4 horas
40 porções
Médio
0 kcal
Ingredientes
- 750g de farinha de trigo (aproximadamente, pode variar)
- 10g de fermento biológico seco (1 pacote)
- 350ml de leite integral morno
- 5 ovos grandes, em temperatura ambiente
- 80g de manteiga sem sal, derretida e resfriada
- 50g de açúcar (para a massa)
- 1/2 colher de chá de sal
- Raspas da casca de 1 laranja ou limão (opcional)
- 2 colheres de sopa de aguardente, rum ou conhaque (opcional, para sabor e crocância)
- 1 litro de óleo vegetal para fritar
- 200g de açúcar (para polvilhar)
- 2 colheres de sopa de canela em pó (para polvilhar)
Modo de Preparo
- Em uma tigela pequena, dissolva o fermento biológico em 50ml do leite morno com uma pitada do açúcar da massa. Deixe descansar por 5 a 10 minutos até espumar, indicando que o fermento está ativo.
- Em uma tigela grande, adicione o restante do leite morno, os ovos batidos, a manteiga derretida e resfriada, o açúcar restante, o sal, as raspas de laranja (se usar) e a aguardente (se usar). Misture bem.
- Adicione a mistura de fermento ativado à tigela dos líquidos e incorpore. Gradualmente, adicione a farinha de trigo peneirada, misturando com uma colher de pau ou na batedeira com o gancho de massa. A massa será bem pegajosa.
- Sove a massa por cerca de 10 a 15 minutos, até que fique elástica e homogênea, mesmo que ainda grudenta. Cubra a tigela com plástico filme e um pano de prato, e deixe-a crescer em um local aquecido e sem corrente de ar por 1 a 2 horas, ou até dobrar de tamanho.
- Enquanto a massa cresce, prepare a área de fritura: em um prato fundo, misture o açúcar e a canela para polvilhar. Forre uma assadeira com papel toalha para escorrer as filhoses.
- Aqueça o óleo vegetal em uma panela funda ou frigideira grande a uma temperatura de 170-180°C (340-350°F). É crucial manter a temperatura estável para que as filhoses fritem por igual sem queimar por fora e fiquem cruas por dentro.
- Com as mãos levemente untadas com óleo (a massa é pegajosa), retire pequenas porções da massa (do tamanho de uma noz grande ou bola de golfe). Estique delicadamente cada porção, formando um disco fino com as bordas irregulares ou um formato alongado, como uma folha.
- Deslize as filhoses cuidadosamente no óleo quente, fritando 3 a 4 por vez para não superlotar a panela. Frite por cerca de 2 a 3 minutos de cada lado, virando-as com uma escumadeira ou garfos longos, até ficarem douradas e inchadas.
- Retire as filhoses do óleo com a escumadeira, deixando escorrer o excesso de óleo. Coloque-as imediatamente na mistura de açúcar e canela, virando para cobrir todos os lados. Transfira para a assadeira forrada com papel toalha para que escorram um pouco mais e esfriem ligeiramente.
- Sirva as filhoses ainda quentes para aproveitar sua textura macia por dentro e crocante por fora. Podem ser armazenadas em recipiente hermético por alguns dias, mas são melhores frescas.
Dicas do Chef
- Use óleo nas mãos: A massa de filhoses é naturalmente pegajosa. Untar as mãos com um pouco de óleo vegetal antes de manusear e esticar a massa facilitará muito o processo e evitará que grude.
- Controle a temperatura do óleo: Mantenha o óleo entre 170°C e 180°C (340-350°F) para garantir que as filhoses cozinhem por igual, fiquem douradas por fora e macias por dentro. Se o óleo estiver muito frio, elas ficarão encharcadas; se estiver muito quente, queimarão rapidamente. Use um termômetro de cozinha se possível.
- Não superlote a panela: Frite apenas 3 a 4 filhoses por vez para não baixar a temperatura do óleo e garantir que fritem de maneira uniforme.
- Sirva imediatamente: As filhoses são mais deliciosas quando consumidas quentes, logo após serem fritas e polvilhadas com açúcar e canela. A crocância externa e a maciez interna são incomparáveis.
- Aguardente ou rum: Adicionar um pouco de aguardente ou rum à massa não só confere um toque de sabor, mas também ajuda a deixá-las mais crocantes e evita que absorvam muito óleo durante a fritura.
As Filhoses, com seu aroma inconfundível de fritura e canela, são mais do que um simples doce; são um símbolo da rica herança gastronômica de Portugal e de comunidades lusófonas ao redor do mundo. Este quitute, que se assemelha a um “doughnut” rústico, carrega consigo séculos de história, tradição e, acima de tudo, o calor das reuniões familiares e das celebrações festivas.
A Fascinante Origem das Filhoses
A história das filhoses remonta a tempos antigos, com suas raízes profundamente entrelaçadas na cultura portuguesa. Embora não haja um local de origem específico universalmente aceito, muitos historiadores culinários apontam para as regiões do interior do centro e norte de Portugal como berço deste doce. Acredita-se que sua simplicidade de ingredientes – farinha, ovos, fermento e açúcar – refletia a disponibilidade de produtos básicos nas cozinhas camponesas, que eram transformados em algo especial para ocasiões festivas.
Nas Ilhas dos Açores, a presença das filhoses é ainda mais antiga, datando do século XVI. A localização estratégica do arquipélago, que servia como ponto de passagem para navios vindos da Europa, África e América do Sul, contribuiu para uma fusão cultural que enriqueceu a culinária local. As filhoses açorianas são um exemplo dessa riqueza, com a receita sendo passada de geração em geração, tornando-se uma parte intrínseca da identidade gastronômica das ilhas.
O nome “filhó” tem uma etimologia interessante. Diferente do que muitos podem pensar, não tem relação direta com a palavra “filho” (que significa “filho” em português). Na verdade, “filhó” deriva do latim “foliola”, o plural diminutivo de “folium”, que significa “folha”. Essa conexão com a palavra “folha” sugere a forma original ou a leveza da massa, lembrando uma folha fina.
Tradição e Celebração: O Papel Cultural das Filhoses
Em Portugal, as filhoses são tradicionalmente associadas às festividades de fim de ano, sendo um doce indispensável na mesa de Natal. A sua preparação é, muitas vezes, um evento familiar, onde avós, mães e filhos se reúnem na cozinha para sovar a massa, esticá-la e fritá-la, criando memórias afetivas que perduram por toda a vida. O cheiro adocicado que paira no ar durante a fritura é, para muitos, o verdadeiro aroma do Natal.
Além do Natal, as filhoses também são protagonistas nas celebrações do Carnaval, especialmente nas regiões do Minho, Beiras e Alentejo. Em algumas localidades, como na Ilha Terceira, nos Açores, e em outras comunidades portuguesas, a semana do Carnaval é repleta de apresentações cômicas e farta oferta de doces fritos, sendo as filhoses um dos favoritos. É um período de indulgência antes da Quaresma, e as filhoses, com sua doçura e crocância, encarnam perfeitamente esse espírito festivo.
A versatilidade das filhoses permitiu que elas se adaptassem e ganhassem diferentes roupagens ao longo do tempo e das regiões. No Alentejo, por exemplo, é comum encontrar as “Filhós à Alentejana”, que levam raspas de laranja e aguardente na massa, resultando em uma fritura mais crocante e aromática. As “Filhoses de Abóbora”, também conhecidas como “Sonhos de Abóbora”, incorporam purê de abóbora à massa, conferindo-lhes uma umidade e sabor terroso distintos, e são particularmente populares em algumas áreas durante o outono e inverno.
É importante notar a distinção entre filhoses e “sonhos”. Embora ambos sejam doces fritos e muitas vezes confundidos, as filhoses são feitas com uma massa levedada que cresce antes de ser frita, resultando em uma textura mais substancial e cremosa. Já os sonhos utilizam uma massa mais simples, geralmente com fermento em pó, que incha e fica oca por dentro apenas durante a fritura, daí o nome “sonho” (que significa “sonho” em português), remetendo à sua leveza.
Filhoses Além das Fronteiras: A Influência no Brasil
A tradição das filhoses atravessou o Atlântico com os imigrantes portugueses, encontrando um novo lar e adaptações no Brasil, especialmente na região Nordeste. Aqui, as filhoses mantêm sua essência de massa frita, mas ganham um toque local no acabamento. Em vez de serem polvilhadas com açúcar e canela, as filhoses brasileiras são frequentemente regadas com mel ou, mais tradicionalmente, com “mel de rapadura”, um xarope feito a partir da rapadura (açúcar de cana não refinado). Essa variação oferece um perfil de sabor diferente, mas igualmente delicioso, conectando as culturas através da culinária.
- Um Doce de Partilha: Fazer filhoses é, para muitas famílias, um ato de partilha. A grande quantidade de massa geralmente preparada incentiva a distribuição entre vizinhos, amigos e familiares, reforçando os laços comunitários.
- Perfeição na Imperfeição: A beleza das filhoses reside também na sua forma imperfeita. Esticadas à mão, cada uma tem um formato único, o que as torna ainda mais autênticas e charmosas.
- A Malassada, uma Prima Distante: Nas ilhas dos Açores, especialmente em São Miguel, existe um doce frito muito similar às filhoses, conhecido como Malassada. Embora haja diferenças sutis na receita e no preparo, ambas compartilham a essência da massa levedada frita e açucarada, sendo muitas vezes consideradas “primas” culinárias.
Em suma, as filhoses são um testemunho da riqueza da culinária tradicional portuguesa. Elas representam não apenas um deleite para o paladar, mas também um elo com o passado, um veículo para a celebração e um símbolo de união familiar. Seja na versão clássica com canela e açúcar, com abóbora, laranja ou mel de rapadura, as filhoses continuam a encantar e a preservar um pedaço valioso da cultura lusófona, um doce que é puro conforto e tradição em cada pedaço.









