que você vive”. The Mask You LIve In, é um documentário do Netflix. Esse documentário é interessante por quê? Ele vai falar de como a gente cria as crianças, principalmente os meninos, e desenvolve masculinidades não saudáveis. E como isso é prejudicial pra sociedade como um todo, porque esse machismo e essa visão masculina, né, do que é masculino é muito nociva, muito agressiva, e prejudicial, e corrosiva. Essas masculinidades que a gente desenvolve. E como isso já é incutido nos meninos desde cedo, a rejeitarem o feminino, a rejeitarem a ideia de fragilidade, e como isso repercute, inclusive, no estado mental dos meninos. O documentário é importante pra a gente entender que o machismo, apesar de fazer vítimas as mulheres principalmente, ele também causa seu efeito sobre os homens, principalmente as crianças. E é importante, e como a Suzane falou aí, muito de causos que aconteceram com o filho dela na escola, e ele já vem experimentando esse tipo de violência, de não corresponder a um ideal de masculinidade infantil, que existe isso, infelizmente, né, ele já vem sofrendo esse tipo de violência. E essa violência é comum em todo canto. Então, pra você entender melhor como é que o machismo é desenvolvido e como é que ele se estrutura desde criança, com os meninos, o desenvolvimento dessas masculinidades nocivas, vai lá assistir The Mask You LIve In. A máscara em que você vive, lá no Netflix. É um documentário excelente, inclusive pra mim que, né, te contei já essa barra, né, Dan? Eu sou uma pessoa que reconheço que devo perder muito conteúdo, porque eu não tenho paciência para documentários (ele ri). Mas este aí é ótimo.

 

Dan: Então, pessoal, só pra complementar a indicação do Sidney, eu quero já ir pra outra questão, que é uma questão mais racial. Talvez, não. É racial. E também em termos sobre o capitalismo, porque eu to com esse documentário na cabeça, eu assisti, já discuti, já conversei com meus alunos, levei uns alunos meus até pra ouvir palestras da Escola Austríaca como contraponto. Mas enfim. Tem o documentário do Michael Moore, de 2009, chamado “Capitalismo: Uma história de amor”. Mas esse, o Michael Moore é bom, mas bom mesmo é assistir A 13ª Emenda, que está no Netflix também. E para complementar, você vai ter que assistir… Ouvir o podcast do Lado (B)lack que também tem eles, sobre isso, o podcast Lado (B)lack é com a Luiza  Braga, e os meninos… (ele ri, nervoso) Não vou citar os meninos, eu sempre esqueço… Porque ela é dona da porra toda.

 

Sidney: Tem o Rafael Chino…

 

Dan: Chino! Tem o Chino!

 

Sidney: Maravilhoso também. E tem o Ivan…

 

Dan: (rindo) É porque eu sempre lembro da Luiza. Mas enfim. Curtam lá também, o Lado (B)lack, que é um ótimo podcast, fica essa recomendação pra a gente poder fazer esses recortes aí, sobre tudo que a gente foi dizendo nesse programa com a Suzane. É isso aí. Então, fica aí, até uma próxima.

 

Sidney: Não, menino! Tem as redes sociais! Calma!

 

Dan: Ui, é mesmo!

 

Sidney: Vamos lá, não vou esquecer nenhuma agora.

 

Dan: como vocês nos acham? E como vocês… Como é que é, nos manda feedback?

 

Sidney: Feedback, Vamos lá. Você quer enviar sua bronca, né, sua barra de vida, sua crítica, seu elogio, envia para hqdavida@gmail.com; é o nosso email. Você encontra a gente, pra nos seguir, lá no Facebook, a gente tem a página, facebook.com/hqdavida; temos o nosso Twitter, que é @hqdavida; a gente também está no Youtube, não vou esquecer, Dan, que você procura lá por “HQ da Vida Podcast”. Não esqueça que a gente está sempre no Sound Cloud, que é soundcloud.com/hqdavida; Não esquece de avaliar a gente lá no iTunes, nos dar 5 estrelinhas, se você não quiser dar 5, mas deixar uma resenha lá, pra a gente ler, né, deixar a sua opinião, a gente agradece também. E sempre lembrando que as transcrições dos nossos episódios sempre saem, são publicadas no nosso Medium, que você nos encontra lá no @hqdavida; no Medium também. Esqueci alguma coisa, Dan?

 

Dan: Eu acho que não, gente. Não esqueça de dar 5 estrelinhas no iTunes, que se você der menos de 5 estrelinhas, eu só posso dizer que isso é muito Black Mirror. (risos)

 

Sidney: Ai, gente…

 

Dan: Enfim, pessoal, fica aí, até o próximo programa. Beijo.

 

Sidney: Xero, gente! Até o próximo.

 

(FADE IN E FADE OUT DE TRILHA SONORA)

 

FIM

 

Transcrito por Sidney Andrade.

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